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Para que serve o “estive lá” do ex-boleiro se o futebol não é mais o mesmo?
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André Rocha

O desafio dos dez anos (#10YearsChallenge) movimenta as redes sociais há dias, com famosos e anônimos postando fotos recentes em comparação a 2009. E se pudéssemos fazer o mesmo com o futebol, como seria?

Em 2009, o Barcelona de Pep Guardiola ainda estava em sua primeira temporada, embora muito bem sucedida com a tríplice coroa. Mourinho não tinha adotado as linhas de handebol na defesa da Internazionale como resposta defensiva à proposta do catalão. Jurgen Klopp, também em seu primeiro ano no Borussia Dortmund, apenas ensaiava o “gegenpressing” e o estilo agressivo, com o pé cravado no acelerador, que vem marcando sua carreira.

No Brasil, o jogo era ainda mais espaçado e lento, menos intenso. Neymar era só um menino marcando seus primeiros gols como profissional no Santos. Dunga vivia na seleção brasileira o seu melhor momento, com uma posse de bola às vezes burocrática, mas quando chegava ao trio Kaká-Robinho-Luís Fabiano com espaços para acelerar unia beleza e eficiência. Júlio César era o melhor goleiro do mundo.

Tite comandava o Internacional no ano do seu centenário. Campeão gaúcho, vice da Copa do Brasil. Depois venceria tudo com o Corinthians e, mesmo assim, em 2014 foi para a Europa estudar, buscar reciclagem. Unir experiência e novos conceitos. Deu o salto na carreira para realizar o sonho de comandar o Brasil numa Copa do Mundo. Pode chegar à segunda.

Além disso, as medidas dos gramados ainda não estavam padronizadas em 105 m x 68m. Não existia o VAR, nem a maioria das novas orientações da FIFA que norteiam as arbitragens. A bola também era diferente. Ou seja, era outro futebol se não reduzirmos o esporte ao clichê dos “onze homens correndo atrás de uma bola”.

Agora imaginemos as diferenças em relação ao que se jogava nas décadas anteriores. No século passado. Sem a internet com banda larga e Wi-Fi para popularizá-la e virar o mundo pelo avesso. Algo que os jovens hoje sequer conseguem imaginar. Um recurso que mudou tudo também no futebol. Na análise, no jornalismo, na formação e preparação de atletas, na relação com a mídia.

Com tudo isso, a pergunta simples e direta é: objetivamente, qual a vantagem de quem jogou nos anos 1970, 80, 90 ou mesmo na primeira metade da década de 2000 em relação aos jornalistas na hora de analisar uma partida em 2019?

A resposta é óbvia: nenhuma. Ou só contar os “causos” de sua época. Ou fazer o torcedor que viu jogar deixar de zapear e parar no canal de esportes para vê-lo. Porque simplesmente não pode existir vantagem da prática se o jogo – intensidade, espaços, dinâmica, arbitragem, medidas dos campos, bola, material esportivo, etc. – é completamente diferente.

Por isso soa cada vez mais ridícula a falácia lógica do apelo à autoridade. Algo que normalmente surge quando o ex-boleiro não tem mais argumentos para debater e apela para o surrado, mas ainda tratado como carta na manga, “eu estive lá”. E daí? Esteve quando? Para que serve esta experiência hoje se tudo mudou?

São poucos os que jogaram e hoje comentam futebol, falando ou escrevendo, que saem dos clichês e análises baseadas no senso comum. Tostão é a melhor das exceções. Vez ou outra pode dar vazão a um certo saudosismo, especialmente em relação à seleção brasileira de 1970, mas seus textos revelam um observador humilde, que procura estar atento às transformações do esporte. Valoriza o novo e respeita a análise de quem não jogou profissionalmente.

Infelizmente a grande maioria se comporta, de forma velada ou não, como Vanderlei Luxemburgo: “nada mudou, nós fazíamos o mesmo há quatro décadas, mas com nomes diferentes”. Uma visão estanque, muito diferente da dinâmica do tempo. Em muitos casos para manter o status quo. Para continuar relevante. Felizmente alguns se tocam e buscam a atualização. Outros preferem alimentar a saudade do passado e agradar o público apenas da sua faixa etária em diante.

É claro que também há jornalistas com o mesmo perfil. O texto não é uma defesa de classe, muito menos de reserva de mercado. A presença de quem praticou o esporte é importante, contanto que ele não olhe para o campo hoje e veja o jogo do seu tempo. Uma ilusão de ótica.

Instagram, Twitter e Facebook seguem com muitas fotos de 2019 e 2009. Quem pensa que nada muda deveria fazer essa experiência. Certamente levaria um susto. Ou uma boa surpresa para fazer a cabeça sair do passado que não volta. Esteve lá? Agora não está mais.

Falcão disse que parar é a “primeira morte” do jogador. Se a volta ao esporte é pela mídia, que a nova vida seja feliz, curiosa, com brilho nos olhos. Sem a amargura de quem sempre vê tudo no mesmo lugar. Que bom que não é assim.


Flamengo de Landim precisa ser competitivo no futebol, mas sem oba oba
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André Rocha

A Copa do Brasil de 2013 foi a única conquista nacional da gestão Bandeira de Mello no futebol. No primeiro dos seis anos nos dois mandatos, ainda sem grande capacidade de investimento. Com time limitado e, por isso, desacreditado, Jayme de Almeida como o tradicional técnico interino com raízes no clube e força no mata-mata.

