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São Paulo goleia com pragmatismo, depois beleza. Jardine vence 1ª “final”
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André Rocha

André Jardine já entendeu que precisa de resultados para não ser fritado rapidamente no São Paulo em um clima hostil para um jovem treinador – torcida impaciente, parte da imprensa já “sugerindo” a troca por um nome mais experiente e necessidade de desempenho imediato pelos compromissos na primeira fase da Libertadores. Vai se manter jogo a jogo, vitória a vitória.

A solução, então, é trabalhar conceitos quando for possível treinar e ter cartas na manga para simplificar processos e usar “atalhos” para chegar ao gol. A solução encontrada na virada sobre o Mirassol por 4 a 1 no Pacaembu foi a jogada aérea com bola parada. Uma cabeçada letal em cada tempo.

Cobrança de escanteio pela esquerda de Nenê, gol de Anderson Martins para empatar depois do gol contra de Bruno Peres que parecia o prenúncio de uma tragédia já no primeiro ato. No mesmo lado, Reinaldo bateu falta e Pablo marcou em sua primeira partida oficial.

Com a equipe mais tranquila e confiante, o tricolor pôde trabalhar a bola, Hudson preencher o espaço que havia entre os volantes e Nenê na execução do 4-2-3-1 com a ausência de Hernanes por não estar inscrito no BID a tempo e o jogo, enfim, fluiu naturalmente. Cobrança de falta de Nenê no travessão. O próprio camisa dez conduziu até servir Reinaldo no terceiro.

O que parecia dramático ganhou um toque de espetáculo com belas jogadas e números de goleada no chutaço de Hudson no ângulo do jovem goleiro Matheus Aurélio. Um minuto antes do volante sair aplaudido para a entrada de Liziero. Outro clima no estádio e em campo.

Com um a mais depois da expulsão de Leandro Amaro foi possível “treinar”, já que a equipe praticamente não teve pré-temporada por conta da viagem para a Flórida. Um luxo para quem terá que ser competitivo já em fevereiro contra o Talleres.

É possível investir em mais infiltrações em diagonal dos ponteiros Helinho e Everton, alternando com os laterais Bruno Peres e Reinaldo nas investidas abertos ou atacando os espaços por dentro. Com os deslocamentos de Pablo, muitas vezes falta presença física na área adversária para receber os cruzamentos. O trabalho pelo centro também não precisa depender tanto de Nenê.

O meia veterano inclusive pode abrir o leque de opções para Jardine. Em partidas que seja preciso mais criatividade e passe qualificado, Nenê e Hernanes podem atuar no meio à frente de apenas um volante. O camisa dez é alternativa também como ponta articulador, saindo do flanco e circulando às costas do meio-campo adversário e se juntando ao “Profeta” para articular.

Questões para pensar e testar. Fundamental é seguir vencendo para ir a Argentina com confiança. No segundo mês de 2019 o São Paulo já tem decisão. Na prática, são várias finais para Jardine. A primeira foi vencida.

O cenário não dá brechas para oscilações. Uma insanidade em começo de temporada. Mas parece que o treinador já entendeu e acrescentou pragmatismo ao seu repertório. Faz bem.


Com Goulart, Palmeiras consolida ideia de dois times fortes na temporada
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André Rocha

Foto: Divulgação Palmeiras

O Palmeiras vive aquele período mágico no qual já tem um elenco forte e vencedor, só necessita de contratações pontuais e, também por conta da solidez financeira, muitos jogadores querem vestir a camisa do clube e participar desse momento de conquistas.

Mas desta vez a ida ao mercado foi um pouco mais voraz. Zé Rafael, Arthur Cabral, Carlos Eduardo, Felipe Pires, Matheus Fernandes e agora Ricardo Goulart. Sem contar a contratação de Mayke, que estava emprestado pelo Cruzeiro, e o retorno de empréstimo de atletas como Raphael Veiga e Fabiano.

O cenário no Brasil é de mercado aberto durante praticamente todo o ano, mas o Palmeiras acertou ao tomar a iniciativa desde o final de 2018 e definir a grande maioria das contratações ainda na pré-temporada. Quanto mais rápido o atleta estiver ambientado ao clube, à cidade, aos companheiros e ao modelo de jogo da equipe, melhor. Algumas agremiações esperam demais e o jogador acaba chegando no olho do furacão, com jogos em sequência, sem tempo para treinar e já pressionado por resultados imediatos.

A proposta é clara: consolidar a ideia de contar com dois times fortes na temporada. Primeiro Paulista e Libertadores, depois pontos corridos (Brasileiro) e mata-mata (Copa do Brasil e o torneio continental). Elenco farto e equilibrado, de qualidade equivalente em todas as posições e funções. Nas entrevistas, Luiz Felipe Scolari tem usado muito a palavra “característica”. Com razão. É a chave para atender as demandas que podem surgir na temporada. O objetivo é repetir 2018 e disputar todos os títulos, porém com mais conquistas que o Brasileiro. A obsessão pela Libertadores é evidente.

