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Arquivo : Guardiola

É triste ver José Mourinho parado no tempo
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André Rocha

Foto: Lee Smith/Reuters

José Mourinho foi indiscutivelmente e com alguma sobra o melhor treinador do mundo de 2004 a 2010. O grande divulgador da periodização tática – resumindo bastante, uma metodologia em que todos os treinamentos, até os físicos, contribuem para a construção e manutenção de um modelo de jogo.

Nos tempos de Chelsea, em que os números do sistema tático eram mais valorizados e debatidos, o português afirmava em entrevistas que o 4-3-3 e o 4-3-1-2 eram os que melhor distribuíam os jogadores em campo. Mas na Internazionale mudou para o 4-2-3-1 e ganhou a tríplice coroa em 2009/10. Seu maior mérito era formar equipes intensas, com a coordenação quase perfeita entre os setores, linhas compactas e muito rápidas nas transições ofensiva e defensiva.

Nos  bastidores, seus “jogos mentais” que começavam na coletiva da véspera ou antevéspera de uma partida decisiva tiravam o foco e a pressão de seus jogadores, pilhavam os adversários e suas equipes, mais concentradas, quase sempre levavam vantagem também no aspecto emocional. Assim venceu Arsene Wenger, Alex Ferguson, Rafa Benítez e tantos outros, também colecionando inimizades.

Quando desafiado por Pep Guardiola, o outro grande expoente dos últimos 15 anos, radicalizou no trabalho defensivo, montou uma linha de handebol guardando a própria área e talvez tenha influenciado mais o futebol jogado no mundo que o rival catalão. Afinal, é mais fácil vermos equipes colocando em prática essa compactação defensiva do que o complexo jogo de posição. Na última Copa do Mundo ficou bem nítido.

Por tudo isso é muito triste ver Mourinho parado no tempo. Seu Manchester United é chato de ver jogar. Lento na circulação da bola, pouco intenso na pressão pós perda, sem ideias. Um elenco milionário que vive essencialmente de lampejos de Pogba e das vitórias pessoais de Lukaku contra a defesa adversária em bolas longas ou jogadas aéreas. Os movimentos em diagonal dos ponteiros – seja Rashford, Martial, Lingard ou Alexis Sánchez – são previsíveis. Só há alguma criatividade ou movimento quando joga Juan Mata, que não consegue manter uma consistência nas atuações. Há qualidade no meio com Fred e Andreas Pereira, mas Mourinho insiste com Fellaini…

Para complicar, o treinador repete em sua terceira temporada um fenômeno que vem desde o Real Madrid em 2012/13: exaure seus atletas mentalmente e desgasta a gestão de grupo com cobranças exageradas, muitas vezes públicas. Elege inimigos no vestiário, pressiona as estrelas com a intenção de desafiá-las e extrair melhor rendimento. Não funciona e ele insiste no erro.

A impressão que passa é de que Mourinho não conseguiu se livrar do personagem. O malvado, o “lado negro da força”, o expoente máximo do futebol pragmático. Ou seja, o anti-Guardiola. É como se obrigasse a ser a antítese do futebol ofensivo.

Sem notar que mesmo o treinador que comanda o rival dos Red Devils em Manchester vem mudando o seu estilo. Saindo de um extremo e vindo para o meio. Compreendendo que o futebol atual exige equipes versáteis e inteligentes. Que jogem por demanda, se adaptem a qualquer cenário.

O raciocínio é lógico: um grande time, com camisa pesada e tradição, terá que ser ofensivo na maioria das partidas. Afinal, o número de clubes de menor investimento e envergadura sempre será maior dentro de um campeonato. Até na Liga dos Campeões. Então a equipe precisa saber trabalhar a bola para criar espaços em sistemas defensivos cada vez mais organizados e fechados. Mas também deve estar preparada para jogar com transições ofensivas rápidas e matar o adversário nos contragolpes. Ou nas bolas paradas.