No último título brasileiro, arrancada na reta final com Petkovic e Adriano como estrelas improváveis, Andrade sucedendo Cuca, sorte por enfrentar o Corinthians na penúltima rodada quando o São Paulo disputava a liderança e o Grêmio na última quando o concorrente era o Internacional. O pior aproveitamento entre os campeões nos pontos corridos com 20 clubes: apenas 67 pontos, cinco a menos que a campanha do vice em 2018.

Em 1992 e 1987 o time rubro-negro também cresceu na reta final. A campanha na Copa do Brasil de 2006 teve perfil semelhante ao de 2013. Em 1990, primeiro título do torneio, o Fla também não era favorito.

Nos últimos cinquenta anos, o Flamengo só foi campeão como grande candidato, forte financeiramente e vanguarda na gestão do clube no auge da Era Zico, de 1978 a 1983. Um time de exceção, o maior da história do clube e, para muitos, o melhor do Brasil depois do Santos de Pelé. Liderado por seu maior craque e ídolo, combinava talento, fibra e profissionalismo. Se deixando levar pela empolgação da torcida, mas sem ilusão de onipotência.

Rodolfo Landim é o novo presidente. Recebe de Bandeira de Mello para o triênio 2019-2021 um clube com saúde financeira, dívidas equacionadas e estrutura de primeiro nível para o departamento de futebol. Salários em dia e as melhores condições de trabalho para atletas, comissão técnica e demais profissionais, além de forte investimento nas divisões de base.

Falta ser competitivo no futebol profissional. Ou seja, disputar os principais títulos em igualdade de condições com as grandes equipes do país e alternar com estas nas conquistas de Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil.

A máxima de que “o Flamengo organizado é imbatível”, defendida até por dirigentes rivais como o atleticano Alexandre Kalil, já caiu por terra há tempos. Até porque é praticamente impossível criar uma dinastia no Brasil. O que o torcedor deseja é que o time entre no ciclo de perde-ganha de Cruzeiro, Grêmio, Palmeiras e Corinthians.

Com Bandeira foi perde-perde. Por conta de uma gestão incompetente e paternalista no futebol. Contratações equivocadas, elencos montados sem a preocupação de combinar as características dos jogadores. Alguns atletas e o treinador Reinaldo Rueda vieram mais por pressão da torcida nas redes sociais do que por uma avaliação com convicção da direção.

Em termos de comportamento, o conformismo com a derrota foi o maior pecado, como se o revés fosse um rito de passagem inexorável para o triunfo. Mera consequência. Confundindo continuidade com continuismo. Aos poucos construiu uma mentalidade perdedora, com jogadores “encolhendo a perna” na hora de decidir jogos grandes e se abatendo diante da primeira dificuldade.

A ponto de criar uma visão entre muitos torcedores de que o Flamengo só funciona na bagunça. Jogador corre e luta apenas se souber que receberá os salários atrasados se conseguirem resultados e as consequentes premiações – dura realidade em muitas das conquistas em um passado recente. Uma falácia, obviamente. É possível fazer bem melhor com mais recursos.

Landim recebe o clube em seu melhor cenário administrativo dos últimos quarenta anos. Manter a austeridade e a responsabilidade na gestão financeira é obrigação. O desafio é resgatar a mentalidade vencedora dos tempos de Zico, ainda que hoje pareça impossível formar um time em casa e manter as estrelas por tanto tempo no clube. Porque a capacidade de investimento sempre fará do Flamengo um dos grandes candidatos a qualquer título que disputar. Então a possibilidade de entrar desacreditado e surpreender reduz consideravelmente.

Se conseguir montar uma equipe forte e com comando que consiga transformar as cobranças naturais num ambiente competitivo em desempenho, a missão será não entrar no oba oba da torcida. Massa que é o grande patrimônio do clube, mas muitas vezes atrapalha com a megalomania que sempre respinga no campo. Seja superestimando  jogadores medianos ou tratando como craques consagrados jovens ainda em formação e mais suscetíveis ao deslumbramento.

É preciso deixar o “cheirinho” para trás e trazer de volta o “deixou chegar”. Ainda que não vença sempre que decidir. Há dinheiro e competência nos rivais também. O que se espera é que todas as chances de levantar uma taça não sejam desperdiçadas. Não combina com o Flamengo.


Brasil deve unir futebol intuitivo de Felipão e o jogar de memória de Tite
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André Rocha

Foto: Alex Silva (Agência Estado)

O maior título da carreira de Luiz Felipe Scolari é o último mundial do Brasil em 2002. Pouco mais de um ano depois de ser anunciado como treinador da seleção. Aos trancos e barrancos formou uma base que contou com a ascensão de Ronaldinho Gaúcho e a volta de Ronaldo para encontrar o time no amistoso contra Portugal há dois meses da Copa e depois efetuar duas trocas: Emerson por Gilberto Silva e Kléberson por Juninho Paulista.

Sem muito tempo, fez o básico da escola brasileira: “fechou a casinha” com Edmilson ora terceiro zagueiro, ora volante e baseou seu jogo ofensivo na força e velocidade dos laterais Cafu e Roberto Carlos e no talento dos dois Ronaldos e mais Rivaldo. Venceu sete jogos – na estreia contra a Turquia e nas oitavas diante da Bélgica com erros graves da arbitragem que beneficiaram a seleção – e faturou a quinta taça para a camisa verde e amarela.

