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Por que Messi é a evolução de Zico, mas não chega ao nível de Pelé

André Rocha

28/03/2020 08h50

Foto: Getty Images

Ponta-de-lança: função no futebol do meio-campista que joga à frente dos seus companheiros no setor, armando jogadas e se aproximando dos atacantes, fazendo dupla na área adversária com o centroavante. Cria e finaliza. Ora arco, ora flecha.

Era assim que jogavam Pelé, Puskas, Maradona, Bobby Charlton, Tostão, Leivinha, Alex…No futebol brasileiro, Zico foi a grande referência depois de Pelé como este meia que organiza e chega no ataque. Faz gols e serve assistências. Com muita objetividade. "Meu negócio não era fazer graça, não. Era fazer gol". Assim definiu seu estilo o próprio "Galinho de Quintino".

Por isso é até hoje o maior artilheiro da história do Flamengo e do Maracanã. O quinto da seleção brasileira, atrás de Pelé, Ronaldo, Neymar e Romário. A eficiência nas cobranças de faltas e pênaltis ajudou muito a alimentar essas estatísticas.

Em determinado momento da história ficou a impressão de que essa maneira de jogar havia entrado em extinção, com meias jogando mais abertos ou se transformando em atacantes. Ou recuando para pensar o jogo de trás, como o próprio Zico fez em 1989, o último ano dele como profissional, antes de se aventurar como técnico e jogador no futebol japonês.

Até que surge Lionel Messi na segunda metade dos anos 2000. Inicialmente como um rápido ponteiro canhoto partindo do setor direito. Assim contribuiu, aos 19 anos, com o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho campeão espanhol e da Liga dos Campeões da temporada 2005/06. Também conquistou o Mundial sub-20 e o ouro olímpico pela seleção argentina.

Com a chegada de Pep Guardiola e a saída de Ronaldinho, ganhou a camisa dez. Inicialmente mantendo o posicionamento pela direita em um ataque com Samuel Eto'o e Thierry Henry, mas na reta final da temporada 2008/09 sendo puxado para o centro do ataque. Mas não como centroavante, até para não jogar de costas e ser obrigado a disputar fisicamente com os zagueiros tendo apenas 1,70 m.

O futebol de Messi explodiu na função de "falso nove". A mesma executada por Sindelar, Hidegkuti, Di Stéfano, Johan Cruyff, Francesco Totti…Basicamente um ponta-de-lança, mas sem o centroavante na frente. Com liberdade para circular entre a defesa e o meio-campo adversário.

Assim destruiu o Real Madrid nos 6 a 2 dentro do Santiago Bernabéu e desequilibrou a final da Champions contra o Manchester United de Cristiano Ronaldo, marcando o segundo gol nos 2 a 0 em Roma. Na temporada seguinte, com a contratação de Ibrahimovic, Messi jogou como ponta direita, mas suas melhores atuações foram como um típico "dez", atuando atrás do camisa nove.

Em 2010/11, a afirmação definitiva como "falso nove", se entendendo perfeitamente com Xavi e Iniesta e preenchendo por dentro o ataque com os ponteiros Pedro e Villa. De novo decidiu contra os merengues no Bernabéu, mas desta vez pela semifinal da Champions com dois gols. Na decisão, novamente os Red Devils pela frente. Mais um gol e uma taça para o currículo, que ganhou outra liga espanhola e só faltou a Copa do Rei, conquistada pelo Real com gol de Cristiano Ronaldo, para fechar novamente a tríplice coroa.

O auge de Zico no Flamengo foi em 1981/1982. Campeão e artilheiro da Libertadores e do Brasileiro, melhor jogador do Mundial de Clubes contra o Liverpool em Tóquio. Jogando em função muito parecida com a do "falso nove". Porque Nunes era um centroavante bastante móvel, que procurava os lados do campo tanto para abrir espaços como infiltrar em diagonal para finalizar.

Curiosamente, Zico também começou a carreira atuando na ponta direita. E na Copa de 1982 circulou muito por este setor dentro do revezamento que fazia com Falcão, Cerezo e Sócrates para preencher o espaço que não era ocupado pela ponteiro. Ou até foi, em 1979 no final do ciclo com Cláudio Coutinho no comando técnico, antes de Telê Santana assumir. Com dois pontas abertos – Nilton Batata, do Santos, pela direita – e Zico e Sócrates alternando como "falso nove".

Zico e Messi não têm semelhanças apenas nas zonas de campo ocupadas, mas principalmente no estilo. Objetivo, voltados para o gol. Zico era dois centímetros mais alto, porém nunca usou a força física para se impor. O grande segredo era chegar na área, não estar nela. Tirar a referência dos zagueiros adversários.

