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Com Arteta, Arsenal tenta sair do limbo que, no Brasil, ameaça o São Paulo

André Rocha

30/12/2019 08h47

Foto: Getty Images

Mikel Arteta se aposentou como jogador em 2016 no Arsenal, aos 34 anos, e foi ser auxiliar de Pep Guardiola no Manchester City. Com visão privilegiada de meio-campista e sensibilidade para lidar com os atletas que enfrentava até pouco tempo atrás, era uma "ponte" importante entre treinador e elenco.

Conceitos atuais e liderança que seduziram o Arsenal a apostar no espanhol para suceder Unai Emery no comando técnico. Arteta que foi convidado por Arsène Wenger assim que parou de jogar para comandar a Academia. Desenvolvendo jovens atletas que hoje são a esperança do clube e do novo treinador em um projeto a médio/longo prazo, a julgar pelo contrato de três anos e meio.

O grande obstáculo em sua primeira experiência é justamente a urgência de uma torcida que está cansada de esperar. Porque o clube demorou a entender que era hora de agradecer a Wenger pelos serviços prestados e buscar outros caminhos. Por mais que se defenda trabalhos a longo prazo e se reverencie quem consiga executar um projeto durante décadas, a noção de "timing" é fundamental.

Faltou isso à diretoria dos Gunners. Ou o bilionário Stan Kroenke, "dono" do clube, deu mais importância aos lucros do que aos resultados esportivos. Na prática, a imagem de clube que contrata e trabalha na evolução de jovens atletas que vão vencer em outras agremiações foi consolidada e teve em Cesc Fàbregas seu maior símbolo. Chegou ao clube em 2003, com 16 anos foi o jogador mais jovem a entrar em campo pelo time principal. No entanto, não pôde ser considerado campeão invicto em 2003/04 porque não jogou nenhum minuto pela Premier League.

Saiu em 2011, com apenas uma Copa da Inglaterra (2004/05) e uma Supercopa (2004). Para ganhar quase tudo no Barcelona em três anos, exceto a Liga dos Campeões, e vencer sua primeira Premier League logo em sua volta à Inglaterra, mas pelo Chelsea, grande rival do Arsenal.

Foram anos se satisfazendo com a quarta vaga na Inglaterra para a Champions, campanhas que foram minguando depois do vice-campeonato em 2006 e da chegada às semifinais em 2008/09. Com incrível sequência de sete eliminações nas oitavas, a última de forma humilhante para o Bayern de Munique por 10 a 2 no placar agregado em 2016/17.

Com a ascensão do Tottenham de Mauricio Pochettino e a redenção do Liverpool de Jürgen Klopp se juntando a Manchester City e Chelsea, além das oscilações do Manchester United, não havia mais vaga no principal torneio de clubes do planeta para os Gunners. Precisou que o próprio Wenger, imaginando a possibilidade de demissão, encerrasse o ciclo de 22 anos como manager em abril de 2018. Período que ele mesmo considerou longo demais em entrevista posterior à saída: "Sou uma pessoa que gosta de se mover, mas também gosto de um desafio. Só que eu acabei sendo um prisioneiro dos meus próprios desafios", declarou à rádio francesa "RTL".

Depois do fenômeno "Invincibles" em 2003/04, os títulos vieram apenas na Copa da Inglaterra: 2004/05, 2013/14, 2014/15 e 2016/17. Tornando o clube recordista de conquistas do torneio, com 13. Mesmo número de títulos ingleses, só ficando atrás de Manchester United e Liverpool. Mas apenas três na Era Premier League, desde 1992.

Um clube vencedor, mas que parece ter se enfiado em uma espécie de "limbo". A falta de maiores ambições durante anos, uma sensação de imobilidade conformada. O Arsenal ficou morno, sem enorme crise nem grande conquista. Wenger virou refém de sua própria imagem que ganhou um ar romântico e até quixotesco ao longo do tempo.

Fez mal, porém, à instituição que hoje luta para se reposicionar. Na derrota para o Chelsea no Emirates por 2 a 1, segunda partida de Arteta no comando depois do empate por 1 a 1 na estreia contra o Bournemouth, uma virada improvável dos Blues depois do domínio dos donos da casa, especialmente no primeiro tempo. Gol de Aubameyang, mas falha grotesca de Leno no gol de Jorginho aos 38 minutos e, quatro minutos depois, o golpe final com Abraham. Mais um revés para o algoz na final da última Liga Europa, com goleada por 4 a 1.

Para deixar o time na 12ª colocação no campeonato. A sete pontos da vaga na Liga Europa, a seis da zona de rebaixamento. Um elenco com potencial para ir além, mas que tem em Mesut Özil a imagem mais emblemática: 31 anos, no clube desde 2013. Acomodado, de brilhos esparsos e que desaparece em momentos decisivos. Como se reconstruir desta forma? Só Arteta no comando não basta.

Um buraco que, no Brasil, ameaça o São Paulo. Clube ainda mais vencedor que o Arsenal, pelas grandes conquistas internacionais, mas que segue errante, sem rumo desde o tricampeonato brasileiro em 2008. Depois da Sul-Americana em 2012, um duro período de seca, mesmo no Paulista que já perdeu relevância no cenário nacional.

Turbulência política, a perda da imagem de "Soberano" e também do Morumbi como palco dos grandes jogos dos rivais Corinthians e Palmeiras, o que gerava receitas e prestígio pela imagem de clube organizado. Hoje vive de olhar para o passado buscando algum sinal, uma luz.

Tentou a guinada com a contratação de Daniel Alves, o jogador mais vencedor da história do futebol, com 40 títulos oficiais na carreira. Mas nem o carisma mudou o marasmo, ao menos por enquanto. Os grandes "feitos" na temporada foram a vaga direta na fase de grupos da Libertadores – com a sexta colocação no Brasileiro, aproveitando as vagas deixadas por Flamengo e Athletico – e ter sido o único time a não ser derrotado pelo campeão com recorde de pontos. Muito pouco para um gigante.

Mas parece suficiente para Fernando Diniz, que detecta poucas carências para o elenco. De fato, há qualidade. Falta, porém, uma centelha de protagonista difícil de encontrar depois que se acostuma com papeis secundários. O risco é o hábito de ser coadjuvante empurrar ladeira abaixo, como parece o caminho do Arsenal na Inglaterra. Um triste ocaso para tanta história.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.