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Botafogo foi só alma, mas Flamengo mostra maturidade de time vencedor

André Rocha

07/11/2019 23h41

Como esperado, o Botafogo jogou a vida no Estádio Nilton Santos. Não só pelos resultados da rodada que não ajudavam e empurravam o alvinegro para o Z-4, mas obviamente pela rivalidade histórica com o Flamengo. Que virou algo próximo do ódio nos últimos anos depois do "Caso Willian Arão" em 2016.

Aproveitou o estilo de Leandro Vuaden, que não costuma marcar muitas faltas, e partiu para uma disputa mais física. Cometeu sete faltas contra dez do Flamengo, mas quase todas bem duras e algumas maldosas, especialmente sobre Gabriel Barbosa. O plano de Alberto Valentim era pressionar o rubro-negro com a bola sempre e bloquear as infiltrações por dentro. Bola retomada, acionar Luiz Fernando para cima de Renê, novamente escalado no lugar de Filipe Luís, que voltou a sentir o joelho esquerdo.

O líder do Brasileiro notou a intensidade do rival e o clima no estádio e preferiu administrar no início, circulando a bola com calma e cuidando da última linha defensiva. Alternava Rafinha e Everton Ribeiro pela direita – um por dentro, outro aberto. O mesmo à esquerda com Renê e Vitinho ou Bruno Henrique. Gabriel Barbosa rodava procurando o espaço para finalizar. Na transição ofensiva, momentos de pressão para retomar, mas muitas faltinhas para evitar os contragolpes de um adversário corajoso.

Muita tensão, pancadas, provocações e pouco futebol jogado nos primeiros 45 minutos. Diego Alves e Pablo Marí evitaram as melhores chances do Bota. Flamengo acertou o travessão em cabeçada estranha de Bruno Henrique e Gabriel arriscou chute de fora que passou perto. No intervalo, Everton Ribeiro reclamou mais da insistência dos companheiros em se jogarem do que das entradas duras dos alvinegros.

O Flamengo voltou para a segunda etapa mais organizado e intenso. Já era superior quando Luiz Fernando fez o combo de bobagens que começou a definir o clássico: entregou a bola no pé de Gabriel, o do Flamengo, armando o contragolpe e depois puxou Bruno Henrique. Já tinha amarelo, nem havia o que discutir. Saiu de campo chorando e foi consolado por Valentim, que não teve escolha: armou um 4-4-1 bem fechado e temperado com entrega e concentração absolutas.

Só que boa parte do fôlego já tinha ido embora em um primeiro tempo de intensidade máxima. A missão com dez era hercúlea e Valentim trocou Alex Santana pelo volante Jean. Mas pareceu possível porque voltou a faltar qualidade no último passe do Fla. O time circulava a bola, mas para furar o bloqueio era obrigatório ser criativo e/ou preciso. Quase foi cirúrgico na bola parada de Arão para Rodrigo Caio e deste para o companheiro de zaga, mas Gatito Fernández salvou. Gabriel e Everton Ribeiro também tentaram, porém os rivais se atiravam na bola para impedir a finalização limpa.

Enquanto o Botafogo tentava gastar o tempo e Joel Carli provocar adversários para igualar as equipes numericamente com uma possível expulsão do outro lado, Jorge Jesus mexeu no Flamengo para se instalar de vez no campo de ataque. E de forma surpreendente, mandando a campo os jovens Lucas Silva e Lincoln nas vagas de Gerson e Vitinho, deixando atletas mais experientes e renomados como Diego Ribas e Berrío no banco.

Rafinha e Renê atacavam por dentro apoiando Arão e Everton Ribeiro, que passou a atuar mais recuado para articular. Lucas Silva e Bruno Henrique abriam o campo, Gabriel circulava e Lincoln esperava na área do Botafogo. Era questão de acertar passe e conclusão. O tempo passava, mas não batia o desespero. Considerando o controle quase absoluto da posse de bola, que terminou em 67%, e a retranca do oponente, 16 cruzamentos nem foi um número tão alto.

A paciência foi recompensada no passe de Everton Ribeiro que encontrou Bruno Henrique pela esquerda e deste saiu a assistência para Lincoln definir um triunfo suado, mas com maturidade de time vencedor. O Botafogo foi pura alma e a torcida deu uma comovente prova de devoção, apesar da selvageria dos animais de sempre no estádio. Mas não basta e o time entrou na zona da tabela que tanto temia. Vai precisa de mais do que garra para se manter na Série A.

O Flamengo voltou a sofrer, mas tudo parece conspirar a favor. Também porque o time ajuda, mesmo quando não joga tão bem. Agora são 22 partidas de invencibilidade na temporada, 18 no Brasileiro – maior série do time na história da competição, superando o time de Zico em 1980. Oito pontos de vantagem no topo da tabela para administrar nas sete rodadas que faltam.

Ainda a chance de "vingar" contra o Bahia no Maracanã a última derrota na temporada. Nem precisa devolver os 3 a 0 do turno em Salvador. Porque a conta do líder e virtual campeão nacional é somar três pontos e eliminar uma rodada. Deu certo novamente em Engenho de Dentro.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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