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Athletico-PR campeão pelo que fez até a pane mental de uma final em casa
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André Rocha

Bernardinho é um dos treinadores mais vencedores da história dos esportes coletivos, mas com a lendária seleção de vôlei masculino que comandou de 2001 a 2016 tinha enormes dificuldades para vencer decisões no Brasil. A única conquista em alto nível, tirando Sul-Americanos e o Pan-Americano de 2007, foi a última: o ouro olímpico no Rio de Janeiro há dois anos.

Sempre que questionado ele dizia que a preparação mudava muito em casa. O atleta pensava em tudo, menos na partida. Seja pela preocupação em conseguir convite de última hora para um familiar, seja por questões como o local da festa pela conquista depois ou na cara de quais críticos o título seria esfregado. Não era falta de profissionalismo e obviamente havia também os méritos do vencedor, mas o cenário ficava complexo demais.

Porque quando o jogo fica complicado toda aquela confiança se transforma em pânico de fracassar diante do seus, de dar mais munição para os detratores. Vem a pane mental que compromete qualquer desempenho.

O Athletico quase sucumbiu na Arena da Baixada. Jogou com alguma naturalidade até abrir o placar aos 25 minutos com Pablo completando assistência espetacular de Raphael Veiga. A equipe paranaense trocava passes no ritmo de Lucho González, grande regente do time, pressionava a saída de bola e acelerava quando se aproximava da área do Junior Barranquilla.

Mas repetiu o pecado do jogo de ida e de outras partidas na temporada: recua demais as linhas, especialmente os ponteiros Marcelo Cirino e Nikão e perde a saída em velocidade. A bola batia e voltava. Para complicar, o time colombiano passou a encontrar espaços entre a defesa e os volantes Lucho e Bruno Guimarães. Especialmente Barrera, que saía da direita para articular por dentro.

Mas o empate veio mesmo na bola parada, com Teo Gutiérrez desviando o toque do zagueiro Jefferson Gómez. Dentro de um segundo tempo de domínio completo dos visitantes.  A transição defensiva dos rubro-negros definhava conforme Lucho cansava. Nem mesmo a troca do argentino por Wellington resolveu o problema. A entrada de Rony no lugar de Cirino também acrescentou pouco.

Já a entrada de Yoni González na vaga de James Sánchez adicionou ainda mais força e velocidade na transição ofensiva do Junior. Foram muitas chances desperdiçadas no tempo normal e a decisiva justamente na prorrogação, com Barrera isolando a cobrança de pênalti de Santos sobre González.

O Athletico saiu de um estado catatônico para a confiança de que tudo ainda poderia dar certo. E deu na decisão por pênaltis. Impressionante o péssimo aproveitamento da equipe do treinador Julio Comesaña. Fuentes e Teo Gutiérrez perderam. Com o de Barrera e o do zagueiro Pérez em Barranquilla, foram quatro cobranças erradas, sem necessidade de intervenção de Santos. Não se pode errar tanto numa final.

O campeão acertou mais. Na competição e na temporada. Belo trabalho de Tiago Nunes, que aprimorou as ideias de Fernando Diniz tornando o time mais vertical, objetivo. Talvez o melhor jogo coletivo do país no último semestre.

Mas quase pagou no grande fechamento da temporada pela típica distorção brasileira da máxima “finais são para ser vencidas, não jogadas”. Uma senha para o estádio virar uma arena de desesperados, com gente chorando nas arquibancadas e jogadores apavorados. No país do futebol de resultados uma final se transforma em uma imensa máquina de moer corações e mentes.

O ato final carregou mais alívio que felicidade para o Athletico. Assim como tirou um peso dos ombros de Bernardinho em 2016.


Atlético-PR recua demais e empate fica muito melhor do que foi o desempenho
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André Rocha

O Junior Barranquilla sabia que precisava sair da partida em casa na final da Copa Sul-Americana com vantagem para encarar o “inferno” da volta na Arena da Baixada. Mesmo com quatro desfalques, o mais importante do capitão Téo Gutiérrez.

A solução era colocar intensidade máxima na pressão pós perda e adiantar as linhas na execução do 4-3-3. Os laterais em especial. Piedrahita e Germán Gutiérrez empurravam Nikão e Marcelo Cirino, os pontas atleticanos, para o próprio campo e deixando as saídas para os contragolpes menos rápidas com Raphael Veiga e Pablo, os mais adiantados sem a bola do 4-2-3-1 de Tiago Nunes.