Assim Jupp Heynckes levou o Bayern de Munique à tríplice coroa em 2012/13 e o Real Madrid se consagrou com Carlo Ancelotti e depois Zinedine Zidane. Diego Simeone vai tentando adaptar o seu estilo a essa nova realidade no Atlético de Madrid. O mesmo com Jurgen Klopp no Liverpool. Cada um à sua maneira. Até o City de Guardiola busca definir as jogadas de maneira mais rápida, utiliza mais os contra-ataques e a bola parada.

Mourinho segue agarrado às suas convicções. Parece não aprender com as críticas dentro e fora do clube. Sua equipe não evolui nem encontra soluções. Como tem qualidade no elenco consegue se manter competitivo. Mas sem o salto não chega ao topo. Para um clube que disputa com Barcelona e Real Madrid o posto de mais rico do planeta é muito pouco.

Para quem foca tanto em resultados este início de temporada é decepcionante. Derrota para o Tottenham por 3 a 0, empate com o Wolverhampton, eliminação vexatória na Copa da Liga Inglesa para o Derby County e empate sem gols em casa pela Liga dos Campeões contra o Valencia, perdendo a liderança do Grupo H. É apenas o décimo colocado da Premier League.

Mourinho não repete escalação há 43 partidas. Parece perdido, embora tente manter a imagem de líder frio e inabalável. A pergunta é até quando o Manchester United será capaz de suportar. A julgar pelas vaias da torcida e críticas de ídolos do clube, o futuro não parece tão promissor.

 


Messi precisa acordar! O mundo e o futebol mudaram, também por causa dele
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André Rocha

Foto: Reuters

Messi foi o melhor do mundo há oito anos sendo campeão espanhol e da Copa do Rei, caindo nas semifinais da Liga dos Campeões e nas quartas de final para a Alemanha na Copa do Mundo da África do Sul. Foi o ano da festa do Barcelona, com Xavi e Iniesta, campeões com a Espanha, formando a trinca de finalistas.

Era o período de encantamento com o argentino genial que evoluiu absurdamente sob o comando de Pep Guardiola. Mesmo sem marcar um gol no Mundial de seleções sua imagem de jogador de uma era seguiu intacta. Cristiano Ronaldo sofreu com lesão grave, eliminação nas oitavas da Champions e desempenho apenas razoável, para seu nível, com Portugal na Copa. Era a primeira temporada no Real Madrid.

Pouco valeu o brilho de Sneijder, que ganhou tudo com a Internazionale e foi um dos artilheiros da Copa pela Holanda, só perdendo o título na prorrogação da final. Sendo decisivo contra o Brasil nas quartas de final. Uma das maiores injustiças da premiação.

Corte para 2018. Luka Modric ganha o prêmio da UEFA como melhor jogador da temporada europeia e está entre os três finalistas do Prêmio The Best da FIFA. Campeão da Champions e vice mundial, como Sneijder. Mohamed Salah, outro finalista dos dois prêmios, nem isso. Eliminado na fase de grupos com seu Egito, não chegou perto de ser campeão inglês com seu Liverpool e perdeu a final do principal torneio de clubes do mundo para o Real Madrid. Mesmo com o golpe sujo de Sergio Ramos que tirou o atacante da decisão ainda no primeiro tempo, não parece algo que chame tanto a atenção.

Mas é. Porque o mundo e o futebol mudaram. Muito. Também por causa do argentino. A Liga dos Campeões ganha um peso cada vez maior na temporada. Por conta da visibilidade e do nível cada vez mais alto do torneio europeu, os campeonatos nacionais perderam relevância. Até por conta dos supertimes que dominam seus países – leia-se Bayern de Munique, PSG e Juventus. Na Espanha, a tendência recente é o Real Madrid focar tudo na Champions e o Barcelona dividir esforços.

Eis o ponto que marca esse novo olhar. Messi foi novamente protagonista no domínio espanhol do Barça. Liga e Copa. Chuteira de Ouro com 34 gols na liga. 46 no total e mais 18 assistências. Mas e daí? O seu talento é que fez subir o sarrafo, o nível de cobrança. Não é mais o suficiente. Pior ainda com a eliminação para a Roma, time de poder de investimento muito inferior e em outra prateleira do cenário mundial. Derrota vexatória por 3 a 0. Mais uma vez ficando de fora até das semifinais.

