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Apesar de Paquetá, Flamengo adia título do Palmeiras e complica Sport
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André Rocha

O Palmeiras decepcionou ao empatar com o lanterna Paraná, sim. Atuação fraquíssima, mesmo com a atenuante da forte chuva. Mas objetivamente pontuou fora e aumentou a invencibilidade para 20 partidas. Com a derrota do Internacional para o Botafogo no Nílton Santos ainda manteve os cinco pontos de vantagem na liderança.

O ponto fora da curva foi a vitória do Flamengo na Ilha do Retiro sobre o Sport que evoluía em desempenho e resultados com Milton Mendes no comando técnico e vinha de cinco rodadas de invencibilidade.

Mudanças forçadas nos dois lados, cenário mais complicado para Dorival Júnior sem Rodinei e Pará na lateral direita, Diego, Uribe e ainda Everton Ribeiro, desgastado, no banco de reservas. Léo Duarte foi improvisado como lateral e Rhodolfo entrou na zaga. Milton Mendes também deslocou um zagueiro: Ernando na lateral esquerda.

Primeiro tempo de equilíbrio e o Flamengo, mesmo com 40% de posse de bola, uma raridade na competição, finalizou cinco vezes e teve boa oportunidade com Vitinho, completando jogada de Paquetá e Renê pela esquerda. O Sport também incomodava mais com Mateus Gonçalves para cima de Léo Duarte. O time carioca agredia pouco do lado oposto, mais com Willian Arão que nas jogadas de Geuvânio, novamente errando muito tecnicamente.

Disputa parelha na segunda etapa até a tola expulsão de Paquetá. Por mais que Dorival defenda seu jovem atleta e o camisa onze até tenha participado bem de alguns ataques, a dispersão do meia depois da negociação com o Milan é nítida. A cabeça não está mais na disputa do Brasileiro. A desconcentração permite faltas bobas como a que cometeu sobre Ernando. Ainda na intermediária do Sport, sem nenhum perigo de contragolpe. Já com cartão amarelo.

Atrapalhou ainda mais porque Dorival preparava as entradas de Berrío e Everton Ribeiro. Mesmo surpreendido, o treinador sacou Geuvânio e Henrique Dourado. No 4-4-1 alternando os dois substitutos no centro do ataque, o Fla cresceu porque ganhou espaços para acelerar as transições ofensivas. O Sport se lançou à frente naturalmente com a vantagem numérica e pela necessidade de três pontos para se afastar do Z-4.

O Flamengo “arame liso” pareceu dar as caras em Recife quando Berrío cabeceou na trave completamente livre. Até que surgiu o heroi improvável: Willian Arão. O volante que costuma fraquejar mentalmente quando o jogo fica mais duro e não tem o jogo aéreo como ponto forte aproveitou cobrança de escanteio de Vitinho para desviar de cabeça na primeira trave e definir o jogo.

Os minutos finais foram de Piris da Motta no lugar de Vitinho e o abafa descoordenado do Sport com Fellipe Bastos, Marlone e Matheus Peixoto, que ridiculamente tentou cavar pênalti em disputa com o goleiro César desperdiçando mais um ataque. Muitos cruzamentos, pouca eficiência. O rubro-negro pernambucano deve lutar até o fim para se manter na Série A.

O Fla ganhou uma rodada. Agora vai seguir na busca que só não é impossível por ser futebol. Jogo duro contra o Grêmio no Maracanã e o Palmeiras em casa encarando o América, que venceu o Santos e pode até dar trabalho. Mas o fato é que o campeonato pode acabar na quarta-feira – se o Internacional também não vencer em casa o Atlético-MG.

A boa notícia para o Fla é que Lucas Paquetá está suspenso. Sério desfalque em outros tempos, agora pode fazer o time render mais e tentar virar a lógica do avesso no Brasileirão. O mundo gira como a bola. Mas não deve mudar o campeão de 2018.

(Estatísticas: Footstats)


Alívio do Corinthians, agonia do Vasco. Sofrimento para todos
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André Rocha

O contexto de Corinthians x Vasco amplificou todas as características do futebol jogado atualmente no Brasil: muito sentido e sofrido, pouco pensado e treinado. Improvisação sob pressão de camisas pesadas, mas times indigentes.

Tortura para o torcedor envolvido emocionalmente com a saga para se afastar do Z-4, penúria para o espectador neutro que busca algum vestígio de qualidade de jogo coletivo. Para o analista…com toda sinceridade, apenas o dever de ofício e profundo amor pelo esporte bretão.

