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Do quintal ao Olimpo: o que esperar do "meteoro" Flamengo contra o River?

André Rocha

22/11/2019 10h43

Foto: Buda Mendes / Getty Images

A cobrança de Queiroz que bateu no travessão de Diego Alves na decisão por pênaltis no Maracanã, eliminou o Emelec e colocou o Flamengo nas quartas de final da Libertadores é o grande ponto de virada na temporada rubro-negra.

Parece que foi há muito tempo, mas aconteceu no dia 31 de julho. Três semanas depois da estreia de Jorge Jesus no comando técnico. Era apenas a quarta partida de Gerson na equipe, a segunda de Pablo Marí. Filipe Luís poderia nem ter participado do torneio continental caso o time tivesse caído nas oitavas. Só Rafinha, dentre as contratações para o segundo semestre, havia participado dos jogos contra o Athletico pela Copa do Brasil. Traumática eliminação nos pênaltis.

Uma fase de transição complexa, com treinador e jogadores chegando em meio a jogos decisivos. Mas o Flamengo sobreviveu. Passou pela "ressaca" contra o Bahia em Salvador três dias depois, com a estreia precipitada de Filipe Luís, mas ganhou o que precisava: tempo. Para encaixar as contratações e ajustar a equipe.

Semana cheia para trabalhar, jogo para ganhar confiança contra os reservas do Grêmio de Renato Gaúcho. 3 a 1 no Maracanã e mais sete dias de preparação para encarar o Vasco em Brasília. 4 a 1 e já a volta à competição sul-americana para encarar o Internacional. Igualando a melhor campanha nos últimos dez anos – em 2010, o Fla foi eliminado nas quartas pela Universidad de Chile.

Vitória por 2 a 0 com domínio, mas oscilando e definindo com Bruno Henrique na reta final da partida. Depois de Filipe Luís passar a articular por dentro e convencer Jesus de que assim seria mais útil. No fim de semana, a chegada à liderança pela vantagem no saldo de gols sobre o Santos com os 3 a 0 em cima do Ceará em Fortaleza. A bicicleta de Arrascaeta no lance final foi a primeira obra de arte e um sinal de que a confiança chegava para ficar.

Empate em Porto Alegre depois de um grande primeiro tempo, mas que não se refletiu no placar por conta das chances claras desperdiçadas por Gabriel Barbosa. O gol de Rodrigo Lindoso e a pressão do Inter chegaram a apresentar algum risco de nova eliminação, mas a arrancada de Bruno Henrique encontrou o camisa nove para se redimir com o gol da classificação. Na despedida de Cuéllar, já de saída, mas que aceitou como última missão entrar na vaga do suspenso Willian Arão antes de partir para o "mundo árabe".

No fim de semana, o duelo com o Palmeiras de Felipão. Atual campeão brasileiro que nas nove primeiras rodadas antes da pausa para a Copa América havia colocado oito pontos na frente. Saiu zonzo do Maracanã e com o treinador demitido depois dos 3 a 0. A partida em que Jorge Jesus encontrou os onze "de gala".

A reunião das quatro contratações de janeiro – Rodrigo Caio, De Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabriel Barbosa – com as quatro do meio do ano: Rafinha, Pablo Marí, Filipe Luís e Gerson. Mais Diego Alves e Everton Ribeiro, os grandes reforços de 2017. E Willian Arão, transformado em volante mais fixo com Jesus, a custo de muitas orientações e broncas. Como esquecer do "Tá mal, Arão!" no primeiro jogo-treino?

Combinando características, como o lado direito com Rafinha apoiando mais aberto e Everton Ribeiro circulando e procurando o jogo pelo centro, deixando o corredor para o lateral. Do lado oposto, Filipe Luís construindo por dentro e Arrascaeta ou Bruno Henrique buscando o fundo ou as infiltrações em diagonal. Zagueiros e meio-campistas centrais qualificando o passe desde a saída de bola.

Pressão pós-perda sufocante, transição rápida assim que retoma a bola em busca do gol. Defesa em linha e adiantada para compactar setores e colocar o adversário mais longe da própria área. Muita mobilidade do quarteto ofensivo e variações táticas em função do adversário ou do contexto do jogo. Bruno Henrique pode ser ponta ou atacante, de movimentação ou fixo. O mesmo com Gabriel Barbosa, assim como Everton Ribeiro ou De Arrascaeta pode armar por dentro. Em um 4-2-3-1, 4-3-3, 4-1-4-1…

Assim construiu uma invencibilidade de 25 partidas. 21 no Brasileiro, quatro na Libertadores. Incluindo as contra o Grêmio na semifinal. Primeiro tempo com autoridade, porém sem gols em Porto Alegre. Segundo tempo arrasador no Rio de Janeiro para construir os 6 a 1 inquestionáveis no agregado e chegar à decisão da Libertadores depois de 38 anos. Eram 34 sem disputar a fase semifinal.

Um feito histórico e muito acima do projetado pela nova diretoria. Ainda mais com a troca de comando técnico no meio do ano. Com um profissional estrangeiro trabalhando com elenco reformulado. Mantendo a meta de janeiro: uma conquista nacional e boa campanha na competição sul-americana. Mas compreendendo se o segundo semestre de 2019 se transformasse em um grande laboratório para o ano seguinte.

