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Por que Ganso pode ser o “elo perdido” no Fluminense de Fernando Diniz
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André Rocha

Foto: Getty Images

Este blog não costuma abordar sondagens ou negociações ainda não concretizadas, mas vai aproveitar o gancho do interesse do Fluminense em Paulo Henrique Ganso – e vice-versa, segundo o diretor de futebol Paulo Angioni, com o alto salário do jogador como grande obstáculo – para analisar as possibilidades do time agora comandado por Fernando Diniz.

Segundo informações de bastidores, Diniz está mais calmo e paciente na gestão de pessoas. Ótima notícia para os tricolores, porque foi o que prejudicou e minou seus trabalhos a médio prazo. Mas segue com princípios de jogo inegociáveis, como imposição pela posse de bola e linhas avançadas.

O treinador parte do saudável estímulo ao aspecto lúdico do jogo e ao gosto pela bola que existe em cada atleta desde menino. Mas no Athletico esbarrou em um conflito de difícil solução: o descasamento de sua proposta de jogo com as características dos jogadores. Zagueiros lentos para jogar com a defesa adiantada e meias e atacantes mais adaptados a um jogo de transições ofensivas em velocidade e pouco afeitos ao trabalho coletivo para criar espaços no campo ofensivo.

Com uma ideia de jogo mais flexivel, o auxiliar Tiago Nunes conseguiu uma campanha de recuperação no Brasileiro e o título da Copa Sul-Americana que levou o clube à fase de grupos da Libertadores 2019. A insistência da direção com Diniz e dele com seu modelo de jogo poderiam ter custado caro ao time paranaense – talvez um catastrófico rebaixamento, já que o técnico entregou o time em penúltimo lugar e apenas 25% de aproveitamento na competição.

Considerando suas declarações na pré-temporada e os conceitos trabalhados nos treinamentos, as convicções de Diniz seguem intactas. Mas o Flu tende a enfrentar os mesmos problemas de adaptação dos jogadores aos ideais do novo comandante.

A zaga com Digão e Ibañez talvez tenha menos problemas que Thiago Heleno e Paulo André, já que se garante mais nas coberturas rápidas e terá Aírton na proteção e os laterais Ezequiel ou Gilberto e Marlon, se bem orientados, atentos à composição da linha de quatro atrás. Mas com a bola, a formação aventada até aqui deve encontrar dificuldades para a troca paciente de passes e mobilidade para abrir as brechas para as infiltrações.

Bruno Silva se destacou no Botafogo de Jair Ventura atacando os espaços e chegando na área para finalizar em contragolpes. Está longe de ser um meio-campista que se destaca pelo passe. Na frente, Mateus Gonçalves, ex-Sport, também é jogador de dinâmica diferente, de definir rapidamente a jogada. Assim como os atacantes Luciano, Everaldo e Yoni González, este contratado ao Junior Barranquilla. Aceleração pura!

Há opções no elenco de passadores trabalhando entre as intermediárias: Daniel, cria da base de Xerém, tem perfil organizador, assim como Caio Henrique, que se destacou no Paraná e pode ser cedido por empréstimo pelo Atlético de Madrid. Mas não são meias para assumir a armação e, principalmente, ditar o ritmo. Acelerar e cadenciar. Recuar para construir trocando com Bruno Silva, mas também aparecer na frente com o toque diferente.

É aí que entra PH Ganso. Mesmo entregando pouco na tão sonhada e, até aqui, mal sucedida experiência na Europa. Em 18 jogos oficiais pelo Sevilla marcou quatro gols; no Amiens, 12 partidas e apenas dois passes decisivos. Muito pouco. Há sérias dúvidas sobre sua capacidade de jogar em alta intensidade. Pelo estilo e por conta de problemas físicos ao longo da carreira. Por isso o interesse de clubes com maior poder de investimento não passou de sondagem.

No Fluminense, porém, é possível render. Porque é um time para Ganso vestir a dez e chamar de seu. E sem aspirações de grandes títulos, ao menos em tese. Ele seria a grande estrela da equipe carioca e um interlocutor técnico de Fernando Diniz em campo. Para municiar um ataque que pode ter o retorno de Pedro em março.

Quem sabe não é o estímulo que falta ao jogador de 29 anos? O mesmo que não correspondeu às expectativas, mesmo as mais realistas, que não colocavam o camisa dez do Santos campeão paulista e da Copa do Brasil 2010 como mais promissor que Neymar.

