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Gratidão remunerada a Ralf é um luxo que o Corinthians não pode se dar

André Rocha

08/01/2020 07h08

Foto: Eduardo Carmim / Photo Premium / Agencia O Globo

O Milan de Silvio Berlusconi se orgulhava da gratidão que demonstrava por seus jogadores mais simbólicos e dedicados. Sempre procurava mantê-los até o final de suas carreiras. Paolo Maldini, bandeira do clube, e Alessandro Costacurta, por exemplo, jogaram até os 41 anos com a camisa rossonera.

A prática, louvável sob diversos aspectos, porém, carregava alguns efeitos colaterais. Como a falta de competitividade em vários momentos, especialmente na Série A italiana, disputada por pontos corridos e que gerava um desgaste com os quais alguns atletas não conseguiam mais lidar. Não só por isso, mas também não por acaso, o Milan venceu a Série A em 2004, com grande contribuição da juventude e do vigor de Kaká, e depois só viria a conquistar o scudetto em 2011. Mesmo com a conquista da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes em 2007, o retorno foi pouco para tamanho investimento.

É mesmo difícil fazer a justa medida entre o reconhecimento pelos serviços prestados de um ídolo e o que ele pode entregar no mais alto nível. Sem ficar refém de um nome que muitas vezes não lida bem com a reserva e pode se tornar uma sombra grande demais no vestiário. Ou jogar sempre e acabar manchando um pouco a própria história por não conseguir repetir o desempenho dos tempos áureos.

Anunciar publicamente a saída de Ralf do Corinthians na primeira coletiva de Tiago Nunes como treinador em 2020 foi desnecessário. Embora ele e seus agentes soubessem desde o final do ano passado. Poderia ter sido conduzido de outra forma, mais respeitosa com o volante campeão paulista, brasileiro, sul-americano e mundial de 2010 a 2015 e depois na volta em 2018.

Mas justamente neste hiato, logo depois do título brasileiro de 2015, o jogador deixou o clube, seduzido por uma ótima proposta financeira do futebol chinês – Beijing Guoan. Mesmo tendo renovado o contrato no final daquele ano. Escolha legítima de um profissional.

Assim como é legítimo que Tiago Nunes prefira jogadores mais jovens e com outras características. Ralf, aos 35 anos, é um meio-campista essencialmente marcador e a proposta de jogo do treinador pede outras valências. Embora no Athletico o seu camisa cinco titular na conquista da Copa do Brasil tenha sido o limitado Wellington. Camacho retorna do próprio clube paranaense, assim como Richard volta do Vasco para se juntar a Gabriel, Ramiro e Victor Cantillo, colombiano contratado ao Junior Barranquilla para fazer a função de área a área.

São opções do treinador na montagem de uma equipe. É claro que se os resultados não vierem, a lembrança do tratamento dado a Ralf – e também a Jadson, outro campeão de 2015 que partiu para a China logo em seguida e hoje não consegue mais entregar a intensidade necessária em campo – virá à tona. No futebol não há garantias.

Mas quando se contrata um profissional para liderar a comissão técnica e ser a cara dada a tapa para torcida e imprensa é preciso respeitar convicções. Tiago Nunes não tem vínculos afetivos com o Corinthians, só quer dar sequência à carreira vitoriosa no Athletico, mas agora em um clube com visibilidade muito maior. Deseja títulos e, com eles, o reconhecimento.

Para isso não considerou a presença de Ralf necessária, ainda mais em uma folha de pagamento que precisa diminuir por conta das dificuldades financeiras do clube. As mesmas que foram minando as forças do Milan na década passada. Por uma gratidão louvável, mas cuja remuneração sai cara esportivamente. O Corinthians 2020 não pode dar-se a esse luxo.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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