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Atacante brasileiro mais subestimado não é Careca, Rivaldo nem Bebeto

André Rocha

27/03/2020 09h16

Foto: Arquivo / CBF

O tema surgiu novamente, até pela pausa no futebol em todo mundo, e vale uma contextualização sem paixões, nem memórias afetivas.

É dever reconhecer que Rivaldo, de fato, é menos reverenciado do que deveria. Importante em duas Copas do Mundo, decisivo em 2002. Craque da Copa América de 1999 também. Talvez não tenha sabido mesmo vender a própria imagem e foi eclipsado por Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho.

Mas quem ganhou Bola de Ouro, justa premiação pelo ano mágico de 1999, não pode ser chamado de "esquecido" ou subestimado. O período foi prolífico de talentos no ataque e Rivaldo tinha uma característica bastante peculiar: era de lampejos e oscilava bastante dentro das próprias partidas. Capaz de sumir do jogo, às vezes prender demais a bola…mas de repente aparecer no estalo do craque.

Em alguns momentos, porém, o lampejo não apareceu e o desempenho caiu vertiginosamente. Como em 1996, nas Olimpíadas de Atlanta. Convocado como um dos acimas de 23 anos ao lado de Aldair e Bebeto, teve atuação trágica na eliminação para a Nigéria. Nada que não tenha sido compensado posteriormente, em clubes e seleção.

O mais subestimado também não é Careca. Longe disso. Idolatrado por são-paulinos e torcedores do Napoli, teve momentos brilhantes, de fato. Campeão brasileiro "precoce" com 19 anos em 1978, craque e artilheiro da principal competição nacional em 1986. Grande parceiro de Maradona em Nápoles. Autor do gol contra o Chile no Maracanã que classificou o Brasil para o Mundial de 1990.

Mas, objetivamente, falhou na seleção quando teve a chance de ser protagonista em Copas do Mundo. Seja fugindo das cobranças de pênalti nas quartas de final contra a França em 1986, sendo o artilheiro brasileiro com cinco gols. Ou quando se esperou demais dele, em 1990, porém foi eliminado nas oitavas pela Argentina – pior classificação brasileira desde 1966 – e perdendo um gol feito no início da partida.

Careca foi camisa nove e referência da seleção de 1986 a 1992. O único título conquistado no período foi a Copa América de 1989, disputada no Brasil. Careca ficou de fora, lesionado. O título veio com gol de Romário na final contra o Uruguai no Maracanã.

Muito bem assessorado por Bebeto, outro que poderia ser mais reconhecido. Craque do torneio continental há 31 anos, fundamental em 1994. O melhor companheiro de ataque de Romário, parceria que nasceu com a prata olímpica em Seul-1988.

Chave do sucesso das duas equipes, por ser um atacante com visão de jogo de armador. Compensava com criatividade os meias que jogavam muito mais como "secretários" dos laterais: Silas e Valdo em 1989, Mazinho e Zinho em 1994. Bebeto recuava e procurava Romário. Ainda marcava gols importantes, como contra os Estados Unidos na Copa do Mundo, e antológicos, como o de voleio sobre a Argentina no Maracanã.

Talvez tenha faltando um pouco mais de personalidade. Difícil imaginar Romário aceitando um tapa do treinador Carlos Alberto Silva em 1987. Bebeto também pagou por uma decisão equivocada no retorno ao Brasil: a volta ao Flamengo em 1996 não conquistou rubro-negros, ainda magoados pela saída para o Vasco em 1989, e ainda revoltou cruzmaltinos, que o alçaram à condição de ídolo e nunca imaginaram que ele pudesse escolher o grande rival. Outro impacto em sua imagem.

O atacante brasileiro mais subestimado da história chama-se Edvaldo. Edvaldo Izídio Neto. Ou Vavá. Ou "Peito de Aço". Ou "Leão da Copa". Pernambucano como Rivaldo, centroavante como Careca, discreto como Bebeto.

Bicampeão mundial em 1958/1962, as duas únicas Copas que disputou. Marcando nove gols, como Jairzinho e Ademir Menezes, só superados por Pelé e Ronaldo Fenômeno. Único da história a marcar em duas finais consecutivas, contra Suécia e Tchecoslováquia.

Cinco gols em 1958. Dois contra a União Soviética que impediram a eliminação na fase de grupos. O que abriu o placar na semifinal contra a França e os dois que decretaram a virada para 2 a 1 que terminaria em 5 a 2 na final. Mais quatro em 1962, sendo um dos seis artilheiros do Mundial no Chile. O mesmo número de bolas nas redes de Garrincha, o craque daquela edição.

Ainda seria campeão por Vasco, Palmeiras e América do México. Teve também sucesso na Europa, critério que os mais jovens utilizam para medir jogadores do passado. No Atlético de Madri, conquistou a Copa do Rei em 1960 e 1961 vencendo o Real Madrid nas duas finais. Ainda foi o artilheiro da então Copa dos Campeões da Europa em 1958/59. Só voltou ao Brasil em 1961 para jogar no Palmeiras para facilitar a convocação para a Copa no ano seguinte.

Morreu em 2002, aos 67 anos, sem o devido reconhecimento. Também frustrado por não ter sido treinador do Vasco, paixão desde menino.

Para a "geração internet" é um desconhecido. Na foto que ilustra o post, certamente será o menos reconhecido ao lado de Garrinha, Didi, Pelé e Zagallo. É claro que havia outros protagonistas na seleção bicampeã, mas Vavá foi fundamental. Não só com gols, mas também com movimentação que abria espaços para Pelé, depois Amarildo. Com o ponta "formiguinha" mais recuado, o centroavante caía pela esquerda e deixava o corredor central para o os companheiros infiltrarem. Também por isso colocou Mazzola e Coutinho no banco em duas Copas.

Não era um primor técnico, mas compensava com vigor, inteligência, fibra, boa colocação na área e precisão nas finalizações. Imagine em tempos midiáticos um jogador com seus feitos. Por isso vale a lembrança para fazer justiça a quem de fato merece.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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