O ideal seria que Fernando Diniz fosse mais pragmático e cedesse ao futebol por demanda. Mas seu espírito é de Cilinho, Telê Santana, Marcelo Bielsa e Quique Setién. Que ao menos seja “louco” apenas nas ideias e não no trato com os jogadores.

Se receber Ganso e der respaldo e responsabilidade, o meia talentoso pode ser a peça que falta na montagem do novo Fluminense. Uma espécie de “elo perdido”. Será?

Uma formação possível do Fluminense de Fernando Diniz com a hipotética presença de Paulo Henrique Ganso: linhas adiantadas, zagueiros na cobertura dos laterais, Aírton fechando por dentro, Ganso recuando para qualificar a construção das jogadas e Bruno Silva infiltrando e se juntando ao trio ofensivo de mais rapidez e intensidade que lucidez na criação de espaços. Algo a ser pensado pelo treinador até o retorno de Pedro (Tactical Pad).


Zé Ricardo, exclusivo: “Teremos trabalho para repor as perdas no Botafogo”
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André Rocha

Foto: Dudu Macedo/FotoArena/Estadão Conteúdo

O saldo da temporada 2018 pode ser considerado positivo para o Botafogo. Campeão estadual com Alberto Valentim, garantiu vaga na Sul-Americana com a nona colocação, sem os sustos que Vasco e Fluminense passaram para assegurar permanência na Série A. Fruto do trabalho de Zé Ricardo, que assumiu em agosto, o time oscilou naturalmente e se recuperou na sequência de cinco vitórias e um empate entre a 32ª e a penúltima rodada. Talvez o melhor momento do Alvinegro no ano.

Mas 2019 chega apresentando novo desafio de reformulação, com perdas importantes e busca de reposição dentro da realidade do clube no mercado. Em entrevista exclusiva, o treinador lamenta as mudanças e as dificuldades financeiras, mas busca caminhos para manter o nível de rendimento nas competições. Comenta também sobre sua passagem pelo curso da CBF (Licença PRO) e a interação com técnicos consagrados.

BLOG – O que esperar do Botafogo em 2019 com elenco tão mexido?

ZÉ RICARDO – O Botafogo terminou o ano passado com uma “cara” e jogando um bom futebol. Certamente iriam aparecer propostas para alguns jogadores e outros, naturalmente iriam sair por movimentos do mercado. Com as dificuldades financeiras que o clube passa, temos que mostrar criatividade para remontar o elenco e continuar performando. Acredito numa equipe competitiva e com muito espirito coletivo. Pode demorar um pouco, mas dessa forma esperamos alcançar rendimento e, consequentemente resultados.

BLOG – O modelo de jogo, que ganhou encaixe na reta final do Brasileiro, vai mudar em função das alterações no grupo de jogadores?

ZÉ RICARDO – Certamente teremos que observar o rendimento que terão os novos atletas e aqueles que deverão ter mais minutos em campo, mas buscaremos manter aquilo que estávamos construindo no trimestre final de 2018.

BLOG – Qual impacto na gestão do grupo com perdas de liderança como Jefferson, Igor Rabello e Rodrigo Lindoso?

ZÉ RICARDO – Muito grande! Três atletas com tempo de clube, líderes (cada qual com seu perfil) e que faziam parte de um “corpo” da equipe. É lógico que teremos trabalho para repor as perdas, mas entendemos que isso faz parte do futebol brasileiro e, com algumas exceções, as equipes conseguem não manter por muito tempo seus jogadores de destaque.

BLOG – Você começou no Flamengo precisando propor jogo, mas sempre ressaltou a necessidade de um sistema defensivo forte. No Vasco e Botafogo, pela diferença na capacidade de investimento, seus times puderam atuar mais vezes na base das transições. Como você se sente mais confortável?

ZÉ RICARDO – Cada elenco tem seu perfil e cada clube tem o seu estilo e história e necessidades (momento). Levando esses aspectos em consideração é que busco sempre o equilíbrio das equipes que trabalho.

BLOG – Para terminar, como foi a interação com os colegas no curso da CBF agora no final do ano – Tite, Mano, Dunga e outros? O que você leva para o seu trabalho nesta temporada?

ZÉ RICARDO – Foi uma troca fantástica! Imagine que em determinado momento estávamos todos reunidos junto com Tite, Mano, Dunga, Falcão e Parreira (esses dois últimos como palestrantes) numa mesma sala, trocando experiências e informações. Além disso, uma turma muito interativa que fez com que o tempo do curso passasse de forma rápida e agradável.

