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Atento e eficiente, Palmeiras é campeão brasileiro. Só falta a matemática
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André Rocha

A vitória por 3 a 0 sobre o Fluminense no Allianz Parque foi mais um típico triunfo do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari.

Concentração sem a bola, futebol simples e direto usando e abusando da qualidade de jogadores como Bruno Henrique, Dudu e Lucas Lima para definir o jogo. Insiste, inclusive na bola parada, explora as deficiências dos adversários com maiores fragilidades técnicas e táticas, além da carência de peças de qualidade.

É simplesmente impossível tirar do líder absoluto mais um título brasileiro, repetindo 2016 na era dos pontos corridos. Com todos disponíveis, foco total na competição, confiança lá no teto e os concorrentes diretos Internacional e Flamengo já jogando a tolha e tropeçando na própria incompetência.

Gol de Borja no primeiro tempo completando bela jogada de Diogo Barbosa, depois Felipe Melo, que entrou na vaga de Lucas Lima, acertou um chute espetacular no ângulo de Julio César e Luan no final completou na bola parada. O Flu tentou duelar de igual para igual, Marcelo Oliveira desfez o sistema com três zagueiros e apelou para o 4-2-3-1.  Mas simplesmente não dá para competir.

55% de posse de bola, ainda que apelando para lançamentos e rebatidas, ou chutões mesmo, por 76 vezes e trocando menos passe que o Flu – 264 x 267. Mas foram 17 finalizações, oito no alvo. Enquanto os demais oscilam, o Palmeiras completa um turno sem derrotas, 19 partidas. Impossível questionar a competência para pontuar sempre. Sempre atento.

É o campeão brasileiro de 2018. No apito final, mais uma comemoração de jogadores, comissão técnica e torcedores. Agora só falta a matemática para entregar a taça. Questão de tempo.

(Estatísticas: Footstats)


Futebol “serotonina” está mais perto da vitória que o “testosterona”
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André Rocha

Foto: Agustin Marcarian/Reuters

Este que escreve não é médico e a ideia do texto é fazer apenas uma analogia.

No Brasil, com o êxodo cada vez mais cedo dos talentos, criou-se a ideia de que o único futebol possível para ser bem sucedido é o pragmático, físico, de imposição da força em detrimento da técnica e da tática.

Quando o assunto é Libertadores isto fica ainda mais acentuado. “É guerra!” Vira uma disputa de quem é mais macho, grita mais alto. Vira um jogo à parte, mundo paralelo. Uma espécie de ode à virilidade.

É o futebol “testosterona” – alusão ao hormônio masculino associado à libido, força, desenvolvimento muscular, etc. que, quando desregulado pode gerar raiva, agressividade e tendência a agir por impulsos.

Hoje o maior símbolo deste fenômeno no futebol brasileiro é Felipe Melo. Intempestivo, às vezes histérico no campo discutindo com companheiros, adversários e árbitros. Muitas vezes desperdiça energia na ânsia de se impor como o “xerifão” e acaba cansando e se desconcentrando de sua função em campo. No gol de Benedetto que ratificou a classificação do Boca Juniors no Allianz Parque, o volante estava mal posicionado, demorou a reagir e permitiu a finalização do atacante argentino.

Mas o Grêmio, grande exceção até então no Brasil, também acabou apelando para um modo mais rústico ao se deparar com um River Plate técnico e organizado. Sem contar com Luan nos dois jogos da semifinal e em boa parte deles também sem Everton Cebolinha, o grande destaque nesta temporada.

O estilo mais defensivo foi compreensível e bem aplicado no Monumental de Nuñez. Em casa, porém, o clima de final foi transformando o time de Renato Gaúcho. Pragmatismo, tensão, mais jogo de contato, marcação forte. Quando Everton entrou em campo, faltou confiança para definir o jogo e a vaga na decisão. Sobrou luta, o atual campeão vai questionar eternamente a arbitragem por conta do gol de Borré com a bola desviando em seu braço e a comunicação do treinador Marcelo Gallardo com seu auxiliar à beira do campo. Mas foi visível a queda de desempenho. Por força das circunstâncias acabou trocado pelo “jogo de Libertadores” que fez mais uma vítima no Brasil.

