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Para que serve o “estive lá” do ex-boleiro se o futebol não é mais o mesmo?
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André Rocha

O desafio dos dez anos (#10YearsChallenge) movimenta as redes sociais há dias, com famosos e anônimos postando fotos recentes em comparação a 2009. E se pudéssemos fazer o mesmo com o futebol, como seria?

Em 2009, o Barcelona de Pep Guardiola ainda estava em sua primeira temporada, embora muito bem sucedida com a tríplice coroa. Mourinho não tinha adotado as linhas de handebol na defesa da Internazionale como resposta defensiva à proposta do catalão. Jurgen Klopp, também em seu primeiro ano no Borussia Dortmund, apenas ensaiava o “gegenpressing” e o estilo agressivo, com o pé cravado no acelerador, que vem marcando sua carreira.

No Brasil, o jogo era ainda mais espaçado e lento, menos intenso. Neymar era só um menino marcando seus primeiros gols como profissional no Santos. Dunga vivia na seleção brasileira o seu melhor momento, com uma posse de bola às vezes burocrática, mas quando chegava ao trio Kaká-Robinho-Luís Fabiano com espaços para acelerar unia beleza e eficiência. Júlio César era o melhor goleiro do mundo.

Tite comandava o Internacional no ano do seu centenário. Campeão gaúcho, vice da Copa do Brasil. Depois venceria tudo com o Corinthians e, mesmo assim, em 2014 foi para a Europa estudar, buscar reciclagem. Unir experiência e novos conceitos. Deu o salto na carreira para realizar o sonho de comandar o Brasil numa Copa do Mundo. Pode chegar à segunda.

Além disso, as medidas dos gramados ainda não estavam padronizadas em 105 m x 68m. Não existia o VAR, nem a maioria das novas orientações da FIFA que norteiam as arbitragens. A bola também era diferente. Ou seja, era outro futebol se não reduzirmos o esporte ao clichê dos “onze homens correndo atrás de uma bola”.

Agora imaginemos as diferenças em relação ao que se jogava nas décadas anteriores. No século passado. Sem a internet com banda larga e Wi-Fi para popularizá-la e virar o mundo pelo avesso. Algo que os jovens hoje sequer conseguem imaginar. Um recurso que mudou tudo também no futebol. Na análise, no jornalismo, na formação e preparação de atletas, na relação com a mídia.

Com tudo isso, a pergunta simples e direta é: objetivamente, qual a vantagem de quem jogou nos anos 1970, 80, 90 ou mesmo na primeira metade da década de 2000 em relação aos jornalistas na hora de analisar uma partida em 2019?

A resposta é óbvia: nenhuma. Ou só contar os “causos” de sua época. Ou fazer o torcedor que viu jogar deixar de zapear e parar no canal de esportes para vê-lo. Porque simplesmente não pode existir vantagem da prática se o jogo – intensidade, espaços, dinâmica, arbitragem, medidas dos campos, bola, material esportivo, etc. – é completamente diferente.

Por isso soa cada vez mais ridícula a falácia lógica do apelo à autoridade. Algo que normalmente surge quando o ex-boleiro não tem mais argumentos para debater e apela para o surrado, mas ainda tratado como carta na manga, “eu estive lá”. E daí? Esteve quando? Para que serve esta experiência hoje se tudo mudou?

São poucos os que jogaram e hoje comentam futebol, falando ou escrevendo, que saem dos clichês e análises baseadas no senso comum. Tostão é a melhor das exceções. Vez ou outra pode dar vazão a um certo saudosismo, especialmente em relação à seleção brasileira de 1970, mas seus textos revelam um observador humilde, que procura estar atento às transformações do esporte. Valoriza o novo e respeita a análise de quem não jogou profissionalmente.

Infelizmente a grande maioria se comporta, de forma velada ou não, como Vanderlei Luxemburgo: “nada mudou, nós fazíamos o mesmo há quatro décadas, mas com nomes diferentes”. Uma visão estanque, muito diferente da dinâmica do tempo. Em muitos casos para manter o status quo. Para continuar relevante. Felizmente alguns se tocam e buscam a atualização. Outros preferem alimentar a saudade do passado e agradar o público apenas da sua faixa etária em diante.

É claro que também há jornalistas com o mesmo perfil. O texto não é uma defesa de classe, muito menos de reserva de mercado. A presença de quem praticou o esporte é importante, contanto que ele não olhe para o campo hoje e veja o jogo do seu tempo. Uma ilusão de ótica.

Instagram, Twitter e Facebook seguem com muitas fotos de 2019 e 2009. Quem pensa que nada muda deveria fazer essa experiência. Certamente levaria um susto. Ou uma boa surpresa para fazer a cabeça sair do passado que não volta. Esteve lá? Agora não está mais.

Falcão disse que parar é a “primeira morte” do jogador. Se a volta ao esporte é pela mídia, que a nova vida seja feliz, curiosa, com brilho nos olhos. Sem a amargura de quem sempre vê tudo no mesmo lugar. Que bom que não é assim.


Com Goulart, Palmeiras consolida ideia de dois times fortes na temporada
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André Rocha

Foto: Divulgação Palmeiras

O Palmeiras vive aquele período mágico no qual já tem um elenco forte e vencedor, só necessita de contratações pontuais e, também por conta da solidez financeira, muitos jogadores querem vestir a camisa do clube e participar desse momento de conquistas.