 


A caminho do Fla, Gabigol é atacante que aproveita espaços, mas não os cria
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André Rocha

Gabriel Barbosa, o Gabigol, conseguiu liberação da Internazionale para atuar por empréstimo pelo Flamengo e até já vestiu a camisa rubro-negra em um vídeo pessoal. Oficialmente, o clube apenas aguarda o atacante para fazer exames médicos e assinar contrato.

Com tudo acertado e à disposição do treinador Abel Braga, a missão principal será o ajuste à proposta de jogo do Flamengo, que é basicamente a mesma desde 2016, ainda com Muricy Ramalho. Em função do aumento da capacidade de investimento, o favoritismo natural nas competições que disputa empurra o time para o campo adversário, com controle do jogo pela posse de bola e trabalho coletivo para furar as linhas de marcação.

Pode haver um ou outro ajuste com o novo comandante, mas principalmente no Carioca e na primeira fase da Libertadores será difícil ver a equipe  atraindo o oponente e acelerando contragolpes para aproveitar a defesa adiantada. Ninguém vai se abrir contra um time milionário.

Com isso, a adaptação de Gabriel é um desafio. Com Everton Ribeiro, De Arrascaeta – enfim confirmado oficialmente como nova contratação –  e Vitinho, ainda com a possibilidade de fechar com Bruno Henrique, o Flamengo só oferece a função de centroavante. Abel quer dois ponteiros bem abertos buscando os dribles e chegando ao fundo. Assim a mobilidade fica prejudicada. Caberia ao novo atacante recuar, jogar com um ou dois toques, fazer o pivô, ou aparecer na área para finalizar. Trabalhar mais coletivamente para criar espaços.

Não é o ponto forte. Gabriel funciona melhor com total liberdade e sendo a referência para as transições ofensivas em velocidade às costas da retaguarda adversária. Na seleção campeã olímpica foi o que se destacou menos no quarteto formado com Luan, Neymar e Gabriel Jesus. Na Internazionale e no Benfica praticamente não jogou – disputou 15 partidas em uma temporada na Itália e meia em Portugal – muito em função dos problemas para se encaixar como mais uma peça no modelo de jogo. Leia mais AQUI.

No Santos de Cuca voou e terminou a temporada como goleador máximo do Brasileiro e um dos artilheiros da Copa do Brasil, um feito inédito, sendo a estrela máxima e a equipe jogando para ele. No Fla deve ser a principal referência para as finalizações e colaborar muito para a equipe deixar de ser “arame liso” em jogos grandes, mas há mais gente com currículo para dividir protagonismo.

Em tese, a manutenção de Everton Ribeiro como um ponta articulador saindo da direita para criar e não por dentro como meia em um 4-1-4-1, como indica Abel, Gabriel teria um espaço para se deslocar e confundir a marcação. Agora cabe ao técnico combinar da melhor forma possível as características dos atletas com o estilo ofensivo que a torcida e o contexto exigem.

Não basta “juntar as feras”. Sobram exemplos de “SeleFlas” que deram muito errado – como o “pior ataque do mundo” com Edmundo, Romário e Sávio em 1995 e o time de estrelas formado na mal sucedida parceria com a ISL em 2000 que reuniu no clube Gamarra, Edilson, Petkovic, Alex e Denílson.

Para 2019, a obsessão por títulos para acabar com o estigma de “cheirinho” deixa a margem de erro bem pequena. A diretoria aposta alto, mas sem garantias. Como será desta vez?


Vasco age rápido no mercado e pode ter em Bruno César outra “redenção”
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André Rocha

Foto: Carlos Gregório Júnior/Vasco

O clima político segue turbulento e as dificuldades financeiras tendem a aumentar com a Caixa Econômica Federal deixando de renovar patrocínios com os clubes brasileiros seguindo decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). Mas não é absurdo dizer que o Vasco foi relativamente bem na ida ao mercado para 2019.

O maior mérito, sem dúvida, está na agilidade. Saíram Martín Silva, Desábato, Kelvin, Fabricio, Giovanni Augusto, Lenon, Andrés Ríos e Thalles e a direção agiu rápido contratando os laterais Raúl Cáceres, Claudio Winck e Danilo Barcelos, o volante Fellipe Bastos, os meias Yan Sasse e Bruno César e o atacante Ribamar. Ainda tenta Rossi, também atacante que pertence ao Shenzhen, da China, e estava emprestado ao Internacional.

