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Flamengo não é assassino, mas a frieza também mata

André Rocha

07/02/2020 01h16

O incêndio no CT do Ninho do Urubu que vitimou dez menores completa um ano no sábado, oito de fevereiro. Sem a identificação, muito menos a punição dos responsáveis, nem acordo com todas as famílias atingidas.

 

O discurso da diretoria do Flamengo até aqui, em boa parte, é correto dentro de uma visão pragmática. Em nenhum momento, pelo que se noticia, o clube deixou de remunerar os familiares e oferecer apoio logístico, médico e psicológico. Inegável que é uma postura mais razoável do que em muitos casos que guardam alguma semelhança.

 

Só que não há contexto igual. Existe um aspecto humano sem par. Eram meninos com sonhos de se tornarem atletas famosos, ou ao menos cidadãos melhores. O pai e a mãe entregavam o amor de suas vidas e, como disse a mãe de Rykelmo, um dos garotos que faleceram, receberam "um caixão lacrado".

 

O Flamengo era responsável pela integridade física deles. Mesmo que a investigação conclua que foi um acidente, o débito não muda. E ao mesmo tempo nada vai pagar as lágrimas de quem ficou com as saudades.

 

Pessoas que quase invariavelmente reclamam da mesma lacuna da direção rubro-negra: a distância, a falta de um contato mais carinhoso. Empático. Compartilhando a dor. Não pode ser só dinheiro.
Os dirigentes alegam que os advogados criam dificuldades para se aproximar dos familiares. Mas será que a abordagem foi calorosa ou apenas visando um consenso financeiro?

 

Será que o tom não foi o mesmo usado para dispensar cinco sobreviventes do incêndio? Difícil entender que avaliação técnica é possível com jovens que passaram por uma experiência tão traumática. Por mais que se tente inserir e reintegrar, a avaliação tem que pesar este fator.  E muito.

 

O que mais doi em qualquer indivíduo com um mínimo de sensibilidade é a distância de sentimento que fica nítida a cada pronunciamento de Rodolfo Landim e dos outros dirigentes envolvidos. Logo no esporte mais apaixonante do planeta, capaz de comover em tantos momentos. Uma visão "empresarial" demais. De "gelo no sangue" quando o que se espera é um coração quente.

 

Um ano de tristeza, vazio. De um olhar para baixo, mesmo discreto, depois de uma temporada das mais vencedoras do futebol rubro-negro. De desespero querendo soluções e transparência e recebendo de volta mensagens cada vez mais dúbias, algumas decepcionantes. Da direção que entende tanto de futebol, mas sabe muito pouco sobre seres humanos. Menos ainda daqueles que não são privilegiados, nem recebem salários de seis dígitos.

 

Ainda assim, o Flamengo não é assassino. Nenhum clube ou instituição pode ser, porque quem atenta contra a vida são as pessoas. Mas a frieza também mata, aos poucos. Será que resistimos todos?

 

O blog ficará em silêncio neste sábado. Por respeito à dor de tantos. Também por não saber mais o que dizer.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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