Mas desta vez a ida ao mercado foi um pouco mais voraz. Zé Rafael, Arthur Cabral, Carlos Eduardo, Felipe Pires, Matheus Fernandes e agora Ricardo Goulart. Sem contar a contratação de Mayke, que estava emprestado pelo Cruzeiro, e o retorno de empréstimo de atletas como Raphael Veiga e Fabiano.

O cenário no Brasil é de mercado aberto durante praticamente todo o ano, mas o Palmeiras acertou ao tomar a iniciativa desde o final de 2018 e definir a grande maioria das contratações ainda na pré-temporada. Quanto mais rápido o atleta estiver ambientado ao clube, à cidade, aos companheiros e ao modelo de jogo da equipe, melhor. Algumas agremiações esperam demais e o jogador acaba chegando no olho do furacão, com jogos em sequência, sem tempo para treinar e já pressionado por resultados imediatos.

A proposta é clara: consolidar a ideia de contar com dois times fortes na temporada. Primeiro Paulista e Libertadores, depois pontos corridos (Brasileiro) e mata-mata (Copa do Brasil e o torneio continental). Elenco farto e equilibrado, de qualidade equivalente em todas as posições e funções. Nas entrevistas, Luiz Felipe Scolari tem usado muito a palavra “característica”. Com razão. É a chave para atender as demandas que podem surgir na temporada. O objetivo é repetir 2018 e disputar todos os títulos, porém com mais conquistas que o Brasileiro. A obsessão pela Libertadores é evidente.

Com Carlos Eduardo a ideia é ter velocidade na transição, um jogador que possa ser referência para lançamentos quando o time estiver pressionado. Um desafogo. Zé Rafael chega para adicionar técnica ao meio-campo. Pode também atuar como ponta articulador partindo da esquerda, assim como Gustavo Scarpa do lado oposto. Matheus Fernandes vem para que Felipe Melo, Thiago Santos e Bruno Henrique não precisem ficar se revezando na função de volante ou Moisés seja obrigado a recuar. Arthur Cabral pode atuar pelos lados ou disputar posição com Borja e Deyverson no centro do ataque.

Já Ricardo Goulart é jogador para fazer a equipe subir ainda mais o patamar no país e no continente. Não é meia de organização. Funciona mais como uma espécie de “ponta de lança” moderno. Atua como meia central num 4-2-3-1, mas faz praticamente uma dupla com o centroavante. Tem excelente leitura de espaços e ótima finalização. Marcou 102 gols em três temporadas na China.

No estilo simples e direto de Felipão, vai aproveitar a parede do atacante de referência nas bolas longas para receber e infiltrar. Forte também no jogo aéreo para completar as jogadas pelos flancos. O treinador conhece bem o potencial de Goulart dos tempos de Guangzhou Evergrande.

Se Dudu e o clube não resistirem às investidas do futebol chinês, Goulart também pode assumir a bronca de ser o líder técnico, a referência do Palmeiras. Em recuperação de lesão, só deve estrear em março, na Libertadores. Será uma opção com características diferentes das de Moisés, Lucas Lima, Guerra e Raphael Veiga.

A tendência é que Felipão defina dois times e faça alterações por meritocracia – como foi a mudança na zaga, com Luan e Gustavo Gómez virando titulares na reta final do Brasileiro – e também pelo contexto do jogo. Cabe ao treinador e à comissão técnica manter todos mobilizados e trabalhar as variações, inclusive cumprindo a promessa de trabalhar mais a bola em determinados momentos para evitar o bate-volta que desgasta física e mentalmente.

O treinador não quer sofrer nem improvisar por conta de lesões e suspensões, como aconteceu no empate contra o Flamengo no Maracanã pelo returno, nem com as ausências forçadas nas datas FIFA. A meta é ser competitivo sempre, inclusive com boas opções no banco em todas as partidas.

As perspectivas são as melhores. O Palmeiras foi ao mercado com agilidade e inteligência. Um mérito, mesmo considerando que a fase é mais de oferta que procura. Todos querem jogar no campeão brasileiro. A boa notícia para os 30 atletas que devem formar o elenco é que a grande maioria terá bons minutos na temporada para mostrar seu valor.


A caminho do Fla, Gabigol é atacante que aproveita espaços, mas não os cria
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André Rocha

Gabriel Barbosa, o Gabigol, conseguiu liberação da Internazionale para atuar por empréstimo pelo Flamengo e até já vestiu a camisa rubro-negra em um vídeo pessoal. Oficialmente, o clube apenas aguarda o atacante para fazer exames médicos e assinar contrato.

Com tudo acertado e à disposição do treinador Abel Braga, a missão principal será o ajuste à proposta de jogo do Flamengo, que é basicamente a mesma desde 2016, ainda com Muricy Ramalho. Em função do aumento da capacidade de investimento, o favoritismo natural nas competições que disputa empurra o time para o campo adversário, com controle do jogo pela posse de bola e trabalho coletivo para furar as linhas de marcação.

Pode haver um ou outro ajuste com o novo comandante, mas principalmente no Carioca e na primeira fase da Libertadores será difícil ver a equipe  atraindo o oponente e acelerando contragolpes para aproveitar a defesa adiantada. Ninguém vai se abrir contra um time milionário.

Com isso, a adaptação de Gabriel é um desafio. Com Everton Ribeiro, De Arrascaeta – enfim confirmado oficialmente como nova contratação –  e Vitinho, ainda com a possibilidade de fechar com Bruno Henrique, o Flamengo só oferece a função de centroavante. Abel quer dois ponteiros bem abertos buscando os dribles e chegando ao fundo. Assim a mobilidade fica prejudicada. Caberia ao novo atacante recuar, jogar com um ou dois toques, fazer o pivô, ou aparecer na área para finalizar. Trabalhar mais coletivamente para criar espaços.