Melhor para o futebol “serotonina” – relativo à substância que, resumindo bastante, faz a transmissão de dados entre os neurônios. Se bem dosada regula o sono, o apetite e o humor. Contribui também para agir com confiança e na capacidade de responder aos estímulos com rapidez e qualidade. Por isso está diretamente associada ao prazer.

Exatamente as características que costumam marcar os gigantes argentinos Boca Juniors e River Plate. Especialmente na Libertadores. São times que gostam de disputá-la e entram em campo sem o peso que as equipes brasileiras carregam.

Dentro ou fora de casa conseguem impor o ritmo e jogar com naturalidade. Inteligência sem arroubos. Intensidade sem desespero ou agressividade. Trabalham com naturalidade e não se abatem com adversidades. Oscilam sem desespero e tentam retomar o mais rápido possível a capacidade de controlar o jogo e os nervos.

Mesmo quando não contam com grandes esquadrões parecem saber exatamente o que precisam fazer em campo. Não se lançam ao ataque de forma inconsequente, nem se instalam no próprio campo guardando a própria meta com temor. São adaptáveis, sabem a hora de acelerar ou “congelar” a bola ganhando preciosos segundos em reposições, faltas e também trocando passes no campo adversário.

Não é fórmula perfeita, ainda mais no esporte mais caótico e imprevisível. Mas o futebol “serotonina” está mais próximo da vitória que o “testosterona”. Porque a agressividade quase sempre é domada pela calma confiante. Por isso também é que Boca Juniors e River Plate farão a final das finais da Libertadores em Buenos Aires.


Palmeiras é mais uma vítima brasileira da força mental do Boca Juniors
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André Rocha

Não é o melhor Boca Juniors da história, longe disso. Mas o time dos irmãos Schelotto que vai fazer uma das maiores, se não for a maior, final da Libertadores da história contra o River Plate segue uma tradição do clube na principal competição sul-americana.

A equipe que perdeu para o Palmeiras de Roger Machado na fase de grupos e correu sério risco de ser eliminada cresceu demais no mata-mata por conta de sua mentalidade vencedora. Independentemente de quem está em campo, a postura é de time grande e vencedor.

Pode sofrer e ficar acuado, como no início do jogo no Allianz Parque e na virada do segundo tempo que deu alguma esperança a Luiz Felipe Scolari e seus comandados. Mas nunca abdica do jogo, dificilmente se desespera e sabe “congelar” a bola para o sufoco passar e voltar a atacar.

Desta vez num 4-3-3 com Villa e Pavón nas pontas e Ábila no centro do ataque. Para se antecipar a Luan e abrir o placar sobre um Palmeiras forçando demais o jogo em Dudu pela direita ou no pivô de Deyverson. Mesmo com Lucas Lima tentando qualificar o toque no meio-campo.

O jogo direto e rústico criou alguns problemas para o time argentino quando se transformava em volume de jogo ao dominar os rebotes e voltar a atacar, insistindo nas jogadas pelos flancos. Mas foi no abafa da segunda etapa que saíram os gols de Luan e Gómez cobrando pênalti sobre Dudu.

O único momento em que o time xeneize baixou um pouco a guarda. Mas impressiona como admite a dificuldade, oscila mentalmente, porém não se desmancha. Voltou a jogar com Zárate na vaga de Pavón e Benedetto no lugar de Ábila. Sem mudar o desenho tático e o modelo.

Quando Felipe Melo, em reta final da carreira e obrigado a marcar por encaixe e perseguição depois de anos na Europa defendendo por zona, cansou e deu espaços, Benedetto marcou seu terceiro gol dos quatro do Boca na semifinal e matou o confronto com os 2 a 2.