O mesmo futebol intuitivo que consagra o técnico veterano 16 anos depois na sua volta ao Brasil após três temporadas de sucesso na China. Sem muito tempo para treinar por estar envolvido em três competições fez o simples: organizou a defesa, protegeu os veteranos Edu Dracena e Felipe Melo e apelou para ataques mais diretos, procurando um pivô – Borja ou Deyverson – e o talento de Dudu, potencializado pelo carinho de Scolari ao atacante.

Fez o que a diretoria e a torcida queriam: priorizou Libertadores e Copa do Brasil e alternava três ou quatro titulares no Brasileiro. Atrás de Flamengo e São Paulo nos pontos corridos, foi resgatando o desempenho de Lucas Lima e Mayke, ganhou o reforço do zagueiro paraguaio Gustavo Gómez e, com o clima leve pelos bons resultados no mata-mata, foi pontuando e subindo até chegar à liderança.

Com as eliminações para Cruzeiro no torneio nacional e Boca Juniors no continental, a pressão para transformar a primeira colocação e a invencibilidade em título. O desempenho caiu, mas não o aproveitamento. Na vitória sobre o Vasco em São Januário, a confirmação do décimo título brasileiro do Palmeiras.

Todos felizes e à vontade. Clima de família. Funciona desde que o comandante gaúcho ganhou destaque no cenário nacional com a conquista da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma. Passando por Grêmio, Palmeiras e Cruzeiro em sua fase mais gloriosa que alcançou o ápice no Mundial de 2002.

Felipão coloca cada um em seu lugar, se defende com encaixe na marcação, pressão sobre o adversário com a bola e perseguições curtas ou longas dependendo do adversário. Ofensivamente abusa das ligações diretas para ganhar metros de campo e acionar os atacantes mais perto da área do oponente para definir a jogada rapidamente. Se a bola bater e voltar, o sistema defensivo está organizado para não ser surpreendido no contragolpe.

Para isto não precisa de muitas sessões de treinamento. A assimilação é rápida também porque cada atleta só necessita colocar para fora os instintos de cada função. Velocidade dos laterais, vigor e senso de cobertura dos zagueiros, desarmes dos volantes, criatividade do meia mais solto, agressividade dos ponteiros, pivô e faro de gol do atacante de referência.

Bem diferente do jogar “de memória” de Tite. Porque exige repertório mais amplo e maior entendimento coletivo. A começar pela marcação por zona com última linha de defesa posicionada para proteger a própria meta. Algo pouco ou nada trabalhado nas divisões de base nas décadas passadas.

Exige convencimento e tempo. Algo que Tite ganhou no Corinthians, mesmo com o furacão Tolima no início de 2011. Foi burilando o time até vencer o Brasileiro. Com a proposta amadurecida e direito a variações do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 com o avanço do volante Paulinho como meia e alternando Danilo e Emerson Sheik pelo centro e à esquerda do ataque venceu a Libertadores. Com Guerrero comandando o ataque num 4-4-1-1 superou o Chelsea no último título brasileiro no Mundial de clubes.

Em 2014 foi para a Europa buscar repertório ofensivo para adicionar à solidez sem a bola que marcou sua fase vitoriosa. Mirava a seleção depois da Copa de 2014, com Felipão no comando. A CBF preferiu Dunga e Tite voltou ao Corinthians no ano seguinte. Encontrou atletas campeões com ele, mas de novo encarou o desafio de convencer e fazer funcionar suas novas ideias com horas em campo, treinando e jogando.

Adicionou posse de bola e criatividade através de tabelas e triangulações para infiltrar. Ajustou peças até encaixar Vagner Love no ataque, aprimorar Jadson como ponta articulador partindo da direita e fazer Renato Augusto comandar a saída de bola e as trocas de passes para o time voar na reta final do Brasileiro e ser o último campeão capaz de dar espetáculo com um belo jogo coletivo.

Em 2016 foi chamado para resgatar a seleção. Precisando de resultados imediatos para colocar o Brasil na Copa e sem tempo para treinar, Tite criou uma rotina árdua com sua comissão técnica de estudo e observação de atletas. O objetivo era claro: fazer o jogador repetir na seleção os movimentos e a dinâmica individual e coletiva que pratica no clube. Ativar a memória de um jeito diferente. Totalmente sintonizado com as práticas do futebol atual não foi difícil convencer os comandados nas Eliminatórias.

O único que fugia do que fazia no clube era Philippe Coutinho. Meia pela esquerda no Liverpool virou ponta articulador pela direita, mas aproveitando a liberdade para circular e aparecendo por dentro para marcar um golaço nos 3 a 0 sobre a Argentina no Mineirão. Ascensão rápida até o topo nas Eliminatórias e vaga garantida no Mundial da Rússia com enorme antecedência.

Na Copa, Tite sentiu o peso da missão. Ele mesmo admite que na execução do hino na estreia contra a Suíça a ficha caiu. Faltou tempo para se preparar mentalmente. Em dois anos teve que colocar o Brasil na Copa, depois trabalhar para ser competitivo diante dos europeus.

Pior: teve sua base abalada. Daniel Alves cortado, Renato Augusto fora de forma, Neymar lesionado três meses antes da Copa, Gabriel Jesus oscilando no Manchester City. Usou Danilo na lateral direita, depois Fagner. Centralizou Coutinho e abriu Willian pela direita. Quando Douglas Costa viraria titular se contundiu.