O time do treinador Julio Comesaña saía de trás com passes verticais e rápidos do volante Luis Narváez e eventualmente dos zagueiros Jefferson Gómez e Rafael Pérez. Os laterais desciam e faziam triângulos com os meias Sánchez e Cantillo e os ponteiros Barrera e Díaz. Toques simples e cruzamentos procurando Jony González, o substituto de Téo no centro do ataque.

Mas o Atlético fechava bem o “funil” e impedia as infiltrações em diagonal dos ponteiros e Lucho González e Bruno Guimarães protegiam a entrada da área. Com os pontas voltando até o fim, Jonathan e Renan Lodi estreitavam a última linha com Thiago Heleno e Léo Pereira. Mesmo com algum sofrimento, o jogo estava controlado.

Quando Nikão ficou mais adiantado pela direita quando o lado oposto foi atacado e Cirino voltou, o time brasileiro enfim ganhou uma referência de velocidade para a transição ofensiva. Arranque e passe do ponteiro, deslocamento de Pablo entrando no tempo e no espaço certos para finalizar e abrir o placar.

Só que a equipe rubro-negra pecou de novo pela desconcentração fora de casa. O Junior saiu com tudo para um “abafa” e, três minutos depois, no vacilo em conjunto dos veteranos Jonathan e Thiago Heleno, a bola aérea terminou com a bela virada de González. O empate contagiou o Estádio Metropolitano e induziu o time da casa a novamente se lançar à frente e, por consequência, o recuo dos visitantes. Tiago Nunes acusou o golpe ao trocar Raphael Veiga pelo volante Wellington.

Depois tentou dar velocidade aos contra-ataques com Rony na vaga de Pablo – mais tarde Marcinho substituiria Lucho González. No entanto, o atacante substituto que definiu a virada sobre o Flamengo no sábado entrou mal e cometeu pênalti em Gutiérrez. O zagueiro Pérez explodiu o travessão numa cobrança fortíssima. Esfriou a torcida, mas o Junior sabia que não tinha opção além de seguir atacando.

Com Moreno, Hernández e Ruiz nas vagas de Narváez, Sánchez e González, seguiu rondando a área atleticana e teve a chance derradeira no chute forte de Barrera, mas Santos salvou com bela defesa. A última das 13 finalizações, cinco no alvo. O Junior terminou com 58% de posse, 15 desarmes corretos e apelou 30 vezes para os cruzamentos. Faltou o gol do desafogo.

O Atlético enfrentou os mesmos problemas de outras partidas sem vitória fora de casa, principalmente o recuo excessivo para defender a meta de Santos.  Mas volta da Colômbia com resultado interessante para definir o título continental em seus domínios. Com proposta ofensiva e volume de jogo tende a se impor. Mas é final, jogo tenso e que costuma atrapalhar os times brasileiros pela tensão por conta do favoritismo. É inegável, porém, que a taça e a vaga na Libertadores 2019 ficaram mais próximas de Curitiba.

(Estatísticas: Footstats)

 


O acaso protege de novo e os quatro cariocas estarão na Série A em 2019
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André Rocha

O Fluminense era cristal rachado a um sopro de se estilhaçar no Maracanã. Frágil técnica e taticamente, em frangalhos no emocional e com Fabio Moreno no comando depois da desesperada demissão de Marcelo Oliveira. Mas Júlio César defendeu pênalti e salvou gol certo de Luan. O mesmo atacante do América que deixou Richard livre na cobrança de escanteio. Depois de mais de 13 horas sem ir às redes, o golpe certeiro de cabeça que mudou o jogo e garantiu o tricolor na Série A.

O Vasco também penou. Parecia seguro depois dos 2 a 0 sobre o São Paulo, mas somou apenas um ponto nas duas últimas rodadas e se safou por um fio, sofrendo nos minutos finais do empate sem gols contra o Ceará no Castelão depois dos gols de Chapecoense e Sport. Na queda física de Maxi López e de desempenho de Yago Pikachu, restou pouco além de fibra à equipe comandada por Alberto Valentim. Décimo sexto colocado, um ponto na frente do Sport, que se juntou a América, Vitória e Paraná.

O Botafogo se livrou de qualquer risco algumas rodadas antes, mas também flertou com o Z-4 ao longo do campeonato. Cresceu quando Zé Ricardo ganhou semanas livres para trabalhar depois da eliminação na Copa Sul-Americana e definiu uma base titular. Com gols de Erik e o bom futebol do lateral direito Marcinho. Quitar os salários atrasados ajudou muito na recuperação, mas não apenas.