Não é o ponto forte. Gabriel funciona melhor com total liberdade e sendo a referência para as transições ofensivas em velocidade às costas da retaguarda adversária. Na seleção campeã olímpica foi o que se destacou menos no quarteto formado com Luan, Neymar e Gabriel Jesus. Na Internazionale e no Benfica praticamente não jogou – disputou 15 partidas em uma temporada na Itália e meia em Portugal – muito em função dos problemas para se encaixar como mais uma peça no modelo de jogo. Leia mais AQUI.

No Santos de Cuca voou e terminou a temporada como goleador máximo do Brasileiro e um dos artilheiros da Copa do Brasil, um feito inédito, sendo a estrela máxima e a equipe jogando para ele. No Fla deve ser a principal referência para as finalizações e colaborar muito para a equipe deixar de ser “arame liso” em jogos grandes, mas há mais gente com currículo para dividir protagonismo.

Em tese, a manutenção de Everton Ribeiro como um ponta articulador saindo da direita para criar e não por dentro como meia em um 4-1-4-1, como indica Abel, Gabriel teria um espaço para se deslocar e confundir a marcação. Agora cabe ao técnico combinar da melhor forma possível as características dos atletas com o estilo ofensivo que a torcida e o contexto exigem.

Não basta “juntar as feras”. Sobram exemplos de “SeleFlas” que deram muito errado – como o “pior ataque do mundo” com Edmundo, Romário e Sávio em 1995 e o time de estrelas formado na mal sucedida parceria com a ISL em 2000 que reuniu no clube Gamarra, Edilson, Petkovic, Alex e Denílson.

Para 2019, a obsessão por títulos para acabar com o estigma de “cheirinho” deixa a margem de erro bem pequena. A diretoria aposta alto, mas sem garantias. Como será desta vez?


Afinal, De Arrascaeta vale toda essa guerra entre Cruzeiro e Flamengo?
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André Rocha

Foto: Uarlen Valério – O Tempo/Estadão

A ideia deste post não é avaliar o comportamento dos dirigentes de Cruzeiro e Flamengo no imbróglio por De Arrascaeta. Os colegas Rodrigo Mattos e Julio Gomes já abordaram o tema e a opinião deste blogueiro fica entre as duas visões: o Fla poderia ter sido mais transparente e se dirigido primeiro ao clube mineiro, que deveria ter honrado o compromisso e não contraído uma dívida com o Defensor. Não há santos nesse caso. Nem o jogador, que força a saída com seu agente de maneira pouco ética.

O que o blog propõe é uma análise sobre a importância de contar com o meia uruguaio na equipe. O time carioca oferece um salário bem superior ao que o atleta recebe no Cruzeiro, que luta como pode para mantê-lo em seu elenco ou ao menos receber a melhor compensação financeira possível, ainda que não tenha pagado integralmente por seus direitos econômicos.

De Arrascaeta é o típico meia que agrada a maioria dos treinadores brasileiros. Camisa dez que “pisa na área”. Marcou quinze gols em 2018. Atua centralizado ou cortando da esquerda para dentro. Combina técnica e timing para aparecer na área e finalizar. Ou servir seus companheiros. No Brasileiro, em 20 jogos foi responsável por seis assistências. Com 24 anos, ainda tem muita lenha para queimar.

Um ótimo parceiro para Thiago Neves no Cruzeiro. O meia que o Flamengo deseja para substituir Lucas Paquetá, artilheiro da equipe na temporada passada com 12 gols, junto com Henrique Dourado. Com a provável saída de Diego Ribas para o Orlando City, a camisa dez ficará vaga.

Mas talvez a virtude que mais justifique essa guerra seja a capacidade de decidir jogos grandes. O Fla sentiu na própria carne, com o uruguaio marcando o gol do empate por 1 a 1 na ida da final da Copa do Brasil 2017 que não complicou a vida dos mineiros para o jogo em Belo Horizonte. No ano passado, novo confronto pelas oitavas da Libertadores e mais um gol de Arrascaeta no Maracanã na vitória por 2 a 0.

Em 2018 o meia também foi protagonista na final do Mineiro, marcando o gol que abriu o caminho para a vitória por 2 a 0 sobre o rival Atlético no Mineirão, e na decisão da Copa do Brasil. O Cruzeiro fez um enorme esforço para contar com o atleta, a serviço da seleção uruguaia, e o camisa dez saiu do banco para ir às redes e não só confirmar a virada sobre o Corinthians, mas também garantir a campanha histórica com 100% de aproveitamento como visitante.

Tudo que Abel Braga precisa para tirar do Fla o rótulo de “arame liso” e “pecho frio” em finais. Justamente o que Mano Menezes não quer perder para manter seu time competitivo. Ainda que o meia se ausente em muitas datas FIFA e não seja um jogador regular, constante. Tanto nas competições quanto nas próprias partidas. Às vezes peca também na intensidade do trabalho defensivo, mesmo atuando com mais liberdade. A reação rápida com pressão logo após a perda da bola hoje é fundamental para os que atuam mais adiantados.

O futebol tem seus mistérios e De Arrascaeta pode não ser feliz numa possível, até provável, mudança de clube. Mas para o nível da bola jogada no Brasil a resposta à pergunta do título deste post é simples: vale muito o investimento. Mesmo com toda polêmica que já arranhou a relação entre dois dos maiores clubes do país.


