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Com Sampaoli, Atlético pode ter o melhor "Galo Doido"

André Rocha

03/03/2020 09h26

Foto: Agência Estado

Jorge Sampaoli não aguentou muito tempo longe do futebol. É mesmo difícil ficar sem trabalhar com o que se gosta. Mas não foi só a paixão pelo ofício que levou o treinador argentino ao Atlético.

Depois de inviabilizar convites do próprio time mineiro e do Palmeiras com contrapropostas muito acima e rechaçar outras sondagens, agora o projeto em Belo Horizonte ficou mais interessante para ele. Paradoxalmente quando virou um problema para o clube.

Com eliminações na Sul-Americana e na Copa do Brasil, as possibilidades de receita diminuíram. Mas o que restou pode terminar com saldo positivo: o Campeonato Mineiro com boa possibilidade de título diante da profunda crise do rival Cruzeiro e, a grande prioridade, o Brasileiro. Com elenco reforçado, exigência do novo técnico, e tempo para treinar.

Sampaoli é discípulo de Marcelo Bielsa. Assim como Cuca, o pai do "Galo Doido" campeão sul-americano e que depois foi mantido pelo não menos "louco" Levir Culpi.  Todos defendendo um futebol em intensidade máxima com entrega absoluta. Mas o modelo de jogo do argentino é um pouco mais sofisticado.

Há encaixe e perseguições na transição defensiva, até para aumentar a intensidade na pressão sobre o adversário com a bola, mas sem desorganizar tanto o time. Os setores são mais guardados, com mais trocas na mesma zona do campo para não espalhar os jogadores em função da movimentação do rival.

A transição ofensiva e a construção desde a defesa não apelam tanto para as ligações diretas, como nos tempos de Cuca e Jô na referência do ataque. O alvo normalmente são os ponteiros, em inversões ou passes longos dos defensores. O meio-campo, porém, participa mais do jogo, não só vivendo da segunda bola (rebote) para organizar as ações de ataque.

O time de Cuca definia as jogadas mais rapidamente. Sampaoli aprecia a posse e uma maior elaboração. Mas os ritmos são parecidos. E no Independência o sufoco para os oponentes voltará a ser grande.

Sampaoli pode potencializar jogadores como Guga, Guilherme Arana, Jair, Allan e Hyoran. E dar mais uma sobrevida ao inesgotável Ricardo Oliveira, velho sonho de consumo no centro do ataque. Se houver encaixe com as contratações solicitadas pode dar em time competitivo.

Ser campeão brasileiro hoje não é uma meta palpável. Há elencos de nível superior. Mas a ambição do treinador de duelar com o Flamengo, hoje dominante, é saudável. Até porque o sarrafo do futebol nacional subiu também por causa de Sampaoli.

Em 2013, Cuca se impôs na Libertadores em um cenário menos complexo. O Fluminense, campeão brasileiro do ano anterior, não manteve o nível de atuações e caiu nas quartas. Já o Corinthians viveu a ressaca dos títulos de 2012 e ainda foi prejudicado pela arbitragem desastrosa de Carlos Amarilla contra o Boca Juniors nas oitavas de final. O Galo ainda contou com Victor iluminado nos pênaltis.

Mas o torneio continental por enquanto é projeto para Sampaoli. A meta para 2020 é formar um time forte. O Atlético, com problemas financeiros, garante a "liquidez" para bancar reforços e a cara comissão técnica com patrocinadores e contando com boas premiações. A ambição é válida, mas é preciso ter responsabilidade. Até porque o pior exemplo recente mora do lado azul da cidade.

"Loucura" só no campo. E o intrépido Sampaoli tem tudo para entregar de novo no Brasil um time elétrico e divertido. Um "Galo Doido" repaginado e ainda melhor.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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