Era mesmo difícil imaginar um rápido e amplo domínio no futebol brasileiro. Transformando os jogos da equipe no Maracanã sempre cheio no grande evento do Rio de Janeiro. Abrindo treze pontos na liderança, com um jogo a mais, e podendo comemorar o título nos pontos corridos com quatro rodadas de antecedência caso o Palmeiras seja derrotado pelo Grêmio no domingo em São Paulo. Melhor ataque com  73 gols, 39 dos dois artilheiros do campeonato: Gabriel com 22, Bruno Henrique com 18. Mais 11 de Arrascaeta.

O país virou um grande quintal para os rubro-negros, tamanha a superioridade imposta sobre os principais concorrentes. Incluindo os adversários da Libertadores, superados também no Brasileiro. O único confronto internacional do Flamengo de Jorge Jesus foi o Emelec, lá em julho.

De repente o salto direto, um voo sem escalas para o Olimpo do continente: a primeira final em jogo único em Lima contra o atual campeão. O River Plate de Marcelo Gallardo, time já histórico pelas conquistas desde 2014. Começando com a Sul-Americana e já com duas Libertadores – 2015 e 2018. A última superando o rival Boca Juniors na grande decisão.

Uma equipe forte, versátil, inteligente, com mentalidade vencedora e experiência em grandes jogos. Segundo o jornalista Diego Borinsky, autor de duas biografias sobre Gallardo, em entrevista para o podcast "Triangulação", que este que escreve participa com os colegas Eugenio Leal e Rodrigo Coutinho, é a melhor versão dos times comandados por "El Muñeco" em cinco anos.

Maturidade, modelo de jogo assimilado. Com Enzo Pérez recuando para ajudar Martínez Quarta e Pinola na saída de bola. Os laterais Montiel e Casco se projetam à frente e abrem o campo. Assim como no Fla, o parceiro pela direita costuma ser um meia canhoto: Ignácio Fernández, o mais talentoso da equipe argentina. Do lado oposto, Casco muitas vezes apoia por dentro, deixando o corredor para De La Cruz buscar o fundo. Segundo o Footstats, o uruguaio, irmão de Carlos Sánchez do Santos, só driblou menos que Everton Cebolinha no torneio.

Palacios, 21 anos, é o meia que ajuda Pérez a fechar o meio quando a equipe se reagrupa em duas linhas de quatro e se transforma em mais um articulador com a bola – mesma função de Gerson no Fla. Na frente, mobilidade e rapidez com Borré e Matías Suárez. Dupla que vai buscar as infiltrações em diagonal às costas da defesa do Flamengo. Entre Rafinha e Rodrigo Caio de um lado, no espaço deixado por Marí e Filipe Luís do outro.

O treino aberto testando a formação com três zagueiros utilizada na primeira partida da última final de Libertadores contra o Boca parece mais um blefe ou algo para utilizar no segundo tempo administrando uma possível vantagem no placar. Paulo Díaz entraria na vaga de Palacios ou De La Cruz. Solução que pode ser interessante para reforçar a defesa contra o poderio ofensivo rubro-negro, sempre elogiado por Gallardo. Também acrescentar estatura para se proteger nas jogadas aéreas, problema na semifinal contra o Boca. Ainda liberaria Montiel e Casco para atacar pelos lados batendo com Rafinha e Filipe Luís e deixando Borré e Suárez no mano contra Rodrigo Caio e Pablo Marí.

Mas também poderia deixar muitos espaços entre as intermediárias para Everton Ribeiro, De Arrascaeta e Gerson trabalharem por dentro. Além de, ao menos na teoria, entregar simbolicamente o controle para o time brasileiro. Improvável para um início de decisão. O River costuma se impor em técnica, tática e estratégia, mas também na força mental.

O grande desafio e também a grande incógnita em relação ao Flamengo. Como disse Filipe Luís na zona mista após o treino de quinta-feira em Lima, "será diferente de tudo que já enfrentamos". Totalmente. Porque o Fla por enquanto é um "meteoro" de cinco meses. Ou menos de quatro, se contarmos a partir da construção da invencibilidade. Algo como o Palmeiras de 1996 ou o Santos de 2010, só que no segundo semestre encarando Brasileiro e Libertadores. Um nível acima.

Foi tão bem que consegue chegar à final sul-americana e ninguém consegue apontar como "zebra". O favoritismo do River, que deveria ser tão claro, soa injusto ou inapropriado. Mas o fato é que não há precedentes para tentar vislumbrar o que o time rubro-negro será capaz de entregar em Lima. Como será o amanhã? Ninguém pode responder. Ainda.

As prováveis formações para a final da Libertadores: equipes no 4-4-2 /4-1-3-2, disputando posse e controle do jogo com, pressão pós-perda, proposta ofensiva e muita mobilidade na frente. O duelo mais interessante pode ser entre Gerson e Palacios no meio-campo, atacando e defendendo entre as intermediárias (Tactical Pad).

(Estatísticas: Footstats)

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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