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Saudosistas x "Geração Z": uma briga insuportável

André Rocha

03/04/2020 09h06

Foto: AFA

Sem jogos e noticiário mais quente sobre futebol, as pautas e os debates se voltam um pouco para o passado e é muito comum a comparação entre passado e presente.

E como quase todo debate neste país, a polarização aparece. Se na política ela é até necessária porque o conflito está (ou deveria estar) intrínseco, no futebol muitas vezes surge para marcar território. Com todos se comunicando e produzindo conteúdo ao mesmo tempo, a radicalização é uma ferramenta para chamar atenção.

É daí que costuma emergir a guerra entre saudosistas e a "Geração Z", ou aqueles que já nasceram dentro do mundo globalizado e conectado e acha que tudo que existia antes é jurássico e desconectado na realidade atual.

Ambos podem ser insuportáveis na discussão sobre futebol. Porque a nostalgia é mais que saudável. Se deixar transportar para momentos mais lúdicos, de proximidade com entes queridos que muitas vezes nem estão mais entre nós. A experiência infantil de ir ao estádio com o pai, de não ter preocupações no cotidiano e passar uma semana pensando naquele clássico.

Hoje o peso da responsabilidade de ganhar o dinheiro do ingresso (ou do plano de sócio-torcedor), de onde vai estacionar o carro e como vai garantir a segurança dos filhos, de fato, é capaz de tirar um pouco o prazer do programa. Sem contar o olhar adulto, que sabe do muito de podre que há por trás do esporte no campo. Não mais as retinas encantadas que só reparavam na grandiosidade do estádio, na festa das torcidas e nos movimentos dos craques.

Os agentes da época também têm suas razões para sentir saudades. Estavam no auge físico, no esplendor, na crista da onda. Eram procurados, tinham prestígio. Natural um jornalista mais experiente defender os profissionais veteranos ainda na ativa, ainda que ultrapassados. Questão de identificação.

Tudo isso é compreensível. Só não pode contaminar a observação sobre o jogo. Se aquele tempo era bom para você, indivíduo, não quer dizer que tenha visto um futebol melhor. O nosso narcisismo ajuda a colocar a época em que vivemos mais intensamente o esporte como algo superior e inalcançável para as gerações seguintes. "Quem viu, viu. Eu vi!"

Assim como os jovens que acham que o mundo começou no ano em que nasceram e tratam qualquer coisa que estejam testemunhando na TV e na internet como "maior da História". Os craques, os jogos, as competições. Tudo é grandioso e precisa crescer ainda mais na histeria coletiva das redes. Para engajar.

E a cada semana surge um novo fenômeno sem precedentes, porque são movidos a hiperestímulos. E como precisam causar, chamar atenção, é obrigatório desafiar os ícones do passado.  E quase sempre descontextualizando e achando que a realidade atual sempre existiu.

Então se o Pelé não jogou em um grande time europeu, como ele poderia ser o melhor do mundo se hoje todos os premiados atuam no Velho Continente? Maior da história ganhando estaduais e Copa do Mundo, mas sem vencer a Liga dos Campeões? Impossível!

É aí que aparece o saudosista colocando o pé na porta e dizendo que os craques que brilham hoje no futebol europeu não conseguiriam sequer ser titulares nos times pequenos de São Paulo que enfrentaram o Pelé. Que o futebol era mais técnico e hoje é só físico. Daí para a falsa dicotomia "Raiz x Nutella" é um pulo. Cansativo…

O esporte evolui, como tudo. O que vemos como consequências que podem ser tratadas como negativas são resultados da complexidade. Se com a internet a informação está disponível e não há mais segredos nem surpresas, é natural que o jogo seja mais dinâmico e haja menos espaços. A evolução na preparação também contribui, o que gera uma reação em cadeia que influencia todo processo e cria novos problemas para resolver.

A "Geração Z" acha isso tudo natural e interessante. O saudosista até acompanha, mas como seu coração está em outro tempo a tendência é reclamar.

O fato é que nunca saberemos se Gerson, o "Canhotinha de Ouro" da Copa de 1970 que fazia aqueles lançamentos de trinta metros quase parado e com muito tempo para pensar, hoje seria um meio-campista de alto nível internacional ou um jogador anacrônico, como Paulo Henrique Ganso, por exemplo. Pela inteligência a chance de vingar seria grande, mas o atleta é um todo, cada vez mais mental. Como ele lidaria com o cenário atual?

Assim como é difícil imaginar Messi ou Cristiano Ronaldo na realidade dos anos 1960/70. Com uniformes de baixa qualidade, bola pesada, gramados maltratados, menos proteção de arbitragem agora com VAR e as múltiplas câmeras de TV em jogos transmitidos para o mundo todo. Poderiam suportar e vencer ou simplesmente desistir lá no início da trajetória.

Comparar o futebol de épocas diferentes só vale como diversão. Ou para alimentar o sonho de ver os craques juntos. Como jogariam Messi e Maradona na seleção argentina? Ou como seria uma dupla de ataque formada por Cristiano Ronaldo e Di Stéfano no Real Madrid. Ou tentar pensar na livre circulação dos talentos do passado se houvesse Lei Bosman. Ou o gostoso exercício de adivinhação sobre quem ganharia em um jogo entre um esquadrão de quarenta anos atrás e um timaço atual.

Dá para entender a irritação de quem viu muitos craques testemunhar na internet os mais jovens desprezando tudo que não conhecem. E com jogos na íntegra disponíveis essa falta de curiosidade (ou preguiça mesmo) incomoda muito. Pior ainda é outro hábito dessa geração: opinar sem conhecer. O achismo se naturalizou e tudo virou questão de opinião.

Mas o nariz permanentemente torcido e o desdém dos saudosistas também são difíceis de aturar. É de se questionar como seguem torcendo ou até trabalhando com futebol se não há mais nenhum prazer envolvido. Muitos veem apenas para ter como argumentar contra e manter seus ídolos em um pedestal. Deve ser triste viver assim…

Impossível ter respostas exatas. Ainda bem. A única certeza é que essa briga, virtual ou real, é chata demais. Fuja dela, mesmo não tendo muito o que fazer trancado em casa. É inútil e só irrita.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.