Este que escreve aprendeu a amar o futebol com Zico. Vendo ele brilhar na seleção brasileira é que escolhi o Flamengo como time de coração. Quando garoto, perguntava para o coleguinha da escola: "quem é o Zico do seu time?"

Por isso o encantamento ao me deparar com o futebol de Messi. Porque ele faz tudo melhor, mais rápido e com menos espaços que o Galinho. Muitas vezes lembrando o jeito de correr e os gestos técnicos. Até a maneira de movimentar os braços na condução da bola e na finalização. Uma espécie de Zico versão 2.0.

Agora com eficiência até nas cobranças de falta. Já são 53 gols na carreira. A coincidência infeliz é a falta de títulos com a seleção principal. Ainda assim, Messi é o maior artilheiro da história da albiceleste com 70 gols.

Nas últimas temporadas, Messi tem feito uma dupla com Luis Suárez. Nas escalações, um trio de ataque. Inicialmente com Neymar, depois Dembelé, Philippe Coutinho. Agora Griezmann. Mas com todos esses jogadores atuando pela esquerda voltando para compor o meio-campo e dar liberdade ao camisa dez, que continua partindo da direita. Mas com liberdade para organizar as jogadas, em vários momentos aparecendo na meia esquerda para acionar Jordi Alba, ainda a grande opção de profundidade do time catalão. Na prática, continua sendo um "dez" que arma e finaliza.

Por ser argentino, o maior jogador e artilheiro da história do Barcelona é comparado com mais frequência a Diego Maradona. Mas os estilos eram bem diferentes, embora ambos sejam parecidos na tendência a sempre levar para o pé canhoto e marcar menos gols de cabeça. Maradona, porém, era mais artístico, lúdico. Em campo circulava mais, procurava as zonas vazias pelos flancos para receber a bola e arrancar driblando.

Messi tem arte nos pés, mas a cabeça dele é voltada para o gol adversário. Como a de Zico. Talvez o brasileiro, mais abnegado e trabalhador, tenha se esforçado para ser mais completo. Chutava com os dois pés com eficiência semelhante e fazia gols também de cabeça.

Messi usou a testa no segundo gol contra o United na final da Champions há 11 anos e o pé direito para tocar por cima de Neuer depois do drible antológico em Boateng na semifinal contra o Bayern de Munique comandado por Guardiola em 2014/15, mas tem perfil mais minimalista, procura aperfeiçoar o que já tem. Consegue mais com um pouco menos. Nesse ponto lembra Romário.

Zico e Messi carregam outra semelhança: precisaram crescer fisicamente e ganhar corpo para enfrentar o futebol profissional. Com ajuda da Ciência, mas principalmente do esforço pessoal para superar adversidades. Sorte de Flamengo e Barcelona que perceberam que havia ali o essencial: talento.

Messi tem procurado nos últimos anos exercer a liderança, não só a técnica e campo. E também tem perfil parecido com o de Zico. Dez e faixa de capitão. Mais discreto, menos espalhafatoso – como era Maradona, por exemplo. No entanto, quando abre a boca cobra forte de companheiros e até dirigentes, como aconteceu recentemente com Abidal.

E Pelé? Para muitos o argentino já está no mesmo nível ou até ultrapassou. Este que escreve vê o "Rei do Futebol", o atleta do Século 20, ainda um nível acima. Pelé era um jogador à frente da sua época. Nas imagens parece alguém dos tempos atuais, em físico, raciocínio rápido e excelência, mas jogando nos anos 1960/1970.

Dominando todos os fundamentos, como Zico. Mas um nível acima, em desempenho e resultados. Pelé, sim, era outro patamar. Messi é chamado de extraterrestre. Se for mesmo é de uma espécie inferior à do tricampeão mundial com a seleção brasileira. Por mais que seja sempre instigante desafiar alguns paradigmas, o impacto de Pelé no futebol ainda é inigualável. Um gênio atemporal.

Ninguém é uma esfinge ou um observador neutro. A conexão entre o garoto encantado pelo futebol de Zico e o jornalista que analisa Messi gera a preferência pelo recordista da premiação individual da FIFA. O melhor que vi em ação desde que acompanho apaixonadamente o esporte há quase quatro décadas. Porque prefiro os pontas-de-lança aos atacantes.

E Messi é o símbolo da evolução da função no século 21. Porque tudo evolui, inclusive o futebol. Melhor assim.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.