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Se fosse empresa, Cruzeiro já seria insolvente. A torcida vai salvar?

André Rocha

09/12/2019 07h29

Foto: Felipe Correia / Estadão Conteúdo

O Cruzeiro é o primeiro grande clube brasileiro rebaixado sem a proteção da cota de TV que permanecia de Série A no primeiro ano na B. Agora vai despencar: mesmo optando pelo modelo pay-per-view e não o fixo, que é de seis milhões e mais dois milhões de logística, a receita deve girar em torno de 15 milhões de reais.

Só pelos 40% da cota fixa, sem contar resultado esportivo e audiência, o Cruzeiro em 2019 recebeu 22 milhões. E vai ficar sem os 30% relativos à posição na tabela do Brasileiro em 2019, valor que só é pago até o 16º colocado. Algo em torno de 11 milhões de reais.

Considerando que em agosto o presidente Wagner Pires de Sá adiantou 58 milhões de cotas – seriam 70 milhões, mas abriu mão de 12 milhões para receber imediatamente – das cotas de 2022, a situação é mais que dramática. A dívida total do clube mineiro, segundo Zezé Perrella, gira em torno de 700 milhões. E o balanço de 2018 ainda nem foi apreciado pelo conselho deliberativo…

Isso sem contar o elenco caro que deve ser desfeito e, com salários e direitos de imagem atrasados, certamente vai gerar uma explosão de causas trabalhistas e, futuramente, mais dívidas milionárias. Sem credibilidade no mercado para buscar acordos e novos investidores por conta da imagem de mau pagador e péssimo gestor, além da profunda crise política.

Se fosse empresa, o Cruzeiro já seria considerado insolvente e com processo de falência inevitável, liquidando a companhia e pagando aos credores. Culpa de dirigentes que acreditaram em velhas máximas como "elenco caro se paga com titulos", "não quero ser campeão de planilhas e balanços", "futebol se faz com dívidas que ficam para a oposição". A conta chegou e muito alta, praticamente impagável.

E o "praticamente" é só por ser um clube grande de futebol, que normalmente conta com privilégios de federações e poder público para seguir sobrevivendo. Com o descenso, não é absurdo pensar que o processo na FIFA pela dívida com o clube ucraniano Zorya Luhansk na compra de Willian não possa ser revertido, com ajuda da própria CBF. Mas mesmo assim o cenário é desolador. O Cruzeiro já agoniza, um dia depois do rebaixamento. É impossível pensar no que fazer a partir de 1º de janeiro.

Só a torcida é capaz de salvar o clube, mas em uma mobilização inimaginável e sem precedentes no país. Terá forças para isso? Vai confiar futuras contribuições a esses cartolas? Terá paciência para lidar com uma queda brusca na qualidade do time e, consequentemente, nas pretensões a partir do ano que vem?

O futuro é duvidoso e as perspectivas trevosas. O Cruzeiro não caiu, desabou.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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