Em comum, a penúria financeira em contraste com a solidez do Flamengo, que vem falhando apenas na direção do futebol. No caso de Vasco e Botafogo, ao menos conseguiram pontos diante do rival carioca mais poderoso no Brasileiro. De “plus” para o alvinegro, o título estadual e as arrecadações com eventos no Estádio Nílton Santos. Com a vaga na Sul-Americana pode tratar a temporada 2018 como positiva.

Mas o cenário em um Rio de Janeiro falido, Estado e município, não deixa de ser desesperador para os três que ainda pagam por gestões incompetentes e irresponsáveis. Com a nova fórmula de distribuição dos direitos de TV, quem já recebeu adiantamentos de 2019 vai se complicar demais no início do ano para honrar compromissos.

A tendência é termos novamente um Carioca desinteressante, até porque é improvável que surja uma força emergente do interior nesta crise. Nas demais competições, difícil vislumbrar protagonismo além do Flamengo, isto se a nova direção seguir com a responsabilidade na gestão rubro-negra.

A única boa notícia é que o acaso protegeu e o Rio de Janeiro terá novamente os seus quatro representantes tradicionais na Série A no ano que vem. Pela sétima vez nos últimos dez anos. Mas quase sempre com sofrimento.


Torcida não merece esse Flamengo. Atlético-PR merece título histórico
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André Rocha

Mais de 60 mil pessoas no Maracanã em uma partida que nada valia e marcava despedida de uma temporada sem conquistas. Para terminar o Brasileiro com a melhor média de público como mandante, acima dos 50 mil pagantes.

Por mais que Dorival Junior, em entrevista a este blog, tenha exaltado a recuperação e a força do elenco, não há como confiar na força mental desse Flamengo. Depois de um primeiro tempo com alguma intensidade no embalo do apoio da massa e o gol de Rhodolfo na cobrança de escanteio de Diego, a desconcentração total na segunda etapa que permitiu a virada.

Na última partida com a camisa do clube que o formou, Lucas Paquetá nada produziu de útil atuando pela esquerda, deixando Vitinho no banco. Mas o símbolo de mais uma derrota foi Willian Arão. Até criou algumas situações pela direita com Pará e Everton Ribeiro e arriscou um chute perigoso no segundo tempo. Para logo em seguida acabar expulso por duas faltas bobas com reclamações da arbitragem. Desconcentrado sem a bola, sobrecarregou Piris da Motta, que não tem o mesmo nível de desempenho nem o entrosamento com os companheiros de Cuéllar.

Derrota emblemática no final da gestão Bandeira de Mello. Transformadora nas finanças, porém incompetente e paternalista na condução do futebol. A torcida não merece esse Flamengo.

Já o Atlético Paranaense consolida uma maneira de jogar agora com a confiança por afastar de vez a imagem de que só rende na Arena da Baixada. Volta do Rio de Janeiro com duas vitórias utilizando praticamente todo o elenco. Ainda que tenha precisado de Pablo e Lucho González saindo do banco para construir a virada no segundo tempo. O centroavante na vaga de Cirino e o argentino para qualificar o toque no meio e surgir como elemento surpresa na construção dos dois gols.

Saída com bola no chão, inteligência para acelerar ou cadenciar o jogo quando necessário e golaços de Matheus Rossetto e Rony. O primeiro pela jogada coletiva e o derradeiro em chute espetacular. O atacante acabou expulso na confusão depois do vermelho para Arão. Rigor da arbitragem para fazer média e tirar um de cada lado. Nada que impedisse o grande triunfo da equipe paranaense.

Pela maneira como se reconstruiu na temporada, efetivando Tiago Nunes que aprimorou e complementou os ideais de Fernando Diniz adicionando mais rapidez e contundência no ataque, o Atlético faz por merecer o título da Copa Sul-Americana. Decide contra o Junior Barranquilla uma taça histórica.

Se vencer servirá como bom exemplo de que não se deve recomeçar trabalhos praticamente do zero, descartando tudo do antecessor como acontece rotineiramente no futebol brasileiro. Mas principalmente para provar que é possível por estas bandas combinar  a competitividade e um jogo que agrada as retinas. No Maracanã fez bonito e não perdoou um time que sempre parece pronto para o fracasso.


Atlético-PR vai na contramão do futebol brasileiro: se organiza para atacar
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André Rocha

Foto: Miguel Locatelli/CAP

O futebol jogado no Brasil ainda tem como eixo central o talento que decide. Ainda que por aqui ele só dê as caras quando surge uma joia nas divisões de base e ela pula etapas para entregar alguma coisa no profissional antes de partir para a Europa. Ou de jogadores em reta final de carreira. Ainda os que não se adaptaram ao jogo de lá e voltam para ser reis.