Na Copa do Mundo, novamente um desempenho bem abaixo de sua excelência. Sua Argentina caiu nas oitavas de final. Para a campeão França justamente na melhor atuação da equipe de Pogba, Griezmann e Mbappé na Copa. Por 4 a 3, sem vexame. Porém não basta mais para Messi. Espera-se muito dele e se decepciona sua avaliação cai a ponto de ficar abaixo de jogadores sem números e conquistas semelhantes.

Imaginava-se que ficaria ao menos entre os três finalistas, como em todas as edições desde 2007. Nem isso. Um momento simbólico, que pede reflexão a Messi. Sua rivalidade com Cristiano Ronaldo fez história e jogou no teto o nível do futebol de clubes na elite europeia nestes dez anos. O mundo cobra Messi que seja campeão da Champions ou do mundo com a albiceleste. Ele precisa ver que mudou. Acordar para uma nova realidade, caso ainda queira ser competitivo no topo, individual e coletivo.

Sua personalidade aponta dois caminhos. Ou o “sangue nos olhos” de 2015, depois do grito de Cristiano Ronaldo (o lendário Síiiiii!) na celebração do prêmio de melhor de 2014 desafiando o rival, para liderar o trio MSN na conquista da tríplice coroa. Ou se conformar em seguir reinando no Barça, aumentando ainda mais os números como o grande jogador da história do clube que o acolheu, pagou seu tratamento para crescer e formou o homem e o atleta. Jogar por gratidão.

Se houver espaços para ele jogar como gosta vem o brilho. Se o adversário nega, Messi circula pelo campo sem produzir grande coisa e vê seu time derrotado. Foi assim nas últimas três temporadas. Começa assim a atual: adversários fáceis na liga, quatro gols e duas assistências. Sem Cristiano Ronaldo, a tendência é nadar de braçadas no Espanhol.

Pode bastar para ele, não para o planeta bola. Messi não vai a Zurique desta vez. Pode estar irado, aliviado ou mesmo indiferente. Quem é capaz de entender o argentino?


Já é hora de aceitar nossa alma copeira, caótica e amadora no futebol
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André Rocha

Você já foi voto vencido em decisão importante dentro da família, em reunião no trabalho ou de condomínio? Sempre vem aquela sensação de frustração, mas depois você costuma aceitar a conviver com aquilo que rejeita ou apenas discorda da prática.

Pois assim acontece também com quem sonha no futebol brasileiro com um calendário organizado, uma liga nacional forte e rentável. Por pontos corridos para a grande maioria das divisões visando garantir uma temporada completa viabilizando um planejamento de acordo com as receitas. Sem os estaduais, ou ao menos reduzindo bastante as datas e sendo tratados como torneios de pré-temporada para os times grandes.

Mas como pensar nisso se o chamado torcedor médio, ou a média do pensamento da maioria das torcidas, valoriza os torneios regionais, especialmente por causa dos clássicos, e estes geram boa audiência para a emissora que detém os direitos de transmissão que, por isto mesmo, paga uma boa cota?

Como convencer o dirigente a peitar a sua federação se ele prefere a aliança que pode dar uma vantagem aqui, uma arbitragem favorável acolá e fazer uma média com a torcida, podendo dizer no final do ano, se tudo der errado, que ao menos venceu algo na temporada e o rival não?

Como defender uma temporada inteira para o time de menor investimento se, na maioria das vezes, o dirigente pensa que é melhor se garantir com a cota do estadual e a chance de enfrentar os grandes mais vezes ao invés de buscar um crescimento sustentável, ainda que as partidas mais rentáveis se limitem aos possíveis confrontos na Copa do Brasil?

