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Por que vitória no Sul é mais simbólica entre Jesus e Renato que os 5 a 0

André Rocha

18/11/2019 06h30

É possível discutir o pênalti de Leo Moura que definiu a vitória do Flamengo em Porto Alegre. Este que escreve não marcaria. Primeiro porque a orientação da CBF é de que o braço não precisa necessariamente estar no solo para ser considerado apoio e não deve ser marcada a infração. Depois porque insisto na ideia de que é absurdo exigir que o atleta se comporte dentro da própria área, para evitar um gol do adversário, como se não tivesse braços.

Obrigatório também considerar a grande contribuição dos três titulares rubro-negros que iniciaram a partida na Arena do Grêmio. Diego Alves passou segurança para os defensores reservas, De Arrascaeta ajudou a fechar espaços pela esquerda e encaixou seu passe diferente no primeiro tempo para Gabriel Barbosa chutar em cima de Paulo Victor.

O artilheiro do campeonato, agora com 22 gols, cobrou o pênalti com frieza e preocupou a zaga gremista – desfalcada de Kannemann, na seleção argentina – enquanto esteve em campo. Mas pagou pela fama ao ser expulso por "aplaudir" Raphael Klaus depois de levar cartão amarelo. Tantas vezes já vimos outros jogadores fazerem o mesmo e não receberem o vermelho. Que o exagero da arbitragem sirva de lição para Gabriel, especialmente pensando na final da Libertadores.

Mas ainda assim a vitória por 1 a 0 que fez o Flamengo abrir 13 pontos sobre o Palmeiras e ter a possibilidade de confirmar matematicamente o título caso o Palmeiras não vença o próprio Grêmio na semana que vem, em São Paulo, carrega um enorme simbolismo.

Porque Jorge Jesus venceu novamente o duelo à parte que o próprio Renato Gaúcho criou nos últimos meses. Com oito reservas de um elenco desequilibrado que deseja qualificar para o ano que vem. Por não entregar desempenho parecido com o dos titulares. Apesar de algumas boas respostas, como a de Lincoln no gol da vitória sobre o Botafogo no Estádio Nilton Santos.

Jesus estreitou a última linha de defesa, com Rodinei seguro no duelo com Everton e Renê mais próximos de Thuler e Rhodolfo. Lucas Silva, depois Everton Ribeiro, voltava pela direita muitas vezes como um lateral. Diego Ribas se sacrificou no meio-campo para ajudar Piris da Motta no bloqueio e também articular as ações ofensivas. Reinier foi novamente o centroavante, a referência física na frente tentando reter a bola para a chegada dos companheiros.

Uma equipe naturalmente desentrosada, mas essencialmente organizada para negar espaços aos gremistas visivelmente tensos pela responsabilidade de "vingar" os 5 a 0 da Libertadores. Faltou a mobilidade do quarteto ofensivo que vinha marcando a dinâmica de ataque nos últimos jogos. Tardelli e Luciano por dentro, Alisson e Cebolinha nas pontas com o suporte de Maicon criaram muito pouco. No final, com André e Filipe Vizeu na área, despejou cruzamentos (36 no total) para compensar a falta de criatividade. É claro que Matheus Henrique, à serviço da seleção olímpica, fez falta.

Mesmo com um homem a menos, o Flamengo controlou o jogo. Negou a chance cristalina ao rival, mesmo com alguns erros naturais de posicionamento, especialmente no miolo da defesa. Foram 22 finalizações do tricolor gaúcho, mas apenas sete no alvo. Uma a mais que o Fla, que concluiu nove no total. A eficiência definiu.

Assim como a superioridade de Jesus no repertório contra Renato. A equipe do treinador português venceu se impondo na Libertadores, mas também reagindo no Brasileiro – terminou com apenas 35% de posse de bola. E sem a grande maioria dos titulares milionários que o técnico do Grêmio usou tantas vezes como bengala para justificar os melhores resultados da equipe carioca. Desta vez, com equilíbrio de forças em termos de talento. Mas na tática e na estratégia, Jorge Jesus foi superior novamente.

Só quem não conhece o Portaluppi para imaginar que ele fosse se dar por vencido na coletiva pós-jogo. Mesmo reconhecendo a superioridade do Flamengo, acabou mostrando sua pior faceta como técnico, que já minou seu trabalho tantas vezes: quando a coisa não caminha bem, sutilmente ou não, acaba transferindo a responsabilidade para os jogadores. O velho "eu ganhei, nós empatamos, eles perderam". Exigir contratações para seguir no clube é uma admissão de que o sarrafo subiu, mas também um menosprezo ao elenco que antes ele dizia jogar o melhor futebol do Brasil.

Não joga mais. Ou foi atropelado nos quatro duelos pelo virtual campeão brasileiro. Que chega aos 81 pontos, já a melhor campanha nos pontos corridos com 20 clubes, superando em uma vitória o Corinthians de 2015. Ainda faltando quatro rodadas…

Um símbolo da superioridade do Flamengo, escancarada em Porto Alegre. Difícil também de negar é que o dito melhor treinador brasileiro, hoje o mais cotado em uma futura substituição do comando técnico da seleção, foi devidamente enquadrado por Jorge Jesus. O último ato deste confronto em 2019 não deixa mais dúvida de quem está acima.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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