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Volta do mata-mata no Brasileiro é tudo que os clubes não precisam agora

André Rocha

09/04/2020 08h04

É tão óbvio que nem deveria ser passível de discussão no momento.

Mas no Brasil há os nada democráticos "ditadores da emoção". Não basta ter Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana, estaduais e, pela TV, a possibilidade de se deleitar com a Liga dos Campeões da Europa, a maior competição de clubes do planeta. Todos em mata-mata. O Brasileiro também não pode escapar!

Bastou parar o futebol por causa da pandemia e começou a surgir aqui e ali a campanha pela volta do mata-mata. Sim, volta! Porque uma vez alterada a fórmula, mesmo por conta de um grande contratempo, a pressão para mantê-la nos anos seguintes seria enorme. A isca, como sempre, é a tal da emoção. Fundamental, sim, mas já com campeonatos demais para entregá-la.

"Ah, a NBA é a maior competição esportiva do mundo e tem playoffs!" O primeiro ponto óbvio é que não é futebol, mas basquete. O segundo é que simplesmente não há outro torneio para os atletas da modalidade disputarem nos Estados Unidos. É um mundo à parte. Por aqui o que não falta é disputa eliminatória.

Por causa dessa tal emoção várias edições do Brasileiro no passado foram caóticas. Inchadas, com regulamentos confusos, muitos jogos irrelevantes até a tão aguardada fase decisiva. Que permitia lucro ou ao menos fechar o ano sem prejuízos apenas para quatro times. Às vezes nem isso. Os mais populares ainda se salvavam rodando o Brasil em excursões de jogos caça-níquel e mesmo assim aumentaram suas dividas.

Muitos conseguiram sobreviver, mesmo com gestões irresponsáveis, por causa das antecipações de receitas de TV justamente pela segurança da garantia de 38 jogos nas séries A e B. Vejam só, o tal patinho feio segurando as pontas…

Gostem ou não, os pontos corridos fazem a roda girar no negócio futebol. Permitem planejamento com programas de sócios-torcedores e previsão de receita de TV, incluindo o pay-per-view – Globo e Turner pagam quase R$ 2 bilhões pelos direitos de transmissão. É o que mantém a cadeia produtiva garantindo calendário.

E deveria se estender a mais clubes, com outras séries também por pontos corridos, como C e D. Mais uma série E, aí sim regionalizada. Para evitar que os clubes hoje sem divisão, mas que defendem os estaduais porque querem a chance de enfrentar os grandes, agora batam na porta da CBF querendo paridade no tratamento. A CBF tem receita para fomentar o futebol nacional de forma muito mais racional.

Racionalidade. Viu como é importante? Por isso clubes e emissoras são unânimes na defesa dos pontos corridos no Brasileiro e que esta competição deve ser priorizada na volta, nem que seja preciso entrar dezembro com jogos até o Natal ou varar 2021 se adequando ao calendário europeu.

Tudo que os times, já sofrendo com o planejamento do ano furado, não precisam agora é de uma possibilidade de prejuízo com menos jogos transmitidos e a maioria alijada das fases finais. Com emoção, mas sem inteligência e chorando os cofres vazios.

Uma simples questão de lógica.

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.