Com Moisés, Borja e Gustavo Scarpa, o Palmeiras insistiu, porém perdeu organização. 31 lançamentos, 37 cruzamentos e 30 rebatidas. Mesmo com 326 passes certos e 60% de posse sempre fica a impressão de que o Palmeiras de Felipão poderia trabalhar mais a bola. No futebol jogado no Brasil tem bastado.

Os argentinos administraram com aquela combinação de pressão no adversário com a bola e seguir atacando, mas sempre ganhando todo o tempo possível para esfriar o oponente.

Confirmando a 16ª classificação em 19 duelos em mata-mata contra brasileiros. Massacre histórico de uma força mental que vai buscar contra o maior rival a sétima conquista para se igualar ao Independiente como maior vencedor da história do torneio.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras de Felipão perde quando abre mão da “trocação”. Mas ainda vive
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André Rocha

O Palmeiras foi o mesmo por 70 minutos na Bombonera. Muita concentração defensiva, pressão no adversário com a bola, encaixe no setor para não permitir superioridade numérica. Bola roubada, muitas ligações diretas (53 lançamentos) em busca de Borja na frente ou das extremas com Dudu e Willian.

O Boca Juniors também muito atento aos contragolpes do oponente, com Barrios na proteção e última linha posicionada para guardar a própria área. Na construção, porém, foi igualmente sem criatividade. Com Ábila na frente, abrindo mão de Villa na ponta e posicionando Zárate pela esquerda num 4-1-4-1.

Jogo igual que foi acomodando o time de Felipão no jogo. Talvez o primeiro tempo muito fraco tecnicamente tenha passado a impressão de que seria mais fácil controlar. E aí veio o equívoco no comportamento ao longo do segundo tempo e com mais ênfase a partir dos 25 minutos.

Porque o Palmeiras não é um time de controle, mas de “trocação”. Troca ataques e tenta se defender melhor e desequilibrar na frente com as individualidades. Mesmo com vantagem no placar segue incomodando. Desta vez jogou por uma bola e foi pouco. Até porque não valoriza a posse para esfriar o rival.

Quando Guillermo Schelotto trocou Ábila por Benedetto, o Boca ganhou uma referência mais móvel. Já com Villa no lugar de Zárate. Sem nenhuma grande evolução, apenas com um pouco mais de dinâmica e fôlego renovado na frente, o time argentino conseguiu os gols com o centroavante substituto. Benedetto ganhou no alto de Felipe Melo e abriu o placar. Depois, por baixo, limpou Luan e bateu no canto de Weverton.

Entre um gol e outro, dos 38 aos 43, o único momento em que a Bombonera pulsou e intimidou o rival. Pela primeira vez se viu o seguro Palmeiras assustado. Também porque não vinha mais criando problemas ao sistema defensivo xeneize.

O placar de 2 a 0 parece exagerado. Mesmo com o Boca impondo 57% de posse, e nove finalizações contra oito. Mas seis a dois no alvo. Poucas chances cristalinas. No geral, muito equilíbrio. Por isso o Palmeiras ainda vive na semifinal da Libertadores. Mas terá que voltar à sua essência com intensidade máxima. E força mental para lidar com a obrigação de reverter um cenário agora tão complexo.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians e Cruzeiro: a cultura de vitória na final da Copa do Brasil
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André Rocha

O último campeão brasileiro e paulista. O último campeão da Copa do Brasil e mineiro. Os jogos de volta das semifinais do torneio mata-mata nacional foram parelhos, com momentos de pressão no final de Palmeiras e Flamengo, mesmo como visitantes.

Mas a cultura de vitória está na final da Copa do Brasil. Conceito subjetivo, mas que transmite confiança para quem conquista títulos e muitas vezes “encolhe” a perna dos jogadores da equipe que coleciona fracassos e sofre pressão. Exatamente o perfil atual dos derrotados, embora o Alviverde tenha taças mais recentes para ostentar. Só que depois de aumentar ainda mais o poder de investimento está devendo em resultados. Ao menos por enquanto.

