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O futebol mudou tanto que Vanderlei Luxemburgo hoje lembra José Mourinho

André Rocha

27/10/2019 09h04

Foto: Diego Vara / Reuters

Vanderlei Luxemburgo sempre foi muito observador. No seu auge era um bom "ladrão de ideias", como Pep Guardiola se autointitula. Na segunda metade dos anos 1980, viu no Vasco de Antônio Lopes a movimentação de Roberto Dinamite, recuando e abrindo espaços para as infiltrações em diagonal dos pontas Mauricinho e Romário. Levou para o Palmeiras no início da década seguinte com Evair, fã de Dinamite, trabalhando com os rápidos Edmundo e Edílson.

Quando recuou Rincón para jogar à frente da defesa no Corinthians, em tempos de 4-2-2-2 com dois volantes típicos dando suporte aos zagueiros para que laterais apoiassem e meias criassem, suas inspirações eram Andrade, do Flamengo que, ainda como jogador, viu nascer no final dos anos 1970, e Clodoaldo, tricampeão mundial com a seleção no México. Comandada por Zagallo, grande referência como treinador para Luxemburgo.

Vanderlei também sabia pegar referências contemporâneas. Quando chegou ao Flamengo em 1995 para comandar Romário, pensou em fazer de Sávio um parceiro do então melhor jogador do mundo como foi o búlgaro Hristo Stoichkov no Barcelona: um canhoto que se movimentava em torno do centroavante, caindo pela direita e, cortando para dentro buscando a finalização. Com a contratação de Edmundo, que nem chegou a comandar no time rubro-negro, acabou abandonando a ideia e trabalhou a então joia da Gávea de outra forma até ser demitido depois da perda do Carioca para o Fluminense de Joel Santana e Renato Gaúcho.

Hoje Luxemburgo insiste que o futebol não mudou em nada, apenas nas nomenclaturas. Compreensível. Para alguém que já se classificou como um "cara de vanguarda" é difícil admitir que o tempo passou e inovações de ontem não se aplicam mais hoje. Ou mudaram bastante na execução em rapidez e intensidade.

Mas olhando para o campo é possível dizer que o hoje treinador do Vasco se atualizou na aplicação de alguns conceitos. É claro que nunca vai admitir, até porque marcou território com esse debate passado x presente e criou rusgas e até questões pessoais com quem discorda do seu ponto de vista. Só que Luxemburgo se transformou quase virando do avesso.

Antes a essência era ofensiva. E não precisava de grandes talentos para buscar o ataque. O Bragantino campeão paulista em 1990 estava longe de ser um elenco estelar, mas atacava. O Flamengo no qual deixou a semente do que seria o time campeão estadual e brasileiro em 1991/92 também não era repleto de craques, mas jogava visando o gol adversário. Assim como o Santos de 2007, bicampeão paulista e semifinalista da Libertadores.

Depois da passagem pelo Sport em 2017 e quase um ano e meio desempregado, Luxemburgo voltou diferente. Sabia das dificuldades da equipe cruzmaltina para competir no topo e repetiu o que fizera em outros clubes: jogou a meta lá para baixo. Salvar do rebaixamento e, quem sabe, tentar algo na metade de cima da tabela do Brasileiro.

Em campo, um time que se fecha, não faz questão de ter a bola e baseia seu jogo em forte compactação defensiva, transições rápidas e velocidade para definir as jogadas. Em momentos específicos adianta a marcação para pressionar, mas, uma vez em vantagem, recua as linhas e joga em contragolpes.

É competitivo. Os 51% de aproveitamento desde a estreia do técnico na quinta rodada colocaria o time na sétima colocação, quatro posições acima do atual 11ª lugar. Só foi goleado pelo Flamengo de Jorge Jesus (4 a 1), mas não foi às redes mais que duas vezes em uma partida. Anotou 23 gols, sofreu 22. Foram dez vitórias, sete derrotas e sete empates.

O último, por 1 a 1 com o Ceará em Fortaleza, teve reclamação contra a arbitragem pelo gol de Bergson confirmado depois de Jean Pierre Gonçalves Lima contar com o "auxílio" do árbitro de vídeo. No visual, impedimento claro. Mas há o argumento de que o ângulo da TV não é preciso. Entram, então, as linhas azul e vermelha, tracejada e pontilhada, utilizada pelo VAR que tornam tudo ainda mais confuso e polêmico.

Mas Luxemburgo, que protestou contra o diretor de arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba, não pode lamentar tanto o resultado. Porque o Vasco sentou em cima da vantagem construída no primeiro tempo com belo gol de Rossi, completando precisa inversão de Richard. Depois de ótimo início, pressionando mesmo como visitante. No final, apenas 36% de posse e nove finalizações, três no alvo, contra 15 da equipe de Adilson Batista.

No segundo tempo, o time visitante chegou a se defender com todos os jogadores em um espaço de 30 metros. Rossi em vários momentos recuava como lateral, permitindo que Yago Pikachu marcasse mais por dentro, estreitando a última linha de defesa para guardar a meta de Fernando Miguel. Lembrou o "ônibus" de José Mourinho, estacionado à frente da própria área.

O treinador português que espera voltar logo ao futebol, porém encontra alguma dificuldade para se reinserir no mercado dentro do mais alto nível na Europa. Justamente porque colou em si um rótulo de "retranqueiro" que é difícil tirar. Que o diga Zagallo, que montou o Brasil de 1970 e foi vice em 1998 com uma seleção ofensiva, armou times no país voltados para o ataque, a ponto de inspirar Luxemburgo, mas ficou com a fama de priorizar a defesa por buscar o equilíbrio entre os setores.

O sonho cruzmaltino de buscar o G-6 ficou mais distante depois da empolgação com as três vitórias seguidas sobre Fortaleza, Botafogo e Internacional. Falta um pouco mais de ímpeto ao Vasco que é o sexto ataque menos efetivo da competição. A quarta equipe que menos troca passes e a quinta que menos finaliza no alvo.

Há quem ache o suficiente pelo contexto atual. Mas é pouco se olharmos para a trajetória do técnico cinco vezes campeão brasileiro. E, se nada mudou no futebol, Luxemburgo deveria manter a vocação ofensiva de suas equipes. Ele já provou no passado que atacar é um princípio, não depende de elenco milionário. Afinal, "o medo de perder tira a vontade de ganhar".

A questão é que o jogo não é o mesmo. Por isso Vanderlei Luxemburgo, sem grande repertório ofensivo, se organiza para defender. Porque é mais fácil negar espaço do que criá-los. Dá para aprender olhando, sem desenvolver o conteúdo.

Mas perde o brilho, se torna apenas mais um. No meio da tabela. Poderia "roubar" ideias melhores, mas prefere manter o personagem que no discurso busca a essência do futebol brasileiro e, na prática, arma uma retranca moderna, mas nem tanto. De Zagallo a Mourinho. Na contramão da história.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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