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O que tem faltado à seleção brasileira desde 2002?

André Rocha

22/03/2020 10h12

Foto: Arquivo / CBF

"O Brasil não pode estar tantos sem ser campeão mundial". Palavras de Jorge Jesus em entrevista ao canal Fox Sports.

Em 2022 serão vinte anos. Menos que os 28 entre 1930 e 1958 e os 24 que separaram as Copas no México e nos Estados Unidos. Mas, de fato, muito tempo para quem costuma ser competitivo até quando não vive seus melhores momentos.

Pode ser algo natural, como a Alemanha que ficou de 1990 a 2014 sem a conquista, mesmo chegando à decisão em 2002 e sendo semifinalista nas duas Copas seguintes, uma delas em casa. Ou a sinalização de que a Europa está levando para o universo de seleções a superioridade que ostenta entre os clubes. Em técnica, tática e gestão, não bastando mais aos sul-americanos contar com os craques.

Desde 2012, um sul-americano não conquista o Mundial de Clubes. Desde 2002, os europeus vencem os Mundiais. Dois na Europa (Alemanha e Rússia), mas um na África (do Sul) e outro no Brasil. Único país sul-americano vencedor no Velho Continente em 1958 e que sediou o primeiro Mundial na América conquistado por um europeu.

Observando caso a caso, porém, é possível notar que tem faltado "timing" à seleção brasileira. Em 2005, 2009, 2013 e 2017, anos anteriores às Copas, viveu momentos melhores que na "hora da verdade". Objetivamente, a campeã mundial não costuma ser a melhor do ciclo de quatro anos, mas a que sobrevive nas circunstâncias daquele mês de disputa.

O problema é que não há como mensurar isso, muito menos planejar. Pior ainda no Brasil, em que se cobra resultados da seleção até em amistosos. A ponto de Dunga tratar os primeiros jogos de 2014, ainda com o trauma dos 7 a 1, como verdadeiras finais. Muitas vezes deixando as substituições naturais de uma partida que não vale pontos para o final, ganhando tempo e administrando a vitória.

Ou Tite tratando o primeiro confronto contra os alemães depois do "Mineirazo", a menos de três meses do Mundial, como uma final de Copa e também fazendo substituições no final para garantir a vitória por 1 a 0, gol de Gabriel Jesus. Superestimando uma Alemanha já sinalizando uma queda que se concretizaria na Rússia, com eliminação na primeira fase.

O país pentacampeão precisa ganhar sempre. E as eliminatórias sul-americanas acabam sendo tratadas como uma Copa de pontos corridos. Melhores campanhas para as Copas de 2006, 2010 e 2018. O que significaram? Grupos praticamente fechados, um trabalho torto de "manutenção" que tirou os desafios e acomodou os titulares absolutos. Sem contar a chance que dá para os adversários estudarem os padrões para anulá-los.

Em 2018, algo suis generis. Uma mudança na proposta de jogo dentro das necessidades de dois fatos não planejados: a queda de rendimento de Renato Augusto, seguido de problemas físicos, e a dificuldade para furar a linha de cinco na defesa da Inglaterra praticamente reserva no empate sem gols em Wembley.

Era novembro de 2017 e Tite resolveu criar uma nova maneira de atacar, mais posicional. Abriu Willian na ponta direita, colocou Daniel Alves para articular por dentro, centralizou Coutinho e ficou sem um organizador no meio, que era Renato Augusto, além de quebrar a mobilidade que existia com Coutinho vindo da direita para dentro na execução do 4-1-4-1 das eliminatórias.

Não foi isso que decretou a eliminação para a Bélgica, mas as atuações apenas razoáveis na primeira fase e nas oitavas contra o México abalaram a confiança que desmoronou no primeiro tempo do duelo com o gol contra de Fernandinho, substituto do pilar Casemiro, e o segundo de Kevin De Bruyne. A reação na segunda etapa com bombardeio contra a meta de um inspirado Courtois não foi suficiente para a virada.

De 2005 a 2013, outro fator que aumentou a impressão de que estava tudo certo e bastava esperar 12 meses, sem evolução, apenas para confirmar o hexa: a Copa das Confederações. Ou das ilusões.