Com Carlos Eduardo a ideia é ter velocidade na transição, um jogador que possa ser referência para lançamentos quando o time estiver pressionado. Um desafogo. Zé Rafael chega para adicionar técnica ao meio-campo. Pode também atuar como ponta articulador partindo da esquerda, assim como Gustavo Scarpa do lado oposto. Matheus Fernandes vem para que Felipe Melo, Thiago Santos e Bruno Henrique não precisem ficar se revezando na função de volante ou Moisés seja obrigado a recuar. Arthur Cabral pode atuar pelos lados ou disputar posição com Borja e Deyverson no centro do ataque.

Já Ricardo Goulart é jogador para fazer a equipe subir ainda mais o patamar no país e no continente. Não é meia de organização. Funciona mais como uma espécie de “ponta de lança” moderno. Atua como meia central num 4-2-3-1, mas faz praticamente uma dupla com o centroavante. Tem excelente leitura de espaços e ótima finalização. Marcou 102 gols em três temporadas na China.

No estilo simples e direto de Felipão, vai aproveitar a parede do atacante de referência nas bolas longas para receber e infiltrar. Forte também no jogo aéreo para completar as jogadas pelos flancos. O treinador conhece bem o potencial de Goulart dos tempos de Guangzhou Evergrande.

Se Dudu e o clube não resistirem às investidas do futebol chinês, Goulart também pode assumir a bronca de ser o líder técnico, a referência do Palmeiras. Em recuperação de lesão, só deve estrear em março, na Libertadores. Será uma opção com características diferentes das de Moisés, Lucas Lima, Guerra e Raphael Veiga.

A tendência é que Felipão defina dois times e faça alterações por meritocracia – como foi a mudança na zaga, com Luan e Gustavo Gómez virando titulares na reta final do Brasileiro – e também pelo contexto do jogo. Cabe ao treinador e à comissão técnica manter todos mobilizados e trabalhar as variações, inclusive cumprindo a promessa de trabalhar mais a bola em determinados momentos para evitar o bate-volta que desgasta física e mentalmente.

O treinador não quer sofrer nem improvisar por conta de lesões e suspensões, como aconteceu no empate contra o Flamengo no Maracanã pelo returno, nem com as ausências forçadas nas datas FIFA. A meta é ser competitivo sempre, inclusive com boas opções no banco em todas as partidas.

As perspectivas são as melhores. O Palmeiras foi ao mercado com agilidade e inteligência. Um mérito, mesmo considerando que a fase é mais de oferta que procura. Todos querem jogar no campeão brasileiro. A boa notícia para os 30 atletas que devem formar o elenco é que a grande maioria terá bons minutos na temporada para mostrar seu valor.


Para Alecsandro, “falso nove” é uma mentira. O que diz a história do jogo?
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André Rocha

– Camisa nove pra mim tem que fazer gol. Quem veste esse número é o cara mais próximo ao gol. Quando isso não acontece e o treinador arma o jogo para isso acontecer, vai dar errado. Está se usando falso nove, isso não existe. Ou cara é nove ou não é. Vou confessar uma coisa, os treinadores têm medo de dizer que estão sem centroavante, estão jogando com meia e falam que estão com falso nove. Os treinadores não falam para a imprensa não pegar no pé, tudo mentira. O camisa nove tá em falta, o falso tem um monte por aí.

Palavras de Alecsandro, centroavante de 37 anos, em sua primeira entrevista como jogador do São Bento. Filho de Lela, irmão de Richarlison, com passagem por Atlético Mineiro, Vasco, Internacional, Flamengo e Palmeiras. Talvez incomodado com a perda de espaço ao longo do tempo. Quem sabe embalado pelo senso comum – seguido por muita gente boa, boleiro ou não – que está até em música: “o centroavante é o mais importante”.

Foi tantas vezes, com Romário, Ronaldo, Careca, Van Basten, Gerd Muller, Hugo Sánchez e muitos outros que eternizaram a função, que Dadá Maravilha chamava de profissão junto com a do goleiro. Ainda decisivo no país. Desde Edmundo em 1997, o artilheiro do Brasileiro, ou um deles quando o posto de goleador máximo era dividido, jogava como centroavante: Romário, Adhemar, Guilherme, Viola, Magno Alves, Luís Fabiano, Dimba, Washington, Souza, Josiel, Keirrison, Kléber Pereira, Adriano, Diego Tardelli, Jonas, Borges, Fred, Éderson, Ricardo Oliveira, Jô, Henrique Dourado e Gabriel Barbosa. O próprio Edmundo jogou mais adiantado que Evair naquele Vasco.

Fundamental em vários momentos, mas não obrigatório como ele faz parecer. E a história do jogo mostra vários exemplos de jogadores que desequilibraram atuando como “falso nove”. Ou seja, no centro do ataque, mas com liberdade de movimentação, caindo pelos lados,  circulando entre a defesa e o meio-campo do adversário ou recuando e abrindo espaços para as infiltrações dos companheiros. Craques ou não que contribuíram significativamente para a evolução do esporte.

Desde Matthias Sindelar do Wunderteam da Áustria dos anos 1930, passando por Nandor Hidegkuti da Hungria de 1954, Alfredo Di Stéfano no Real Madrid multicampeão dos anos 1960, Johan Cruyff no Ajax, Barcelona e na seleção holandesa nos anos 1970. Saindo da posição mais adiantada sem a bola para circular por todo o campo. Armando, marcando, atacando o espaço certo. Pensando o jogo.