Mexeu na estrutura, perdeu desempenho. Mas seguiu na Copa até o golpe fatal: sem Casemiro, viu Fernandinho marcar a favor da Bélgica e o sistema defensivo desmoronar com a instabilidade emocional de seu volante de proteção e também a qualidade de Lukaku, De Bruyne e Hazard. Para depois cumprir sua melhor atuação na Copa ao longo do segundo tempo, desperdiçar chances claras com Renato Augusto e Coutinho, ver Courtois fazer milagre em chute de Neymar e voltar para casa nas quartas de final.

Eliminação que colocou Tite no olho do furacão resultadista tipicamente brasileiro. De gênio, referência de competência até para políticos a burro e fraco, incapaz de gerir o mimado Neymar. Da China, Felipão deu o recado: agora não era o último a perder com a seleção, mas era o último a ter vencido.

Em tempos tão apressados, o 7 a 1 tinha sido empurrado para o passado. Com o fracasso da Alemanha em 2018, a maior derrota da seleção brasileira passou a ser relativizada. Justamente o revés que mostrou que o futebol meramente intuitivo pode desabar nas disputas em altíssimo nível. Também retirou definitivamente o nome de Scolari da mira de times e seleções nos principais centros.

Por outro lado, talvez tenha faltado mais instinto e sensibilidade a Tite no Mundial. Quando o entrosamento e a memória faltaram e era preciso ter feeling para tomar decisões sob pressão, o treinador com mais preparo e estudo vacilou. Com um novo ciclo, agora desde o início mas com enorme desafio já no ano que vem com a disputa da Copa América em casa, surge a chance de amadurecer, ganhar cancha no universo de seleções.

Acima de tudo se encaixar no jogo por demanda que ascende no futebol mundial. Inspirado no Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo, mas também na França de Deschamps e Mbappé. Campeões “camaleões”, que vencem atacando ou explorando contragolpes.

Inteligência e versatilidade para se adaptar aos mais diversos cenários. Ter conceitos, mas também capacidade de improvisar. Principalmente no mata-mata, quase sempre decidido com força mental e talento. Como em 2002 com Felipão. Agora, paradoxalmente, o campeão da regularidade em seu primeiro título brasileiro nos pontos corridos.

Tite e Scolari são dois lados de um futebol brasileiro buscando o retorno ao topo. Antigos companheiros da escola gaúcha, hoje separados por desavenças e trocas de farpas. Exatamente pelas visões antagônicas que resistem em ver valor no outro pólo.

O melhor caminho seria o aprendizado em conjunto para uma evolução segura. Dos treinadores e do nosso jogo, que pode e deve alternar memória e instinto para voltar a se impor no cenário mundial.

 


São Paulo de Jardine sofre com dilema: como mudar de estilo sem treinar?
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André Rocha

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Em conversa informal recente com este blogueiro, Roger Machado ressaltou o maior dilema dos treinadores que tentam algo diferente no futebol brasileiro: mudar comportamentos sem tempo para treinar dentro do nosso calendário inchado. Mais complicado ainda quando esses automatismos do jogador vêm desde as divisões de base.

Roger citou o exemplo de um atleta sob seu comando que recebeu insistentemente orientações para guardar seu posicionamento na ponta às costas do lateral adversário. Se este descesse, a marcação estaria pronta para fechar os espaços, evitar a superioridade numérica e, ao recuperar a bola, acionar rapidamente o atacante com espaço para acelerar e só parar na área do oponente.

No campo, porém, o ponta voltava com o lateral e o time perdia a referência para os contragolpes. No intervalo, Roger foi conversar com o jogador e ele respondeu: “professor, eu sei o que você me pediu. Mas meu corpo corre instintivamente para colar no lateral porque eu faço isso desde garoto”.

Há décadas nosso jogo é baseado em confrontos individuais. Ponta contra lateral, volante contra meia, zagueiro contra centroavante. Indo e voltando, com perseguições mais ou menos longas. Marcação que prioriza o homem em detrimento do espaço.

Ainda que Zezé Moreira tenha sido um dos pioneiros da marcação por zona nos anos 1950 como discípulo do treinador húngaro Dori Kruschner. Só com a ascensão de Tite no Internacional e depois no Corinthians é que a velha lógica sem a bola foi resgatada e atualizada, mas à base de muito trabalho e convencimento dos comandados.

E assim chegamos ao São Paulo, que sai de Diego Aguirre para André Jardine. modelos de jogo diametralmente diferentes. Para piorar, o próprio clube hoje não tem uma identidade. As duas referências, Telê Santana e Muricy Ramalho, embora tenham trabalhado juntos no início e este trate aquele como grande referência, na prática são ideias opostas. Ofensiva e reativa. Este embate, ainda que inconsciente, existe até na direção do futebol, com Raí e Ricardo Rocha dos tempos de Telê e Diego Lugano, campeão com Muricy.

Jardine recebeu o time e tem cinco partidas para melhorar desempenho e alcançar resultados com o objetivo de se manter no projeto para 2019. Ainda com o compromisso de afirmar seu estilo, deixar uma “assinatura”.