Nenhum nome inquestionável ou disputado no mercado, mas ao menos o treinador Alberto Valentim poderá contar com um elenco mais completo já na pré-temporada. É a chance de dar um mínimo de entrosamento e nivelar fisicamente os atletas. Objetivamente, a possibilidade concreta de título do clube na temporada é o Carioca. Tornar a equipe competitiva mais rapidamente pode ser uma vantagem contra os rivais.

Outro trunfo pode ser Bruno César. Meia de 30 anos que estava no Sporting e não vinha atuando pelo clube português, também por conta de problemas para manter o peso ideal. Mas pode ser muito útil considerando a realidade vascaína no cenário nacional e também o nível do futebol jogado no país.

Apelidado de “chuta-chuta”, tem condições, sim, de aproveitar esta característica de buscar a finalização para se destacar. Se for estimulado por Valentim, o passe diferente que se transforma em assistência é mais uma virtude a ser explorada. É jogador para vestir a camisa dez e ser um líder técnico.

Muitas vezes a mudança para um clube de menor poder de investimento, se transformando em titular absoluto e recuperando visibilidade, é tudo que um jogador precisa para se reinserir no mercado. De descartado a estrela. Um “up” na autoestima.

Foi o que aconteceu com Maxi López na reta final da temporada passada, ajudando o Vasco a fugir do rebaixamento no Brasileiro, o quarto em dez anos, que seria trágico para o clube. O atacante argentino de 34 anos perdeu peso e usou força e técnica para se destacar como pivô e finalizador. Foram sete gols e seis assistências em 19 partidas.

Cabe a Valentim encontrar uma formação que encaixe os dois sem tornar a equipe lenta, nem sacrificar os ponteiros, que teriam que voltar muito para compor com os volantes uma linha de quatro para proteger a defesa e também oferecer velocidade nas transições ofensivas. Não é fácil.

Ainda assim, Bruno César tem potencial e lastro de evolução para ser mais uma “redenção” na temporada que deve ser complicada novamente, difícil de sonhar com títulos mais condizentes com a história de um dos grandes clubes brasileiros. Mas pode reservar boas surpresas, como um time que entregue desempenho e resultados para orgulhar os vascaínos. Trabalho da direção não faltou.


Liderança do Flamengo significa quase nada além do topo da tabela
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André Rocha

Vitória, América e Ceará. Três rodadas, Duas vitórias, um empate. Sete pontos. Primeiro lugar na tabela de classificação.

Se fosse Corinthians ou Grêmio a ocupar esta colocação significaria pouco além da afirmação da autoridade da dupla formada pelo campeão brasileiro e o da Libertadores através de suas identidades de jogo. Confirmadas com as conquistas estaduais superando seus maiores rivais.

No caso do Flamengo, que terminou 2017 com uma conquista estadual, dois vices e a última vaga direta na fase de grupos do principal torneio continental e que no Carioca deste ano construiu a melhor campanha nos dois turnos vencendo apenas clássicos contra o Botafogo, mas perdendo e sendo eliminado pelo mesmo rival no confronto mais importante, significa quase nada.

Não só pelas muitas fragilidades dos adversários, que neste momento da temporada podem vislumbrar apenas a luta para seguir na Série A. Principalmente por conta da turbulência política, dos problemas no comando do futebol, da inexperiência do treinador Mauricio Barbieri e da própria inconstância tática do time. Sem contar as oscilações no aspecto mental em grandes jogos.

As três partidas até aqui tiveram seus simbolismos. Primeiro a estreia oficial do time sob comando de Barbieri, cercada de expectativas depois de um período de 17 dias sem jogos valendo três pontos. Empate em 2 a 2 contra o Vitória no Barradão com arbitragem polêmica. Na segunda rodada, despedida de Julio César em um Maracanã cheio e nostálgico. E a equipe precisou de intervenções importantes do goleiro para segurar os 2 a 0 sobre o América.

No Castelão, o apoio da massa cearense em contraste com o clima hostil no aeroporto ainda no Rio de Janeiro criou um ambiente positivo para o jogo. Ajudado pelo “efeito Paquetá”. Com o jovem no meio-campo, auxiliando Cuéllar no combate e na construção e dando liberdade a Diego para jogar mais próximo de Henrique Dourado em um 4-1-4-1 que na prática se transformava num 4-2-3-1, a equipe rubro-negra cresceu coletivamente. Mesmo ainda insistindo nos cruzamentos na primeira etapa, colocou mais a bola no chão e construiu os 3 a 0 com naturalidade.