Já o Corinthians sofre por restrições no orçamento e baixas seguidas no elenco e na comissão técnica. Mas se desta vez não encontrou forças para ser competitivo nos pontos corridos, especialidade nos últimos anos, chega na Copa do Brasil. Nove anos depois do terceiro e último título.

Em 2009 com Mano Menezes. Treinador na segunda final consecutiva, semifinalista em 2016. Com um Cruzeiro pragmático, que novamente não venceu o jogo de volta no Mineirão e vai se garantindo fora de casa. No 4-2-3-1 sólido, mas nem sempre constante. Péssima notícia para a volta contra o Boca Juniors pela Libertadores, mas carrega favoritismo para o bi e a sexta conquista do torneio nacional.

Porque o time de Jair Ventura foi inferior ao Flamengo nos 180 minutos. Mas teve eficiência em Itaquera, desde a bela inversão de Jadson, novamente jogando mais adiantado, que pegou Pará com Clayson e Danilo Avelar nas costas de Everton Ribeiro para abrir o placar.

Depois o jovem e promissor Pedrinho, que entrara na vaga de Clayson, decidiu no talento, com a ajuda da passividade no combate de Willian Arão e Trauco –  as surpresas de Mauricio Barbieri que adiantou Paquetá para jogar com Henrique Dourado e abriu Diego na ponta esquerda num 4-2-3-1 – e do sacrifício de Diego Alves para seguir em campo depois de uma lesão no primeiro tempo.

O gol rubro-negro foi contra, mais uma vez. De Henrique, desviando cruzamento de Pará. O lateral que acertou a trave no último ataque. A 11ª finalização rubro-negra contra seis do Corinthians – quatro a três no alvo.

No Mineirão a disputa foi mais econômica em conclusões: seis do Palmeiras, quatro do Cruzeiro. Também pelo excesso de ligações diretas e chutões – 45 do time mineiro, 30 dos visitantes. Roteiro esperado: Cruzeiro abrindo o placar na saída rápida, com Lucas Silva encontrando Barcos, que driblou Weverton e parecia encaminhar a classificação. Mas o gol de Felipe Melo, completando cobrança de escanteio, deixou tudo mais eletrizante até o final. O desfecho, porém, acaba com o sonho da “tríplice coroa” do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari.

Porque os dois times mais vencedores do país nos últimos tempos, junto com o Grêmio, resistiram. Na fibra, no apoio de suas torcidas. Mas principalmente pela força mental de quem vem crescendo em momentos decisivos. Por isso mesmo devemos ter uma final imprevisível, até pela posição intermediária dos times no Brasileiro.

Foco total. O trabalho mais curto contra o mais longevo. Quem vai se impor?

(Estatísticas: Footstats)


Felipe Melo, o “gatilho” para os clichês de Libertadores. Menos um
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André Rocha

“É jogo de Libertadores!”

Eis o pai de todos os clichês do maior torneio da América do Sul. Uma espécie de senha ou licença para todo tipo de recurso para vencer. Mesmo a barbárie dentro e fora das quatro linhas. Vale quase tudo, porque ao contrário de tempos remotos hoje existe as muitas câmeras de TV para registrar as situações mais absurdas.

O ápice do “futebol testosterona”. O jogo pra macho! O templo da virilidade. Pancadaria, ligação direta, lateral na área, torcida hostil, pressão na arbitragem…Vence o mais forte, o mais raçudo ou o mais esperto e não o melhor. É o não-jogar. Posse de bola, conceitos, jogo coletivo e mais pensado que sentido? Tudo frescura…

No Allianz Parque, outros clichês que são derivados do primeiro se fizeram presentes. “Se o resultado é favorável faz catimba!” O Palmeiras de Luiz Felipe Scolari, com vantagem de dois gols fora de casa e um homem a menos, trocou apenas 140 passes. Poderia ter gastado o tempo ficando com a bola e envolvendo um Cerro Porteño frágil tecnicamente e envelhecido. Preferiu “congelar” o jogo ganhando cada segundo possível. No final, só sofreu um gol, o primeiro sob o comando de Felipão, e se classificou. Mesmo correndo mais riscos que o recomendável.