Missão inglória, principalmente pela falta de tempo para treinar. Ou seja, é preciso mudar hábitos na conversa, com auxílio de vídeos e uma ou outra sessão de treinamentos. Sair de uma proposta reativa, baseada na velocidade pelos flancos e nas jogadas aéreas com bola parada ou rolando definindo rapidamente os ataques, para um trabalho com posse de bola, compactações defensiva e ofensiva, pressão depois da perda, paciência para movimentar e trocar passes até infiltrar e finalizar.

Mudar a lógica, ainda que tenham o espaço como referência e não o homem. É preciso trocar o sistema inteligente com o carro em movimento e precisando cumprir metas a curtíssimo prazo. A oscilação seria mais que natural e até esperada, mesmo com a motivação natural pela troca de comando.

Foi o que aconteceu em São Januário na derrota por 2 a 0 para o Vasco. Com 68% de posse de bola, 378 passes trocados e nove finalizações, a rigor teve duas grandes oportunidades: uma no belo chute do lateral Reinaldo que passou muito perto da trave esquerda de Fernando Miguel, que já estava sem reação no lance, e na defesa espetacular do goleiro cruzmaltino em cabeçada de Rodrigo Caio. Na bola parada, já dentro de um abafa final no desespero buscando o empate.

Poucas infiltrações em jogadas trabalhadas. Para piorar, Jucilei errou passe fácil com a equipe saindo do posicionamento defensivo para a transição ofensiva e Andrey aproveitou o desequilíbrio para bater forte e o goleiro Jean aceitar o chute de longe no primeiro gol. Com o time escancarado já nos acréscimos, o pivô de Maxi López encontrou Yago Pikachu livre para definir o jogo.

A reação ensaiada no empate contra o Grêmio e na vitória sobre o Cruzeiro, ambos no Morumbi, travou no Rio de Janeiro contra o Vasco. Faltam duas partidas: Sport no Morumbi e Chapecoense na Arena Condá. Confrontos com times desesperados na luta para se manter na Série A, que devem optar por um jogo mais físico e reativo. Atraindo para explorar espaços às costas da defesa tricolor.

Missão complicada para André Jardine e seus conceitos. Pelo menos entre os jogos haverá uma semana para treinamentos. Será suficiente para assimilar tantas ideias novas? Como diz Roger Machado, o relógio está sempre contra quem não opta pelo futebol mais simples. O São Paulo é só mais um clube que não entende e respeita processos e desafia o tempo. Quase sempre não funciona e seguimos insistindo.

(Estatísticas: Footstats)


Alívio do Corinthians, agonia do Vasco. Sofrimento para todos
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André Rocha

O contexto de Corinthians x Vasco amplificou todas as características do futebol jogado atualmente no Brasil: muito sentido e sofrido, pouco pensado e treinado. Improvisação sob pressão de camisas pesadas, mas times indigentes.

Tortura para o torcedor envolvido emocionalmente com a saga para se afastar do Z-4, penúria para o espectador neutro que busca algum vestígio de qualidade de jogo coletivo. Para o analista…com toda sinceridade, apenas o dever de ofício e profundo amor pelo esporte bretão.

O Corinthians pena porque Jair Ventura ainda confunde organização com um time engessado. Poucas ideias a ponto de, no final de 2018, apelar para Danilo, 39 anos e naturalmente acima do peso para um atleta profissional. Pela experiência, presença de área, capacidade de reter a bola e inteligência quando o corpo consegue responder ao raciocínio.

O Vasco nem isso. Sem Maxi Lopez, por conta de um corte no pé direito, e com a queda de desempenho de Yago Pikachu, foi a São Paulo entregue à própria sorte. No abandono de um ambiente político conturbado e as piores perspectivas em caso de rebaixamento – financeiramente seria o caos pelas mudanças nas cotas de TV e considerando que a gestão Eurico Miranda gastou antecipado.

Para piorar, o treinador Alberto Valentim expulso pelo fraco árbitro Wilton Pereira Sampaio na saída para o intervalo por exagerar na reclamação de um escanteio marcado além dos acréscimos.

Jogo duro. De suportar para o apaixonado. De ver para quem se propôs a acompanhar. Pikachu deu espaço generoso para Fagner cruzar, Raul não acompanhou Mateus Vital, que cabeceou nas redes de Fernando Miguel. Gol da revelação vascaína que não comemorou. Por respeito a quem não teve como mantê-lo. Por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis. Sintomático.

Mesmo com domínio da posse de bola (55%) e 15 finalizações contra nove – quatro a dois no alvo. A última do zagueiro Henriquez no travessão, já nos acréscimos. Ainda um pênalti claro de Danilo Avelar em Marrony um pouco antes – o erro grave de arbitragem não podia faltar, até para monopolizar o debate sobre a partida e servir como cortina de fumaça para a ausência de virtudes…Era preciso somar três pontos. Ao menos um. Agora é agonia.

Alívio para o Corinthians. Mesmo com 38 lançamentos e das 38 rebatidas. Apenas 251 passes trocados. Apesar de tudo, a missão foi cumprida. E no momento só é possível para o (ainda) atual campeão brasileiro entregar o resultado. Puro e simples. Muito pouco.

No apito final, sopapos e pontapés numa catarse para extravasar o resto de tensão represada. Emblemático para os tristes tempos para Corinthians e Vasco. O único sorriso possível é de quem se livra do desespero. Fiel retrato do que se joga no país.