O Corinthians pena porque Jair Ventura ainda confunde organização com um time engessado. Poucas ideias a ponto de, no final de 2018, apelar para Danilo, 39 anos e naturalmente acima do peso para um atleta profissional. Pela experiência, presença de área, capacidade de reter a bola e inteligência quando o corpo consegue responder ao raciocínio.

O Vasco nem isso. Sem Maxi Lopez, por conta de um corte no pé direito, e com a queda de desempenho de Yago Pikachu, foi a São Paulo entregue à própria sorte. No abandono de um ambiente político conturbado e as piores perspectivas em caso de rebaixamento – financeiramente seria o caos pelas mudanças nas cotas de TV e considerando que a gestão Eurico Miranda gastou antecipado.

Para piorar, o treinador Alberto Valentim expulso pelo fraco árbitro Wilton Pereira Sampaio na saída para o intervalo por exagerar na reclamação de um escanteio marcado além dos acréscimos.

Jogo duro. De suportar para o apaixonado. De ver para quem se propôs a acompanhar. Pikachu deu espaço generoso para Fagner cruzar, Raul não acompanhou Mateus Vital, que cabeceou nas redes de Fernando Miguel. Gol da revelação vascaína que não comemorou. Por respeito a quem não teve como mantê-lo. Por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis. Sintomático.

Mesmo com domínio da posse de bola (55%) e 15 finalizações contra nove – quatro a dois no alvo. A última do zagueiro Henriquez no travessão, já nos acréscimos. Ainda um pênalti claro de Danilo Avelar em Marrony um pouco antes – o erro grave de arbitragem não podia faltar, até para monopolizar o debate sobre a partida e servir como cortina de fumaça para a ausência de virtudes…Era preciso somar três pontos. Ao menos um. Agora é agonia.

Alívio para o Corinthians. Mesmo com 38 lançamentos e das 38 rebatidas. Apenas 251 passes trocados. Apesar de tudo, a missão foi cumprida. E no momento só é possível para o (ainda) atual campeão brasileiro entregar o resultado. Puro e simples. Muito pouco.

No apito final, sopapos e pontapés numa catarse para extravasar o resto de tensão represada. Emblemático para os tristes tempos para Corinthians e Vasco. O único sorriso possível é de quem se livra do desespero. Fiel retrato do que se joga no país.

(Estatísticas: Footstats)


O mea culpa necessário sobre Diego, Berrío e Dourado na vitória do Flamengo
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André Rocha

O goleiro César foi o personagem da vitória do Flamengo sobre o Santos no Maracanã por 1 a 0. Venceu o duelo com Gabriel Barbosa, artilheiro do Brasileiro, ao defender no segundo tempo um chute do atacante sem marcação e depois pegar o pênalti cobrado pelo camisa dez do alvinegro praiano já no final do jogo.

O triunfo não muda nada na briga pelo título, mas ajuda na luta pela vaga no G-4 e, consequentemente, na fase de grupos da Libertadores 2019. Internacional, Grêmio e São Paulo agora são os rivais, não mais o campeão Palmeiras esperando apenas a matemática para receber a taça.

Mas é dever deste blog fazer um mea culpa sobre os três jogadores rubro-negros envolvidos no gol única da partida.

Diego Ribas foi e ainda é criticado por atrasar os ataques da equipe ao prender demais a bola e quase sempre precisar dar um giro para só depois pensar no que fazer. Por aqui você já leu que era uma falácia ele ser o meia criativo do Fla. Esta crítica, no geral, continua sendo justa.

Mas é preciso reconhecer que em vários momentos não houve uma opção confiável para um passe em profundidade. Seja por falta de velocidade, erro de posicionamento ou de tomada de decisão do atacante para receber a bola às costas da defesa adversária. Muito ligado em estatísticas, Diego não gosta de errar passes, por isso costuma esperar e fazer a escolha mais segura. Nem sempre a mais produtiva.

Já Orlando Berrío, quando foi contratado em 2017, foi avaliado neste espaço como um erro da diretoria. Não pelo que o colombiano poderia produzir, mas pelas características. Zé Ricardo, treinador à época, disse a este blogueiro na virada do ano que precisava de um ponteiro de bom drible e finalizador. Vitinho já era o alvo, mas não foi possível.

Veio Berrío, ponta de velocidade espantosa, mas que não tem o drible nem a conclusão como pontos fortes – apesar da jogada espetacular e surpreendente que terminou no gol de Diego sobre o Botafogo na semifinal da Copa do Brasil do ano passado. Ou seja, o treinador pediu uma coisa e a diretoria trouxe outra.