Então as equipes se organizam defensivamente com linhas compactas e pressão no adversário com a bola. Os ataques, porém, se resumem a acionar rapidamente esses talentos para que, com espaços, eles decidam. Ou roubando no campo de ataque ou no típico contragolpe.

Há exceções com uma proposta de construção desde a defesa trocando passes. O Santos de Cuca numa reação tardia no Brasileiro e o Flamengo, com Dorival Júnior e antes com Maurício Barbieri, com modelo de jogo que por vezes tangencia o jogo de posição, mas esbarra nas limitações técnicas de seus “elos fracos” e na incrível dificuldade para definir grandes jogos.

E temos o Atlético-PR. Com as limitações de quem não conta com grande orçamento para repatriar estrelas, mas na mudança de Fernando Diniz para Tiago Nunes no comando técnico aproveitou parte dos princípios do treinador idealista e se reinventou.

Ainda é um time que preza a posse de bola. No Brasileiro só fica atrás de Flamengo e Grêmio, ainda “herança” dos índices muito altos dos tempos de Diniz. Mas adiciona volume, intensidade, movimentação e, o mais importante: contundência.

Tudo com organização. Na execução do modelo baseado no 4-2-3-1, a equipe vai na contramão do futebol jogado por aqui e pensa para atacar. Não se baseia apenas no instinto dos atletas. Pela esquerda, há um revezamento entre Nikão e o mais que promissor lateral Renan Lodi: quando um abre o outro infiltra por dentro.

Pablo é centroavante finalizador, mas também cria espaços com mobilidade. Para Raphael Veiga, talentoso meia central que pisa muito na área do oponente. Assim como Marcelo Cirino infiltrando em diagonal partindo da direita e as aparições dos meio-campistas Bruno Guimarães e Lucho González, argentino que dita o ritmo com passes curtos ou longos. Faz um jogo mais direto quando convém.

Jogada típica de um Atlético Paranaense que gosta da bola, mas sabe fazer um jogo mais direto: passe longo de Lucho González, Pablo abre espaços e Marcelo Cirino dispara em diagonal. Contra o Flu aproveitou a fragilidade defensiva do jovem e promissor ala Ayrton Lucas (reprodução Fox Sports).

Desta forma envolveu o Fluminense na Arena da Baixada e abriu 2 a 0 na ida da semifinal brasileira da Copa Sul-Americana. Mesmo com alguma dificuldade no início pela marcação adiantada e a força nas bolas paradas do time de Marcelo Oliveira, mas aos poucos saindo da pressão com passes certos e enfim se instalando no campo de ataque.

Até Renan Lodi começar a ganhar o duelo de revelações na lateral esquerda contra Ayrton Lucas. Enquanto o ala do 3-5-2 tricolor é mais rápido e intenso no apoio, mas peca demais no posicionamento defensivo, o rubro-negro de 20 anos é equilibrado no cumprimento de suas funções de ataque e defesa. Ainda aparece na área para abrir o placar finalizando duas vezes.

No gol de Renan Lodi, ainda que a jogada tenha sido criada pelo lado oposto, no rebote o lateral esquerdo atacou por dentro e naturalmente Nikão se posicionou mais aberto para abrir o espaço. Movimentação inteligente de quem se organiza para atacar (reprodução Fox Sports).

A melhor das dez conclusões em 45 minutos, seis no alvo que fizeram do goleiro Júlio César o grande destaque do primeiro tempo. O Fluminense reagiu na segunda etapa expondo uma deficiência atleticana desde os tempos de Fernando Diniz: se defende mal quando precisa recuar as linhas. Por isso as dificuldades para vencer fora de casa, especialmente no Brasileiro – ainda que na Sul-Americana tenha eliminado Peñarol e Caracas com grandes vitórias como visitante.

Retomou o controle quando o Flu voltou a deixar espaços pelos flancos e às costas dos volantes que os zagueiros Ibañez, Gum e Digão não deram conta de cobrir. Mesmo perdendo qualidade no passe com a troca do veterano Lucho González pelo volante Wellington, recuperou força ofensiva ao trocar Cirino por Rony. Autor do segundo gol completando cruzamento preciso de Renan Lodi, o melhor em campo.

O bom jogo em Curitiba teve o Fluminense com 56% de posse, mas o Atlético finalizando 17 vezes, dez no alvo, contra 14 do Flu e apenas cinco na direção da meta do goleiro Santos. A eficiência nas conclusões fez a diferença, mas não garante a equipe de Tiago Nunes na final continental. Porque com o Maracanã quente e o time carioca mais intenso e preciso no acabamento das jogadas é possível sonhar com a virada.

