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Quem dera Fernando Diniz fosse "guardiolista"...

André Rocha

13/11/2019 06h40

Foto: Assessoria de Imprensa / Fernando Diniz

Bastaram duas derrotas do São Paulo, contra Fluminense e Athletico, para Fernando Diniz voltar a ser alvo das críticas de sempre: muita posse de bola, pouca efetividade, fragilidade defensiva…"Muita teoria, pouco resultado".

Uma crítica que até tem fundamento, já que o aproveitamento de Diniz nos três clubes citados acima, justamente os que comandou na Série A, comprovam que sua proposta de jogo não entrega os resultados esperados. Ainda que os números tenham melhorado: no Athletico e no Fluminense ganhou 26% dos pontos, no Tricolor do Morumbi chegou a 51.5%  – cinco vitórias, dois empates, quatro derrotas. Mesmo assim insuficiente para as expectativas criadas em relação ao elenco que ganhou Juanfran e Daniel Alves.

O problema é o conteúdo dessas ressalvas ao trabalho do treinador. Principalmente a comparação no estilo com Pep Guardiola. Apesar da visita ao treinador catalão quando Diniz esteve na Europa e apontar algumas semelhanças que  vê nas ideias de jogo, ele nunca citou diretamente como influência. Sempre falou em resgate da essência do futebol brasileiro, o lado lúdico dos jogadores.

Quando chegou ao São Paulo lembrou Telê Santana, mas em entrevista ao nosso Bolívia, no Youtube, falou em Diego Simeone como referência. Nada, ou bem pouco a ver com que suas equipes apresentam. Muito provavelmente pela cultura muito enraizada no futebol brasileiro, que analisa tudo a partir das individualidades, de que o grande treinador é o que consegue formar um grande time, ou ao menos um muito competitivo, sem grandes orçamentos. Como se o Atlético de Madrid fosse um pobre diabo na Europa…

As velhas máximas "treinador bom é o que não atrapalha", "com craques é só distribuir as camisas" e "quero ver o Guardiola ser campeão da Série B no Brasil" que não têm nenhuma conexão com a realidade atual. Como se um grande chef fosse obrigado a fazer um prato sofisticado e saboroso em uma cozinha mambembe, sem recursos e um mínimo de higiene.

Diniz parece um tanto confuso entre suas convicções e o que necessita entregar em termos de resultado. Estreou se fechando contra o Flamengo e garantindo o empate sem gols que tornou o São Paulo a única equipe do campeonato a não ser derrotada pelo líder absoluto e virtual campeão brasileiro – no turno, 1 a 1 contra os reservas rubro-negros, ainda comandados por Abel Braga.

Depois deu a impressão de que tentaria combinar a solidez defensiva demonstrada com Cuca com mais posse e qualidade no ataque. Mas seu trabalho parece seguir o curso dos anteriores: com o tempo as ideias se estagnam, sem maiores variações. O método não consegue entregar a evolução de desempenho e também fica a impressão de que com o desgaste dos revezes a gestão do vestiário se perde.

Para complicar, o São Paulo segue em seu "limbo" no futebol brasileiro. Nem redenção, nem fundo do poço. É um clube morno, mesmo afundado em seguidas crises políticas. Não chega ao topo, nem enfrenta uma crise institucional séria – como um rebaixamento, por exemplo – para unir todos em torno do clube e virar as costas de vez para o passado, criando uma versão moderna e vencedora de um dos clubes brasileiros com mais conquistas nacionais e internacionais.

Diniz sofre sem resultados e para muita gente a "culpa" é de Guardiola. Agora então com o City em momento menos brilhante e vendo o Liverpool disparar na Premier League… O equívoco maior é associar o técnico do time azul de Manchester a um "tiki-taka" que ficou para trás no Barcelona. O próprio criador do melhor time que este que escreve viu jogar diz que aquele modelo já foi atualizado. Quem viu o Bayern de Munique e agora assiste aos jogos do time inglês sob o comando de Pep nota em cinco minutos se olhar com atenção.

Guardiola muitas vezes sofre críticas por trabalhos influenciados pelo seu estilo. Como a Espanha bicampeã da Europa e vencedora no Mundial de 2010, na África do Sul. Seleção comandada por Vicente Del Bosque com base do Barcelona e proposta diferente da equipe comandada por Luis Aragonés. Uma posse mais defensiva de quem sabia não ter em Villa e Fernando Torres os artilheiros de dois anos antes e optou ficar com a bola no ritmo de Xavi e Iniesta. Mas com diferenças bem nítidas do time blaugrana, além da ausência de um Messi para desequilibrar.

Talvez os paralelos que se criam entre Diniz e Guardiola sejam fruto de uma visão bastante equivocada sobre as fontes de Pep. Só porque um dia, depois de ver seu Barça enfiar 4 a 0, fora o baile, no Santos em 2011 na final do Mundial, o treinador foi gentil com os jornalistas brasileiros e disse que seu time jogava o que seu avô falava sobre o futebol cinco vezes campeão do mundo, o mito de que ele tem como influência o estilo brasileiro foi criado.

Basta uma breve pesquisa sobre Pep para perceber que, quando ele resolveu viajar para amadurecer suas ideias antes de iniciar a nova carreira, ele não veio ao Brasil. Pode ter conversado muito com Pepe sobre o Santos de Pelé no final da carreira de jogador no Catar e declarar amor pela seleção de 1982, mas no momento em que sentiu necessidade foi expor suas ideias a Marcelo Bielsa, Arrigo Sacchi, César Menotti, Louis Van Gaal, Juan Manuel Lillo e outros treinadores.

Basicamente das escolas holandesa, espanhola e argentina. Nem sinal de Brasil, para desespero dos orgulhosos que acham que tudo ainda gira em torno do nosso "jogo bonito". Na essência, a referência de Guardiola é Johan Cruyff, treinador que moldou seu jogo como atleta no início dos anos 1990. Mesmo paradigma, aliás, de Jorge Jesus, outro que hoje é apontado como o técnico responsável por "resgatar" o futebol brasileiro. Com um modelo tipicamente europeu, mas obviamente adaptado à cultura local e ao que o português chama de "jogar a Flamengo".

Guardiola se diz um "ladrão de ideias". Hoje o City que comanda quer a bola e adianta as linhas, mas entende a necessidade de velocidade nas transições, de um jogo mais direto, principalmente quando recupera a bola no campo de ataque. A decisão da jogada precisa ser imediata. É obrigatório trabalhar com carinho as bolas paradas, de ataque e defesa. O técnico quer vencer e empilha novas influências, inclusive do grande rival Jurgen Klopp.

O alemão também mostra que sabe combinar ideias. Hoje seu Liverpool tem momentos em que valoriza a posse para tirar um pouco a aleatoriedade do jogo de bate e volta na intensidade máxima. Bebe também em Pep. No mundo em que a informação circula ficar parado é pedir para ser atropelado.

Fernando Diniz hoje só parece um treinador no meio do caminho entre o que acredita e o que julga fundamental para prosperar na carreira. No São Paulo não entrega ideias, nem desempenho, muito menos os resultados esperados. Quem dera fosse "guardiolista" mesmo e estivesse contribuindo de fato para a evolução do nosso jogo…

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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