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Gabriel Jesus é reserva de Aguero e não tem obrigação de ser "Fenômeno"

André Rocha

05/01/2020 03h50

Foto: Getty Images

O Brasil é cinco vezes campeão do mundo e, no universo das seleções, teve dois períodos de domínio: o primeiro de 1958 a 1970, com três títulos em quatro Copas e protagonismo de Garrincha e Pelé; o segundo de 1994 a 2007, com mais duas conquistas mundiais e cinco jogadores contemplados com as maiores premiações individuais – Romário em 1994, Ronaldo em 1996, 1997 e 2002, Rivaldo em 1999, Ronaldinho Gaúcho em 2004 e 2005 e Kaká em 2007.

A última fase coincidiu com a perda de relevância das Copas do Mundo. A partir de 2008, com a hegemonia de Messi e Cristiano Ronaldo, a Liga dos Campeões ganhou força e o argentino e o português dominaram mesmo sem um título mundial por suas seleções. O Brasil teve Neymar oscilando, três eliminações em quartas de final e os 7 a 1 no Mineirão em 2014.

Olhando para a história do futebol, um ocaso compreensível. Tirando o "espasmo" em 1982, foi mais ou menos o que o aconteceu entre 1970 e 1994. A arrogância brasileira, porém, cobra um protagonismo ininterrupto, como se o escrete canarinho perdesse sempre para si mesmo e ninguém mais jogasse em alto nível no planeta. Uma percepção que muda pouco no senso comum, mesmo com jogos internacionais sendo transmitidos como nunca por aqui.

E toda derrota carrega seu vilão no jeito emocional de analisar o jogo no "país do futebol". Em 2018, além das quedas de Neymar, a falta de gols de Gabriel Jesus, então com 21 anos, foi o grande alvo dos críticos. De fato, o jovem atacante do Manchester City não teve bom desempenho, embora tenha sido útil taticamente em muitos momentos.

Mas a expectativa criada pelos gols na campanha do ouro olímpico, nas eliminatórias e o da vitória no amistoso contra a Alemanha que foi tratado como jogo oficial e uma "revanche" contra os algozes da Copa no Brasil foi exagerada.

Porque Gabriel Jesus não é um extra-classe. E pode construir uma carreira digna, mesmo sem seguir a linhagem de Ronaldo e Romário que Adriano Imperador ensaiou uma continuidade. Na carreira tem 86 gols e 29 assistências em 209 partidas. No City, 58 bolas nas redes adversárias e 19 passes para gols. É comandado por Pep Guardiola desde que chegou a Manchester.

E é reserva de Kun Aguero. Simplesmente o maior artilheiro da história do clube com 245 gols em 357 jogos. Presente nos quatro títulos da Era Premier League, sendo peça decisiva em todos – especialmente no primeiro, temporada 2011/12, a primeira do argentino no clube, definindo o título com o terceiro gol, já nos acréscimos, sobre o Queens Park Rangers. Aos 31 anos é ídolo inquestionável, um símbolo.

Por isso Pep Guardiola o chamou de "insubstituível" e classificou Gabriel Jesus como "um bom reserva". O suficiente para ferir o orgulho brasileiro, ainda mais por exaltar um "hermano". Bobagem, até porque o brasileiro é jovem, tem mostrado evolução e ganha minutos naturalmente nas temporadas. Aguero não dá conta de todos os jogos da temporada, seja por desgaste ou lesões, suspensões… E há tempos esse conceito de titulares e reservas mudou significativamente, com o aumento da intensidade da disputa.

Jesus já marcou oito gols em dezessete aparições na liga, os dois últimos nos 2 a 1 sobre o Everton. Sete vezes saindo do banco de reservas. Na Liga dos Campeões foi às redes quatro vezes, no mesmo número de partidas – uma vez saindo do banco. Aguero tem dez gols na competições por pontos corridos em 15 jogos. Mais dois gols em três partidas pela Champions. Mais um na goleada por 4 a 1 sobre o Port Vale pela Copa da Inglaterra.

Os números podem ser semelhantes na média, mas são atacantes de prateleiras diferentes. Ao menos por enquanto, e no contexto do City. Falta ao brasileiro mais "punch" em jogos grandes, mas vem evoluindo em fundamentos e ficando menos afobado na hora de tomar a decisão perto da meta adversária. Questão de tempo e treino.

Porque ninguém é obrigado a ser "Fenômeno", ou "gênio da grande área". Guardiola conhece bem e sabe como utilizá-lo. Na seleção, Tite tenta encaixar o camisa nove com Roberto Firmino, mas não é tão simples sem a rotina de treinamentos. Parte do processo. Ainda assim, foi peça importante na conquista da Copa América no Brasil ano passado.

E a vida segue, como deve ser. Sem histeria ou fatalismo. O atacante brasileiro não pode viver apenas entre a consagração e o fracasso. Ser gênio ou um lixo. Jesus é bom e deve ficar ainda melhor. O tempo precisa ser aliado, não adversário na nossa pressa de definir uma carreira. Menos mal que Guardiola tem paciência e plena noção do que tem nas mãos. Pensando também no futuro.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.