Só que a saga rubro-negra sem grandes conquistas mostrou que Berrío, quando esteve em campo, deu à equipe a alternativa de velocidade, aceleração e capacidade de explorar as costas da retaguarda do oponente. Só inferior à de Vinicius Júnior em seus momentos mais inspirados. Uma pena que quando mostrava estar mais bem adaptado ao clube e ao futebol brasileiro teve uma contusão grave e só retornou no segundo semestre de 2018, mas ganhando confiança e ritmo de competição bem aos poucos.

Henrique Dourado chegou ao Flamengo por conta da artilharia do Brasileirão 2017 pelo rival Fluminense. Outra contratação equivocada de Rodrigo Caetano pelas características do centroavante. Jogador de último toque, não de pivô para participar de ações ofensivas mais elaboradas em um time que se propõe a se instalar no campo adversário e trabalhar. Difícil dar sequência às jogadas com bola no chão. Por isso as críticas frequentes nas análises sobre o time. Ficaram apenas os 100% de aproveitamento nas cobranças de pênalti.

No gol que decidiu a partida, um contraponto ao maior problema do Fla nos últimos anos: a difícil combinação de características dos jogadores em campo. Diego arriscou e acertou o passe longo porque Berrío apareceu às costas da linha defensiva santista. O colombiano foi preciso na assistência porque Dourado estava na área para finalizar. E a bola foi parar nas redes de Vanderlei porque o centroavante teve liberdade para concluir, justamente porque a jogada foi surpreendente e bem executada.

Lance único em um universo de 19 finalizações, apenas quatro no alvo. Domínio inócuo do Flamengo na primeira etapa, com Everton Ribeiro, Diego e Vitinho cortando da ponta para dentro em jogadas já mapeadas pelos rivais e que dificilmente terminam em uma chance cristalina. Só com as mudanças de Dorival Júnior o time voltou a sair de campo com os três pontos depois de três partidas.

É final da gestão Bandeira de Mello e os candidatos à presidência já sinalizaram uma mudança profunda no elenco para o ano que vem. É bem provável que Diego, um dos símbolos dessa fase sem conquistas, deixe o clube. Mesmo sendo exemplo de comportamento com Dorival Júnior ao aceitar a reserva e lutar no campo para recuperar a titularidade, a passividade em entrevistas depois de derrotas importantes mancharam a imagem do meia junto à torcida. O futuro de Berrío e Dourado são grandes incógnitas, vai depender do novo treinador.

De qualquer forma, fica o registro desse mea culpa. Talvez em equipes com outras propostas de jogo e elencos mais ajustados ao que o time pretende fazer em campo esse trio possa render o que se espera. No Flamengo, o gol do triunfo foi raridade. Talvez um presente tardio no aniversário dos 123 anos do clube.

(Estatísticas: Footstats)

 


Atento e eficiente, Palmeiras é campeão brasileiro. Só falta a matemática
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André Rocha

A vitória por 3 a 0 sobre o Fluminense no Allianz Parque foi mais um típico triunfo do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari.

Concentração sem a bola, futebol simples e direto usando e abusando da qualidade de jogadores como Bruno Henrique, Dudu e Lucas Lima para definir o jogo. Insiste, inclusive na bola parada, explora as deficiências dos adversários com maiores fragilidades técnicas e táticas, além da carência de peças de qualidade.

É simplesmente impossível tirar do líder absoluto mais um título brasileiro, repetindo 2016 na era dos pontos corridos. Com todos disponíveis, foco total na competição, confiança lá no teto e os concorrentes diretos Internacional e Flamengo já jogando a tolha e tropeçando na própria incompetência.

Gol de Borja no primeiro tempo completando bela jogada de Diogo Barbosa, depois Felipe Melo, que entrou na vaga de Lucas Lima, acertou um chute espetacular no ângulo de Julio César e Luan no final completou na bola parada. O Flu tentou duelar de igual para igual, Marcelo Oliveira desfez o sistema com três zagueiros e apelou para o 4-2-3-1.  Mas simplesmente não dá para competir.

55% de posse de bola, ainda que apelando para lançamentos e rebatidas, ou chutões mesmo, por 76 vezes e trocando menos passe que o Flu – 264 x 267. Mas foram 17 finalizações, oito no alvo. Enquanto os demais oscilam, o Palmeiras completa um turno sem derrotas, 19 partidas. Impossível questionar a competência para pontuar sempre. Sempre atento.

É o campeão brasileiro de 2018. No apito final, mais uma comemoração de jogadores, comissão técnica e torcedores. Agora só falta a matemática para entregar a taça. Questão de tempo.