Vinícius Júnior foi outro destaque com um gol fazendo a infiltração em diagonal que se espera dele desde a promoção para o profissional e também o posicionamento perfeito na área para completar a assistência de Rodinei. No terceiro gol, a imagem da rodada com Diego, que confirmou ter sofrido agressão na sexta, comemorando nos braços da torcida. Gesto que pode ser o início de redenção se for acompanhado de evolução no desempenho em campo.

Enfim, um alento. Também a esperança de dias de paz e de que enfim as peças encontrem encaixe – o lado direito com Everton Ribeiro abrindo o corredor para o apoio de Rodinei demonstrou uma sintonia ainda não vista. Necessita, porém, de sequência. Consistência. Começando pelo duelo contra a Ponte Preta pela Copa do Brasil.

Assim como no ano passado, o destino na Libertadores será decisivo para a sequência da temporada. Se cumprir a missão de passar da fase de grupos a atmosfera será outra. Mas se novamente for eliminado tudo se transforma numa grande incógnita para depois da Copa do Mundo.

Por enquanto, a liderança no Brasileiro vale apenas pelo simbolismo de alcançar o topo da tabela, algo que não acontecia desde 2011. Com o time de Vanderlei Luxemburgo, Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves. O de 2018 tem muito mais a provar.


Gestão Bandeira de Mello confunde continuidade com continuísmo no Flamengo
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André Rocha

A pífia atuação do Flamengo no empate sem gols contra o Independiente Santa Fé em Bogotá pela Libertadores, com a equipe exagerando na cautela e satisfeita com o resultado que pouco acrescentou na campanha da fase de grupos, subiu ainda mais o tom de indignação dos torcedores contra jogadores e dirigentes, especialmente o presidente Eduardo Bandeira de Mello e o meia Diego Ribas.

Junte a isto a polêmica na reunião do Conselho Deliberativo para aprovar as contas de 2017, suspensa depois da discussão sobre a premiação de mais de dez milhões de reais – 7,7 para jogadores, 2,5 para comissão técnica e 800 mil para o ex- diretor executivo Rodrigo Caetano – em um ano de título estadual, vices da Copa do Brasil e Sul-Americana e sexta colocação no Brasileiro e temos um barril de pólvora.

É óbvio que o ano de eleição torna o ambiente político quase insuportável na Gávea e se o pagamento estava previsto dentro de um plano de metas ele tem mesmo que ser cumprido e o clube valorizar a possibilidade de honrar seus compromissos, algo inviável há menos de dez anos.

Mas todo esta crise é consequência do grande equívoco da gestão Bandeira de Mello na condução do futebol do time de maior torcida do país: confundir continuidade com continuísmo.

Quando há ideias dentro e fora de campo com planejamento e que geram desempenho vale a insistência até que comecem a resultar em troféus. Como no próprio Flamengo há quatro décadas, perdendo títulos seguidos para Fluminense e Vasco de 1975 a 1977, mas ganhando maturidade para em seguida alcançar as maiores conquistas da história da agremiação.

Agora há um time que é criticado por sua apatia e pouca entrega, mas que na maioria dos reveses se ressentiu mesmo da falta de rendimento. Porque as características dos jogadores não combinam com a proposta de jogar no ataque e se impor. Zagueiros lentos, laterais que oferecem poucas soluções além dos cruzamentos a esmo, meio-campistas sem o passe decisivo e um ataque que precisa de muitas oportunidades para ir às redes.

Não há plano de jogo que funcione. Com Zé Ricardo, Rueda, Carpegiani ou o novato Maurício Barbieri.  Sem triangulações, ultrapassagens, fluência. Só bolas levantadas na área e lampejos dos mais talentosos. Simplesmente não funciona.

E não há mudanças profundas, porque na visão do presidente basta insistir para dar certo. O “vamos levando” que se transformou na grande marca de sua administração que é histórica pelo saneamento das finanças, algo que não é mérito apenas de Bandeira de Mello, mas vai chegando ao fim do segundo mandato com o rótulo do insucesso no carro-chefe do clube.

A manutenção de Barbieri é a prova de que o crédito de um elenco caro e que entrega pouco em campo parece infinito. Os jogadores querem, os dirigentes atendem. O ápice dessa estranha relação foi o pedido de Bandeira para que os atletas o ajudassem depois da eliminação do Carioca. Sem cobranças, apenas afagos e súplicas.