Mas para que jogar se “é guerra”? Melhor dizer no final que foram mais experientes e malandros, não melhores. É um mundo paralelo que envolve torcida, dirigentes, boa parte da imprensa…como discutir? Ainda mais com Felipão, que chegou ao Palmeiras para entregar resultado. Cru. A exigência por um jogo mais agradável ao olhos se foi com Roger Machado. Sai a estética, fica o pragmatismo puro.

“Felipe Melo é isso!” De fato, o Palmeiras sabia quem estava contratando e isto ficou claro desde a coletiva de apresentação. Tudo pode acontecer. Tanto um bom desempenho do volante inteligente, de senso coletivo, posicionamento correto e passe preciso quanto o ocorrido aos três minutos de jogo.

Porque o árbitro argentino Germán Delfino não seguiu o clichê “juiz não expulsa na primeira pancada”. A entrada de Felipe Melo em Vítor Cáceres era mesmo passível de vermelho direto. Talvez outro não tivesse coragem para expulsar um atleta do time da casa tão cedo. Mas certamente o volante pagou pelos antecedentes. Faz parte do jogo.

Assim como é do repertório de todas as torcidas o “se não for sofrido perde a graça”. Um jogo de volta que parecia protocolar para garantir a vaga nas quartas de final se transformou numa batalha épica. No final, todos saíram vibrando e até criou-se um clima de “contra tudo e contra todos” por conta da arbitragem. Nada mais emblemático.

Felipe Melo foi o “gatilho” de um combo de clichês de Libertadores. Mas quem se importa? O Palmeiras segue vivo. E “os anti pira”.


Vitória do Cruzeiro e o dilema do Palmeiras: mal treinado ou sem confiança?
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André Rocha

As ausências de Henrique e De Arrascaeta no Cruzeiro e de Felipe Melo e Borja no Palmeiras contribuíram para um jogo no Mineirão com ambos enfrentando problemas na construção das jogadas desde a defesa e terminando, como consequência, com a dificuldade de criar espaços quando o adversário está postado sem a bola.

A diferença no gol da vitória celeste foi a dobra de Edilson e Robinho pela direita contra Victor Luís que não teve o auxílio de Dudu. Cruzamento que encontrou Rafael Sóbis e a virada que tirou de Jaílson. A mais eficiente das dez finalizações cruzeirenses, uma das duas no alvo. Dudu saiu de campo logo após a falha na recomposição para a entrada de Moisés, mas podia ter sido protagonista no belo chute que Fabio espalmou no início da segunda etapa. A melhor das seis dos visitantes, metade na direção da meta cruzeirense.

Um detalhe decidiu. Também a organização da equipe de Mano Menezes, controlando os espaços e negando a chance cristalina ao adversário depois de abrir o placar. Usando o banco com boas opções, como Bruno Silva pela direita, Ariel Cabral no meio e Raniel lutando na frente, pressionando os passes dos zagueiros. A falta de criatividade do oponente ajudou.

E aí entra o grande dilema palmeirense: a falta de confiança por conta de uma pressão absurda a cada resultado negativo tira a coragem dos jogadores de arriscar ou o modelo é que é engessado em uma posse de bola inócua (terminou com 53%) e falta de mobilidade na execução do 4-2-3-1?

Difícil avaliar quando destaques como Lucas Lima e Dudu arriscam tão pouco. Pior ainda se Keno, o ponteiro que ousa no drible, entra em campo visivelmente com problemas físicos. Sem as inversões de Felipe Melo a troca de passes fica previsível. Mas cabe a Roger Machado encontrar soluções para não repetir o ciclo de seus trabalhos no Grêmio e no Atlético Mineiro: bom início e o trabalho vai definhando com o tempo. Sem reação dos jogadores importantes nem alterações significativas que façam o time reagir.

Melhor para o Cruzeiro, que com duas vitórias depois de um início ruim já se aproxima do pelotão da frente. Com foco e titulares em campo é equipe competitiva. Desta vez nem precisou de um gol no início como elemento facilitador. Mesmo com jogo parelho conseguiu se impor.

