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O que há de sorte e competência no trabalho de Jorge Jesus no Flamengo

André Rocha

31/03/2020 09h09

Foto: Lucas Figueiredo / CBF

A bola parou no Brasil, mas o Flamengo e Jorge Jesus não deixam de ser pautas. Nem diminuem as aspas sobre o treinador português e a equipe que comanda.

Roberto Carlos disse que o Palmeiras de 1993/94 "ganharia bem" da atual equipe rubro-negra. Enderson Moreira, novo técnico do Cruzeiro, afirmou que exageram nos elogios a Jesus e até Douglas Costa apareceu para comparar ironicamente o Flamengo ao Real Madrid.

Com a renovação de contrato de Jesus em pauta e especulações sobre o valor de contrato oferecido pelo clube e a pedida do técnico, surgem aqui e ali debates sobre a importância dele em todo o processo. Natural no Brasil, onde ainda impera uma análise que se concentra na capacidade individual dos jogadores, alguém achar que "com craques é fácil". Como se não houvesse casos e mais casos de fracassos de elencos estelares.

No futebol e na vida, qualquer carreira bem sucedida precisa ter o mágico instante em que as circunstâncias permitem que o talento se apresente. O encontro entre sorte e competência.

Por isso o blog mergulha em uma retrospectiva da trajetória de Jorge Jesus no Flamengo para registrar os momentos decisivos em que o contexto ajudou, mas a qualidade do trabalho fez com que a oportunidade fosse aproveitada com sucesso e resultasse no melhor time brasileiro deste século, o primeiro depois do Santos de Pelé a conquistar Brasileiro e Libertadores no mesmo ano.

Sorte: a pausa para a Copa América permitiu que o português tivesse um período apenas de treinamentos. Entre o dia 20 de junho, quando começou a trabalhar com o elenco, e dez de julho, a estreia contra o Athletico na Arena da Baixada pela Copa do Brasil, o treinador pôde analisar o grupo de jogadores, detectar carências e trabalhar o modelo de jogo.  Caso fosse contratado com as competições em andamento poderia ter mais dificuldades.

Competência: com nove dias de trabalho, o jogo-treino contra o Madureira na Gávea já mostrou mudanças sensíveis na intensidade e na organização da equipe, já adiantando a última linha de defesa,  pressionando após a perda da bola e atacando com mais jogadores. Ciente de que o presidente do clube, Rodolfo Landim, tratava pessoalmente da contratação de Filipe Luís, Jesus pediu um meio-campista e um zagueiro e a diretoria se mobilizou atrás de Gerson e Pablo Marí.

Sorte: os jogadores que viriam a ser decisivos na campanha vencedora já estavam no clube. E Gabriel Barbosa e De Arrascaeta foram contratações bancadas pelo vice Marcos Braz, mesmo sem a total aprovação de Abel Braga, antecessor de Jorge Jesus. As quatro contratações para 2020, incluindo Rodrigo Caio e Bruno Henrique, já se mostravam certeiras mesmo com a desorganização coletiva.

E por mais que soe cruel, é inegável que a saída de Diego Ribas por lesão colaborou para o treinador encontrar a formação ideal. Ninguém pode comemorar uma fratura no tornozelo (esquerdo), mas sem o camisa dez a circulação de bola ficou mais rápida e as responsabilidades mais divididas na organização do meio-campo.

Competência: com as entradas de Rafinha, Filipe Luís, Pablo Marí e Gerson e a permanência de Diego Alves, Cuéllar (depois Willian Arão) e Everton Ribeiro, Jesus encontrou a equipe titular combinando as características dos jogadores quase à perfeição. A grande chave para o encaixe rápido da equipe.

Rafinha é um lateral mais intenso, de chegada à linha de fundo, e Filipe Luís mais construtor, capaz de trabalhar por dentro; Rodrigo Caio é um zagueiro técnico e rápido, Pablo Marí mais alto e com bom passe; Cuéllar, depois Arão, atua mais na proteção da retaguarda e ajudando na saída de bola e Gerson, como um meia mais recuado e centralizado no 4-1-3-2, organiza as ações de ataque e se junta ao quarteto ofensivo; Everton Ribeiro é um meia articulador, mais próximo de Gerson, e De Arrascaeta o mais agressivo, se juntando à dupla de ataque; Gabriel Barbosa e Bruno Henrique são rápidos e bons finalizadores, mas o camisa nove é mais centroavante e o companheiro mais ponta, embora possam inverter o posicionamento e já tivessem um entrosamento dos tempos de Santos.