A direção do futebol age como o pai que começa a ganhar dinheiro e cobre os filhos de mimos, deixando de ensinar o valor do esforço. Só que a maioria dos que lá estão não viveram os tempos difíceis para ganhar tantas recompensas.

O que é mais preocupante em toda essa crise é um pensamento crescente de que o futebol só funciona em meio ao caos financeiro e com jogadores “bandidos”. Este que escreve prefere não ficar recorrendo ao passado para comparar com a situação atual, mas neste caso é preciso: Zico era “bandido”? Em 1981 o salário atrasava? Definitivamente todo este cenário complexo não pode ser resumido à “falta de raça”.

É claro que, na prática, tudo seria diferente, por exemplo, com a conquista da Copa do Brasil. No país do futebol de resultados não se avalia qualidade de trabalho. E obviamente este blogueiro não defende que profissionais não tenham as melhores condições para exercer seus ofícios apenas porque não venceram. Muito menos que sejam agredidos, como quase aconteceu no embarque da delegação para Fortaleza.

Mas o momento exige ruptura que vai além das demissões após a eliminação no Carioca. Direção do futebol com independência e treinador com autonomia para mudar peças e o modelo de jogo. Ou seja, sair da inércia. Com a gestão Bandeira de Mello parece uma missão quase impossível. Porque há apego ao fracasso.

 


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
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André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


Flamengo é administrado pelas redes sociais e não pode ser levado a sério
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André Rocha

O “se” não existe no futebol nem na vida. Mas vale a reflexão: se a cabeçada de Henrique Dourado no segundo tempo que bateu na trave direita de Jefferson tivesse entrado e o Flamengo se classificado para a decisão do Carioca com o empate haveria essa “limpa” do departamento de futebol do clube?

O cenário seria previsível. Muitos torcedores reclamando de mais uma péssima atuação coletiva, mas a maioria ironizando a provocação de Luiz Fernando no gol do Botafogo e replicando os memes tradicionais depois de um jogo importante no futebol brasileiro.

E Rodrigo Caetano, Paulo César Carpegiani, Mozer, Jayme de Almeida, Rodrigo Carpegiani e Marcelo Martorelli seguiriam tranquilamente o seu trabalho pensando na final. Ou seja, uma derrota que tirou o time do torneio menos relevante da temporada foi o que, na prática, deflagrou um processo de reformulação mais profunda no carro-chefe do time mais popular do país.

Algo que já deveria ter ocorrido há algum tempo, mas como foi campeão carioca e chegou a duas finais ficou a impressão de que estava tudo indo bem e era questão de ajustes para a temporada 2018 ser consagrada pelos títulos importantes que prometeram à torcida depois que as finanças estivessem equilibradas.

É óbvio que há um componente político em ano de eleição e a gestão atual, acusada justamente por seu imobilismo, precisa do futebol competitivo para Bandeira de Mello fazer seu sucessor. Mas agora ficou ainda mais claro algo que já chamava a atenção de quem acompanha o cotidiano do clube.

O futebol do Flamengo é administrado pelas redes sociais. Um termômetro importante, mas que não pode ser tão considerado nos processos decisórios. No entanto, definiu contratações como Diego Alves e Reinaldo Rueda. Goleiro e treinador que vieram na carona das críticas contra Muralha e Zé Ricardo e empurraram os indecisos cartolas para uma solução.

Há uma distorção no Brasil quando o assunto é torcedor. Criou-se o mito de que ele é que manda no clube porque o sustenta com sua paixão. Indo ao estádio, comprando camisas e pagando pay-per-view. Inegável a importância. Mas o fanatismo não pode ser a cabeça em lugar nenhum. Ainda mais na nossa cultura guiada apenas por resultado e, a partir dele, se avalia desempenho.

Quer um exemplo? Em junho do ano passado este blog abordou a falácia de que Diego era o meia criativo do Flamengo. O “homão da porra” para a torcida à época. Poupado das críticas pela eliminação da Libertadores por ter ficado de fora, lesionado. O blogueiro foi massacrado nos comentários e nas redes sociais.

Só com o pênalti perdido na final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro e outras atuações ruins em partidas decisivas sem levar a equipe aos títulos esperados é que os apaixonados acordaram para a realidade. Alguns ainda negam, valorizando o esforço de quem é muito bem remunerado para pensar o jogo e desequilibrar. Mas só com derrotas parte da massa despertou para o óbvio. Mesmo que o rendimento do meia desde a volta de lesão no ano passado tenha sido, na média, bem abaixo do que se esperava para um camisa dez com tanta grife e salários tão altos.