(Estatísticas: Footstats)


São Paulo sofre sem títulos porque não se preparou para perder
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André Rocha

Em dezembro de 2008, o debate por essas terras era se o São Paulo se transformaria no “Lyon brasileiro” e criaria uma dinastia, com títulos seguidos sem dar chance aos demais. Havia um projeto ambicioso de se tornar a maior torcida do país.

O ano virou, o Corinthians trouxe Ronaldo Fenômeno, transformou sua imagem e construiu os alicerces para o período mais vitorioso de sua história. Com sete títulos brasileiros, um a mais que o rival tricolor. O Santos de Neymar venceu Copa do Brasil e Libertadores. O Palmeiras afundou e depois submergiu com Paulo Nobre, depois Crefisa. Os dois rivais na cidade agora têm estádios modernos, não precisam mais do Morumbi. O Santos, quando precisa, “herda” o Pacaembu.

O São Paulo venceu uma Sul-Americana em 2012 e só. Segue olhando para o passado “Soberano” e andando em círculos. Sempre os mesmos nomes se revezando na presidência. A solução parece ser sempre resgatar algo. Os três zagueiros, Muricy Ramalho, Paulo Autuori, Raí, Ricardo Rocha… Lugano e a raça uruguaia agora com Diego Aguirre no comando técnico.

No empate sem gols contra o Atlético Paranaense no Morumbi, a pá de cal anímica na pretensão de voltar a ser campeão brasileiro. Na matemática ainda é possível, mas em campo não há mais respostas. Logo no período em que se imaginava que as semanas para recuperação física e dedicada a treinamentos levariam a equipe a outro patamar.

O São Paulo estagnou. Ou congelou com o favoritismo inesperado. O elenco parece frágil, sem opções. Mas qual era a oferta, por exemplo, para Fabio Carille no ano passado? As informações de bastidores sinalizam que a relação entre Aguirre e elenco é tensa. Mas o Palmeiras de Cuca de 2016 era uma panela de pressão, o ambiente quase paranóico, mas o time em campo entregava os resultados, nem que fosse na marra.

O que falta no Morumbi? A impressão é de que os títulos não chegam porque o clube não se preparou para perder na típica alternância de poder do futebol paulista e brasileiro. A sequência de conquistas de 2005 a 2008 com Libertadores, Mundial e três brasileiros era apenas um ciclo, não o resultado de uma fórmula mágica e eterna.

Agora sente o peso da responsabilidade de voltar a ser vencedor. Neste ambiente, as semanas sem jogos são um tormento. Minutos, horas e dias lembrando que o gigante brasileiro é obrigado a despertar e levantar uma taça. Pressão que esmaga mentes e espíritos.

Não pode ser só falta de conteúdo nos treinos porque no Brasil isto nunca foi problema. Desfalques todos têm, o líder do campeonato escala há tempos mais reservas que titulares. O problema é mais profundo e emocional. Típico num futebol mais sentido que pensado e jogado.

Ver Corinthians e Palmeiras dominando o cenário nacional recente é um pesadelo sem fim. A sensação de ter ficado para trás desmancha a autoestima, alimenta um saudosismo destrutivo.  Talvez o clube peça perdão e traga Rogério Ceni de volta para 2019. De novo olhando para as glórias do passado, como está no hino.

O São Paulo é fraco mentalmente hoje porque não consegue enxergar um lugar para si no futuro. Um ciclo vicioso e perigoso que ganha novo capítulo dramático.

 


Corinthians pode ter seis decisões em nove jogos para se manter na Série A
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André Rocha

Foto: Rodrigo Gazzanel (Agência Corinthians)

O Corinthians não terá direito a “ressaca” ou “luto” pela perda da Copa do Brasil para o Cruzeiro. No domingo já enfrenta o Vitória no Barradão. Com 35 pontos em 29 partidas, está três à frente do adversário e quatro de distância do Ceará, 17º colocado, mas ainda com um jogo a cumprir contra o já saciado Cruzeiro no Mineirão.

Cenário preocupante, principalmente porque o time não consegue evoluir no desempenho com Jair Ventura. As semanas livres para treinar sem o mata-mata para priorizar podem ajudar o treinador a encontrar uma formação que entregue mais soluções em campo.

O atual campeão brasileiro vai precisar, porque ainda terá pela frente mais seis duelos com equipes que orbitam pela metade de baixo da tabela e podem ser decisivos para se manter na Série A sem sustos: Bahia, Vasco e Chapecoense em casa e Botafogo, além do Vitória, fora. O Cruzeiro ocupa a décima colocação com 37 pontos e tem um jogo a menos, mas dependendo de como vai se comportar até o fim do campeonato, com o relaxamento natural pelo objetivo alcançado, pode se complicar e tornar dramático o confronto pela 34ª rodada, no Mineirão.

O Corinthians ainda terá o clássico com o São Paulo em Itaquera, o Atlético Paranaense que ainda nutre uma esperança de chegar ao G-6 ou G-7 fora de casa e fecha o campeonato em Porto Alegre contra o Grêmio que pode novamente estar com a cabeça no Mundial Interclubes. Ou lutando por vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2019.

Tudo muito incerto e perigoso pelo que o time de Jair Ventura não vem fazendo em campo. É preciso resgatar a organização defensiva sem necessidade de se entrincheirar guardando a própria área e ganhar fluência ofensiva. Reunir Pedrinho, Jadson e Mateus Vital, os mais talentosos do quarteto ofensivo, com Romero, o melhor finalizador, mais próximo da meta adversária como um centroavante móvel, pode ser um bom início.