É o que tem faltado ao Palmeiras. Mesmo classificado na Copa do Brasil e com a melhor campanha na fase de grupos – outra coincidência em relação à passagem de Roger pelo Atlético Mineiro. Quando a corda aperta o time sente e tem fraquejado. Sem confiança por estar mal treinado ou o desempenho é ruim por causa da pressão? É preciso descobrir, tecer o diagnóstico correto. E rápido!

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras e Grêmio começam a sobrar no país e tudo parte do meio-campo
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André Rocha

Independentemente do que acontecer nas decisões estaduais em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também das campanhas invictas até aqui na Libertadores, a análise de desempenho, com mais ênfase nas atuações recentes, sinalizam que Palmeiras e Grêmio começam a se desgarrar dos demais como os melhores times do país.

Equipes que alternam posse de bola para controle do jogo e intensidade nas transições ofensivas e defensivas e na pressão logo após a perda da bola. Times inteligentes. Consciência que parte do meio-campo.

Reunir Arthur, Maicon e Luan de um lado e Felipe Melo, Bruno Henrique ou Moisés e Lucas Lima do outro, para o nível do futebol jogado no Brasil, é garantir eficácia nos passes desde o início da construção das jogadas e variação de ritmos de acordo com a necessidade.

O entrosamento e a combinação de características fazem o trio do Grêmio render mais e protagonizar belos lances. Sem contar a confiança pelos títulos recentes e o trabalho de Renato Gaúcho já bem assimilado. Roger Machado ainda está no início de seu trabalho e, por consequência, está um passo atrás.

Aliás, curioso observar que os treinadores acabaram influenciando um no trabalho do outro, direta ou indiretamente. Renato recebeu o Grêmio de Roger, manteve a ideia e o modelo de jogo a partir da posse de bola e das triangulações e efetuou ajustes tornando o time mais rápido e contundente na frente, intenso no trabalho defensivo e atento nas bolas paradas.

Exatamente o que Roger vem alterando em seu repertório, agora no Palmeiras. Até pela urgência de resultados para se estabilizar no comando do time mais pressionado do país em 2018. Na impossibilidade de contar com tempo para fazer com que a marcação por zona não seja passiva como aconteceu especialmente diante do Corinthians na fase de grupos do Paulista, o comandante agora estimula os encaixes e algumas perseguições individuais mais longas para garantir a concentração dos atletas.

Um pouco de Renato, outro tanto de Cuca, último técnico campeão no alviverde. Para evitar problemas como os que Alberto Valentim passou. Basicamente, adiantar a última linha de defesa, mas sem fazer pressão no adversário sem a bola e fechar as linhas de passe.

Com a posse, o Palmeiras roda a bola , concentra jogadores de um lado, preferencialmente o esquerdo, até a bola chegar a Felipe Melo ou Lucas Lima quando este recua e acontece a inversão rapidamente buscando o ponteiro do lado oposto. Normalmente Dudu, que vem crescendo de produção no setor direito. Com mais volume de jogo e ações de ataque com profundidade, Borja também cresce como o artilheiro do time no ano.

Assim como Jael, substituto de Lucas Barrios e a mudança mais significativa na virada do ano, aproveita o momento positivo para arriscar cobranças de falta, assistências de letra. Mais os gols, completando as jogadas bem articuladas. O entrosamento com Everton, que infiltra em diagonal para se juntar ao centroavante, só torna os ataques mais fluidos e com momentos de beleza. Coisa rara por aqui.

É óbvio que há ainda muita margem de evolução e alguns jogos pelo estadual – no caso do Grêmio, mesmo na final – não servem como parâmetro seguro para avaliações mais profundas. Ainda assim, a proposta e a execução parecem mais alinhadas, potencializando o talento através do trabalho coletivo. Com o toque diferente no meio-campo.