Como pensar em uma liga forte se os clubes que mais investem priorizam os torneios de mata-mata e escalam reservas no que deveria ser o principal campeonato? De que adianta Zinedine Zidane, tricampeão da Liga dos Campeões com o Real Madrid, dizer que considera o título da liga espanhola da temporada 2016/17 o mais importante da sua curta carreira como treinador porque, segundo ele, a disputa por pontos corridos é a que, de fato, premia o melhor trabalho?

Aqui a lógica é que para vencer as copas bastam quatro ou oito jogos, enquanto no Brasileiro ainda falta um turno inteiro. “Dá tempo de recuperar”, “temos que pensar no tiro curto”. Imediatismo, urgência, torcidas “bipolares” e insanas querendo taças para ontem.

Como discutir trabalhos longos de treinadores se na maioria das vezes a “dança das cadeiras” beneficia a maior parte dos agentes no processo? O dirigente porque “não ficou parado vendo o barco afundar”, o jogador que se cansa dos métodos e da convivência desgastante e gosta do “fato novo”. Os próprios treinadores, ao menos os mais renomados, que reclamam, mas faturam nessa roda viva com bons salários e multas rescisórias altas. Ou mesmo a imprensa, que gera pautas e esquenta os noticiários com as demissões, especulações do novo nome e depois os debates se “agora vai” com o técnico da vez.

Como defender a renovação do mercado de treinadores se os jovens muitas vezes repetem os erros dos veteranos? Ou acabam se perdendo em idealizações, enquanto os mais vividos se adaptam à nossa realidade caótica. Como defender profissionais como Roger Machado e Fernando Diniz se os seus conceitos, ao menos por enquanto, não fizeram eco nos clubes pelos quais passaram e um Renato Gaúcho volta depois de dois anos curtindo a praia e usa seu carisma de maior ídolo da história do Grêmio para resolver com simplicidade problemas que parecem tão complexos? Como duvidar do “messias” Felipão no Palmeiras, ao menos no mata-mata?

Remar contra a maré às vezes cansa. Exigir organização e planejamento para que todas as partes de beneficiem é pregar no deserto enquanto cada um está preocupado apenas com o seu problema. É o nosso jeito, não é fácil mudar. Já é hora de entender, mesmo sem aceitar, a nossa alma no futebol. Copeira, caótica, amadora. Com espasmos aqui e ali de profissionalismo, mas sem algo mais duradouro. Não é acaso que aqui haja tanta “alternância de poder”, sem um clube construindo uma “dinastia”.

E tantos gostam por ter mais equilíbrio, sem a previsibilidade de outras grandes ligas pelo mundo. Ainda que o nível técnico não seja dos melhores. Aliás, o que mais tem por aqui é o fã do “futebol testosterona”. O jogo “pra macho”. Ou seja, porradaria, jogo direto, bola parada, lateral na área adversária, disputa física, ódio ao rival (leia-se inimigo), “contra tudo e todos”, inclusive a imprensa.

E tem que ser sofrido, senão não tem graça. Sem “nhenhenhe” de posse de bola, conceitinho, jogo bonito e outras “frescuras”. É o jogo de Libertadores! Não por acaso tantos odeiam Pep Guardiola e outros treinadores que tentam fazer diferente.

Então que seja! Uma hora a mão cansa de esmurrar a ponta da faca. Felizmente hoje temos acesso ao melhor que o futebol internacional pode oferecer – pela TV ou agora por streaming – para quem vê o jogo e os processos no esporte de outra forma. Dá para todo mundo ser feliz. Melhor assim.


Temporada do Barcelona começa com mais do mesmo, mas precisa ser diferente
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André Rocha

Supercopa da Espanha, baterias começando a aquecer, os muitos jogadores que disputaram a Copa do Mundo voltando aos poucos. O jogo único no Marrocos entre Barcelona e Sevilla manteve o clima de pré-temporada dos amistosos, algo que não costumava existir quando jogado no próprio país.

Ernesto Valverde escalou Arthur de início e deixou Phillipe Coutinho no banco. Um 4-3-3 variando para o 4-4-2 sem a bola com Rafinha abrindo à direita e dando liberdade a Messi. Dembelé foi para o setor esquerdo, formando dupla com Jordi Alba. Do lado oposto, Nelson Semedo fazia todo o corredor.