(Estatísticas: Footstats)


Por que Richarlison é o atacante mais promissor da Premier League
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André Rocha

Foto: Agência Reuters

Melhor contratação da temporada na Premier League. Assim a revista Four Four Two saudou o atacante Richarlison, do Everton, em um ranking de aquisições dos clubes da primeira divisão inglesa na temporada 2018/19. Um “centroavante completo” segundo a publicação.

Este que escreve se arrisca a dizer que o brasileiro de 21 anos é o atacante mais promissor de uma das ligas mais competitivas do planeta. E um dos melhores, mesmo com a enorme concorrência de Aguero, Hazard, Kane, Aubameyang, Salah e outros.

Porque o nível alcançado em pouco tempo depois da saída do Watford para o clube de Liverpool já é muito alto. Em técnica, tática e, principalmente, intensidade. Richarlison é o típico atacante para o ritmo e as particularidades do campeonato que disputa.

Atua centralizado, mas sabe sair para os lados. Tanto abrindo espaços para os companheiros como para criar as brechas para as próprias finalizações. Especialmente nas infiltrações em diagonal. Sabe rondar a área adversária e não se intimida com a disputa física e pelo alto com os zagueiros.  Também participa com eficiência da pressão logo após a perda da bola. Forma com Walcott, Sigurdsson e Bernard um quarteto ofensivo de muita mobilidade na equipe de treinador Marco Silva.

Richarlison já mostra sintonia fina com Sigurdsson, o articulador do quarteto ofensivo do Everton. No lance, o brasileiro ataca o espaço no tempo certo para finalizar passe do meia islandês (Reprodução ESPN Brasil).

É uma espécie de Diego Costa mais ágil e inteligente e menos “polêmico”. Chama lançamentos, mas também faz pivô. São seis gols em 840 minutos nas dez partidas em que entrou em campo, sempre iniciando como titular. Com média de 2,3 finalizações por jogo, segundo o site Whoscored.com. Ainda pode melhorar o senso coletivo, já que ainda não serviu passes para gols e tem média inferior a um “key pass” por partida.

Natural que pela idade e por conta da mudança de clube a ansiedade para dar respostas com gols seja maior. O potencial de evolução, porém, é enorme. Ainda mais se continuar progredindo e fizer nova mudança de clube, desta vez para um dos que disputam efetivamente o título nacional. O Everton, apesar da tradição, ocupa apenas a nona posição e a meta palpável é tentar alcançar uma vaga para a Liga Europa – está a cinco pontos do Arsenal, quinto colocado.

Na seleção brasileira, a disputa é cruel com Gabriel Jesus e Roberto Firmino, que estão na frente dentro da meritocracia de Tite, pelo histórico de convocações e desempenho ao longo do processo desde o segundo semestre de 2016. Mas Richarlison é alvo de elogios do treinador e pode ser aproveitado também pelos flancos.

Em um ataque com passadores como Firmino, Coutinho e Neymar, contar com uma opção que dê profundidade e contundência às ações ofensivas é sempre importante. Neste ponto a concorrência maior do jogador do Everton é com Gabriel Jesus, que sinaliza recuperação de desempenho no Manchester City. Mas também pode entrar como ponteiro em uma formação mais ofensiva.

Richarlison em sua jogada característica, infiltrando em diagonal partindo da esquerda para finalizar de pé direito com efeito (reprodução ESPN Brasil).

No popular, Richarlison “fede a gol”. E ainda tem carisma, como mostrou na popularização da “dança do pombo” e no trato com os fãs. No universo midiático e das redes sociais é um trunfo importante, ainda mais para um atleta de origem humilde, vindo de Nova Venécia, no Espírito Santo.

Mas a maior credencial, sem dúvida, é o que o atacante revelado no América-MG e que se destacou no Fluminense demonstra no campo. Na Premier League ele já está sobrando.

 

 


Diego Aguirre, Quique Setién e o parâmetro único do futebol brasileiro
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André Rocha

Aconteceu de novo. Em seu terceiro trabalho no futebol brasileiro, Diego Aguirre sai sem completar uma temporada. No Internacional em 2015, título gaúcho e semifinal da Libertadores. No Atlético Mineiro, final mineira e eliminação nas quartas do torneio continental. Aproveitamento em torno de 60% nos dois clubes.

O mesmo agora no São Paulo. Quando assumiu sucedendo Dorival Júnior, a perspectiva de disputar no Brasileiro uma vaga direta na fase de grupos da principal competição sul-americana parecia distante, improvável.

