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Flamengo é a prova de que hoje é impossível só desfrutar de um grande time

André Rocha

30/10/2019 06h33

Foto: Sergio Moraes / Reuters

2019 começou com o Flamengo apresentando nova diretoria e, com ela, contratações na esperança de dar fim ao incômodo "cheirinho". Ou a falta de títulos em âmbito nacional depois da conquista da Copa do Brasil de 2013. Repetir a dose no mata-mata nacional ou ser o melhor nos pontos corridos parecia o suficiente em um primeiro ano na mudança de gestão. Mesmo com o alto investimento, o importante era encerrar o jejum.

A Libertadores parecia ainda um sonho distante. Afinal, o time rubro-negro não disputava quartas-de-final desde 2010, semifinal desde 1984 e a única final, com título, foi há 38 anos. O discurso era até ambicioso, mas havia a noção de que o caminho deveria ser longo e o natural seria disputar todo ano, avançar etapas até buscar a conquista continental inédita no atual formato do torneio.

Pois neste final de outubro o que vemos é um Flamengo que lidera o Brasileiro com dez pontos de vantagem e é finalista da Libertadores. O que deveria ser apenas felicidade e otimismo, até pelo ótimo desempenho de uma equipe que encontrou encaixe rápido com o treinador Jorge Jesus, se transforma em um clima de ansiedade sufocante. Especialmente na torcida e na mídia.

Porque agora a missão deixa de ser apenas acabar com a seca de títulos e vira "fazer história". Jogaram o sarrafo no topo e, não mais que de repente, ganhar a principal competição nacional só não será "decepção" se bater o recorde de aproveitamento na era dos pontos corridos, tiver os três principais artilheiros – Gabriel Barbosa, Bruno Henrique e De Arrascaeta – e a maior antecipação na garantia matemática neste formato com 20 clubes, que é do São Paulo em 2007, com quatro rodadas de antecedência.

E o confronto com o River Plate de Marcelo Gallardo, principal equipe sul-americana dos últimos anos e atual campeão, se transformou em um mero protocolo para poder ter a chancela do maior título do continente e ser comparado com grandes times do passado, inclusive o Flamengo da Era Zico. E tome matéria fazendo comparações individuais entre jogadores e equipes de épocas diferentes. E é o "time do século" no Brasil ou não?

Calma! Será que não é possível apenas…desfrutar, como Bruno Henrique disse que Jorge Jesus costuma pedir aos jogadores. Curtir jogo a jogo e desejar que seja eterno enquanto dure. Porque o futebol é dinâmico e o time carioca pode ter uma queda de produção, o Palmeiras, que é o atual campeão, evoluir e a disputa polarizada pelo título, como foi no ano passado, ficar mais dura e ser adiada para o confronto direto na antepenúltima rodada em São Paulo.

Parece improvável, mas e se acontecer? Se o Fla for o campeão na última rodada com menos pontos que os 81 do Corinthians de 2015, outro recorde, será frustrante? E se não ganhar a Libertadores o timaço de hoje se transformará automaticamente em "não era isso tudo"?

A ansiedade dos nossos tempos de hiperestímulos constantes para nos tirar da distração das redes sociais e das múltiplas opções de entretenimento é avassaladora. Assusta! É obrigatório ter uma bomba a cada minuto, uma enquete a cada segundo e projeções, comparações…

Até uma possibilidade aventada com todo cuidado e as devidas ressalvas pelo nosso Mauro Cezar Pereira, do Flamengo contratar para 2020 um jogador com o perfil de Edinson Cavani, já foi tratada como quase certeza da vinda do uruguaio. Questionando inclusive se ele poderia atuar com o Gabriel, cujo contrato termina em dezembro e o clube terá que desembolsar uma fortuna para tirá-lo da Internazionale.

É mesmo necessário isso tudo? O Flamengo não pode ser analisado apenas pelo que realizou até aqui? Nas pesquisas de arquivo em 2011 para o livro "1981" que este blogueiro escreveu com Mauro Beting para a Maquinária Editora, o time de Zico só foi colocado ao lado de outras equipes históricas como o Santos de Pelé, o Ajax de Cruyff e o Honved de Puskas na coluna de João Saldanha no "Jornal dos Sports" da segunda-feira depois de atropelar o Liverpool em Tóquio.

Antes os textos abordavam os desafios na Libertadores e no Carioca, apontavam defeitos e virtudes. Sim, era uma época de menos informação circulando em tempo real. Talvez por isso tivesse os pés fincados na realidade. Sem devaneios e, principalmente, a pressa para rotular.

Novembro está chegando e com ele a definição do destino de um time que hoje vence e em muitos momentos encanta as retinas. Serão seis jogos pelo Brasileiro e a final sul-americana em Santiago. Façamos um exercício de serenidade e paciência, a partir do jogo contra o Goiás na quinta-feira. Ver e analisar a partida sem a pretensão de alçar ao Olimpo ou descartar na vala comum.

Porque esta gangorra insana de emoções não faz bem pra ninguém. Nem para o futebol.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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