O gol logo aos oito minutos condicionou o primeiro tempo. Até porque o Sevilla, agora comandado por Pablo Machín, tinha como proposta deixar o adversário com a bola, negar espaços num 5-4-1 compacto e acelerar nos contragolpes. Com os ponteiros Pablo Sarabia e Franco Vázquez, na variação para o 4-3-3, se aproximando de Muriel, o atacante único que serviu Sarabia numa transição ofensiva rápida que terminou com conclusão precisa e a ajuda do VAR para validar o gol legal inicialmente anulado.

Depois o Barcelona ficou com a bola, tentando as inversões em busca dos laterais que chegam ao fundo. Suárez ainda nitidamente fora de ritmo, não conseguia dar sequências às jogadas como de costume e desperdiçou boa chance em chute cruzado. Dembele buscava os dribles para infiltrar em diagonal, mas batia no muro da última linha de defesa do Sevilla até bem coordenada para a primeira partida oficial da temporada.

Messi caminhava ou trotava em campo, buscando espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente, por vezes recuando para ajudar na articulação. Só acelerava com a bola colada no pé esquerdo. Ou fazia a tradicional inversão para Alba. Impressiona a qualidade quando interfere no jogo e o respeito que impõe ao adversário, ao menos dentro da Espanha.

Cada vez mais preciso na bola parada. Cobrança de falta do camisa dez na trave esquerda, a bola bateu no goleiro Vaclik e Piqué empatou no rebote. O Barça manteve o domínio, sofrendo com um ou outro contra-ataque. Especialmente pelo setor esquerdo, com o zagueiro francês Lenglet, ex-Sevilla, mais uma contratação para a temporada, sem conseguir fazer a cobertura de Alba com a rapidez e a eficiência de Umtiti.

Arthur sofreu a falta do gol de empate, mas não foi tão bem. Ainda precisa se adaptar à velocidade da circulação da bola no ritmo de competição no mais alto nível. Questão de tempo e entendimento. Deu lugar a Philippe Coutinho e Rafinha saiu para a entrada de Rakitic. Com o 4-4-2 mais próximo da temporada passada e Dembelé indo para o lado direito, saiu o golaço do ponteiro francês em chute forte e preciso.

Gol de título, porque nos acréscimos Ter Stegen fez pênalti em Aleix Vidal, mas Ben Yedder bateu fraco e o goleiro alemão segurou. Mesmo sem uma clara superioridade sobre o adversário, o Barcelona alcançou mais uma conquista. A décima terceira do maior vencedor da história.

Mais do mesmo. Fruto de uma cultura de vitória dentro do país nos últimos anos. Ou desde Guardiola. Contando a partir da temporada 2008/09, são sete conquistas em dez edições do Espanhol. Mais seis taças da Copa do Rei e o mesmo número de Supercopas. Aproveitamento espetacular, mesmo considerando o foco habitual do Real Madrid na Liga dos Campeões e a trajetória bem sucedida deste nos últimos cinco anos.

Mas exatamente por essa sequência de triunfos é que o patamar subiu e a exigência para voltar a ser protagonista na Champions aumentou. Até porque depois do último título em 2015 o time vem caindo antes das semifinais. Nos confrontos contra Atlético de Madri, Juventus e Roma, a impressão de que faltou competitividade. Talvez um pouco mais de intensidade de Messi. Ou um elenco que aumentasse o leque de opções e fosse possível alterar as características da equipe, caso necessário.

Por isso a busca por Arthur, Malcom, Vidal para se somar à base titular que é reconhecidamente forte. Agora com Coutinho desde o início da temporada. Porque precisa ser diferente. Ou voltar ao que já foi. Sem perder o protagonismo na Espanha, mas voltando a dar as cartas no continente. Ir além do “piloto automático” na liga e na Copa. Ou mesmo repetir o grande rival e festejar a conquista mais importante, mesmo que as “domésticas” não venham.

