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O Vasco campeão que "converteu" as filhas de Aldir Blanc

André Rocha

05/05/2020 10h22

Foto: Acervo / O Globo

Aldir Blanc partiu ontem aos 73 anos, perdendo a luta contra a Covid-19. O escritor e compositor, autor de "O Bêbado e a Equilibrista", era um vascaíno apaixonado e dedicado. Artista que incluía o amor pelo clube em suas obras.

O título carioca de 1956 capturou o coração do menino de nove anos. Trinta e três anos depois conseguiu transmitir o sentimento cruzmaltino para as filhas Mariana, então com 14 anos, e Isabel, que tinha oito. Graças à comemoração da conquista do Brasileiro de 1989, o segundo da história do clube.

Triunfo que começou a se desenhar com a polêmica contratação de Bebeto, que deixou o Flamengo. Depois do presidente Antonio Soares Calçada negar o interesse em conversa com o presidente rubro-negro, Gilberto Cardoso Filho, o clube comprou o passe do artilheiro e craque da Copa América daquele ano.

Junto com Bebeto chegaram o lateral Luis Carlos Winck, o zagueiro equatoriano Quiñonez e o meio-campista Marco Antonio Boiadeiro e o ponta-esquerda Tato,  além de outros dois ex-rubro-negros repatriados: Andrade e Tita. O treinador seria Nelsinho Rosa.

O investimento focava na reconstrução da equipe que perdera a hegemonia estadual para o Botafogo com o desmonte do time bicampeão comandado por Sebastião Lazaroni. Paulo Roberto, Donato, Fernando, Geovani, Romário e Roberto Dinamite deixaram São Januário e o então diretor de futebol Eurico Miranda arregaçou as mangas.

O Vasco terminou a primeira fase, disputada em dois grupos de 11 times (!) com turno único dentro do mesmo grupo, na segunda colocação, atrás do Palmeiras com os mesmos 14 gols, porém um gol a menos no saldo. Cinco vitórias, quatro empates e a única derrota, justamente para o Alviverde por 1 a 0.

Na segunda fase, dois grupos de oito com turno único e os times enfrentando apenas os do outro grupo e a classificação considerava os pontos da fase anterior – haja criatividade para criar regulamentos esdrúxulos!

O time de Nelsinho Rosa terminou um ponto à frente do Cruzeiro e se classificou para a final. Com três vitórias, quatro empates e a derrota para o Flamengo por 2 a 0, gols de Bujica. Nesta partida, além de perder Bebeto expulso, o treinador constatou que a equipe que apostava em toque de bola reunindo na frente Tita, Bismarck, Boiadeiro e Bebeto precisava de mais presença de área.

Com o jovem Sorato formando dupla na frente com Bebeto, o Vasco saiu de campanha irregular para uma arrancada final  vencendo Corinthians e Internacional fora de casa. Gol de Sorato em São Paulo e dois de Bebeto em Porto Alegre.

A melhor campanha deu um ponto de vantagem na decisão contra o São Paulo, que contava com Raí e era comandado por Carlos Alberto Silva. Ou seja, se vencesse a partida de ida, no Morumbi, o Vasco seria o campeão nacional. O jogo na capital paulista aconteceu no dia 16 de dezembro, um sábado. Porque no dia seguinte aconteceria o segundo turno da eleição presidencial, a primeira depois da redemocratização do país, entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva.

O Vasco entrou em campo com a equipe de deu liga nas últimas partidas: Acácio no gol; Luis Carlos Winck e Mazinho nas laterais, Marco Aurélio e Quiñonez na zaga; Zé do Carmo como volante mais fixo, Boiadeiro fazendo o trabalho de área a área articulando com William, o "falso ponta" pela esquerda que circulava por todo campo. Bismarck era o meia-atacante, camisa dez, que encostava na dupla de ataque. Um 4-2-2-2 típico da época.

Jogo equilibrado definido pelo cruzamento preciso de Winck na cabeça de Sorato, aos cinco minutos do segundo tempo. Depois foi se fechar na defesa, Acácio garantir com boas defesas e o Vasco evitar a partida de volta no Maracanã que poderia proporcionar uma grande renda, mas colocaria em risco um título que não vinha desde 1974 e que consolidou a força cruzmaltina no período.

O artilheiro da equipe foi Bismarck, com oito gols. Sorato fez apenas três, porém decisivos – o primeiro no empate por 2 a 2 com o Botafogo na antepenúltima rodada da segunda fase. Acabou como heroi da conquista.

Mas o personagem foi Bebeto, que marcou seis e terminou um ano mágico na carreira com o primeiro título brasileiro reconhecido oficialmente – o atacante vencera a controversa Copa União de 1987 pelo Flamengo – e agora como ídolo nacional.

Certamente o talento do craque e a festa da torcida ajudaram Blanc a convencer suas meninas a amar a Cruz de Malta. Um momento feliz em período complicado da vida do artista que lutava contra a depressão. Mas naquele sábado histórico comemorou em família a conquista vascaína.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.