Flamengo de Landim precisa ser competitivo no futebol, mas sem oba oba
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André Rocha

A Copa do Brasil de 2013 foi a única conquista nacional da gestão Bandeira de Mello no futebol. No primeiro dos seis anos nos dois mandatos, ainda sem grande capacidade de investimento. Com time limitado e, por isso, desacreditado, Jayme de Almeida como o tradicional técnico interino com raízes no clube e força no mata-mata.

No último título brasileiro, arrancada na reta final com Petkovic e Adriano como estrelas improváveis, Andrade sucedendo Cuca, sorte por enfrentar o Corinthians na penúltima rodada quando o São Paulo disputava a liderança e o Grêmio na última quando o concorrente era o Internacional. O pior aproveitamento entre os campeões nos pontos corridos com 20 clubes: apenas 67 pontos, cinco a menos que a campanha do vice em 2018.

Em 1992 e 1987 o time rubro-negro também cresceu na reta final. A campanha na Copa do Brasil de 2006 teve perfil semelhante ao de 2013. Em 1990, primeiro título do torneio, o Fla também não era favorito.

Nos últimos cinquenta anos, o Flamengo só foi campeão como grande candidato, forte financeiramente e vanguarda na gestão do clube no auge da Era Zico, de 1978 a 1983. Um time de exceção, o maior da história do clube e, para muitos, o melhor do Brasil depois do Santos de Pelé. Liderado por seu maior craque e ídolo, combinava talento, fibra e profissionalismo. Se deixando levar pela empolgação da torcida, mas sem ilusão de onipotência.

Rodolfo Landim é o novo presidente. Recebe de Bandeira de Mello para o triênio 2019-2021 um clube com saúde financeira, dívidas equacionadas e estrutura de primeiro nível para o departamento de futebol. Salários em dia e as melhores condições de trabalho para atletas, comissão técnica e demais profissionais, além de forte investimento nas divisões de base.

Falta ser competitivo no futebol profissional. Ou seja, disputar os principais títulos em igualdade de condições com as grandes equipes do país e alternar com estas nas conquistas de Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil.

A máxima de que “o Flamengo organizado é imbatível”, defendida até por dirigentes rivais como o atleticano Alexandre Kalil, já caiu por terra há tempos. Até porque é praticamente impossível criar uma dinastia no Brasil. O que o torcedor deseja é que o time entre no ciclo de perde-ganha de Cruzeiro, Grêmio, Palmeiras e Corinthians.

Com Bandeira foi perde-perde. Por conta de uma gestão incompetente e paternalista no futebol. Contratações equivocadas, elencos montados sem a preocupação de combinar as características dos jogadores. Alguns atletas e o treinador Reinaldo Rueda vieram mais por pressão da torcida nas redes sociais do que por uma avaliação com convicção da direção.

Em termos de comportamento, o conformismo com a derrota foi o maior pecado, como se o revés fosse um rito de passagem inexorável para o triunfo. Mera consequência. Confundindo continuidade com continuismo. Aos poucos construiu uma mentalidade perdedora, com jogadores “encolhendo a perna” na hora de decidir jogos grandes e se abatendo diante da primeira dificuldade.

A ponto de criar uma visão entre muitos torcedores de que o Flamengo só funciona na bagunça. Jogador corre e luta apenas se souber que receberá os salários atrasados se conseguirem resultados e as consequentes premiações – dura realidade em muitas das conquistas em um passado recente. Uma falácia, obviamente. É possível fazer bem melhor com mais recursos.

Landim recebe o clube em seu melhor cenário administrativo dos últimos quarenta anos. Manter a austeridade e a responsabilidade na gestão financeira é obrigação. O desafio é resgatar a mentalidade vencedora dos tempos de Zico, ainda que hoje pareça impossível formar um time em casa e manter as estrelas por tanto tempo no clube. Porque a capacidade de investimento sempre fará do Flamengo um dos grandes candidatos a qualquer título que disputar. Então a possibilidade de entrar desacreditado e surpreender reduz consideravelmente.

Se conseguir montar uma equipe forte e com comando que consiga transformar as cobranças naturais num ambiente competitivo em desempenho, a missão será não entrar no oba oba da torcida. Massa que é o grande patrimônio do clube, mas muitas vezes atrapalha com a megalomania que sempre respinga no campo. Seja superestimando  jogadores medianos ou tratando como craques consagrados jovens ainda em formação e mais suscetíveis ao deslumbramento.

É preciso deixar o “cheirinho” para trás e trazer de volta o “deixou chegar”. Ainda que não vença sempre que decidir. Há dinheiro e competência nos rivais também. O que se espera é que todas as chances de levantar uma taça não sejam desperdiçadas. Não combina com o Flamengo.


Na aula ou na praia, técnicos precisam decidir o que fazer com nosso caos
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André Rocha

Mano Menezes, Dunga, Tite, André Jardine, Zé Ricardo, Emily Lima e outros estão na sala de aula da CBF no curso de Licença Pro. Renato Gaúcho alterna com a praia. Vanderlei Luxemburgo prefere o poker. Ou criar polêmica com jornalistas no seu canal no Youtube. Afinal, segundo ele, se tivesse que aparecer em qualquer curso sobre futebol seria para ensinar. Nada para aprender…

Independentemente do que cada um faz nas férias, forçadas ou não, os treinadores no Brasil precisam encontrar respostas para um grande problema brasileiro. Um dilema, talvez. O que fazer com o nosso caos de todo dia?