Domingo ambos podem levantar taças. Para o Grêmio significaria o fim de um período de oito anos sem conquistas na competição. Já o Palmeiras ganharia mais confiança para seguir a sua saga na temporada em que todos não aceitam menos que o máximo em conquistas.

O que se espera é que se algo der errado em termos de resultado o trabalho até aqui não seja descartado. Seria um desperdício. Mais um na terra do futebol de resultados.


“Ditadura da emoção” estraga primeiro Corinthians x Palmeiras decisivo
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André Rocha

Foto: Paulo Whitaker/Reuters

Corinthians e Palmeiras disputam o dérbi do maior centro futebolístico do país. São os últimos campeões brasileiros, terminaram na ponta da tabela na última edição da competição nacional mais importante da temporada. Ou seja, é o maior clássico brasileiro da atualidade. Para muitos a grande rivalidade do país.

Decidindo o Paulista, algo que não acontecia desde 1999. Século passado. Em dois jogos, um em cada arena. O Corinthians havia vencido os quatro últimos confrontos, apesar da maior capacidade de investimento do rival.

Ingredientes para tornar o primeiro confronto em Itaquera muito tenso. Até porque com mando de campo e torcida única a responsabilidade de construir o resultado em casa aumenta exponencialmente em relação aos duelos de antes no Morumbi com torcida dividida.

Mas nada justifica uma disputa de péssimo nível técnico, com 50 faltas cometidas – 22 pelo Corinthians e 28 pelo Palmeiras – e 12 cartões apresentados pelo árbitro Leandro Bizzio Marinho. Vermelhos para Felipe Melo e Clayson após uma confusão geral. A famosa “bulha”.

Nada justifica, mas há um fenômeno que explica tamanha panela de pressão: a “ditadura da emoção”.

É claro que todo clássico vale muito para o torcedor. É a chance da vitória que é a cereja do bolo. No caso do estadual, o duelo fica muito maior do que a conquista em si. Mas a cultura da guerra alimentada por torcedores, dirigentes, jogadores e até muitos jornalistas coloca tudo vários tons acima.

Os jogadores precisam ser guerreiros. Ganhar na bola e na porrada numa disputa que coloca quem é mais machão acima, bem acima de quem é melhor. Para o torcedor, quanto mais sofrido, mais gostoso. Espalham-se nos estádios as caras, bocas e lágrimas de algo que beira a histeria. E a loucura passa para o campo.

Ninguém tenta parar a bola e jogar. Até porque se não entrar no clima bélico pode ser acusado de ter amarelado, ser frouxo, não honrar a camisa. Então tudo se resume a entrar firme nas divididas, apelar para as faltas se perceber que vai perder a jogada, dar carrinho e se houver o desarme ou o perigo for afastado tem que vibrar, bater no peito para mostrar que tem coração e no braço para ressaltar que tem sangue nas veias.

E a cabeça? E pensar o jogo para vencê-lo? A emoção já está na atmosfera. Quem não se envolver em campo num clássico deste tamanho é melhor procurar outro ofício. A vontade de vencer é evidente, ainda mais no país que mede todos os agentes do futebol pelo “ganhou o quê?” Sem contar que a imprevisibilidade do jogo já o torna emocionante ao natural.

Não é preciso inflamar mais porque consome o raciocinio, embota a visão. O jogo fica feio, com chutões demais, ligações diretas porque ninguém quer arriscar um passe que pode dar errado e encontrar o vilão. O resultado prático são 90 minutos de tortura para quem joga, torce e assiste. Quem vence berra e chora. A dúvida é se é de alegria ou de alívio. Porque o jogo em si praticamente não existiu.

Pode ser Corinthians x Palmeiras, mas também Gre-Nal, Ba-Vi, Flamengo x Vasco, Cruzeiro x Atlético, Atle-Tiba. A “ditadura” está lá. Alimentada também pela TV, que fala em emoção o tempo todo e pouco sobre futebol. No slogan, na gritaria dos narradores cada vez mais exagerada, até forçada. Até cobrança de lateral é com o tom lá em cima.