Mas Aguirre virou refém do próprio sucesso momentâneo. Na volta da competição nacional depois da Copa do Mundo, o Tricolor do Morumbi assumiu a liderança e ficou no topo por oito rodadas. O suficiente para a meta subir demais: o título brasileiro que o clube não conquista desde 2008.

Só que o time vivia fundamentalmente da velocidade de Rojas e Everton pelos lados. Intensidade máxima na ida e volta para compensar o pouco dinamismo de Nenê e Diego Souza, os companheiros de quarteto ofensivo na execução do 4-2-3-1 no melhor momento da equipe no ano. Quando os pontas se lesionaram o time caiu.

Junte a isso toda a tensão pela expectativa criada com as semanas “cheias” para trabalhar, mas dentro de um ambiente de ansiedade total, e veio a queda. Em desempenho e resultados. A perspectiva anterior não servia mais e o diretor Raí agora demite o uruguaio.

Quem lê este blog sabe que não há defesa incondicional de treinadores nem obsessão por manutenção sem avaliar rendimento. É fato que o trabalho não teve a evolução esperada. Mas demitir em novembro? Buscando em André Jardine um “fato novo” para o time buscar vaga no G-4 em cinco jogos? Difícil entender.

Assim como o mundo foi surpreendido com a vitória do Real Betis no Camp Nou sobre o Barcelona, com Messi de volta, por 4 a 3. Com os visitantes disputando a posse de bola com o time catalão e chegando sempre na área adversária com no mínimo três jogadores.

A proposta ultraofensiva, de jogo de posição dentro ou fora de casa, é de Quique Setién. Treinador de 60 anos que veio do Las Palmas na temporada passada e acredita na execução de um modelo de jogo baseado no trabalho coletivo com a bola, pressão logo após a perda e aceleração e infiltração quando se aproxima da área do oponente. Coragem mesmo sem orçamento gigantesco que permita a contratação de grandes estrelas.

Aguirre é pragmático. Ainda que para a cultura brasileira de “em time que está ganhando não se mexe” o hábito de mudar formações e sistemas táticos incomode, ele está mais alinhado ao jogo praticado por aqui: muitos cuidados defensivos e no ataque jogar com espaços ou apostando nos cruzamentos, com bola parada ou rolando.

Já Setién é idealista. Não se importa com placar “roleta russa” e prefere arriscar. Seu time está em 12º lugar em doze rodadas. Quatro vitórias, quatro empates, quatro derrotas. 12 gols a favor, 15 contra. Saldo negativo de três. Só que na Espanha há um conceito mais definido de times grandes, médios e pequenos. Todos sabem seus lugares e perspectivas. Em 2017/18, o Betis terminou na mesma colocação e Setién seguiu no clube. Tem contrato até 2020.

No Brasil, se assumisse um clube grande por sua tradição, mas médio pelo contexto, seria pressionado a montar um time engessado, contrariar seus princípios inegociáveis. Décimo segundo colocado? “Professor Pardal”, “muito conceitinho”, “não conhece a realidade daqui”, etc.

Aguirre nada tem de revolucionário e deixa o Brasil pela terceira vez. No San Lorenzo, ficou de junho de 2016 a setembro do ano seguinte, entregando o cargo após eliminação para o Lanús nas quartas de final da Libertadores. Lá, em geral, há mais paciência.

Aqui só há um parâmetro: o resultado. Puro e simples. Sem análise, contexto…Placar e colocação na tabela. Está na liderança? Tudo perfeito, sem ressalvas ou críticas. “Ótima fase” e vamos atrás dos “segredos” do time e do treinador. O segundo colocado é o primeiro dos últimos e só há alguma valorização se acontece uma campanha de recuperação ou algo parecido. Uma trajetória “de campeão” pelas circunstâncias.

Todos são grandes, ambiciosos, têm que usar o discurso hipócrita de que a meta é a taça para agradar torcedores mimados e insanos. Se conseguir, mesmo com um futebol indigente, é maravilhoso. Se fracassa a porta da rua é o destino inexorável.

Por isso Aguirre parte para provavelmente não voltar tão cedo. Já Setién…bem, se o espanhol conhece a realidade do nosso futebol só deve vir mesmo a passeio. Pior para nós.


Campeão da Série B, Rogério Ceni não pode virar as costas para o Fortaleza
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André Rocha

Há um costume cruel no Brasil de só prestar atenção no Nordeste quando o Sul e o Sudeste viram as costas. Preconceito injustificável com uma das regiões mais importantes do país em cultura, história e representatividade nos mais variados segmentos.