É urgente aumentar o número de finalizações – média de dez por jogo, só superior à do América. Bizarro para a equipe que é a segunda que mais acerta passes, atrás apenas do Grêmio, e está em sexto na posse de bola. Ou seja, é um time “arame liso”: cerca, mas não fura as defesas adversárias. Apenas 28 gols marcados, 27 sofridos. Irregularidade condizente com as mudanças de treinador e as dificuldades financeiras do clube.

Agora é contar com a paciência e o apoio da torcida em casa e um time mais consistente como visitante. Se não for possível na técnica e na tática, o Corinthians terá que ser coração puro para sobreviver a um 2018 que começou bem, mas foi desmoronando até sobrar a missão mais básica. Típico da montanha russa que é o futebol brasileiro.


Cruzeiro bi e maior campeão da Copa do Brasil, com a marca de Mano Menezes
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André Rocha

O mais impressionante da campanha cruzeirense na sexta conquista da Copa do Brasil, o primeiro a vencer duas vezes consecutivas, foi a campanha fora de casa. Atlético-PR, Santos, Palmeiras e Corinthians. 100% de aproveitamento.

Porque é um time frio e “cascudo”, mas, acima de tudo, organizado por Mano Menezes. Sempre compacto e com setores bem coordenados. Ataca pronto para defender, se posta atrás preparado para as rápidas transições ofensivas. Muita concentração na execução do plano de jogo, além da mentalidade vencedora. Desta vez com desempenho mais consistente do que em 2017, mesmo com alguns problemas jogando no Mineirão.

Na final em Itaquera, um primeiro tempo quase perfeito taticamente. Mesmo com Rafinha sacrificado para auxiliar Lucas Romero, improvisado na lateral esquerda. Além do gol de Robinho, no rebote do chute na trave de Barcos aproveitando falha de Léo Santos, uma cabeçada na trave de Dedé, o melhor da final. Oito finalizações, quatro no alvo. Não permitiu nenhuma na direção de Fabio em 45 minutos.

Sofreu na segunda etapa com o pênalti, mais que discutível assinalado pelo árbitro Wagner do Nascimento Magalhães com auxílio do VAR, de Thiago Neves sobre Ralf e convertido por Jadson. Compensado pela falta, também muito questionável e novamente utilizando árbitro de vídeo, de Jadson em Dedé no lance que terminou no golaço de Pedrinho que levaria para a decisão por pênaltis. Este que escreve não teria marcado nenhuma das duas.

Time e torcida da casa esfriaram, o Cruzeiro se reagrupou num 4-1-4-1 com Henrique entre as linhas de quatro, Lucas Silva no lugar de Thiago Neves e Raniel e De Arrascaeta,substitutos de Barcos e Rafinha, prontos para os contragolpes. Na saída rápida, passe do atacante e gol do uruguaio que cruzou o mundo depois de servir sua seleção e fez valer o investimento com belo toque por cima de Cássio.

O Corinthians fez o que pôde dentro de seu contexto de dificuldade financeira e desmanche de elenco e comissão técnica. Jair Ventura foi infeliz na formação inicial num 4-2-3-1 com Emerson Sheik e Jonathas na tentativa de tornar sua equipe ofensiva. Sacrificou Jadson na organização e criou pouco. Na segunda etapa foi na fibra, no grito. Não deu.

Porque o Cruzeiro é forte e um visitante indigesto no mata-mata nacional. Com a marca de Mano Menezes, treinador tricampeão do torneio. Um dos melhores do Brasil no trabalho mais longevo entre os grandes do país. Terminou em taça mais uma vez.

(Estatísticas: Footstats)


Thiago Neves desequilibra. Corinthians de Jair não acerta alvo fora de casa
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André Rocha

Mais uma decisão tensa e de briga por espaços no futebol brasileiro. O contexto, jogo de ida em casa, empurrando o Cruzeiro para o campo adversário e o Corinthians repetindo a estratégia da semifinal contra o Flamengo: radicalizando o trabalho defensivo com o objetivo único de minimizar danos e levar a decisão para a Arena em São Paulo.

Sem De Arrascaeta, a serviço da seleção uruguaia no absurdo de uma disputa de final nacional durante as datas FIFA, Mano Menezes abriu Rafinha pela esquerda. Surpreendeu com Ariel Cabral titular no meio-campo em busca de um passe mais vertical, deixando Lucas Silva no banco. No 4-2-3-1 habitual adiantando Thiago Neves para jogar mais próximo de Hernán Barcos.

Time de Jair Ventura concentrado sem a bola, num 4-1-4-1 com Ralf entre linhas de quatro, Mateus Vital alinhado a Gabriel por dentro e Jadson mais adiantado, circulando às costas dos volantes cruzeirenses. Mas quase sempre sem companhia na frente, até porque os ponteiros Romero e Clayson recuavam demais e se movimentavam pouco para garantir o posicionamento correto em caso de perda da bola para não deixar os laterais Fagner e Danilo Avelar desprotegidos.

A grande virtude do Cruzeiro foi a paciência para rodar a bola e esperar a chance de fazer uma transição ofensiva rápida nas poucas vezes em que o adversário adiantou as linhas. Conseguiu em um chute de fora de Thiago Neves. O grande destaque do jogo que impressiona pela personalidade em jogos grandes.