Sorte: o campeão Palmeiras e líder absoluto nas primeiras nove rodadas do Brasileiro voltou da parada fora do prumo, caindo em desempenho e perdendo pontos que criaram o "vácuo" para a recuperação rubro-negra. A inconstância do Santos de Sampaoli também ajudou.

Competência: sem a melhora de rendimento as vitórias seguidas contra Grêmio, Vasco e Ceará não viabilizariam a chegada à liderança do campeonato antes do duelo com o time alviverde. Os 3 a 0 com grande atuação que decretaram a demissão de Luiz Felipe Scolari marcaram bem a diferença que ficaria ainda mais nítida no returno até a confirmação da conquista na 34ª rodada que terminaria com recorde de pontos: 90.

Sorte: depois do sofrimento nas oitavas da Libertadores contra o Emelec, o cruzamento com times brasileiros – Internacional e Grêmio – justamente quando a equipe começou a sobrar no país. Sem confrontos na altitude ou que obrigasse a viagens mais longas, que poderiam comprometer o desempenho no Brasileiro, que não deixou de ser prioridade com o sucesso no torneio sul-americano.

Competência: praticamente sem oscilar na competição por pontos corridos, o time voou contra as equipes gaúchas no mata-mata sul-americano. Não seria nenhum absurdo alcançar quatro vitórias, já que teve muitas chances no Beira-Rio e na Arena do Grêmio. Mas os dois empates por 1 a 1 foram suficientes, já que em casa os 2 a 0 sobre o Colorado abriram boa vantagem na ida e a volta da semifinal no Maracanã teve os históricos e implacáveis 5 a 0.

Sorte: na final da Libertadores em Lima, os pouco mais de 30 minutos entre o gol de Borré aos 14 e o final do primeiro tempo, foram de total domínio do River Plate. O time argentino dobrou a aposta na pressão sobre o adversário com a bola, Palacios engoliu Gerson e o Flamengo, com o peso de 38 anos sem chegar à decisão, baixou a guarda. A equipe de Marcelo Gallardo não foi contundente para definir o jogo e o título. No segundo tempo, a entrada de Diego no lugar de Gerson foi essencial e a substituição infeliz de Marcelo Gallardo trocando Borré por Lucas Pratto matou de vez a força ofensiva do rival.

Competência: Jorge Jesus soube acalmar os jogadores no intervalo, corrigir posicionamento e convencê-los de que era importante se manter vivo no jogo e esperar o oponente cansar. Também reforçou a confiança na capacidade ofensiva do time: "pelo menos um gol vamos fazer". O time atacou com paciência e sem se desorganizar. Acabou premiado com o empate em jogada bem trabalhada e a virada por confiar em Gabriel Barbosa, mesmo anulado por Pinola em 88 minutos da partida.

Sorte: com o mercado retraído e a moral de time campeão e saudável financeiramente, o Flamengo nadou de braçadas no mercado para reforçar um elenco desequilibrado. Com jogadores optando pelo clube mesmo sabendo que iniciariam a temporada na reserva e apenas a saída de Pablo Marí entre os titulares, Jesus ganhou o melhor elenco do país e do continente.

Competência: colocou o time em campo com uma semana de treinamentos usando os jogos do Carioca como preparação para a disputa da Supercopa do Brasil contra o Athletico e da Recopa Sul-Americana diante do Independiente del Valle. Queimou etapas aproveitando o entrosamento da equipe, mas já criando variações táticas e inserindo novas peças como Pedro e Michael, mas faturou os dois títulos. E ainda a Taça Guanabara, mesmo utilizando um time sub-23 nas quatro primeiras rodadas. Chega a cinco conquistas com apenas quatro derrotas em nove meses.

Jorge Jesus não revolucionou o futebol brasileiro, apenas trouxe conceitos atuais que foram bem assimilados por seus comandados. Os sete titulares, mais Diego e Vitinho, com vivência no futebol europeu ajudaram na adaptação, obviamente. É evidente também que a qualidade técnica foi importante. Sempre é fundamental.

Mas daí a menosprezar o trabalho da comissão técnica e reduzir o treinador a um mero "distribuidor de camisas" vai uma distância grande. Cheira a inveja e xenofobia.  Desnecessário e pouco inteligente, já que é possível observar e reter o que pode ser útil para outro treinador em contexto diferente. Não é vergonha aprender e Jesus já mostrou o quanto pode contribuir para a evolução do nosso futebol. Basta saber ouvir e enxergar.

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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