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Milan de Arrigo Sacchi: o futebol de 2020 jogado há trinta anos

André Rocha

10/04/2020 09h17

Foto: Bob Thomas/Getty Images

Final da Copa dos Campeões 1980/90 em Viena. O Benfica de Sven-Göran Eriksson desafia o Milan então campeão europeu, com os brasileiros Aldair e Ricardo Gomes na zaga – mais Valdo no meio-campo, todos convocados por Sebastião Lazaroni para a Copa do Mundo de 1990, na Itália.

Arrigo Sacchi, treinador rossonero, sabia que o time português marcava individualmente na defesa e arquitetou a jogada decisiva: de Carlo Ancelotti para Marco Van Basten, que recuou atraindo Aldair. Gullit, pela direita, arrastou Gomes e abriu um buraco por dentro. O passe do centroavante holandês encontrou o seu compatriota Frank Rijkaard, que infiltrou com liberdade às costas dos meio-campistas adversários para tocar na saída do goleiro Silvino.

O gol do título há trinta anos, mas que poderia ser 2020. Porque buscou o que Pep Guardiola, Jürgen Klopp e os grandes treinadores do futebol priorizam no trabalho ofensivo: a busca do homem livre por trás da linha defensiva. Seja em um jogo mais posicional ou em rápidas transições ofensivas. Todos, incluindo Sacchi, bebendo da mesma fonte: Rinus Michels no Ajax e na seleção holandesa.

Assim Sacchi revolucionou o futebol italiano com o time campeão nacional em 1987/88, primeira temporada em que comandou o time depois de deixar o Parma a convite de Silvio Berlusconi. Em uma de suas primeiras entrevistas, questionado por não ter sido um grande jogador, condição na visão de muitos para se tornar um bom treinador, Sacchi respondeu com sacada genial: "Não sabia que, para ser jóquei, era preciso ser cavalo antes".

Era treinador desde os 27 anos, quando largou o futebol amador e a fábrica de sapatos do pai para comandar o time de sua cidade, Fusignano, depois equipes minúsculas na região da Romagna até assumir o Parma. Para alcançar a promoção á Série C do Calcio e eliminar o Milan de Nils Liedholm da Taça Itália 1986/87. Feito que convenceu Berlusconi a apostar naquele desconhecido.

Assim modelou uma equipe que viveria seu auge na temporada 1988/1989. Conquista da primeira Copa dos Campeões com atuações mágicas nos 5 a 0 sobre o Real Madrid de Schuster, Hugo Sánchez e Butragueño no San Siro pela semifinal, depois de 1 a 1 no Santiago Bernabéu, e na final em Barcelona contra o Steaua Bucarest: 4 a 0, com dois gols de Ruud Gullit e dois de Van Basten.

Os três holandeses eram as grandes estrelas e também a conexão que Sacchi queria com a escola do país, combinando com a inteligência defensiva dos italianos. Destaque para Franco Baresi que era chamado de "líbero", mas na verdade era o lider da retaguarda de um time que marcava por zona, compactava os setores em não mais que 30 metros, estreitava o espaço de ação do adversário e abusava da tática de impedimento. Facilitada pelas regras da época, que consideravam em posição irregular qualquer atacante, inclusive os que não participavam da jogada, na mesma linha de último defensor.

O sistema era o 4-4-2 que parecia básico, mas fazia movimentos complexos. Coordenação era a palavra chave. A linha defensiva à frente do goleiro Giovanni Galli virou lenda: Tassotti, Costacurta, Baresi e Maldini. Todos penduraram as chuteiras pelo clube e os dois últimos aposentaram as camisas seis e três quando pararam de jogar. Só isso.

Inesquecíveis não só pelas conquistas e por conta dos serviços prestados por décadas, mas pelo trabalho espetacular e inovador que executavam. Já com conceitos de bola coberta/descoberta e coragem para se adiantar, ficar próxima da linha de meio-campistas e também participar da construção do jogo. Com noção perfeita do tempo para ultrapassagens dos laterais e coberturas na saída de trás de Baresi.

No meio-campo, muita versatilidade de Rijkaard, que podia ser zagueiro ou meio-campista central, sempre jogando de área a área com vigor e inteligência. Mas também de Roberto Donadoni e Ancelotti, que atuavam em qualquer das quatro funções, por dentro ou abertos. O homem que completava o setor podia ser Angelo Colombo ou Diego Fuser pela direita, ou ainda Alberigo Evani à esquerda.

