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Demissões no Galo podem não ser justas, mas eram necessárias. Somos latinos

André Rocha

27/02/2020 13h33

Foto: Bruno Cantini / Atlético-MG

O Brasil não é um país europeu. Por mais que se admire o profissionalismo e a racionalidade para tomar decisões de muitos clubes do Velho Continente, é necessário entender de uma vez por todas a essência da nossa cultura.

Somos latinos, passionais. O entorno interfere demais, assim como questões periféricas, aleatórias. E há os estigmas. Marcas indeléveis que impossibilitam que um ciclo e seus processos sigam adiante. Não adianta no frescor do ar condicionado e com as nossas referências culturais pregar o que se deve fazer no "bafo" do cotidiano dos boleiros no clube. Na pressão diária.

A derrota nos pênaltis para o Afogados do goleiro Wallef, que usa boné até em jogo noturno, é o maior vexame da história do Atlético Mineiro. Por mais que se entenda que o futebol está mais equilibrado e, por isso, o time pernambucano mereça respeito, é inadmissível. Uma mancha irremovível. Piada pronta que deve durar anos, décadas.

E o cenário fica ainda mais vexatório com a eliminação precoce também na Sul-Americana, para o Unión Santa Fé. No final de fevereiro, o Galo só tem o estadual e o Brasileiro para disputar até o final do ano. Não dava para manter Rafael Dudamel no comando técnico.

Muitos dirão que Jorge Sampaoli viveu contexto parecido no ano passado e resistiu no Santos. Verdade. Talvez a grife do treinador argentino tenha pesado, mas o desempenho oscilante do time, quando na alta, justificava a insistência. O Atlético de Dudamel, porém, nunca deu a impressão de que havia uma margem de evolução aceitável.

Muitos problemas na transição defensiva e na criação que fizeram o técnico venezuelano experimentar uma linha de cinco na defesa e "esvaziar" o meio-campo deixando a construção para Allan e Jair, com Guga e Guilherme Arana nas alas. Faltou confiança para encaixar e fluir.

Eis o ponto. São dois meses de trabalho, apenas dez partidas. Quatro vitórias, três empates e três derrotas. 50% de aproveitamento. Os números poderiam sugerir continuidade, até pelo contrato de dois anos e a qualidade do elenco, que não é nenhuma maravilha. Mas ser eliminado pelo Afogados precisa ser o limite. Mesmo em jogo único, nada justifica. E marca.

O vestiário não seria o mesmo. A naturalização de uma vergonha desse tamanho faria mal ao clube. Sem contar a paciência cada vez menor da torcida atleticana com a gestão do futebol. Por isso caem Dudamel e sua comissão, mais o diretor Rui Costa e também o gerente Marques.

O problema dessas transições no futebol brasileiro é que não se sabe muito bem para onde ir. O que fazer depois das mudanças após um vexame? Contrata-se sem convicção e entendimento de processos. No caso, pela empolgação com treinadores estrangeiros, a "moda" da vez. Isso, sim, precisa mudar.

É o ônus das decisões emocionais, no calor de momento. Mas inevitáveis em algumas circunstâncias. O Galo só não podia seguir adiante como se nada tivesse acontecido. As demissões podem não ser justas, dependendo dos critérios da avaliação, mas eram necessárias.

Não adianta criar uma bolha de mundo ideal. A realidade é bem mais complexa e carrega impressões e emoções. Porque somos assim.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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