Cabe ao Atlético não abdicar do jogo e continuar voltado para o gol. Se atacar com organização no Rio de Janeiro pode fazer história e repetir 2005 com a vaga numa final sul-americana.

(Estatísticas: Footstats)


Fluminense ganha corpo e goleia Paraná com força ofensiva de seus volantes
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André Rocha

O virtual rebaixado Paraná não é parâmetro para avaliações mais profundas, mas foi ao Maracanã para complicar através da retranca. Claudinei Oliveira plantou cinco homens na última linha, por vezes seis. Guardando com muito cuidado o seu setor direito.

Porque Ayrton Lucas e Everaldo são as melhores opções ofensivas do Fluminense de Marcelo Oliveira que preservou boa parte das ideias de Abel Braga. Depois de experimentar linha de quatro, resolveu voltar aos três zagueiros. Mas num 3-4-1-2 mais móvel com a entrada de Luciano na vaga do lesionado Pedro. Mesmo desequilibrado ao deixar o lado direito apenas com o ala Léo e apoio eventual de alguém do meio ou do zagueiro Ibañez.

Como acontece com a maioria dos times brasileiros,  o Flu sofreu para trabalhar a bola e buscar as infiltrações. Trocava passes e batia no muro, depois ensaiou apelar para os cruzamentos, mas sem uma referência no ataque com boa estatura ficou claro que seria arma interessante apenas nas bolas paradas, com os zagueiros aparecendo na área adversária.

A solução que resolveu o jogo nos 4 a 0 que alçam o Flu à oitava colocação – pelo menos até o Cruzeiro, com a mesma pontuação, enfrentar o Ceará no jogo adiado por conta do jogo na quinta pela Libertadores emendado com eleições gerais no país e final da Copa do Brasil – foi atacar com os volantes. Dois gols de Jadson, um de Richard. Jogando de área a área.

Na dificuldade para penetrar, os chutes mesmo diante de um forte bloqueio. O de Everaldo que desviou e encontrou Jadson no primeiro, o de Richard que desviou na defesa e saiu do alcance do goleiro Richard Costa. No início do segundo tempo, outro de Jadson. Pisando na área adversária. Em ritmo de treino no final, com Paulo Ricardo, Calazans e  Danielzinho ganhando minutos, mais um de Luciano consolidando a goleada.

Imposição do estilo com 61% de posse de bola e 15 finalizações. Quatro de Jadson, duas de Richard, metade no alvo. 32 cruzamentos, número alto. Mas definiu com bola no chão e arriscando de fora. Atacando com os volantes. Recursos que não são tão habituais para abrir retrancas. Funcionou também pelas muitas fragilidades do Paraná.

O Fluminense cumpriu sua missão e ganha corpo. Se afasta do Z-4 para se concentrar nas quartas de final da Copa Sul-Americana contra o Nacional. Mas antes vai mais forte para o clássico contra o Flamengo sábado no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)


Bahia de Ramires vence Bota “arame liso” em jogo divertido, na contramão
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André Rocha

Duelo de mata-mata pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana na Fonte Nova. Com gol “qualificado”. Entre equipes na segunda página da tabela da Série A do Brasileiro, apenas a dois pontos do Ceará, 17º colocado e primeiro no Z-4.

Imaginava-se uma disputa dentro da realidade atual do futebol jogado no país. O time da casa especulando com medo de sofrer gols e o visitante tentando controlar o jogo fechando espaços e tentando estocadas eventuais nos contragolpes.

Ledo engano. Obviamente não foi um jogaço, de alto nível técnico. Longe disso. Mas foi aberto e dinâmico, uma raridade, ainda mais porque o contexto não ajudava.

O Bahia de Enderson Moreira abriu o placar logo aos quatro minutos com Ramires, meia de 18 anos que vem ganhando oportunidades entre os profissionais por conta da ausência de Vinicius. Formando o trio com Clayton e Zé Rafael atrás de Edigar Júnio no 4-2-3-1 costumeiro, deu o dinamismo que justifica o apelido de Eric dos Santos Rodrigues, inspirado no volante ex-Cruzeiro, Chelsea e seleção brasileira, hoje no futebol chinês.

A boa surpresa foi que o time da casa não recuou com a vantagem. Terminou com 52% de posse de bola e finalizou seis vezes, duas no alvo. O Botafogo respondeu com cinco conclusões, três na direção da meta de Douglas. Duas nas traves, de Brenner e Rodrigo Pimpão.