O primeiro cenário caótico é o do calendário. Não dá para só ficar reclamando do excesso de jogos e do tempo escasso para pré-temporada e treinamentos ao longo do ano e usar como muleta ou álibi quando as coisas não acontecem e os resultados não aparecem. Ou se unem, buscam adesão dos jogadores, os mais afetados pelo desgaste no campo, e tentam mudar com greves, protestos, o que for possível…ou procuram soluções para minimizar os danos.

Que coloquem como condição, de preferência em contrato, a utilização de um time “alternativo” na grande maioria dos jogos do estadual. Reservas e jovens fazendo transição para o profissional. Tanto para diminuir o total de jogos na temporada dos titulares quanto para entrosar uma equipe que será útil quando as partidas de Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil ficarem “encavaladas” no segundo semestre.

Aí entra outro caos: o amadorismo dos dirigentes. Os mesmos que contratam medalhões para funcionarem como escudos ou dão oportunidades aos mais jovens para mostrarem que o clube está antenado, passando uma aura de moderno. Para demitir na primeira sequência ruim de resultados. É preciso criar mecanismos de proteção no momento da contratação, quando está com mais moral e o diretor pressionado pela torcida atrás do “salvador”.

Outra saída é regulamentar um limite de troca de treinadores por temporada. Assim esse ciclo de tentativa e erro, o “vamos ver no que vai dar”, sem critério ou planejamento, por ouvir falar, será interrompido. Haveria uma melhor avaliação do perfil do profissional de acordo com a tradição do clube e as características dos jogadores. Para evitar discrepâncias como Roger Machado no Palmeiras que tende a jogar um futebol reativo ou Jair Ventura no Santos com DNA ofensivo.

Mas é dentro do campo que a questão do caos se torna mais complexa. Porque os técnicos trabalham para minimizar as aleatoriedades inerentes ao esporte e ter maior controle do jogo sem a bola, mas dependem deste mesmo caos para atacar.

Ou seja, no trabalho defensivo a missão é compactar setores, sem brechas. Concentração máxima para pressionar o adversário com a bola, fechar linhas de passe e cuidar das coberturas e dos movimentos coletivos para garantir superioridade numérica no setor em que está a bola e proteger o “funil”. Racionalidade absoluta para se organizar e evitar a “bagunça”.

Já com a bola é o inverso. Tudo fica entregue ao talento do jogador para passar, infiltrar, driblar e finalizar. Natural, é assim no mundo todo. Só que por aqui não há a preocupação de pensar na maneira de atacar para potencializar essa qualidade. Fazer com que o mais habilidoso tenha apenas um marcador pela frente.

Isso só acontece nos contragolpes. Quando o oponente cede o espaço depois que a bola sai da pressão logo após a perda e a defesa fica mais exposta. Um drible em velocidade e o caminho está aberto. Mas como, se o adversário está cada vez mais preocupado em não ceder esse campo?

Nossa tradição é de deixar as ações ofensivas para as iniciativas individuais. Muricy Ramalho até hoje, como comentarista, afirma que o treinador só deve intervir quando não há qualidade ou quando esta não está aparecendo. Seu Santos campeão da Libertadores vivia fundamentalmente dos lampejos de Neymar.

Não é só o Muricy. Nem vem de hoje essa mentalidade. O futebol brasileiro dos coletivos de onze contra onze e de jogadores que passavam uma carreira inteira no mesmo clube construía as jogadas combinadas pelo entrosamento natural de anos atuando juntos. Os próprios atletas tinham suas jogadas ensaiadas. O trabalho coletivo acontecia pela repetição, não por um estímulo.

Agora os elencos mudam o ano todo. Entradas e saídas, encontros e despedidas. Muitas contratações e vendas na janela europeia, justamente quando a temporada afunila e os jogos quarta e domingo obrigam o que acabou de chegar a se readaptar ao jogo daqui e se entender com os novos companheiros em jogos decisivos. Loucura.

Então um time deixa a posse de bola para o adversário, que não sabe o que fazer com ela além de acionar o melhor jogador da equipe. A única forma de diminuir o caos atacando é na bola parada. Cada um no seu lugar, movimentos ensaiados. Ainda assim, depende de onde a bola cai, como o oponente está posicionado, aonde vai cair o rebote, etc.

Não é apenas questão de dinheiro, da venda cada vez mais precoce de nossos talentos e da partida até dos mais velhos que se destacam, mesmo para centros periféricos como China, mundo árabe, etc. É também de falta de ideias. As semanas cheias quando só resta o Brasileiro, mesmo quando o elenco está menos sujeito a baixas, não costumam gerar avanços na execução do modelo de jogo.

O tempo faz os adversários estudarem melhor as ações de ataque mais efetivas, otimizarem o trabalho defensivo. É quando falta repertório para quem se propõe ou precisa atacar, seja pelo mando de campo, peso da camisa ou pressão da torcida. Não dá para viver de contra-ataque e bola parada.

Eis o desafio dos treinadores. Com ou sem licença ou diploma. Estudando ou no ócio criativo. É urgente que nosso jogo seja tão sentido quanto pensado. Não pode ser só raça, fechar a casinha, bola no craque do time e seja o que Deus quiser. O jogo evoluiu, com e sem a bola. Chegou a hora das soluções, porque as desculpas já conhecemos.


Palmeiras pode se impor na América com adaptações ao estilo que já é seu
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André Rocha

Foto: César Greco/Folhapress

Copa do Brasil de 2015 e Brasileiros de 2016 e 2018. Os títulos do Palmeiras na Era Paulo Nobre/Crefisa tiveram Marcelo Oliveira, Cuca e Luiz Felipe Scolari no comando. Treinadores com diferenças nas visões de futebol, mas que no clube seguiram uma linha em comum pelas circunstâncias.