Rogério Ceni começou a carreira de treinador se impondo o desafio de trabalhar no São Paulo. O maior ídolo da história do clube sofreu em suas primeiras experiências no comando técnico e, por isso, parecia sem grandes perspectivas. O que fazer depois de iniciar no que deveria ser o ponto final?

O Fortaleza foi o destino escolhido. Depois de penar por oito anos seguidos na Série C, o clube cearense conseguiu o acesso e o clima era de mais paz e otimismo. No Cearense, mesmo com boa campanha na primeira fase, o bicampeonato do rival Ceará foi um baque, mas não a ponto de colocar a sequência do trabalho em risco.

O início da Série B foi de ótimos resultados, mas alguma oscilação no desempenho. Rogério Ceni seguia variando escalações e desenhos táticos dentro da sua ideia de ser protagonista. Até notar que precisava ser mais pragmático para não deixar escapar a possibilidade de acesso que parecia cada vez mais palpável.

Ceni entendeu a necessidade de se adaptar ao contexto e, sem perder de vista o desempenho, priorizar o resultado sendo um pouco mais conservador quando necessário. O futebol mais conceitual deu lugar ao jogo por demanda, de respostas jogo a jogo. Para se manter na liderança por 34 rodadas e sempre no G-4.

Time com mais vitórias (20) e menos derrotas (oito). Melhor saldo de gols (19) e vantagem na tabela para garantir a conquista na antepenúltima rodada com a vitória por 1 a 0 sobre o Avaí. Gol de Rodolfo nos acréscimos. Na 34ª havia confirmado o acesso com os 2 a 1 sobre o Atlético-GO. Duas vitórias fora de casa, afirmando a competitividade do time de Ceni.

Jogando em função de Gustagol, artilheiro do time com 12 gols, a quatro de Lucão do Goiás, o goleador máximo da competição. Mas mantendo o cuidado com a bola. Líder absoluto em posse e passes certos. Mas também o que mais cruza na área adversária. Ataque por baixo e pelo alto. Defensivamente, só desarma menos que o Vila Nova e é o que comete menos faltas entre os 20 times. Time bem posicionado e consciente.

Conquista com autoridade que muito provavelmente colocará Rogério Ceni na roda de especulações de treinadores para clubes do “eixo” pensando em 2019. Mas ainda que apareça uma proposta interessante financeiramente e nas condições de trabalho, o jovem treinador deve seguir no clube que o projetou e agora terá ainda mais moral e autonomia.

Em São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais, o jovem comandante será cobrado e num período de turbulência pode ter sua imagem atrelada ao São Paulo e a primeira experiência mal sucedida lembrada com mais frequência que o triunfo no Fortaleza.

Não é hora para entrar na vala comum e virar as costas para o Nordeste. Ceni pode e deve fazer diferente.

(Estatísticas: Footstats)


Atlético-PR vai na contramão do futebol brasileiro: se organiza para atacar
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André Rocha

Foto: Miguel Locatelli/CAP

O futebol jogado no Brasil ainda tem como eixo central o talento que decide. Ainda que por aqui ele só dê as caras quando surge uma joia nas divisões de base e ela pula etapas para entregar alguma coisa no profissional antes de partir para a Europa. Ou de jogadores em reta final de carreira. Ainda os que não se adaptaram ao jogo de lá e voltam para ser reis.

Então as equipes se organizam defensivamente com linhas compactas e pressão no adversário com a bola. Os ataques, porém, se resumem a acionar rapidamente esses talentos para que, com espaços, eles decidam. Ou roubando no campo de ataque ou no típico contragolpe.

Há exceções com uma proposta de construção desde a defesa trocando passes. O Santos de Cuca numa reação tardia no Brasileiro e o Flamengo, com Dorival Júnior e antes com Maurício Barbieri, com modelo de jogo que por vezes tangencia o jogo de posição, mas esbarra nas limitações técnicas de seus “elos fracos” e na incrível dificuldade para definir grandes jogos.

E temos o Atlético-PR. Com as limitações de quem não conta com grande orçamento para repatriar estrelas, mas na mudança de Fernando Diniz para Tiago Nunes no comando técnico aproveitou parte dos princípios do treinador idealista e se reinventou.

Ainda é um time que preza a posse de bola. No Brasileiro só fica atrás de Flamengo e Grêmio, ainda “herança” dos índices muito altos dos tempos de Diniz. Mas adiciona volume, intensidade, movimentação e, o mais importante: contundência.