Querem tudo à flor da pele e depois lamentam quando a violência explode no campo, nas arquibancadas ou nas ruas. Não é preciso falar “Matem-se!” Basta resgatar sempre que possível os símbolos da guerra que sempre foram utilizados no futebol. Só que a coisa passou do ponto há tempos. Mais uma vez estragou um jogo decisivo.

O gol de Borja no início da partida condicionou o jogo. Mas controle não houve. Inclusive, Roger Machado promoveu em sua equipe uma mudança na forma de se defender. Para evitar que a marcação por zona pura pudesse provocar uma passividade em seus jogadores, a maior crítica na derrota por 2 a 0 para o Corinthians na fase de grupos, o treinador estimulou seus comandados a fazer encaixes com perseguições mais longas. Mesmo tendo a bola ainda como referência. Tudo para não perder a intensidade. E também agradar a arquibancada. Ou, no caso de hoje, o palmeirense que viu pela TV.

Correria desenfreada, qualquer choque aumentando ainda mais a eletricidade. Há quem defenda essa postura e diga que clássico decisivo não é para jogar, mas vencer. Ainda mais para os que veem o esporte como o último refúgio para a barbárie e a imposição da virilidade através da truculência. Ou o templo da emoção. Sempre ela.

A grande pergunta que fica é onde o futebol, essência que se transforma em um mero detalhe, entra nessa equação? Em Itaquera ele pouco apareceu. Pior assim. Que no Allianz Parque seja melhor.


Palmeiras vence combinando Roger e Cuca. São Paulo parece sem saída
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André Rocha

O clássico no Allianz Parque mostrou um Palmeiras combinando, intencionalmente ou não, elementos das ideias de Roger Machado com as do campeão brasileiro com Cuca.

Pressão sufocante na saída de bola do adversário e um jogo mais direto e menos construído ao entrar no campo de ataque. Com Lucas Lima mais adiantado, recuando menos para articular. Passando do 4-1-4-1 para um 4-2-3-1 dentro de um modelo que se impôs pela intensidade. Também na jogada aérea que encontrou Antonio Carlos no gol que começou a mudar o clássico. A fração de Cuca.

Já a de Roger é uma saída de bola mais cuidadosa, liderada por Felipe Melo bem assessorado por Bruno Henrique. Também a marcação por zona, sem encaixe ou perseguições longas. Maior controle, tanto dos espaços quanto da posse de bola – terminou com 54%.

A inversão dos ponteiros, com Dudu à direita e Willian pela esquerda, funcionou com o auxílio dos laterais Marcos Rocha e Victor Luis, o melhor em campo com destaque para o voleio que terminou no gol de Borja no rebote. Volume de jogo e variações dentro de uma atuação segura. Os números dos 90 minutos dos 2 a 0 não deixam dúvidas: 16 finalizações contra sete e 25 desarmes corretos contra treze.

Domínio que desequilibrou totalmente o rival. O São Paulo de Dorival Júnior foi empurrado para a defesa, não conseguiu reter a bola, forçou demais as ligações diretas com o goleiro Jean e sofreu. A falta de confiança é nítida. Uma pressão bem feita é suficiente para desarticular tática e mentalmente a equipe.

O tricolor parece sem saída. Com jogadores rodados como Nenê e Diego Souza o time fica muito lento. Já quando escala os mais jovens, ou o “time do Dorival”, a situação do clube joga contra e qualquer obstáculo parece uma montanha. Consequência de uma espiral de equívocos, dentro e fora de campo, que não vem de hoje.

O futuro no Morumbi é duvidoso. Pela lógica brasileira, a derrota no clássico deve custar o emprego de Dorival Júnior. Embora não seja o único culpado, é inegável que o trabalho não evolui com consistência e a impressão é de que não há respaldo real para a reconstrução paciente de um gigante combalido.

Já o Palmeiras parece ganhar um norte para a sequência da temporada, mesmo considerando as fragilidades do rival. Misturando posse e intensidade. Roger e Cuca. Passado e presente. Pode dar bem certo.

(Estatísticas: Footstats)