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Matheus Cunha é mais um na fábrica brasileira de ótimos coadjuvantes

André Rocha

28/05/2020 12h47

Foto: Divulgação / Hertha Berlin

Com a Bundesliga como única grande liga de volta, um brasileiro ganhou destaque: Matheus Cunha, do Hertha Berlin. Contratado ao Leipzig por cerca de 20 milhões de euros no último dia da janela de inverno na Europa, o atacante de 21 anos marcou quatro gols em sete partidas.

No retorno da competição, dois belos gols contra Hoffenheim e Union Berlin. Contra o ex-time, na data do seu aniversário e quatro dias depois do nascimento do filho, Levi, não foi às redes. Mas sofreu as duas faltas que resultaram na expulsão de Halstenberg e sofreu o pênalti que definiu o empate por 2 a 2.

Matheus já havia se destacado no Pré-Olímpico, como campeão e artilheiro, com quatro gols. É atacante versátil, pode trabalhar nas quatro funções ofensivas do 4-2-3-1: referência, pelos lados ou atrás do centroavante. Trabalha bem fazendo parede ou atacando espaços às costas da defesa. Mas gosta mesmo de tabelar vindo de trás para finalizar.

Sua história é a mesma de tantos, cada vez mais comum: revelado pelo Coritiba, descoberto pelo Sion, após uma boa participação na Dallas Cup, foi para o futebol suíço com 18 anos. Sem criar raízes no Brasil, amadureceu na Europa. Marcou dez gols em 29 jogos e foi para o Leipzig. Ganhou notoriedade por um golaço sobre o Bayer Leverkusen, que concorreu ao Prêmio Puskas no ano passado.

É bom atacante e pode vislumbrar uma oportunidade na seleção principal. Provavelmente estará na Olimpíada de Tóquio, se e quando ocorrer. É certo que já está no radar de Tite. Parece ter boa cabeça e profissionalismo.

Mas alguém consegue imaginar Matheus Cunha como protagonista no mais alto nível europeu? Decidindo Champions e fazendo história?

Difícil. Assim como o cenário internacional para brasileiros parece reservar lugar apenas para ótimos coadjuvantes, com exceção de Neymar. Até Firmino, destaque no Liverpool, não é exatamente um jogador "disruptivo". Desequilibrante, de exceção.

Quem lê o blog sabe que aqui há espaço para saudades, nostalgia. Saudosismo, não. Mas é possível refletir sobre a "nova ordem mundial" em relação ao Brasil: descobrir cada vez mais cedo, levar logo para a Europa, trabalhar o atleta dentro dos conceitos mais atuais e discipliná-lo no jogo coletivo.

Positivo, claro. Até porque os mais "peladeiros" vêm sofrendo bastante – como Lucas Paquetá no Milan, por exemplo. Vinicius Júnior vai lutando contra deficiências crônicas em finalização e tomada de decisão no Real Madrid. E é possível que a seleção brasileira volte a ser campeã mundial casando características de bons jogadores, mesmo sem nenhum extra-classe. Ou apenas Neymar.

Mas é cada vez mais difícil termos um jogador com o currículo do craque do PSG. Neymar poderia ter partido ainda adolescente para o Real Madrid. Ficou, brilhou no Santos, fez gol em final de Libertadores e foi para o Barcelona já acostumado com o protagonismo. Assumindo o papel de desequilibrante, mesmo que a estrela máxima fosse Lionel Messi.

Matheus Cunha se espelha em Ronaldo e Romário. Mas em seu discurso nota-se que quer ser apenas mais um. Outro que pode sentir o peso da responsabilidade em jogo grande de Copa do Mundo e não tentar nada diferente. Será que um pouco de egocentrismo, de "me dá a bola aqui que eu vou resolver" não faz falta em determinados momentos?

A França foi campeã do mundo em 2018 com Griezmann, Mbappé e Pogba assumindo responsabilidades. E o treinador Deschamps mexendo na equipe para potencializar os talentos, que deram a devida resposta. Com a "casca" de reveses doídos, principalmente a derrota como anfitriã para Portugal na final da Eurocopa 2016.

O Brasil tem bons valores, mas o teto parece baixo. Porque é possível formar uma seleção competitiva, porém naquela partida eliminatória tensa, condicionada mais à força mental e à personalidade que às questões técnicas/táticas, é difícil achar em quem se possa confiar. E o futuro parece menos promissor.

É a fábrica de coadjuvantes brasileiros. Todos ótimos, mas com papeis secundários. Na hora do aperto o que se vê é um deserto. Matheus Cunha é a bola da vez, enquanto os olhos estão voltados para a Alemanha. Quem será o próximo?

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.