Tudo com organização. Na execução do modelo baseado no 4-2-3-1, a equipe vai na contramão do futebol jogado por aqui e pensa para atacar. Não se baseia apenas no instinto dos atletas. Pela esquerda, há um revezamento entre Nikão e o mais que promissor lateral Renan Lodi: quando um abre o outro infiltra por dentro.

Pablo é centroavante finalizador, mas também cria espaços com mobilidade. Para Raphael Veiga, talentoso meia central que pisa muito na área do oponente. Assim como Marcelo Cirino infiltrando em diagonal partindo da direita e as aparições dos meio-campistas Bruno Guimarães e Lucho González, argentino que dita o ritmo com passes curtos ou longos. Faz um jogo mais direto quando convém.

Jogada típica de um Atlético Paranaense que gosta da bola, mas sabe fazer um jogo mais direto: passe longo de Lucho González, Pablo abre espaços e Marcelo Cirino dispara em diagonal. Contra o Flu aproveitou a fragilidade defensiva do jovem e promissor ala Ayrton Lucas (reprodução Fox Sports).

Desta forma envolveu o Fluminense na Arena da Baixada e abriu 2 a 0 na ida da semifinal brasileira da Copa Sul-Americana. Mesmo com alguma dificuldade no início pela marcação adiantada e a força nas bolas paradas do time de Marcelo Oliveira, mas aos poucos saindo da pressão com passes certos e enfim se instalando no campo de ataque.

Até Renan Lodi começar a ganhar o duelo de revelações na lateral esquerda contra Ayrton Lucas. Enquanto o ala do 3-5-2 tricolor é mais rápido e intenso no apoio, mas peca demais no posicionamento defensivo, o rubro-negro de 20 anos é equilibrado no cumprimento de suas funções de ataque e defesa. Ainda aparece na área para abrir o placar finalizando duas vezes.

No gol de Renan Lodi, ainda que a jogada tenha sido criada pelo lado oposto, no rebote o lateral esquerdo atacou por dentro e naturalmente Nikão se posicionou mais aberto para abrir o espaço. Movimentação inteligente de quem se organiza para atacar (reprodução Fox Sports).

A melhor das dez conclusões em 45 minutos, seis no alvo que fizeram do goleiro Júlio César o grande destaque do primeiro tempo. O Fluminense reagiu na segunda etapa expondo uma deficiência atleticana desde os tempos de Fernando Diniz: se defende mal quando precisa recuar as linhas. Por isso as dificuldades para vencer fora de casa, especialmente no Brasileiro – ainda que na Sul-Americana tenha eliminado Peñarol e Caracas com grandes vitórias como visitante.

Retomou o controle quando o Flu voltou a deixar espaços pelos flancos e às costas dos volantes que os zagueiros Ibañez, Gum e Digão não deram conta de cobrir. Mesmo perdendo qualidade no passe com a troca do veterano Lucho González pelo volante Wellington, recuperou força ofensiva ao trocar Cirino por Rony. Autor do segundo gol completando cruzamento preciso de Renan Lodi, o melhor em campo.

O bom jogo em Curitiba teve o Fluminense com 56% de posse, mas o Atlético finalizando 17 vezes, dez no alvo, contra 14 do Flu e apenas cinco na direção da meta do goleiro Santos. A eficiência nas conclusões fez a diferença, mas não garante a equipe de Tiago Nunes na final continental. Porque com o Maracanã quente e o time carioca mais intenso e preciso no acabamento das jogadas é possível sonhar com a virada.

Cabe ao Atlético não abdicar do jogo e continuar voltado para o gol. Se atacar com organização no Rio de Janeiro pode fazer história e repetir 2005 com a vaga numa final sul-americana.

(Estatísticas: Footstats)


Só um improvável “efeito São Paulo” pode tirar o título do Palmeiras
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André Rocha

As chances de reação do Flamengo de Dorival Júnior em busca do título voaram longe como os chutes de Lucas Paquetá contra o Palmeiras e Vitinho diante do São Paulo no Morumbi. Fraqueza mental que deve minar ainda mais as forças em uma tabela complicada nos seis jogos que restam – Botafogo, Sport e Cruzeiro como visitante e Santos, Grêmio, Atlético-PR em casa.

Sobra o Internacional, novo vice-líder depois da virada dramática sobre o Atlético-PR no Beira-Rio com gol no final em pênalti mais que discutível sobre Rossi. Com o ânimo de quem chegou mais longe que imaginava pode sonhar com uma virada. A tabela é acessível: América, Atlético-MG e Fluminense em Porto Alegre e Ceará, Botafogo e Paraná fora.