Zé Ricardo montou um 4-1-4-1 que tinha uma variação interessante, com Rodrigo Lindoso e o jovem Gustavo recuando para auxiliar os zagueiros na posse de bola e adiantando o volante Jean, que fica mais fixo na proteção quando a equipe carioca perde a bola. Laterais Luis Ricardo e Gilson abertos e adiantados e os ponteiros Pimpão e Leo Valencia, depois Luiz Fernando, tentando se aproximar de Brenner.

Propostas ofensivas dentro das limitações das equipes. Também deficiências, especialmente na bola parada defensiva. O Bota teve chance de empatar, o Bahia ampliou no início da segunda etapa com Clayton. Já com Vinicius na vaga de Zé Rafael. Aí, sim, recolheu as linhas para administrar a vantagem. Caiu a posse para 46%, porém finalizou mais cinco vezes.

O Botafogo se lançou ao ataque de vez. Como se não houvesse amanhã. Empilhou chances até diminuir com Pimpão no rebote que o goleiro Douglas entregou. Mesmo antes da tola expulsão do lateral esquerdo Léo, o time visitante já tinha mais posse de bola e chegou a onze conclusões em pouco mais de 45 minutos. Nove no alvo. 16 no total. Faltou colocar nas redes. Jogou para virar, mas foi “arame liso”. Um problema recorrente nas equipes comandadas por Zé Ricardo.

Bom resultado para o Bahia administrar na volta, mas certamente sem retranca. Até porque o Bota está bem vivo. Pelo gol fora e, principalmente, por conta do bom desempenho. Animador até pensando em Brasileiro para se afastar da “confusão”.

Ótimo para quem assistiu. No futebol “por uma bola” jogado no Brasil, a partida foi na contramão. A decisão da vaga no Rio de Janeiro promete ao menos diversão. Hoje isto não é pouco em nossos campos.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


São Paulo cruza tempestade com nove pontos em doze. Agora é com o Flamengo!
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André Rocha

A sequência dura para o São Paulo veio na volta da parada para a Copa do Mundo: o próprio time carioca no Maracanã, clássico contra o Corinthians, Grêmio em Porto Alegre e Cruzeiro no Mineirão. Sequência em que não seria nenhuma catástrofe somar quatro ou cinco pontos. O time de Diego Aguirre conseguiu nove!

Os três últimos num daqueles jogos de afirmação como candidato ao título. Logo após uma derrota doída de virada para o atual campeão da Libertadores, com um dia a menos de descanso que o adversário, sem os suspensos Militão, Arboleda e Hudson, mais o lesionado Jucilei. Diante de um Cruzeiro precisando de recuperação depois da derrota para o Corinthians em São Paulo, mesmo cumprindo boa atuação.

O tricolor paulista foi pragmático: Araruna na lateral direita, Bruno Alves na zaga, Liziero e o garoto Luan na proteção da defesa no mesmo 4-2-3-1. Novamente muita eficiência nos contragolpes. O primeiro de manual, no rebote da bola parada: partindo de Reinaldo pela direita, invertendo para Rojas deslocado pela esquerda. Assistência do equatoriano e gol de Diego Souza. No segundo tempo, outra saída rápida. De Rojas para Reinaldo, que chutou e, no rebote de Fabio, serviu Everton em condição legal.

Duas das quatro finalizações no alvo em um total de oito. 48% de bola. Também sorte na cobrança de pênalti de Barcos no travessão de Sidão com o placar em 1 a 0. O time mineiro finalizou também quatro no alvo, mas em um total de 15. O São Paulo, mais uma vez, foi letal.

E tem a chance de tomar a liderança do Brasileiro em agosto. Eliminado na Copa do Brasil, terá apenas a Copa Sul-Americana em paralelo. Dependendo do que acontecer no jogo de ida na quarta no Morumbi pode até priorizar totalmente a competição nacional. Encara Vasco, Chapecoense e Ceará em casa e sai contra Sport e Paraná. Todos na metade de baixo da tabela, Três na zona de rebaixamento antes do início da 16ª rodada. Em cinco jogos pode sonhar com 11 ou 12 pontos.

Já o Flamengo, que manteve os dois pontos de vantagem na dianteira, terá um mês insano. Com uma particularidade: enfrenta no Brasileiro os adversários nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Ou seja, três duelos contra Grêmio e Cruzeiro. Dois fora contra os gaúchos e dois em casa diante dos mineiros.

Com desgaste emocional, rivalidade, questões de arbitragem, entradas duras e discussões transferidos de um jogo para o outro. Sem contar a necessidade de rodar um elenco que até aqui não demonstrou força e versatilidade para a empreitada. Ainda América-MG e Atlético-PR fora. O único jogo tranquilo, em tese, seria o Vitória no Rio de Janeiro. Nove partidas contra sete do principal concorrente.