Por isso quem está de fora não pode definir quem fica e quem sai. Nem torcida, nem jornalistas. Se alguma decisão foi tomada apenas pela influência de uma crítica ou elogio de um analista também está errado. O futebol precisa ser guiado por quem entende todos os processos e conta com as ferramentas para avaliar dia a dia e jogo a jogo o desempenho, dentro e fora de campo.

E agora? Vão definir os substitutos dos demitidos em enquetes na internet? Este que escreve não duvida mais de nada.

O Flamengo se vangloria de ser o clube com mais interações nas redes. Para manter a massa participativa dá mais ouvidos do que deveria e, sem um mínimo de racionalidade, parece um barco à deriva. No futebol e na vida, quem precisa de alguém de fora para gerir a sua casa não pode ser levado a sério.


A virada sobre virada do Vasco e os vários jogos dentro de uma partida
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André Rocha

Talvez influenciados pelo segundo tempo dos 3 a 0 sobre o Botafogo no qual se posicionou melhor defensivamente num 5-4-1, Abel Braga e seus comandados definiram desde o início do clássico no Maracanã que o Fluminense teria uma postura mais cuidadosa e baseada em contragolpes na semifinal do Carioca. Até pela vantagem do empate por ter conquistado a Taça Rio.

O Vasco se impôs em boa parte do primeiro tempo também pela nítida preocupação de evitar as jogadas pelos flancos do rival. Rafael Galhardo entrou na lateral direita, adiantando Yago Pikachu e mais Wellington para auxiliar no bloqueio a Ayrton Lucas, Richard e Sornoza. Do lado oposto, Fabrício, Wagner e Desábato tentavam negar espaços a Gilberto, Jadson e Marcos Júnior. Ou seja, impedir que o tricolor construísse seu volume de jogo.

Conseguiu e abriu o placar com Giovanni Augusto, outra surpresa de Zé Ricardo na formação que atuou novamente num 4-2-3-1 com Riascos mais adiantado. Bela jogada de Pikachu pela esquerda e vacilo de Renato Chaves. Mas logo que o Flu adiantou as linhas e se propôs a ser mais agressivo na frente, o lado esquerdo cruzmaltino falhou. Fabrício permitiu que Gilberto chegasse ao fundo e servisse Pedro. O sétimo gol do agora artilheiro isolado do estadual.

O jogo virou e o Flu ficou mais à vontade, ganhou confiança e espaços para arquitetar contragolpes. Na cobrança de falta com a barreira abrindo, Sornoza parecia encaminhar a classificação. A disputa chegou a parecer que penderia em definitivo para o lado de quem vencia e podia até ceder a igualdade no placar.

As substituições seguiram um roteiro óbvio. Vasco se jogando à frente com Andrés Rios, Thiago Galhardo e Paulinho, a joia vascaína que foi às redes no belo gol de empate em tabela rápida com Wellington. Fluminense trocando o trio ofensivo e mandando a campo Marlon, Douglas e Pablo Dyego. Seguir fechado e manter o fôlego na frente para explorar os espaços que apareciam cada vez mais generosos.

O Vasco tentou um abafa, o Flu ameaçou em contra-ataques. Equilíbrio na posse de bola (51% x 49%), 11 finalizações tricolores, 14 vascaínas – duas na direção da meta de Martín Silva, seis do Vasco no alvo. Na última da partida, a tentativa aleatória, na ligação direta desesperada. Todos cansados e guiados muito mais pelo instinto do que por um plano racional. Outro jogo à parte dentro do contexto. A bola encontrou o heroi improvável: Fabrício, substituto de Henrique que era vaiado pela torcida. 3 a 2.

Os tricolores lamentarão a cautela de Abel e as chances desperdiçadas, os vascaínos exaltarão a coragem de Zé Ricardo e a perseverança dos vencedores. Mas no fundo não passa de análise tomando como base apenas o resultado. Poderia ter acontecido qualquer coisa em mais um embate eletrizante no esvaziado Carioca.

O Vasco virou sobre a virada do Flu. Saiu vivo nos vários jogos dentro de uma mesma partida e vai à decisão contra o Botafogo. A terceira entre os clubes em quatro anos. De novo teremos um campeão sem vencer turno. Azar de quem assinou o regulamento e não se garantiu no campo.