Um jogo mais direto, de fácil assimilação e simples execução. Marcando correndo e não posicionado, com grande desgaste físico e mental, porém crescendo em momentos decisivos, grandes jogos – final contra o Santos na competição de mata-mata. Um tanto rústico, às vezes tosco. Mas eficiente e vencedor no cenário nacional.

Estilo bem distante da Academia, de Ademir da Guia. Palmeiras não mais do Dudu volante discreto e elegante, fiel escudeiro do camisa dez eterno do clube. Mas do Dudu atacante, intenso e rápido, que chama o jogo para si e quer decidir o tempo todo. Ambos históricos.

Pode não agradar a todos e propor uma discussão profunda sobre o nível do futebol jogado no Brasil, mas no país do futebol de resultados é suficiente para dirigentes, treinadores, atletas, boa parte dos jornalistas e a grande maioria dos torcedores. Na cabeça de muitos o questionamento é simples: se venceu no mata-mata e nos pontos corridos, por que mudar?

O Palmeiras até tentou alterar a rota. Com Eduardo Baptista, Alberto Valentim e Roger Machado. Jovens treinadores com conceitos mais atuais, acreditando em um jogo elaborado, de domínio pelo controle da bola. Mas penando com problemas na gestão do grupo e/ou para fazer os jogadores assimilarem e aceitarem uma nova maneira de entender o jogo.

Na troca de Roger por Felipão, as declarações de Edu Dracena deram o tom: é melhor jogar protegido, com a última linha de defesa mais recuada, não tão exposta. A saída da defesa mais sustentada, que apela para a ligação direta assim que o adversário tenta pressionar procura um centroavante  – mais Deyverson que Borja – que disputa essa bola e tenta retê-la. Se perde, apenas ele e mais três ou quatro entraram no campo de ataque. Outros seis ou sete já estão prontos para defender. Difícil ser surpreendido em contragolpes.

Pressão no homem da bola, encaixe e perseguições impedindo jogadores livres nas tabelas, triangulações e ultrapassagens. Concentração. Bola roubada, acionamento direto e constante do pivô ou do talento maior. No caso, Dudu. Sempre partindo de uma das pontas para decidir com passes ou finalizações.

Quando o time perde a bola, pressiona, retoma e vai criando volume, mais jogadores se aproximam da área rival e aí fluem as jogadas pelos flancos com os laterais chegando e Bruno Henrique, o volante mais ofensivo na execução do 4-2-3-1, se juntando ao quarteto ofensivo.

Rodando o elenco, com mais reservas que titulares enquanto o time seguiu vivo na Copa do Brasil e na Libertadores, construiu uma campanha espetacular no Brasileiro. Invicto por 23 rodadas, melhor turno da história dos pontos corridos. Superando no saldo de gols o Corinthians do ano passado. Os mesmos 47 pontos em 57 possíveis. Impressionantes 82% de aproveitamento. Campeão só na penúltima rodada por conta dos muitos tropeços no turno com Roger e pela campanha do vice Flamengo – 72 pontos que garantiriam títulos em outras edições do campeonato, inclusive a de 2009, vencida pelos rubro-negros.

Primeira conquista de Felipão por pontos corridos no Brasil. Delegando mais poderes, liderando o vestiário de forma mais leve e serena, contando com Paulo Turra na montagem dos treinamentos. Mas ainda essencialmente Felipão.

Para 2019,  a Libertadores novamente como meta. Para buscar o tão sonhado título mundial nos moldes atuais da FIFA para sepultar de vez as provocações dos rivais. A impressão que a eliminação para o Boca Juniors na semifinal do torneio continental deixou é de que a maneira de jogar está ultrapassada numa disputa em nível mais alto e não é suficiente para vencer além das fronteiras do país. Mas talvez com alguns ajustes as chances aumentem.

Na derrota por 2 a 0 na Bombonera, o Palmeiras tentou controlar o jogo negando espaços ao time xeneize e buscando as transições ofensivas rápidas. Teve 43% de posse, acertou 242 passes. Mas efetuou 53 lançamentos e errou 40 porque eram ligações diretas com muito mais chances para os defensores. Também 56 rebatidas. Ou seja, foi um time de chutões. De positivo, os 24 desarmes corretos contra 15.

No triunfo com Roger sobre o mesmo Boca na fase de grupos, 302 passes num universo de 48% de posse, 12 finalizações contra 11 , 17 desarmes certos, mas 11 lançamentos certeiros de 36 e só 37 rebatidas. Por mais que haja diferenças óbvias de pressão, mobilização e espírito num mata-mata, são números que deixam lições.

Qual o aprendizado possível? O que Felipão já disse em coletivas desde a eliminação: tentar ficar mais com a bola. Mesmo que seja através de passes simples, com jogadores próximos. Para acalmar o jogo, respirar, pausar. Há jogadores com qualidade no fundamento para isto no meio-campo: Felipe Melo, Bruno Henrique, Moisés, Lucas Lima, Gustavo Scarpa…Basta adaptar a proposta e estimular os atletas a fazerem a leitura do momento certo para tirar velocidade, quebrar o “bate-volta”.

Já a eliminação para o Cruzeiro na Copa do Brasil, também na semifinal, teve um contexto diferente: primeiro jogo em São Paulo, mas o gol de Barcos logo no início. Diante do time de Mano Menezes, especialista na organização defensiva, o Palmeiras sofreu para criar espaços. Teve 66% de posse, finalizou 19 vezes, nove no alvo. Mas faltou preparar as chances mais cristalinas para ao menos empatar. Cruzou 37 vezes na área cruzeirense. Descontando a polêmica na disputa de Dracena com o goleiro Fabio que a arbitragem viu falta no final da partida, a equipe de Scolari produziu pouco.