Uma missão que não é impossível e a atuação nos 4 a 1 sobre o Sport, com destaque para Marlos Moreno e Everton Ribeiro, somada à chegada de Vitinho credencia o rubro-negro a sair vivo no mata-mata e nos pontos corridos. A questão é se entra setembro ainda no topo da tabela do Brasileiro. Porque o São Paulo mostrou resistência ao cruzar a tempestade e agora espera o céu de brigadeiro para chegar à primeira colocação e até tentar abrir vantagem. Como duvidar?

(Estatísticas: Footstats)


Atlético-MG, líder e livre para o Brasileiro. Será o Corinthians de 2018?
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André Rocha

No dia 8 de maio, o Atlético Mineiro foi eliminado da Copa Sul-Americana no zero a zero contra o San Lorenzo no Estádio Independência – perdera no Nuevo Gasômetro por 1 a 0. Oito dias depois, novo revés em mata-mata, desta vez nos pênaltis após dois empates sem gols contra a Chapecoense. Ainda que tenha utilizado reservas na competição continental e o presidente Sette Câmara chamado o torneio de “segunda divisão” da América do Sul, não deixam de ser eliminações um tanto prematuras de duas das três frentes do time em nível nacional e internacional na temporada.

Mas pode ter um lado bom, por mais paradoxal que possa parecer. E este novo cenário já se fez presente no clássico contra o Cruzeiro no Independência. Pensando na disputa da primeira vaga do Grupo 5 da Libertadores no Mineirão contra o Racing, o rival mandou a campo um time repleto de reservas.

Um deles, o argentino Mancuello, acabou expulso aos três minutos da segunda etapa. Aumentando o domínio atleticano de 64% de posse e 16 finalizações, seis no alvo. A mais precisa de Roger Guedes, artilheiro do Brasileiro com cinco gols. Vitória por 1 a 0 e liderança provisória em seis rodadas, esperando que o Corinthians não vença o Sport na Arena Pernambuco e salte na frente pelo saldo de gols.

Mas mesmo que o atual campeão termine o fim de semana no topo da tabela, mais à frente certamente terá que optar por um time “alternativo”. Porque a equipe paulista já está nas quartas da Copa do Brasil e nas oitavas da Libertadores. Assim como outros favoritos, confirmados ou quase lá. Todos enfrentarão um calendário atropelado, com jogos seguidos, depois da parada para a Copa do Mundo.

Sem as semanas cheias de trabalho e o foco do título corintiano em 2017 – definindo a prioridade desde o início e, por conta da vantagem construída na liderança do turno, tratando a Sul-Americana como uma competição secundária. Deve ser a arma do Galo a partir de agora. Com o jovem treinador Thiago Larghi podendo afirmar sua maneira de jogar que preza a posse de bola e o jogo construído desde a defesa, mas acelera no ataque com Luan, Cazares, Otero e Roger Guedes. Os quatro que se alternam no trio de meias que se junta a Elias na aproximação de Ricardo Oliveira.

Já é o time que mais finaliza, o terceiro em acerto de passes, o quarto em posse de bola. Também o terceiro que mais acerta desarmes. Haverá tempo para aprimorar, potencializando virtudes e minimizando defeitos. Porque serão menos viagens e mais dias de treinamento. Mesmo com todos se nivelando durante o Mundial da Rússia, a vantagem é inegável.

Consequência do novo calendário que vai criando dilemas no futebol brasileiro. A cultura nacional de mata-mata e a visão de que em outras competições o clube precisa de menos partidas para lutar pelo título acaba esvaziando o campeonato que devia ser mais valorizado. Na hora de escolher entre o jogo decisivo agora e o que pode ter os pontos recuperados mais à frente, a opção no nosso imediatismo de todo dia é clara.

É neste “vácuo” que o Atlético Mineiro pode crescer. Quem sabe se transformar no Corinthians versão 2018. Se terminar com a taça que não vem desde 1971, a impressão de temporada ruim de agora será esquecida. Pode até ser o time brasileiro do ano caso algum compatriota não vença a Libertadores. Estranho, não? Mas na prática é assim que funciona.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians sofre sem seu “camisa dez” nas conquistas recentes: o tempo
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André Rocha

Foto: Daniel Augusto Jr. /Agência Corinthians

Sim, muitos vão dizer que o verdadeiro trunfo corintiano é o “apito amigo”. Tema recorrente. E chato. Porque sempre o alvo é quem está vencendo no período. Já foi o Flamengo, o São Paulo, o Palmeiras, o Fluminense…Agora o maior campeão dos últimos dez anos no Brasil. Coincidência?