Mas depois da vitória no sábado sobre o Santos por 3 a 2 em um jogo maluco com gol de falta de Victor Luis num frango de Vanderlei quando o adversário parecia mais próximo da virada, é impossível não ver o título se encaminhando para Luiz Felipe Scolari e seus comandados.

A única chance de surpresa desagradável seria um “efeito São Paulo”. Ou seja, cair vertiginosamente de produção quando passa a se dedicar exclusivamente ao Brasileiro por conta de eliminações no mata-mata. As semanas cheias jogando contra pelo tempo para pensar no peso do favoritismo. A ansiedade sufocante fazendo o desempenho despencar e os resultados seguirem a trilha ladeira abaixo.

Algo bastante improvável. Primeiro porque o Palmeiras, mesmo carregando a pressão por grandes conquistas depois que o investimento no elenco aumentou,  foi campeão brasileiro há dois anos. Não carrega o fardo de falta de títulos do Tricolor do Morumbi. Ainda há no grupo remanescentes da conquista de 2016 com Cuca. E mesmo que Felipão não tenha um título por pontos corridos no país, a experiência do treinador para lidar com essa responsabilidade também cria ambiente mais sereno. Há um escudo.

Sem contar a qualidade. É claro que a ausência de Dudu, por exemplo, seria um duro golpe, mas não do tamanho da de Everton para Diego Aguirre pela falta de reposição. Com todos à disposição é possível armar o time em função de cada adversário.

Nada muito complicado: visita Atlético-MG, Paraná e Vasco e enfrenta Fluminense, América e Vitória em São Paulo. Com cinco pontos de vantagem sobre o Inter. Uma rodada e mais dois pontos. Fruto da campanha espetacular no returno até aqui: dez vitórias e três empates. Incríveis 85% de aproveitamento. Para perder o título teria que cair para 66% – ou seja, ganhar apenas 12 dos 18 que restam –  e o Internacional responder com 100%.

Se derrapar só não será mais vexatório que em 2009, quando o time comandado por Muricy Ramalho era favorito absoluto e perdeu até a vaga na Libertadores. Nada leva a crer que possa acontecer. Parece questão de tempo. A tendência é que a matemática faça seu serviço na antepenúltima ou penúltima rodada.


Quem com drone fere, com rádio será ferido
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André Rocha

“O mundo é dos espertos”

A ação do Grêmio junto à Conmebol para tentar transformar o ato irregular do treinador Marcelo Gallardo – suspenso e utilizando dentro do estádio um rádio para se comunicar com o auxiliar à beira do campo e ainda aparecendo no vestiário durante o intervalo para dar instruções –  em perda dos pontos do River Plate foi legítima. Mas já era esperado que não daria em nada.

Porque o clube argentino sabe da conivência da entidade máxima do futebol sul-americano. Tinha certeza da impunidade. Ou de uma pena branda apenas para Gallardo e ainda passível de recurso, liminar, etc.

Uma imoralidade. Tão grande quanto invadir o treino fechado de um adversário com recurso tecnológico recente e, portanto, sem regras para punir o clube espião. É bem provável que o Grêmio vencesse o Lanús na final do ano passado sem necessidade do drone filmando as jogadas ensaiadas do time argentino, mas a prática não foi das mais éticas. Renato Gaúcho chamou de “esperteza”, depois se corrigiu e mudou para “inteligência”.

O que incomoda é que só gritamos contra o vale tudo quando ele nos prejudica. No futebol, na política, na reunião de condomínio. O desprezo ao politicamente correto é quase revolucionário quando nós somos os “malandros” da história. Se perdemos é “tudo armado” e viramos os bastiões da moralidade. Se ganhamos deixamos apenas o “chora mais” para os derrotados.

É bem provável que este texto seja alvo da ira dos gremistas. Como fizeram com a ótima Gabriela Moreira, da ESPN Brasil, que apenas fez o seu trabalho investigando o uso do drone. Está na moda no Brasil tentar calar a voz de quem pensa diferente. Ofender, perseguir, ameaçar até que o silêncio do lado oposto venha trazer alívio ao inconsciente que grita que estamos indo para o precipício moral. Uma sociedade doente.

A vida segue com o River Plate na final da Libertadores e o Grêmio protestando e colocando em dúvida a idoneidade da Conmebol, do clube argentino e de seu treinador. Com toda razão. O problema é não se olhar no espelho. Para o próprio rabo. Essa reflexão que nunca chega.

Quem com drone fere, com rádio será ferido.