Quatro finalizações no primeiro tempo. Três no alvo, uma na trave de Cássio. Também a cabeçada de Henrique para incrível defesa do goleiro corintiano. Até Thiago Neves inverter para Egídio, que levou vantagem sobre Romero e cruzou. A bola passou por Barcos, mas não pelo camisa 30 que desequilibra.

Segunda etapa com times cuidadosos. O fim do gol “qualificado” não alterou tanto as propostas das equipes quando é hora de decidir. O Cruzeiro esperando o Corinthians em seu campo para administrar vantagem e encontrar menos obstáculos à frente da área adversária. O time visitante claramente temendo sofrer o segundo gol e se desmanchar. Logo contra o atual campeão da Copa do Brasil que costuma ser forte como visitante.

Jogou para achar um gol. Com Pedrinho, Araos e Emerson Sheik nas vagas de Clayson, Vital e Jadson. Sem mexer na estrutura. Mas também não conseguiu reagir, criar um fato novo. Agora são 180 minutos na Copa do Brasil fora de casa com Jair Ventura sem uma mísera finalização no alvo. Mesmo subindo a posse de bola para 54% de posse. A ideia deu certo contra o Flamengo “arame liso”. Agora quem sabe?

O Cruzeiro poderia ter ampliado a vantagem e encaminhado o sexto título, segundo consecutivo. Foram nove finalizações, quatro no alvo. Teve chances com Dedé e Barcos no jogo aéreo. Tentou acelerar com Raniel na vaga do centroavante argentino e David no lugar do exausto Thiago Neves, centralizando Robinho e invertendo o lado de Rafinha, com o substituto pela esquerda.

No final, Rafael Sóbis no lugar de Rafinha muito mais para ganhar tempo e tentar prender adversários no campo de defesa. Para tranquilizar, a expulsão de Araos nos acréscimos. Primeira vitória como mandante na competição. Fim da invencibilidade do time paulista.

Em Itaquera, a inversão de papeis. Cenário complexo, mesmo para o Corinthians da cultura da vitória e com o apoio da massa. O Cruzeiro está cômodo. Experiente e forte mentalmente, terá o duelo final à sua feição. Thiago Neves pode ser a diferença mais uma vez. O favoritismo ficou ainda maior.

(Estatísticas: Footstats)


Paquetá e Vitinho desequilibram e Flamengo de Dorival já faz história
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André Rocha

É óbvio que o Flamengo trocaria os 3 a 0 na Arena Corinthians pela vaga na final da Copa do Brasil, até pela cultura “copeira” do futebol brasileiro. O time paulista também não colocou intensidade máxima tendo a primeira decisão contra o Cruzeiro já na quarta-feira.

Mas no contexto atual do time rubro-negro, o triunfo na estreia de fato de Dorival Júnior pode ser um “turning point” no Brasileirão. Ainda mais numa sexta-feira com derrota do Internacional para o Sport e o clássico São Paulo x Palmeiras no sábado. Mais uma chance de se aproximar do topo da tabela.

De qualquer forma, a vitória é histórica. Desde 2009 o Flamengo não vencia o Corinthians como visitante – ou seja, nunca havia superado o atual campeão brasileiro em seu estádio –  e há sete anos não conseguia voltar da cidade de São Paulo com três pontos pelo Brasileiro. Uma estatística que incomodava o clube que tenta ser mais competitivo nacionalmente em um período de domínio dos times paulistas na competição por pontos corridos.

Dorival não é mágico e em quatro dias não teria como transformar completamente o Fla em tática e espírito. Mas já se viu uma equipe mais intensa e organizada, se fechando em duas linhas de quatro, dando a liberdade que Lucas Paquetá precisa num 4-2-3-1 e confiança para Vitinho tirar o peso das costas por ser a contratação mais cara da história do clube. O ponta, bem aberto pela esquerda, tentou oito vezes o drible e acertou cinco. A maioria para cima de Gabriel, volante improvisado na lateral direita.

Ainda falta ao trabalho coletivo a infiltração que surpreende, a presença de área para completar os muitos cruzamentos de Vitinho – foram 15 no total, mas só três encontraram um companheiro para finalizar, um com bola rolando. No final do primeiro tempo, uma oscilação perigosa com falha grotesca de Willian Arão na saída de bola que Mateus Vital e Douglas não aproveitaram e o goleiro César, substituto de Diego Alves, apareceu com duas grandes intervenções.

A vitória foi construída na bola parada. Escanteios de Vitinho para Paquetá. Dois gols, chegando a nove no campeonato. O melhor finalizador atualmente no elenco precisa jogar mais próximo da meta do oponente. Com a volta de Diego, talvez atuar no centro do ataque – você já leu sobre isto AQUI. Se prender a bola além do recomendável, ainda um hábito, que seja bem longe da própria defesa. No contragolpe final, o belo passe clareando para Rodinei disparar e servir Renê. Os 3 a 0 são a maior derrota corintiana em Itaquera.

Menos posse de bola: 47%. Doze finalizações contra onze, sete a três no alvo. Se o Corinthians fragilizado da temporada e focado em outra competição não é parâmetro para uma avaliação mais profunda, o simbolismo da vitória com Paquetá e Vitinho desequilibrando é o “fato novo” que o Flamengo precisava para uma última tentativa de conquista em 2018.

(Estatísticas: Footstats)