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Flamengo demite na pandemia. Lidar com gente não é a praia da diretoria

André Rocha

01/05/2020 08h37

É direito de qualquer empresa ou clube de futebol fazer demissões, ajustando processos e folha de pagamento ao cenário econômico. Ainda mais em tempos de pandemia, com suspensão de atividades e, consequentemente, algumas receitas.

Mas surpreende e soa estranha a notícia de que o Flamengo demitiu 62 funcionários nesta quinta-feira, véspera do Dia do Trabalhador e último dia para os conselheiros aprovarem as contas de 2019. Depois de incluir no balanço patrimonial, auditado pela Ernst & Young, a informação de que realizou um "teste de estresse" e, dentro de um cenário de três meses sem jogos, concluiu que os impactos financeiros seriam "absorvíveis".

Com apenas 46 dias de paralisação – portanto, metade do prazo previsto de absorção da queda nas receitas – o clube entende que é necessário se antecipar aos problemas que virão com o fim do patrocínio do Azeite Royal e o atraso no pagamento da Adidas.

Para isso dispensa recepcionistas do Ninho do Urubu, funcionários do alojamento, motoristas, roupeiros e fisiologistas das divisões de base, treinador do time sub-12, analistas de mercado e profissionais do time de futsal que estão ligados à vice-presidência de base, como apurado pelo Globoesporte.com e depois confirmado aqui no UOL Esporte.

O clube também dispensou o auxiliar Marcelo Salles e chegou a um acordo com o Sindiclubes para reduzir salários de funcionários e a liberação destes até que as atividades voltem ao normal. Cortando primeiro em uma folha de cerca de três milhões de reais, pessoas que dificilmente se reposicionarão no mercado de trabalho num cenário de crise. Para só depois negociar com jogadores que custam 20 milhões aos cofres do clube.

Depois de ser acusada pelos familiares das vítimas do incêndio no Ninho do Urubu de agir com frieza e nenhuma empatia, da polêmica sobre a premiação dos títulos do Brasileiro e da Libertadores que quase prejudicou comissão técnica e alguns funcionários, e as constantes demonstrações de ansiedade em retomar as atividades durante a pandemia mesmo com todos os riscos para os envolvidos, a direção rubro-negra dá mais uma prova de que lidar com gente não é a sua praia.

"O Flamengo não é instituição de caridade", dirão os "liberais" de plantão, os torcedores de dirigentes e os fanáticos que acham que amar é não ter senso crítico. Mas está claro mais uma vez que as planilhas de custos estão sendo colocadas acima das pessoas sem um esforço maior do clube mais rico do país para contornar a situação e preservar os postos de trabalho. De muitos que sequer têm uma reserva para se manter por um curto período sem remuneração.

Pior ainda se as demissões são parte de uma estratégia para "convencer" os atletas a reduzirem os seus vencimentos, CLT e direitos de imagem. Cortar na carne do mais humilde para barganhar com os mais abastados. Seria um ato desprezível.

E mesmo que haja reversão por pressão popular ou a pedido dos atletas e de Jorge Jesus, com estes aceitando contribuir para a manutenção dos empregos, será mais uma mancha indelével. De quem acerta tanto no futebol, mas falha miseravelmente na gestão dos recursos humanos.

Um triste cenário que desperta indignação, tristeza e até um certo nojo. Não precisava ser assim. De novo.

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.