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História e calendário mostram que é loucura prever hegemonia em fevereiro

André Rocha

17/02/2020 06h50

Foto: Acervo / Jornal do Brasil

Em 1982, o Flamengo campeão estadual, da Libertadores e Mundial no ano anterior "unificou" os títulos ao vencer o Brasileiro, disputado no primeiro semestre.

Mas havia a possibilidade de um ano perfeito para o clube. Ao vencer a Taça Guanabara em setembro, a equipe estava a dois jogos do título  estadual e a seis de nova conquista sul-americana – como campeão, o time de Zico entrava diretamente na fase semifinal.

Bastaram duas derrotas no Maracanã. Uma para o Vasco na final carioca e outra para o Peñarol e o sonho ruiu. A oscilação natural depois de tantas conquistas e a ressaca pela derrota da seleção com Leandro, Júnior e Zico na Copa do Mundo foram o suficiente para o segundo semestre terminar sem taças.

Dez anos depois, o Fla de Leovegildo Júnior também levou vantagem no Brasileiro do primeiro semestre por terminar 1991 campeão estadual e manter a base no ano seguinte. Mas a saída de Zinho para o Palmeiras e a impossibilidade de usar o Maracanã pela tragédia no estádio com torcedores caindo da arquibancada na geral que matou três pessoas inviabilizaram o bi carioca.

Hoje nada importante é decidido no primeiro semestre. Nem a Libertadores que antes premiava equipes embaladas pelo bom desempenho no final do ano anterior, como Vasco em 1998 depois de vencer o Brasileiro de 1997 e o Corinthians em 2012, com o mesmo roteiro.

O próprio Flamengo de 2019 é a prova de que crescer no segundo semestre é mais produtivo. Surpreendeu e atropelou o então favorito Palmeiras de Luiz Felipe Scolari. Em fevereiro, mesmo favorito ao título carioca, ainda era uma incógnita. Ou um time fadado ao "cheirinho".

Por isso é loucura prever qualquer coisa no segundo mês do ano. Ainda que o domínio rubro-negro neste momento seja muito claro. E a impressão é de que aumentou a distância para os demais com a manutenção de Jorge Jesus, da base campeã nacional e sul-americana e ainda reforçando o elenco logo no início do ano, com a possibilidade de trabalhar na pré-temporada com um grupo mais completo – falta a reposição a Rafinha na lateral-direita.

Mas o futebol é dinâmico. E o brasileiro é particularmente sujeito às transformações mais aleatórias. Uma saída de Jorge Jesus no meio do ano, uma crise política que respingue no campo, uma insatisfação com a reserva que rache o elenco, uma sequência de lesões, queda de rendimento por convocações em ano de outra Copa América e também Olimpíada…

Ou o encaixe perfeito de outra equipe brasileira ou sul-americana formando um esquadrão, ainda que de tiro curto. Como antecipar?

Por isso a reserva com análises tão definitivas. O Flamengo pode, sim, entrar março com os títulos da Supercopa do Brasil, da Recopa Sul-americana e vaga garantida na decisão estadual com a conquista da Taça Guanabara.

Mas com a expectativa criada, se algo não der certo nos três últimos meses de 2020 a superioridade de hoje não vai fazer história de fato. Ainda que a equipe de Jorge Jesus já seja memorável, independentemente do que vier a acontecer.

Em tempos ansiosos e de muito imediatismo nas frases de impacto, convém lembrar da história e olhar para o calendário para frear a empolgação. Ainda é cedo para tantas certezas.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.