O vício de colocar tudo na conta da arbitragem é tão grande que já contaminou até a Liga dos Campeões, cada vez mais popular e com mais jogos transmitidos em TV aberta. O alvo? Claro, o Real Madrid bicampeão e em mais uma final. Um choro que parece inesgotável. Este que escreve prefere ficar com as declarações dos alemães Hummels e Muller após a eliminação do Bayern de Munique: culparam os próprios erros, a incompetência por não transformar 33 finalizações em mais de três gols no confronto. Sem “bengala”. Não por acaso são campeões do mundo.

Voltemos ao Corinthians. Duas derrotas seguidas, para Atlético Mineiro e Independiente. Perdendo os 100% e a liderança no Brasileiro e se complicando no Grupo 7 da LIbertadores, embora siga no topo da classificação e ainda com boas chances de garantir vaga nas oitavas de final.

Momento natural de oscilação na temporada. Todos passam por isto. E o elenco curto, desequilibrado e já desgastado por disputar o estadual até o fim sofre mais. Responsabilidade da gestão, que conta com estádio próprio, receita alta de TV e, mesmo assim, não consegue se equilibrar nas finanças e investir proporcionalmente.

Venceu em 2017 porque contou com o verdadeiro “camisa dez” do Corinthians nas conquistas recentes: o tempo. Para descanso e treinamentos. Do corpo e da mente. Fundamental para a equipe que prioriza o trabalho coletivo, a intensidade e a concentração.

Não houve como Fabio Carille corrigir com um mísero treinamento os muitos erros do revés no Estádio Independência no fim de semana. A preparação para o duelo com o “Rei de Copas” e atual campeão da Sul-Americana em Itaquera teve que ser na base da conversa e dos vídeos. Porque se a ideia é que o treino tenha a intensidade e a dinâmica do jogo, ainda que mais curto, o risco de lesão é praticamente o mesmo de uma partida oficial.

Ano passado não teve essa “roda viva”. Eliminado na Copa do Brasil pelo Internacional antes das oitavas de final e priorizando o Brasileiro durante a disputa da Copa Sul-Americana, o Corinthians teve semanas e semanas cheias de preparação, enquanto os rivais se degladiavam em outras frentes. Abriu vantagem no início e depois administrou até o fim.

O mesmo que ocorreu em 2011, no começo desta trajetória vencedora na década. Eliminado pelo Tolima antes mesmo da fase de grupos do torneio continental e sem a possibilidade de disputar a Copa do Brasil, concentrou esforços no Brasileiro e se impôs contra um Vasco campeão da Copa do Brasil e que se dividiu até o fim entre a principal competição nacional e a Copa Sul-Americana.

No ano seguinte, prioridade absoluta para a Libertadores e, depois da conquista, o Brasileiro foi uma longa preparação de Tite e seus comandados para o Mundial de Clubes. O último brasileiro a superar o vencedor da Liga dos Campeões.

O foco fez a diferença também em 2015. Eliminado nas oitavas da Libertadores e da Copa do Brasil, Tite teve tempo para ajustar seu 4-1-4-1 acrescentando conceitos ofensivos que estudou em seu 2014 “sabático” e fez o time voar na reta final jogando bem e bonito. Mais uma taça para a coleção.

Não é impossível terminar 2018 com mais uma conquista além do bi paulista. A mentalidade vencedora desenvolvida nos últimos anos não pode ser desprezada e se for possível priorizar algo com chances reais de conquista as chances aumentam consideravelmente. A parada para a Copa do Mundo deve ajudar na recuperação do gás para o segundo semestre.

Mas sem tempo entre aviões, hoteis e estádios, a missão fica bem mais difícil. Para qualquer um. Não é por acaso que o único time campeão brasileiro e da Libertadores na mesma temporada tenha sido o Santos de Pelé em 1962/1963. Mas fazendo apenas cinco jogos na Taça Brasil em 1962 e quatro no ano seguinte. E vencer a Copa do Brasil e o Brasileiro é um feito apenas do Cruzeiro de Vanderlei Luxemburgo e Alex em 2003. Campeão da Libertadores e da Copa do Brasil? Não existe. Culpa também de um calendário inchado e que é conivente com a estrutura federativa que sustenta CBF e federações.

Se fracassar, o Corinthians ao menos trará um alento para sua torcida e quem gosta mais de futebol do que de reclamar de arbitragem: sem taças não tem “mimimi”. Ou até terá, porque virou mania nacional. Afinal, dói menos diminuir quem dá a volta olímpica no final.