No Brasil, a segunda metade dos anos 1980 apresentou um exemplo clássico de adaptação para passagem de bastão. Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do campeonato brasileiro com 190 gols, recuou no centro do ataque do Vasco comandado por Antonio Lopes para servir um jovem centroavante adaptado à ponta esquerda: Romário. O Baixinho, em início de carreira, aprimorou as infiltrações em diagonal que o consagrariam ao longo da carreira para receber os passes do camisa dez cruzmaltino.

Inspiração para Vanderlei Luxemburgo, que trabalhou como auxiliar de Lopes em outros clubes, na década seguinte adaptar Evair, que tinha Dinamite como grande ídolo, para atrair a marcação dos zagueiros e acionar Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, infiltrando em diagonal no Palmeiras bicampeão paulista e brasileiro em 1993 e 1994.

Outro time ainda mais vencedor foi o São Paulo de Telê Santana. Bicampeão da Libertadores e Mundial. Quem era o centroavante num ataque com Cafu, Raí, Palhinha e Muller? Sem contar o Brasil de 1970, considerado o maior time de todos os tempos, com Tostão também adaptado ao centro do ataque. Aproveitando a experiência no Cruzeiro que atuava com dois pontas abertos e o “ponta de lança” revezando com Dirceu Lopes na chegada à área adversária. Na seleção de Zagallo, procurava o lado esquerdo deixando o centro para as infiltrações de Pelé ou as diagonais de Jairzinho partindo da ponta direita.

Chegar na área como elemento surpresa e não a referência do ataque, mas também dos defensores. Foi o que consagrou todos eles. Também o que fez o futebol de Messi explodir no Barcelona de Pep Guardiola, especialmente na temporada 2010/11. O gênio argentino trabalhava entre linhas, recuava para trabalhar com Busquets, Xavi e Iniesta – formando o que provavelmente foi o melhor “losango” de meio-campo em todos os tempos – e aparecia na área para finalizar ou servia os pontas Pedro e Villa. Time que só não repetiu a tríplice coroa de 2008/09 por causa de um gol do Real Madrid na prorrogação da final da Copa do Rei.

De Cristiano Ronaldo, outro que é referência técnica de qualquer ataque que faça parte, mas precisa de um parceiro mais fixo na área adversária para fazer o “trabalho sujo”. Na Juventus é Mandzukic que luta com os zagueiros e fica no centro para o português se desmarcar da ponta para dentro e finalizar. Mais um caso em que o centroavante não é a estrela.

Com linhas de marcação compactas, concentração defensiva e muita análise de desempenho em clubes e seleções, o jogador mais estático, o centroavante “raiz” tende a encontrar mais dificuldades. O time fica mais previsível e os companheiros induzidos a alimentar aquele que só aparece quando vai às redes. A função vai se transformando com Lewandowski, Diego Costa, Harry Kane, Luis Suárez e Edinson Cavani. Todos móveis e inseridos num trabalho mais coletivo.

Até Mohamed Salah vai se aprumando na função no Liverpool de Jurgen Klopp. Antes um atacante de lado, explora a velocidade, intensidade e capacidade de se deslocar e abrir espaços para que o ataque ganhe versatilidade e mais um elemento. Agora um quarteto que pode ter Shaqiri, Wijnaldum ou Keita junto com Mané e Firmino, que cresce quando recua como meia, mas também se destacava…como “falso nove”.

No Paulista que o “Alecgol” vai disputar, o atual campeão Corinthians encontrou o melhor encaixe no torneio e na temporada alternando Jadson e Rodriguinho na frente. Uma espécie de 4-2-4 sem referência ou o tipico homem-gol.

Alecsandro está na reta final da carreira como jogador. Se quiser se manter no meio do futebol é melhor abrir um pouco a mente e aceitar uma verdade inexorável deste esporte que tanto amamos: há várias formas de jogar e vencer. Muitas verdades e poucas mentiras. Sem dogmas, nem preconceitos.

 


Carille volta ao Corinthians com status (e pressão) de “terceiro arquiteto”
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André Rocha

Em dezembro de 2016, Fábio Carille foi anunciado como treinador do Corinthians com zero pompa e circunstância. Quarta opção depois de negativas de Guto Ferreira, Dorival Júnior e Reinaldo Rueda, estava cercado de desconfianças após ter recebido uma oportunidade no lugar de Cristóvão Borges, o sucessor de Tite, e em seguida o clube optar pela experiência de Oswaldo de Oliveira.

Dois anos depois, a recepção no aeroporto foi digna do comandante nas três últimas conquistas do clube antes de partir para o Al-Wehda: dois títulos paulistas e o Brasileiro de 2017. Agora com luz própria, sem o rótulo de discípulo de Tite. Ainda que o resgate da identidade corintiana seja a grande esperança de torcida e diretoria para 2019.

Antes havia a pressão natural de um time grande  – Carille chegou a balançar nos primeiros meses de 2017 com resultados e desempenho mais que questionáveis. Mas a rigor a expectativa era quase nenhuma. O técnico focou primeiro em resultados que sustentassem o trabalho e o tempo entregou o time base que surpreendeu e fez história, ainda que estivesse longe da “quarta força” que foi utilizada como provocação para mobilizar e terminou o ano como tema principal do desabafo pós títulos.