Um número chama atenção: apenas três tentativas de viradas de jogo, duas bem sucedidas. Diante de um sistema defensivo com linhas compactas e atenção aos movimentos, virar o jogo tirando da zona de maior pressão na marcação para achar um Dudu com mais liberdade para o confronto direto com o marcador é o cenário desejado. O Palmeiras está acostumado a acelerar. Podemos chamar até de “vício”. Há qualidade para fazer diferente.

Basta querer e treinar certo. Missão para Felipão, Turra e comissão técnica. Se o estilo tem agradado por garantir taças não é preciso renegá-lo, só torná-lo mais versátil e adaptável às demandas. Como pede o futebol atual no mais alto nível. Com Marcelo Oliveira e Cuca, o Alviverde ficou bem distante do sonho da América. Já Felipão chegou mais perto.

Polindo, ajustando e incrementando um pouco o repertório conforme a necessidade é possível dar o tão esperado passo para dominar também o continente com o estilo que já é seu.

A Libertadores já premiou times propositivos e reativos. Superataques e retrancas. Também equipes “mutantes” ou “camaleões”. Entregou duas taças a Scolari nos anos 1990. Por que não outra a um Felipão “renovado” em 2019?

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians pode ter seis decisões em nove jogos para se manter na Série A
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André Rocha

Foto: Rodrigo Gazzanel (Agência Corinthians)

O Corinthians não terá direito a “ressaca” ou “luto” pela perda da Copa do Brasil para o Cruzeiro. No domingo já enfrenta o Vitória no Barradão. Com 35 pontos em 29 partidas, está três à frente do adversário e quatro de distância do Ceará, 17º colocado, mas ainda com um jogo a cumprir contra o já saciado Cruzeiro no Mineirão.

Cenário preocupante, principalmente porque o time não consegue evoluir no desempenho com Jair Ventura. As semanas livres para treinar sem o mata-mata para priorizar podem ajudar o treinador a encontrar uma formação que entregue mais soluções em campo.

O atual campeão brasileiro vai precisar, porque ainda terá pela frente mais seis duelos com equipes que orbitam pela metade de baixo da tabela e podem ser decisivos para se manter na Série A sem sustos: Bahia, Vasco e Chapecoense em casa e Botafogo, além do Vitória, fora. O Cruzeiro ocupa a décima colocação com 37 pontos e tem um jogo a menos, mas dependendo de como vai se comportar até o fim do campeonato, com o relaxamento natural pelo objetivo alcançado, pode se complicar e tornar dramático o confronto pela 34ª rodada, no Mineirão.

O Corinthians ainda terá o clássico com o São Paulo em Itaquera, o Atlético Paranaense que ainda nutre uma esperança de chegar ao G-6 ou G-7 fora de casa e fecha o campeonato em Porto Alegre contra o Grêmio que pode novamente estar com a cabeça no Mundial Interclubes. Ou lutando por vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2019.

Tudo muito incerto e perigoso pelo que o time de Jair Ventura não vem fazendo em campo. É preciso resgatar a organização defensiva sem necessidade de se entrincheirar guardando a própria área e ganhar fluência ofensiva. Reunir Pedrinho, Jadson e Mateus Vital, os mais talentosos do quarteto ofensivo, com Romero, o melhor finalizador, mais próximo da meta adversária como um centroavante móvel, pode ser um bom início.

É urgente aumentar o número de finalizações – média de dez por jogo, só superior à do América. Bizarro para a equipe que é a segunda que mais acerta passes, atrás apenas do Grêmio, e está em sexto na posse de bola. Ou seja, é um time “arame liso”: cerca, mas não fura as defesas adversárias. Apenas 28 gols marcados, 27 sofridos. Irregularidade condizente com as mudanças de treinador e as dificuldades financeiras do clube.

Agora é contar com a paciência e o apoio da torcida em casa e um time mais consistente como visitante. Se não for possível na técnica e na tática, o Corinthians terá que ser coração puro para sobreviver a um 2018 que começou bem, mas foi desmoronando até sobrar a missão mais básica. Típico da montanha russa que é o futebol brasileiro.


Cruzeiro bi e maior campeão da Copa do Brasil, com a marca de Mano Menezes
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André Rocha

O mais impressionante da campanha cruzeirense na sexta conquista da Copa do Brasil, o primeiro a vencer duas vezes consecutivas, foi a campanha fora de casa. Atlético-PR, Santos, Palmeiras e Corinthians. 100% de aproveitamento.

Porque é um time frio e “cascudo”, mas, acima de tudo, organizado por Mano Menezes. Sempre compacto e com setores bem coordenados. Ataca pronto para defender, se posta atrás preparado para as rápidas transições ofensivas. Muita concentração na execução do plano de jogo, além da mentalidade vencedora. Desta vez com desempenho mais consistente do que em 2017, mesmo com alguns problemas jogando no Mineirão.

Na final em Itaquera, um primeiro tempo quase perfeito taticamente. Mesmo com Rafinha sacrificado para auxiliar Lucas Romero, improvisado na lateral esquerda. Além do gol de Robinho, no rebote do chute na trave de Barcos aproveitando falha de Léo Santos, uma cabeçada na trave de Dedé, o melhor da final. Oito finalizações, quatro no alvo. Não permitiu nenhuma na direção de Fabio em 45 minutos.