Na frente, Gullit e Van Basten formavam uma das maiores duplas de ataque da história. Força, técnica, elegância e poder de decisão em jogadas individuais, de trocas de passes rasteiros ou nas jogadas aéreas, muito trabalhadas por Sacchi com bola parada ou rolando. Muitas delas com origem em escanteios curtos que chegavam a Donani e dali saíam cruzamentos precisos para os atacantes.

O elenco era curto, outra inovação na época. Contava com Fillipo Galli, irmão do goleiro Giovanni, para a zaga – quando Sacchi não apelava para o recuo de Rijkaard e preenchia o meio-campo com opções mais confiáveis. Na frente, primeiro o veterano Pietro Paolo Virdis era a opção mais utilizada, depois Danielle Massaro e Marco Simone passaram a ser mais requisitados quando um dos atacantes estava ausente – não raro, já que conviviam com muitos problemas físicos.

Duas vezes campeão da Europa e do mundo, feito que só seria repetido em 2017 pelo Real Madrid de Zinedine Zidane que ainda seria tri. Por privilegiar o torneio continental, não construiu uma dinastia no país. Também porque a então liga mais competitiva do planeta oferecia duros adversários, como a Internazionale comandada por Giovanni Trapatonni e liderada em campo por Matthaus, Brehme e Klinsmann campeã absoluta em 1988/89 e o Napoli de Maradona, Careca e Alemão, vencedor em 1989/90.

Maradona que merece um parágrafo como o grande algoz de Sacchi e comandados. Porque era gênio e sabia explorar os "pontos cegos" do maior rival à época: os espaços entre defesa e meio-campo para acionar os atacantes ou tentar a jogada individual; a inversão de jogo rápida e precisa para encontrar o companheiro livre no lado oposto; a infiltração de trás para surpreender e quebrar a tática de impedimento. Um pesadelo para Baresi e sua defesa, mas que em alguns momentos foi devidamente encaixotado por um trabalho defensivo concentrado e intenso.

Intensidade é a palavra que une o Milan do final dos anos 1980 ao futebol atual. Não só na pressão, mas também na rapidez com que circulava a bola para definir os ataques. Sacchi não matou o "catenaccio", a famosa retranca italiana. Até porque o país viu times ofensivos na primeira metade da década de 1980, como a Juventus que contava com a base da seleção italiana campeã mundial de 1982 e ainda as estrelas Platini e Boniek e também a Roma de Nils Liedholm que tinha Paulo Roberto Falcão e Bruno Conti.

Talvez tenha mudado o "gioco all'italiana", a marca da equipe de Enzo Bearzot na Copa do Mundo na Espanha. Com o líbero Scirea, o "stopper" Collovati, o "ala tornante" Conti, o "terzino fluidificante" Cabrini e Antognoni como uma mistura de "regista" e "trequartista". Funções muito específicas e características, além do Gentile cão-de-guarda, que sempre deixava a lateral direita para perseguir o craque do adversário, como fez com Maradona e Zico. Na marcação que podia ser individual ou mista.

Sacchi acreditava em versatilidade e o time baseado em movimentos coletivos. Quando questionado por que não conseguiu repetir os feitos naquele Milan quando comandou a seleção italiana e depois no retorno ao clube, na passagem por Atlético de Madri e na volta ao Parma, o treinador alega que nunca mais conseguiu reunir aquela combinação de grandes homens e ótimos jogadores.

Não por acaso, muitos deles viraram treinadores. Carlo Ancelotti, o melhor deles. Aproveitando muito do que aprendeu, mas adaptando e incluindo uma liderança tranquila que nem sempre foi a marca de Sacchi. Uma vez, ao ter o modelo de jogo questionado por Van Basten, o colocou no banco na partida seguinte para que ele ficasse ao lado dele para explicar onde o técnico estava errando. Hoje treinador, o atacante reconhece a importância de Sacchi em sua carreira, apesar da relação pessoal desgastante.

O Milan da obsessão pela perfeição fez história. Depois do bicampeonato mundial em 1990, vencendo o Olimpia por 3 a 0 em Tóquio, Tassotti falou para Sacchi: "somos os melhores do mundo!" A resposta do treinador foi emblemática: "Sim, mas só até a meia-noite. Amanhã começa tudo de novo".

Só que o futebol italiano e mundial nunca mais foi o mesmo. Ou só veríamos algo parecido quase trinta anos depois. Por isso é histórico e merece ser sempre lembrado.

 

[Confira o especial sobre o Milan de Sacchi no podcast "Triangulação", com os colegas Eugenio Leal e Rodrigo Coutinho.]

 

O 4-4-2 do Milan de Sacchi: básico, mas com movimentos complexos que compactavam setores, movimentavam peças, pressionavam os adversários e defendiam e atacavam com incrível coordenação (Tactical Pad).

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.