Agora, mesmo que Mano Menezes tenha sido procurado primeiro por Andrés Sánchez, só fica a responsabilidade de tentar repetir o feito. Mas desta vez sem efeito surpresa e com o currículo trazendo confiança, mas também a cobrança desmedida típica do futebol brasileiro. Mais uma vez o óbvio precisa ser dito: Carille não vai entrar em campo. E desta vez será o grande chefe, não aquele auxiliar que estava sempre por ali colaborando nos treinos sem protagonismo e que precisava da ajuda de todos na maior oportunidade da carreira.

Os insucessos de Osmar Loss e depois de Jair Ventura, também com pouca rodagem, deixaram claro que o Corinthians não trabalhava numa espécie de “piloto automático” independentemente da qualidade do comando e também do elenco. O time sentiu o desmanche, mas também a falta das mãos que participavam dos processos há muito tempo.

É possível formar de novo um time competente em 2019. Ramiro é volante que ajeita meio-campo, aberto ou por dentro. Se “Gustagol” retornar do Fortaleza com a mesma confiança de artilheiro pode ser a solução “caseira”, ainda que não tenha as características de Jô, fundamental em 2017. É possível também retomar a dinâmica ofensiva sem referência, com dois ponteiros e uma dupla de meias por dentro alternando como “falso nove”. Pedrinho é talento que ganha maturidade e pode ser uma peça desequilibrante com mais regularidade.

Há uma base experiente com Cássio, Fagner, Henrique, Jadson e Romero. Luan do Atlético-MG está na mira para ser o ponteiro de rapidez e intensidade. Sornoza é meia com qualidades, mas depende muito dos estímulos para demonstrar consistência. Richard, também vindo do Fluminense, é opção de volante para proteção e infiltração na área adversária.

Na capacidade de investimento será bem difícil competir com Palmeiras, Flamengo, Grêmio e Cruzeiro. Mas se conseguir novamente associar mentalidade vencedora e capacidade competitiva, com solidez defensiva e eficiência no ataque tendo a concentração como a grande marca do time em campo, o Corinthians pode retomar o norte do período mais vencedor de sua história.

Mas com um novo Fabio Carille. Carregando a dor e a delícia de ser visto em um patamar não tão distante de Mano Menezes e Tite. Não mais o auxiliar que deu certo e sim o “terceiro arquiteto” da sólida construção corintiana dos últimos dez anos. Não é pouco e a cobrança virá na mesma proporção.


Sampaoli chega ao Santos no pior momento para trabalhar no Brasil
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André Rocha

Foto: Robert Ghement/EFE

Numa entrevista em 2009, Andrés D’Alessandro se deixou levar pela irritação ao ser alvo de críticas da imprensa gaúcha por atuações irregularidades pelo Internacional e soltou uma daquelas verdades inconvenientes. Óbvia, mas que muitos preferem varrer para debaixo do tapete: “se atuasse bem sempre estaria na Europa, não no Brasil”.

O argentino Jorge Sampaoli viveu seu auge comandando a seleção chilena. Uma sucessão lógica de Marcelo Bielsa, seu grande mestre, depois de ótimo trabalho na Universidad de Chile. Campeão da Copa América em 2015, citado como um dos melhores treinadores do mundo…foi parar no Sevilla.

Na principal liga do planeta, disputando muitas vezes em igualdade com os gigantes Barcelona e Real Madrid, parecia ter mudado definitivamente de patamar. Mas uma oscilação na Espanha e o convite para tentar tornar competitiva a seleção argentina para a Copa do Mundo na Rússia fizeram Sampaoli dar nova guinada na carreira.

A escolha se mostrou equivocada, já que seus trabalhos precisam de tempo para implementação e consolidação. A fidelidade aos conceitos e princípios exige processos que não podem ser tocados à forceps ou no improviso. Em nenhum momento dos 12 meses na AFA a albiceleste teve algo próximo do seu estilo. Desempenho ruim em amistosos, campanha pífia no Mundial com vaga no apagar das luzes da fase de grupos e eliminação nas oitavas para a França.

Agora o Santos, sucedendo Cuca. Primeira experiência no futebol brasileiro depois de anos de sondagens de grandes clubes. Justo no momento em que a onda mudou e treinadores estrangeiros e com status de “modernos” perderam a aura de solução.

Exatamente porque por aqui não há paciência sequer para o profissional aprender o idioma a ponto de garantir uma comunicação que torne o contato mais próximo. Sampaoli gosta de atuar com a defesa adiantada, posse de bola agressiva, rodízio no elenco e mudança no desenho tático de acordo com o adversário. Tudo que Rogerio Ceni, fã confesso do argentino, tentou no São Paulo, clube do qual é considerado o maior ídolo, e não conseguiu.

Vivemos a era de um jogo mais funcional, de fácil assimilação e simples execução. Ninguém quer o protagonismo para não cair na armadilha de ter a bola, perdê-la e ser derrotado pelo espaço que não teve atacando e cedeu para as transições ofensivas rápidas do oponente. Os clubes querem os “malandros”, não os “teóricos”.

Ainda que um típico profissional vindo da universidade como Tiago Nunes tenha dado um choque de realidade no Athletico “lúdico” de Fernando Diniz, um ex-jogador. O confronto é de ideias e ideais, não de origem. O foco é no resultado puro e quem chega com discurso sobre modelo de jogo ou qualquer coisa que simbolize algo mais elaborado já é tratado com preconceito. “Não é para nós”, dizem.

