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Muito além da Juventus: futebol italiano vive melhor momento na década

André Rocha

16/12/2019 07h42

Foto: Sergei Supinsky / AFP

O choro de Gianluigi Buffon em novembro de 2017 com a eliminação da Itália na repescagem para a Copa do Mundo na Rússia era comovente, devastador. Mas também passava uma imagem de terra arrasada no futebol quatro vezes campeão do mundo.

Apesar da Juventus, uma ilha de excelência com estádio próprio, trabalho sério e profissional e time forte, uma verdadeira seleção transnacional. Mas mesmo o domínio absoluto da então hexacampeã, hoje octa, era um sinal de fracasso geral. Também atrapalhou, de certa forma, a "Vecchia Signora" em suas duas tentativas de vencer a Liga dos Campeões. Sem competição em bom nível no país, como duelar com os gigantes Barcelona (2014/15) e Real Madrid (2016/17)? A impressão era de que o teto havia chegado. Consequência também do fundo do poço da Azzurra.

A transformação começou a acontecer com a chegada de Cristiano Ronaldo à Juve para a jornada 2018/19. Pelo simbolismo de contar com um dos dois grandes protagonistas do futebol mundial na década, rivalizando com Messi. Depois com a reconstrução da seleção com Roberto Mancini, tentando tirar proveito do esforço de renovação e de se jogar um futebol mais atual no país, algo eclipsado pela superioridade da Juventus.

2019 vai se encerrando com o melhor momento do futebol italiano na década. O vice-campeonato da Eurocopa em 2012 foi muito mais um espasmo, com a emblemática vitória sobre a Alemanha, que seria campeã mundial dois anos depois no Brasil, construída muito mais com lampejos de Pirlo e Balotelli e na tradição em confrontos com o grande rival europeu do que pela consistência. Tanto que cairia na primeira fase na Copa de 2014.

Agora a liga ganha equilíbrio, apesar da queda do Napoli – sem Carlo Ancelotti, demitido mesmo não perdendo para o dominante Liverpool na fase de grupos da Champions e agora sucedido por Genaro Gattuso, uma escolha para lá de questionável. A Internazionale é que tenta tirar o protagonismo da Juventus, agora comandada por Maurizio Sarri, e disputa ponto a ponto pela liderança do campeonato nacional.

O time de Antonio Conte, Romelu Lukaku e Lautaro Martínez é forte, com capacidade para se tornar mais competitivo a médio/longo prazo. Apesar da decepcionante eliminação na fase de grupos da Liga dos Campeões. Como atenuante, a falta de sorte ao cair com Barcelona e Borussia Dortmund. Sim, o time alemão que teve seu último grande momento no continente em 2013, comandado por Jurgen Klopp, com o vice-campeonato para o rival Bayern de Munique, mas que em 2016/17 superou o Real Madrid e na temporada passada ficou acima do Atlético de Madrid em seus grupos. Os nerazzurri não foram superados por qualquer um.

A Inter vai para a Liga Europa, se juntando à Roma. Ao contrário da surpreendente Atalanta, que conseguiu a segunda vaga no grupo do Manchester City, atropelando fora de casa o Shakhtar Donetsk por 3 a 0 e ultrapassando na última rodada o time ucraniano e o Dinamo Zagreb. Acompanhando Juventus e Napoli no mata-mata. Mais um sintoma da evolução do futebol no país. Sem tanto pragmatismo e dosando a cultura defensiva com mais posse e ocupação do campo de ataque.

Crescimento que se reflete na seleção. Ainda sem uma clara demonstração de força, mas muita esperança por conta da ótima campanha nas eliminatórias da Eurocopa. Nenhum adversário entre as principais forças do continente: Finlândia, Grécia, Bosnia, Armênia e Liechtenstein. Mas não é todo dia que se consegue 100% de aproveitamento em dez jogos, marcando 37 gols e sofrendo apenas quatro.

A equipe de Roberto Mancini tem vocação ofensiva e busca jogar com posse de bola, no ritmo do "regista" Jorginho, brasileiro naturalizado que atua no Chelsea, e de Verratti, que organiza o meio-campo no trabalho entre as intermediárias. Mas também sabe explorar transições rápidas,  com solidez defensiva e acionando na frente jogadores como o jovem Zaniolo, revelação da Roma, e mais Immobile, Insigne e Belotti. Um 4-3-3 que ainda precisa de um grande teste, mas renova esperanças.

Principalmente pelo crescimento do nível geral. Ainda que o gigante Milan derrape na sua tentativa de retomada e a Juventus tenha decepcionado ao cair na última edição da Champions para a sensação Ajax, os sinais são claros. A rodada no meio da semana encerra o ano na Itália que parece respirar novos ares, ao menos no esporte.  Um ensaio de redenção que faz bem ao futebol mundial.

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.