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Sem ódio, Vasco de Luxemburgo é só isso mesmo

André Rocha

19/11/2019 07h17

Imagem: Reprodução / Premiere

Em uma sociedade com tanta radicalização e redes sociais que perseguem, atacam e destroem reputações todos os dias, é impressionante que um texto que usa sem eufemismos a palavra "ódio" provoque melindres e, obviamente, ainda mais manifestações de ódio. Um retrato da nossa hipocrisia.

Na análise sobre os 4 a 4 entre Flamengo e Vasco, o blog mexeu em um vespeiro que costuma se manter nos papos de bar e nos fóruns e grupos do submundo da internet. Porque uma figura como o finado Eurico Miranda não se fortalece do nada. Muito menos ressurge no século 21 com discurso de acirramento de rivalidade, de não deixar o clube ser atropelado ou ludibriado pelo "inimigo".

Não são poucos os jovens criados na base do Vasco que revelam que eram estimulados a odiar o Flamengo desde cedo. Clássico era um campeonato à parte, não importando muito o desempenho no resto das competições. Uma estratégia antiga de Eurico para marcar território como o maior rival do rubro-negro, superando a mística do Fla-Flu. Um sentimento que contaminou gerações de torcedores.

Tudo isso foi levado para o Maracanã na quarta-feira passada. Aditivado pelo abismo entre as campanhas dos times no Brasileiro, causada pela distância cada vez maior entre as maneiras de administrar clube e departamento de futebol. Não só pela vantagem do time de maior torcida do país nas cotas de TV, mas pela gestão mais responsável e a busca de novas receitas.

Mas clássico sempre equilibra forças. O Vasco de Antonio Lopes e Roberto Dinamite venceu duas das três partidas da decisão estadual de 1981 contra o Flamengo de Zico, posicionada entre a conquista da Libertadores e a ida a Tóquio para atropelar o Liverpool. O time rubro-negro também deu trabalho na fase áurea do Vasco no fim dos anos 1990, assim como os três grandes endureceram tantos jogos contra o Fluminense no período em que este contou com o patrocínio da Unimed.

Vanderlei Luxemburgo teve méritos em explorar os espaços às costas da defesa de Jorge Jesus que atua adiantada e em linha. Uma escolha para manter o time compacto. Com as diagonais de Rossi e as infiltrações de Pikachu, criou muitos problemas para um rival cansado, que não pressionava tanto o adversário com a bola e claramente parecia mais ligado na final da Libertadores depois que abriu o placar com menos de um minuto de jogo.

Mas a busca do empate no final, com time exausto, se deu pela total indignação com mais uma derrota. Depois de perder o Carioca e levar 4 a 1 no turno, o Vasco não admitiu ser superado novamente. Ao menos no confronto direto há a oportunidade de resgatar a grandeza de um clube gigante, porém maltratado por seguidas gestões irresponsáveis. Sim, era ódio. Sem rodeios. E pelo ódio a equipe cruzmaltina arrancou forças sabe-se lá de onde para buscar o empate com o gol de Ribamar.

Poder de reação que não apareceu nas derrotas para Grêmio e o misto de Palmeiras em São Januário. E novamente na Colina Histórica não se fez presente diante do Goiás. Mesmo sem Michael, o grande destaque individual do time esmeraldino que estava suspenso, mas com fibra e entrega para ter um período maior de domínio, carimbar o travessão de Fernando Miguel no primeiro tempo com Rafinha e pressionar durante toda a segunda etapa, depois de sair atrás no placar com o gol de Guarín. Terminou com 52% de posse de bola e 19 finalizações contra dez do time da casa – sete a quatro no alvo.

Com direito a gol mal anulado pelo árbitro Paulo Roberto Alves Junior com o auxílio do VAR. O mesmo que muitos vascaínos dizem beneficiar apenas o Flamengo, parte de uma mania de perseguição que já dura décadas. Fabio Sanches desviou na direção das redes, houve uma disputa normal entre Rafael Moura e Guarín que atrapalhou Fernando Miguel e a bola entrou. Seria o empate do time de Ney Franco.

Mas o placar mais condizente com o que foi a partida só se concretizaria no ataque final. Ou na lambança vascaína que terminou no gol contra de Oswaldo Henríquez. O mesmo que provocou Bruno Henrique durante quase todo clássico da semana passada e que acabou gerando a declaração polêmica do atacante de cabeça quente logo após o apito final. "Estamos em outro patamar", afirmou o vice-artilheiro do Brasileiro. Cinco dias depois isso fica bem claro. Distância bem maior que os 37 pontos na tabela. Ou os 37 gols marcados a mais.

Porque sem ódio, o Vasco de Luxemburgo é só isso mesmo. Muito pouco, mesmo para um elenco não tão talentoso. O Vasco, no papel, é superior ao Goiás sem Michael. No campo, mais uma vez, não comprovou. Escancarando novamente as limitações do trabalho do treinador veterano, alçado à condição de "gigante que despertou", "gênio ressuscitado" há poucos dias. Por um empate sofrendo quatro gols…

O vascaíno não pode se contentar com essas migalhas. Pena que ao se deparar com uma análise que tenta desnudar um complexo de inferioridade escondido que atrapalha quase sempre e às vezes ajuda no clássico, o torcedor só vomite ódio. É o Brasil que adora as meias palavras para mascarar os grandes problemas.

(Estatísticas: Footstats)

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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