Sampaoli chega com pouco tempo para trabalhar na pré-temporada e as cobranças típicas do nosso imediatismo. Junte a isso uma certa “resistência” com estrangeiros de parte da torcida e da imprensa – sem contar o olhar enviesado dos colegas brasileiros, sempre com um pezinho na reserva de mercado – e temos um cenário bastante complexo para ele. Mesmo que a festa no aeroporto sinalize otimismo e tolerância.

O treinador argentino deve ter ciência do terreno em que está pisando. A questão é se vale a aposta no futebol brasileiro neste momento de reconstrução da carreira. Ainda que, como D’Alessandro, ele saiba que não há espaço no momento para se aventurar de novo em um grande centro, o Santos é um enorme desafio. Com chances igualmente grandes de dar muito errado.

 


São Paulo e Internacional: gigantes ancorados no passado precisam despertar
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André Rocha

Em 2006, Internacional e São Paulo decidiram a Libertadores. Dois anos depois, o tricolor paulista era tricampeão brasileiro e o Colorado vencia uma Copa Sul-Americana com Tite no comando técnico.

Uma década se passou desde então e a eliminação da dupla na Copa do Brasil antes das oitavas de final, quando entram os times envolvidos com Libertadores, é emblemática. Ainda que os méritos de Atlético Paranaense e Vitória sejam enormes.

Simbolizam clubes que depois de um período muito vitorioso acreditaram na utopia de ostentarem uma fórmula vencedora no cíclico futebol brasileiro. Confundiram manutenção da linha de trabalho com “continuismo”. Hoje se veem dando voltas em torno do próprio rabo.

No Internacional, de 2002 a 2016 orbitaram no comando Fernando Carvalho, Giovanni Luigi e Vitório Piffero, culminando com a página mais triste da história do clube: o rebaixamento. Só assim para vingar uma candidatura de oposição. Mas nem tanto assim, já que Marcelo Medeiros, o atual presidente, trabalhou na direção das categorias de base na gestão de Fernando Carvalho.

É claro que a década não pode ser considerada perdida. Além do bem sucedido plano de sócio-torcedor e a modernização do Beira-Rio, o Inter conquistou outra Libertadores em 2010 e impôs um domínio estadual com oito conquistas, seis consecutivas. A importância dada ao Gauchão até se entende pela rivalidade com o Grêmio.

O período sem conquistas relevantes do tricolor, incluindo um rebaixamento em 2005, talvez tenha acomodado ainda mais o Colorado. Só com a virada na “Era Renato Gaúcho” desde a Copa do Brasil em 2016, coincidindo com o próprio rebaixamento,  para a constatação do mau momento vir forte. Mas mudar a direção do olhar não é fácil. Mais simples continuar tratando o passado como referência e ainda depender do talento de Andrés D’Alessandro aos 37 anos.

O mesmo vale para o São Paulo. De 2006 a 2014 com Juvenal Juvêncio. Depois Carlos Miguel Aidar até a renúncia e a chegada de Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco. Sempre os mesmos cardeais no poder, blindados por um estatuto antiquado e protecionista.

Ultrapassado por Corinthians e Palmeiras com suas arenas e pelo Santos na Era Neymar. Sem o poder do Morumbi como único grande palco na cidade para jogos e espetáculos. Mas principalmente pela fé de que bastava seguir a mesma receita de bolo para tudo voltar aos “bons tempos”.

Nestes dez anos, apenas a Sul-Americana de 2012 como conquista com alguma relevância. Nenhum estadual. Ainda a seca histórica na Copa do Brasil, que em 2019 completa 30 anos. Pior é a sensação de que um gigante de seis títulos brasileiros, três Libertadores e três Mundiais está, na prática, se tornando um time médio.

As trocas seguidas de treinadores e jogadores demonstram uma incerteza quanto ao futuro. Paradoxalmente, o clube sempre parece mirar o passado atrás de um porto seguro. Contar com Raí, Ricardo Rocha e Lugano na diretoria é um exemplo claro. Só que eles não entram mais em campo. E as decisões nestes primeiros meses não parecem muito diferentes das práticas dos antecessores.

É preciso despertar. Também ter a humildade de aprender com os rivais. Se Corinthians e Grêmio hoje possuem uma identidade no futebol, São Paulo e Internacional continuam sem face. Ou com um rosto envelhecido desejando o vigor do passado. Sem ruptura ou reinvenção.

Só ficou a grandeza da história. Mas de gigantes ancorados, que ainda não se convenceram que o tempo não pára e é preciso seguir em frente, sem o olhar fixo no retrovisor.


Palmeiras precisa de calma, que nunca foi sinônimo de apatia
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André Rocha

O título brasileiro de 2016 já foi a coroação de uma nova etapa na vida do Palmeiras, uma sequência da conquista da Copa do Brasil no ano anterior. Ainda que com treinadores diferentes, primeiro Marcelo Oliveira e depois Cuca.

Mas 2017 chegou e, com mais investimentos em busca do título da Libertadores, que seria a evolução de um trabalho, o patamar de cobrança deu um salto proporcional ao que se gastou. Mas não condizia com o amadurecimento de uma identidade.

Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, volta de Cuca, Alberto Valentim e agora Roger Machado. Seis trocas de treinador em três anos. Características e momentos na carreira bem diferentes. Não há linha de trabalho aí. Um fio condutor. Mais contratações em profusão, com jogadores superestimados ou descartados com uma amostragem pequena de partidas. Porque não há consistência coletiva para potencializar a qualidade individual.

Pior ainda é essa panela de pressão com fogo alto, sempre próxima da explosão. Há quem defenda esse clima beligerante como “coisa de time grande”. Como se a calma para tomar decisões pudesse ser confundida com apatia, conformismo.

Longe disso. Nunca foi. Pressão normal, sim. Quando a exigência é infinitamente maior do que o que se pode entregar naquela etapa do processo é a senha para uma eterna busca, trocando tudo e chegando a lugar algum.

Quando Roger parecia começar a encontrar um norte que faria a equipe crescer e impor a superioridade do conjunto de suas individualidades, veio a avalanche de um clássico decisivo saturado de rivalidade e tensão. Logo o Corinthians, este sim, time com identidade e, mesmo perdendo peças e não fazendo a reposição do mesmo nível por problemas financeiros, segue sua filosofia.

O clube preferiu surtar. Desde o presidente. Por causa de um pênalti não marcado, de Ralf sobre Dudu. Sem ninguém se dar ao trabalho de se perguntar algo básico: com os jogadores com os nervos em frangalhos será que a penalidade seria convertida? A julgar pelo estado emocional de Dudu e Lucas Lima, lideranças técnicas que falharam na decisão por pênaltis, difícil prever.

Contra o Boca Juniors, a forte impressão de que o time foi tragado por essa onda de cobranças ou do desvio de foco do campo com o presidente Mauricio Galiotte culpando a Federação Paulista por mais um título perdido em sua gestão. Não é questão de avaliar se o protesto é justo ou não. Mas o que vai contribuir para a sequência da temporada?

Atuação coletiva fraca, com equívocos por nítida ansiedade que atrapalha a concentração dos atletas. E fica difícil acertar em tomadas de decisão e na parte técnica com um entorno tão complicado. Dudu e Lucas Lima de novo ficaram devendo. Keno acabou se destacando não só pelo gol, mas pela confiança em meio ao caos. Uma exceção.

Mas aí Antonio Carlos falhou novamente. O zagueiro que ganhou a vaga e parecia se firmar exatamente quando o coletivo começava a crescer errou no gol de Rodriguinho no Allianz Parque e vacilou de novo na jogada que terminou nas redes de Jailson com Tevez completando assistência de Pavón. Dois minutos depois do gol alviverde, já nos acréscimos.

Sintomático. Um gol no início do dérbi, outro no fim do jogo mais esperado da primeira fase do torneio continental. Será que com um ambiente menos complexo a chance do jogador entrar mais focado no jogo não aumentaria e, consequentemente, a margem de erro não reduziria?

Difícil avaliar quando a derrota para o Corinthians por 2 a 0 ainda na fase de grupos, sem grandes prejuízos, vira motivo para caça às bruxas. Joga-se a culpa nos jogadores, na falta de “raça”, na arbitragem, no azar… E ninguém tem a curiosidade de ver o que funciona no rival para dar certo tantas vezes. Não pode ser só o “apito amigo”…

É hora de virar a página do estadual, mesmo que obtenha vitória na Justiça pela anulação da final, e focar no que é importante para lá na frente atingir os objetivos: o trabalho. As escolhas, a sequência do desenvolvimento das ideias com convicção. Aprimorar os métodos, focar no jogo. A torcida pode ter pressa de vencer. Quem dirige sabe, ou deve saber, que um título pode pipocar aqui e ali. O futebol é tão incrível que premia até quem trabalha errado. Mas para os resultados aparecerem com mais frequência não basta gastar. Essa equação dinheiro + camisa = títulos não é tão simples assim.

É preciso pensar e executar. Com calma, mas também firmeza de propósitos. Tudo que tem faltado ao Palmeiras.


Corinthians, Botafogo e Cruzeiro: títulos serão ilusão ou redenção?
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André Rocha

Não adianta em abril ou maio lembrar ao torcedor que no final do ano é bem provável, a menos que aconteça algo épico, que ninguém lembre do título estadual. Porque o prazer de vencer o rival numa final ainda badalada em termos midiáticos e levar uma taça para casa inebria, entorpece.

Não funciona falar em excesso de jogos, poder das federações, enfraquecimento do próprio time de coração. O triunfo e a chance de tripudiar do colega de trabalho, do vizinho ou de qualquer um que vista as cores do rival valem mais do que qualquer análise racional. Logo passa, porque começa o Brasileiro emendando com Copa do Brasil, Libertadores, Sul-Americana. Calendário inchado é isso.

Mas desta vez, por coincidência, as conquistas estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais tiveram algo em comum: premiaram times contestados pelas próprias torcidas e que acabaram beneficiados pelos contextos das decisões para se superar.

O Corinthians entra no caso citado no primeiro parágrafo. Vencer no tempo normal e nos pênaltis dentro da casa do milionário Palmeiras, que contava com torcida única e vantagem do empate, é um feito histórico e certamente será lembrado pelo corintiano no fim do ano, a menos que alguma tragédia aconteça até lá.