(Estatísticas: Footstats)


Botafogo acerta um ataque e está na final. Flamengo não tem repertório
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André Rocha

Trinta e oito minutos do primeiro tempo. Rodrigo Lindoso, substituto de João Paulo como articulador no 4-2-3-1 do Botafogo de Alberto Valentim, acerta passe nas costas de Paquetá para Marcinho. O lateral chegou ao fundo e rolou para trás. Luiz Fernando apareceu às costas de Everton e antecipando a Rhodolfo para tirar de Diego Alves. Na comemoração, o atacante provocou o rival ironizando o “cheirinho”.

Objetivamente, foi a única jogada bem engendrada pelas equipes em mais de noventa minutos. O gol da classificação do Botafogo. Dentro de uma atuação com mais intensidade na marcação, especialmente na primeira etapa. Foram 12 desarmes corretos contra dez do Flamengo, mas nove dos alvinegros contra apenas um rubro-negro nos primeiros 45 minutos.

A derrota no estadual não deveria ser trágica para um time disputando a Libertadores. O que é preocupante e muito no Flamengo é o desempenho. A atuação foi pluripatética. Infelicidade desde a escolha de Jonas e Willian Arão como os volantes para a mudança do sistema para o 4-2-3-1, deixando Cuéllar no banco. Um absurdo.

Passando pelo impasse entre Paulo César Carpegiani e Vinícius Júnior. O treinador queria o jovem atacante pela direita, mas o menino se sente mais à vontade do lado oposto. O resultado é que muitas vezes Paquetá e Vinícius, que deviam ocupar os flancos, ficavam no mesmo lado abandonando Pará à própria sorte pela direita.

Nas redes sociais houve muitos protestos de flamenguistas contra o post deste blog sobre a classificação do Fluminense na semifinal da Taça Rio. O texto afirmava que o time de Abel Braga tem mais repertório que o rival, ainda que este tenha finalizado muito mais vezes e permanecido no campo de ataque por mais tempo depois do gol de Gum que abriu o placar no Estádio Nílton Santos.

O que é difícil de fazer entender é que um time que fique com a bola, mesmo que rode, rode, rode até levantar na área, inevitavelmente vai conseguir finalizar. No abafa, na vitória do atacante na impulsão, no corte para dentro e chute. Mas não significa que há jogada. Repertório. Não existe.

O Flamengo é um deserto de ideias. O time que vivia do pivô de Paolo Guerrero para dar sequência às jogadas e sofria porque não tinha o centroavante na área para finalizar agora tem Henrique Dourado sem a mínima qualificação técnica para fazer a parede e mesmo finalizar. Mesmo cabeceando na trave na segunda etapa.

Um dos 45 cruzamentos do time na semifinal. Treze de Diego. Três corretos, sempre na bola parada. Impressiona como Tite pode pensar no camisa dez como um meio-campista organizador. Desde o ano passado saltava aos olhos a total falta de criatividade do meia. Repetindo pela enésima vez: domina, gira, dá mais um toque e, com a marcação do adversário montada, o passe para o lado ou para trás. Quando arrisca algo mais objetivo vem o erro.

O ensaio do início da temporada com mobilidade dos meias no 4-1-4-1 foi abandonado pela falta de sequência com qualidade. O time continua vivendo de cruzamentos e lampejos. O mesmo da segunda metade do trabalho de Zé Ricardo e no período sob o comando de Reinaldo Rueda.

Uma carga muito pesada para os ombros de Paquetá e Vinícius Júnior. Jovens precisam de um trabalho coletivo para potencializar o talento. Tudo que o Flamengo não tem. Realidade dura para quem investe tanto. Mas é preciso aceitar. E mudar o quanto antes.

O Botafogo nada tem a ver com isso. Lutou, buscou pressionar mais o adversário com a bola, bloqueou de forma organizada com duas linhas de quatro e contou com Jefferson, substituto de Gatito Fernández a serviço da seleção paraguaia, para suportar a pressão aleatória do rival. Faltou coordenar mais contragolpes para tirar o oponente um pouco da própria área. Não conseguiu, mesmo com a entrada de Rodrigo Pimpão na vaga de Leo Valencia.

Finalizou 12 vezes, três no alvo. A única bola na rede no clássico. A solitária jogada bem pensada e executada. O melhor estava por vir depois da fratura de João Paulo: a final do Carioca que parecia improvável.

(Estatísticas: Footstats)