Sofreu na segunda etapa com o pênalti, mais que discutível assinalado pelo árbitro Wagner do Nascimento Magalhães com auxílio do VAR, de Thiago Neves sobre Ralf e convertido por Jadson. Compensado pela falta, também muito questionável e novamente utilizando árbitro de vídeo, de Jadson em Dedé no lance que terminou no golaço de Pedrinho que levaria para a decisão por pênaltis. Este que escreve não teria marcado nenhuma das duas.

Time e torcida da casa esfriaram, o Cruzeiro se reagrupou num 4-1-4-1 com Henrique entre as linhas de quatro, Lucas Silva no lugar de Thiago Neves e Raniel e De Arrascaeta,substitutos de Barcos e Rafinha, prontos para os contragolpes. Na saída rápida, passe do atacante e gol do uruguaio que cruzou o mundo depois de servir sua seleção e fez valer o investimento com belo toque por cima de Cássio.

O Corinthians fez o que pôde dentro de seu contexto de dificuldade financeira e desmanche de elenco e comissão técnica. Jair Ventura foi infeliz na formação inicial num 4-2-3-1 com Emerson Sheik e Jonathas na tentativa de tornar sua equipe ofensiva. Sacrificou Jadson na organização e criou pouco. Na segunda etapa foi na fibra, no grito. Não deu.

Porque o Cruzeiro é forte e um visitante indigesto no mata-mata nacional. Com a marca de Mano Menezes, treinador tricampeão do torneio. Um dos melhores do Brasil no trabalho mais longevo entre os grandes do país. Terminou em taça mais uma vez.

(Estatísticas: Footstats)


Thiago Neves desequilibra. Corinthians de Jair não acerta alvo fora de casa
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André Rocha

Mais uma decisão tensa e de briga por espaços no futebol brasileiro. O contexto, jogo de ida em casa, empurrando o Cruzeiro para o campo adversário e o Corinthians repetindo a estratégia da semifinal contra o Flamengo: radicalizando o trabalho defensivo com o objetivo único de minimizar danos e levar a decisão para a Arena em São Paulo.

Sem De Arrascaeta, a serviço da seleção uruguaia no absurdo de uma disputa de final nacional durante as datas FIFA, Mano Menezes abriu Rafinha pela esquerda. Surpreendeu com Ariel Cabral titular no meio-campo em busca de um passe mais vertical, deixando Lucas Silva no banco. No 4-2-3-1 habitual adiantando Thiago Neves para jogar mais próximo de Hernán Barcos.

Time de Jair Ventura concentrado sem a bola, num 4-1-4-1 com Ralf entre linhas de quatro, Mateus Vital alinhado a Gabriel por dentro e Jadson mais adiantado, circulando às costas dos volantes cruzeirenses. Mas quase sempre sem companhia na frente, até porque os ponteiros Romero e Clayson recuavam demais e se movimentavam pouco para garantir o posicionamento correto em caso de perda da bola para não deixar os laterais Fagner e Danilo Avelar desprotegidos.

A grande virtude do Cruzeiro foi a paciência para rodar a bola e esperar a chance de fazer uma transição ofensiva rápida nas poucas vezes em que o adversário adiantou as linhas. Conseguiu em um chute de fora de Thiago Neves. O grande destaque do jogo que impressiona pela personalidade em jogos grandes.

Quatro finalizações no primeiro tempo. Três no alvo, uma na trave de Cássio. Também a cabeçada de Henrique para incrível defesa do goleiro corintiano. Até Thiago Neves inverter para Egídio, que levou vantagem sobre Romero e cruzou. A bola passou por Barcos, mas não pelo camisa 30 que desequilibra.

Segunda etapa com times cuidadosos. O fim do gol “qualificado” não alterou tanto as propostas das equipes quando é hora de decidir. O Cruzeiro esperando o Corinthians em seu campo para administrar vantagem e encontrar menos obstáculos à frente da área adversária. O time visitante claramente temendo sofrer o segundo gol e se desmanchar. Logo contra o atual campeão da Copa do Brasil que costuma ser forte como visitante.

Jogou para achar um gol. Com Pedrinho, Araos e Emerson Sheik nas vagas de Clayson, Vital e Jadson. Sem mexer na estrutura. Mas também não conseguiu reagir, criar um fato novo. Agora são 180 minutos na Copa do Brasil fora de casa com Jair Ventura sem uma mísera finalização no alvo. Mesmo subindo a posse de bola para 54% de posse. A ideia deu certo contra o Flamengo “arame liso”. Agora quem sabe?

O Cruzeiro poderia ter ampliado a vantagem e encaminhado o sexto título, segundo consecutivo. Foram nove finalizações, quatro no alvo. Teve chances com Dedé e Barcos no jogo aéreo. Tentou acelerar com Raniel na vaga do centroavante argentino e David no lugar do exausto Thiago Neves, centralizando Robinho e invertendo o lado de Rafinha, com o substituto pela esquerda.

No final, Rafael Sóbis no lugar de Rafinha muito mais para ganhar tempo e tentar prender adversários no campo de defesa. Para tranquilizar, a expulsão de Araos nos acréscimos. Primeira vitória como mandante na competição. Fim da invencibilidade do time paulista.

Em Itaquera, a inversão de papeis. Cenário complexo, mesmo para o Corinthians da cultura da vitória e com o apoio da massa. O Cruzeiro está cômodo. Experiente e forte mentalmente, terá o duelo final à sua feição. Thiago Neves pode ser a diferença mais uma vez. O favoritismo ficou ainda maior.

(Estatísticas: Footstats)