Mas o desempenho segue preocupante. O time de Fabio Carille se classificou contra o São Paulo também na disputa de pênaltis depois de achar um gol de Rodriguinho em um escanteio nos acréscimos. A decisão foi muito mais brigada que jogada e o Palmeiras se perdeu emocionalmente pela cobrança gigantesca por títulos que façam valer o altíssimo investimento para a realidade brasileira.

Valeu a cultura da vitória construída pelos muitos títulos na década. De novo no gol de Rodriguinho, desta vez no primeiro minuto do clássico. A confusão pelo pênalti que não existiu de Ralf sobre Dudu, mas foi marcado e depois invalidado pela interferência do quarto árbitro, só aumentou o caos emocional dos palmeirenses em campo e na arquibancada.

Mais uma vez Cássio garantiu pegando as cobranças de Dudu e Lucas Lima na decisão por pênaltis. A comemoração no Allianz Parque é imagem emblemática e inesquecível para o torcedor. Mas a conquista não tem o simbolismo de 2017, consolidando um trabalho que ganharia ainda mais força e maturidade no turno do Brasileirão que encaminhou a sétima taça do Corinthians na competição.

Agora o rendimento vem oscilando demais, apesar de uma boa nova como Matheus Vital e o resgate de Maycon, que havia perdido a vaga para Camacho na reta final de 2017 e bateu com precisão a última penalidade. Há espasmos da solidez defensiva que caracteriza a identidade corintiana e também boas triangulações e volume de jogo. Nada muito inspirador, ao menos por enquanto.

Já o título carioca do Botafogo veio numa sequência de acontecimentos que desafia o tradicional e já folclórico pessimismo do torcedor alvinegro. Péssimo início sob o comando de Felipe Conceição, eliminação precoce da Copa do Brasil para o Aparecidense. Chega Alberto Valentim ainda aparentando abimaturidade e a dificuldade para montar o sistema defensivo que apresentou no Palmeiras. Linhas adiantadas, pouca pressão na bola…gols dos rivais.

Não venceu nenhum turno, teve a pior campanha geral entre os grandes, levou 3 a 0 do Fluminense na final da Taça Rio e parecia ser apenas um figurante na fase decisiva. Mas uma atuação pluripatética do Flamengo que custou o emprego de muita gente, inclusive do treinador Paulo César Carpegiani, fez o time alcançar a vitória na única jogada bem engendrada em toda a semifinal em jogo único, finalizada por Luiz Fernando.

Vaga improvável na decisão e de novo o status de “zebra”, até pelo bicampeonato do Vasco em 2014/15 sobre o mesmo adversário e o trabalho mais consolidado do treinador Zé Ricardo. A vitória no primeiro jogo por 3 a 2 e depois a boa atuação no Mineirão contra o Cruzeiro pela Libertadores transferiam um favoritismo natural aos cruzmaltinos.

Mas Fabrício foi expulso aos 36 minutos na primeira etapa por entrada sobre Luiz Fernando quase tão criminosa quanto a de Rildo em João Paulo há três semanas. O vermelho condicionou toda a partida. O Botafogo insistiu, mas com enorme dificuldade para criar espaços. O time é limitado e perdeu organização e criatividade sem João Paulo. Obrigado a atacar pela necessidade e por conta da vantagem numérica acabou se complicando. O Vasco fechado num 4-4-1 e arriscando um contragolpe aqui e outro ali.

No ataque final, já nos acréscimos, a confusão na área e o chute de Joel Carli. Lance fortuito, meio ao acaso. Bola na rede, explosão da torcida e confiança em Gatito Fernández na disputa de pênaltis. Ele não decepcionou e pegou as cobranças de Werley e Henrique. 21º título alvinegro, festa pela conquista inesperada… Mas dá para confiar em boa campanha no Brasileiro?

Uma expulsão no primeiro tempo também mudou a história da decisão mineira. Logo de Otero, por cotovelada em Edilson aos 21 minutos. O meia que desequilibrou na bola parada no Independência. Vitória por 3 a 1 na primeira partida que fez eco durante a semana, encheu o Galo de confiança para a goleada por 4 a 0 sobre o Ferroviário pela Copa do Brasil e abalou o ânimo do Cruzeiro, que empatou sem gols e podia ter sido derrotado em casa pelo Vasco na Libertadores.

Com um a menos ficou mais difícil segurar o rival em casa e os gols do uruguaio De Arrascaeta e de Thiago Neves ratificaram a melhor campanha ao longo do campeonato. Mas de novo o time de Mano Menezes não apresentou um desempenho consistente. Faltou nas duas partidas pelo torneio continental e na primeira da decisão.

O contexto favoreceu, mas há muito a ser questionado. Mesmo com a lesão grave de Fred, a grande contratação para a temporada, há qualidade para apresentar mais e Mano se sente à vontade mesmo dentro de uma proposta mais pragmática e de controle de espaços e reação aos ataques do oponente. Na hora de criar em jogos mais aparelhos a coisa complica.

A grande questão depois das comemorações em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais é como os campeões reagirão. Se haverá a falsa impressão de que os times estão prontos para desafios maiores, mesmo com atuações que não inspiram confiança, ou se a conquista será tratada como a alavanca que combina paz para trabalhar e um clima de mais leveza para investir na evolução dos modelos de jogo. Vencer para crescer e não estacionar.