Em 2005, uma Argentina desfalcada e exausta. Em 2009, a favorita Espanha tropeçando contra os Estados Unidos na semifinal e, quatro anos depois, a mesma Roja caminhando para um fim de ciclo e sem levar o torneio muito a sério tomando um 3 a 0 no Maracanã que criou o delírio coletivo de "O campeão voltou!"

O exemplo de 2002 também não é o melhor. Troca de comando técnico um ano antes, crise na eliminação para Honduras na Copa América e classificação sofrida na última rodada das eliminatórias. O acaso acabou protegendo bastante o Brasil na trajetória até o título na Ásia.

Primeiro a gratidão de Luiz Felipe Scolari acima da convicção. Aliviado por não ser o primeiro treinador a deixar o time canarinho fora de um Mundial, o técnico, ainda no vestiário do Castelão depois dos 3 a 0 sobre a Venezuela, prometeu que os onze que entraram em campo estariam na lista final.  Oito entrariam em campo na estreia contra a Turquia.

Três mudanças: Cafu, que entrou na vaga de Beletti, e dois do trio ofensivo – Ronaldinho Gaúcho, que até entrou no decorrer do jogo em São Luis, e Ronaldo Fenômeno, que se recuperava de gravíssimas lesões no joelho direito. O trio de "R's", com Rivaldo, era uma ideia de Felipão antes mesmo de assumir o comando técnico da CBF.

Em Porto Alegre, o treinador vira, sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, o trio destruir a Argentina em 1999 num amistoso que terminou 4 a 2. Bastou posicionar Ronaldinho mais perto dos meio-campistas e Rivaldo próximo de Ronaldo para dar liga de vez.

Encaixe que se deu a partir das quartas contra a Inglaterra. Antes, sofrimento com uma equipe desequilibrada, que perdera o capitão Emerson lesionado na véspera da estreia e posicionou Gilberto Silva mais próximo do trio de zagueiros para dar liberdade aos alas Cafu e Roberto Carlos, o meia Juninho Paulista e o trio de ataque com posicionamento mais fixo: Ronaldinho e Rivaldo nas pontas, Ronaldo de centroavante. A ideia era emular o 3-3-1-3 de Marcelo Bielsa na Argentina.

Com Kleberson mudando o complicado duelo contra a Bélgica nas oitavas, Felipão rearrumou a equipe em um 3-5-2 que mantinha a variação com Edmilson adiantando como volante quando o adversário atuava com apenas um atacante. Mas dando liberdade de vez ao trio que acabou desequilibrando na reta final.

Uma Copa um tanto suis generis, com as favoritas França e Argentina saindo na primeira fase – muito pelo desgaste da temporada europeia que não sacrificou Ronaldo e Rivaldo, vindo de lesões – e arbitragens para lá de suspeitas. A mais escandalosa nas quartas favorecendo a anfitriã Coreia do Sul contra a Espanha. Mas também beneficiando o Brasil, como no pênalti mais que "mandrake" sobre Luizão nos 2 a 1 sobre a Turquia na fase de grupos e o gol anulado de Marc Wilmots para a Bélgica, ainda com zero a zero no placar.

Mas não tira os méritos da conquista. O Brasil foi a melhor seleção naquele mês de junho. Como precisa ser no final de 2022, se houver Mundial no Catar em um cenário de pandemia e eventos esportivos empurrados para frente no mundo todo.

A questão é como construir uma trajetória de evolução constante até a Copa. Como fizeram, por exemplo, Espanha e Alemanha. A Roja em um ciclo que duraria até a Euro de 2012, os alemães persistindo com o trabalho de Joachim Low mesmo sem conquistas durante todo o período.

Tite terá tempo para refletir. Não se sabe como será o futebol depois da pandemia. A pausa, inclusive, não foi tão boa para a estrela maior, Neymar, de novo em alta com a classificação do PSG para as quartas da Liga dos Campeões.

A missão será inglória em qualquer cenário. Para encerrar o jejum que não é tão inaceitável como Jorge Jesus enxerga. Mas é claro que incomoda.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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