Ilusão ou redenção? Eis o questionamento que fica para a sequência de trabalho dos vencedores. Consciência da própria realidade é receita simples, mas sábia. Pode valer muito lá no final do ano, quando as taças não passarão de uma lembrança agradável, sem o êxtase de agora.


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


“Ditadura da emoção” estraga primeiro Corinthians x Palmeiras decisivo
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André Rocha

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Corinthians e Palmeiras disputam o dérbi do maior centro futebolístico do país. São os últimos campeões brasileiros, terminaram na ponta da tabela na última edição da competição nacional mais importante da temporada. Ou seja, é o maior clássico brasileiro da atualidade. Para muitos a grande rivalidade do país.

Decidindo o Paulista, algo que não acontecia desde 1999. Século passado. Em dois jogos, um em cada arena. O Corinthians havia vencido os quatro últimos confrontos, apesar da maior capacidade de investimento do rival.

Ingredientes para tornar o primeiro confronto em Itaquera muito tenso. Até porque com mando de campo e torcida única a responsabilidade de construir o resultado em casa aumenta exponencialmente em relação aos duelos de antes no Morumbi com torcida dividida.

Mas nada justifica uma disputa de péssimo nível técnico, com 50 faltas cometidas – 22 pelo Corinthians e 28 pelo Palmeiras – e 12 cartões apresentados pelo árbitro Leandro Bizzio Marinho. Vermelhos para Felipe Melo e Clayson após uma confusão geral. A famosa “bulha”.

Nada justifica, mas há um fenômeno que explica tamanha panela de pressão: a “ditadura da emoção”.

É claro que todo clássico vale muito para o torcedor. É a chance da vitória que é a cereja do bolo. No caso do estadual, o duelo fica muito maior do que a conquista em si. Mas a cultura da guerra alimentada por torcedores, dirigentes, jogadores e até muitos jornalistas coloca tudo vários tons acima.

Os jogadores precisam ser guerreiros. Ganhar na bola e na porrada numa disputa que coloca quem é mais machão acima, bem acima de quem é melhor. Para o torcedor, quanto mais sofrido, mais gostoso. Espalham-se nos estádios as caras, bocas e lágrimas de algo que beira a histeria. E a loucura passa para o campo.

Ninguém tenta parar a bola e jogar. Até porque se não entrar no clima bélico pode ser acusado de ter amarelado, ser frouxo, não honrar a camisa. Então tudo se resume a entrar firme nas divididas, apelar para as faltas se perceber que vai perder a jogada, dar carrinho e se houver o desarme ou o perigo for afastado tem que vibrar, bater no peito para mostrar que tem coração e no braço para ressaltar que tem sangue nas veias.

E a cabeça? E pensar o jogo para vencê-lo? A emoção já está na atmosfera. Quem não se envolver em campo num clássico deste tamanho é melhor procurar outro ofício. A vontade de vencer é evidente, ainda mais no país que mede todos os agentes do futebol pelo “ganhou o quê?” Sem contar que a imprevisibilidade do jogo já o torna emocionante ao natural.

Não é preciso inflamar mais porque consome o raciocinio, embota a visão. O jogo fica feio, com chutões demais, ligações diretas porque ninguém quer arriscar um passe que pode dar errado e encontrar o vilão. O resultado prático são 90 minutos de tortura para quem joga, torce e assiste. Quem vence berra e chora. A dúvida é se é de alegria ou de alívio. Porque o jogo em si praticamente não existiu.

Pode ser Corinthians x Palmeiras, mas também Gre-Nal, Ba-Vi, Flamengo x Vasco, Cruzeiro x Atlético, Atle-Tiba. A “ditadura” está lá. Alimentada também pela TV, que fala em emoção o tempo todo e pouco sobre futebol. No slogan, na gritaria dos narradores cada vez mais exagerada, até forçada. Até cobrança de lateral é com o tom lá em cima.

Querem tudo à flor da pele e depois lamentam quando a violência explode no campo, nas arquibancadas ou nas ruas. Não é preciso falar “Matem-se!” Basta resgatar sempre que possível os símbolos da guerra que sempre foram utilizados no futebol. Só que a coisa passou do ponto há tempos. Mais uma vez estragou um jogo decisivo.

O gol de Borja no início da partida condicionou o jogo. Mas controle não houve. Inclusive, Roger Machado promoveu em sua equipe uma mudança na forma de se defender. Para evitar que a marcação por zona pura pudesse provocar uma passividade em seus jogadores, a maior crítica na derrota por 2 a 0 para o Corinthians na fase de grupos, o treinador estimulou seus comandados a fazer encaixes com perseguições mais longas. Mesmo tendo a bola ainda como referência. Tudo para não perder a intensidade. E também agradar a arquibancada. Ou, no caso de hoje, o palmeirense que viu pela TV.

Correria desenfreada, qualquer choque aumentando ainda mais a eletricidade. Há quem defenda essa postura e diga que clássico decisivo não é para jogar, mas vencer. Ainda mais para os que veem o esporte como o último refúgio para a barbárie e a imposição da virilidade através da truculência. Ou o templo da emoção. Sempre ela.

A grande pergunta que fica é onde o futebol, essência que se transforma em um mero detalhe, entra nessa equação? Em Itaquera ele pouco apareceu. Pior assim. Que no Allianz Parque seja melhor.