No apito final, a comemoração tímida e protocolar. Mais uma. Parece pouco. O Barcelona tem que sair do marasmo. Inusitado pelas muitas conquistas recentes, mas sem deixar de parecer estagnado.

 


Na abertura do Inglês, as demonstrações de força de City e Liverpool
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André Rocha

Na temporada 2017/18, Manchester City e Liverpool sobraram na Inglaterra. O time de Guardiola empilhando recordes na conquista da Premier League e ainda a Copa da Liga na carona. Já os Reds terminaram a liga na quarta colocação, não faturaram nenhum troféu, mas voaram na Liga dos Campeões só parando na final contra o tricampeão Real Madrid em jogo polêmico. Eliminando com sobras o próprio City nas quartas de final.

Com a manutenção das estrelas dos citizens e a vinda de Mahrez, melhor jogador do Leicester City campeão em 2015/16, além dos reforços para deixar a equipe de Jurgen Klopp ainda mais poderosa, natural que a dupla se destaque já na primeira rodada como os times a serem batidos na principal competição nacional.

A começar pelo Liverpool voando no Anfield para atropelar o West Ham por 4 a 0. Com Alisson estreando com pouco trabalho na meta e vendo seu time colocando muita intensidade e volume de jogo. Mantendo uma característica da temporada passada: o trio Salah-Firmino-Mané se aproximando para tabelas e entrando na área oferecendo aos companheiros as melhores opções de finalização. Não por acaso, dois gols de Mané, o de Salah abrindo o placar e o último de Sturridge, que entrou na vaga justamente do atacante egípcio.

Bem assessorados pelo trio Wijnaldum-Milner-Keita. Este último vindo do Leipzig e se adaptando rapidamente ao jogo com o pé no acelerador de Klopp. Mais os laterais Alexander-Arnold e Robertson, que serviu a assistência para Salah. Com Van Dijk se afirmando, um goleiro mais confiável e as peças mais entrosadas, fica a impressão também de uma equipe mais sólida defensivamente.

Um vendaval de 65% de posse, mas com controle apenas na segunda etapa com a vitória já construída, e 18 finalizações contra cinco – oito a dois no alvo. Nítida demonstração de que o Liverpool nunca pareceu tão pronto para encerrar o período de 28 anos sem conquistar a liga, estacionando nos 18 e vendo o Manchester United ultrapassá-lo na Era Alex Ferguson.

Mas terá como grande obstáculo exatamente o time de Pep Guardiola, um treinador que vem se mostrando especialista nos campeonatos por pontos corridos. Porque seu time trabalha para se impor jogo a jogo. Mesmo fora de casa. No Emirates Stadium contra o Arsenal na primeira partida de liga sem Arsene Wenger, a equipe azul de Manchester se impôs contra os gunners hesitantes sob o comando de Unai Emery.

Sem David Silva, com De Bruyne no banco e num 4-2-3-1 dando liberdade a Bernardo Silva à frente de Fernandinho e Gundogan. Forte pela esquerda com o trator Mendy agora titular, ora atacando aberto, ora por dentro. Sempre voando. Nas combinações com Mahrez ou Sterling, os ponteiros que inverteram o posicionamento na maior parte do jogo.Trabalhando com os pés “bons” ou invertidos.

Como no primeiro gol, com Sterling cortando para dentro e, aproveitando que Mendy arrastou a marcação para o fundo, batendo no canto esquerdo de Petr Cech. Pelo setor também saiu a jogada do segundo, com Mendy servindo Bernardo Silva, já atuando pela ponta direita com a entrada do De Bruyne na vaga de Mahrez.

Muita pressão depois da perda da bola intimidando um Arsenal que parece ter se apequenado como instituição nos últimos anos e sente os jogos grandes. Ainda que seja muito cedo para qualquer avaliação mais profunda. Taticamente, o 4-2-3-1 com Ramsey atrás de Aubameyang, Ozil e Mkhitaryan nas pontas e o jovem francês Guendouzi como surpresa deixando o uruguaio Torreira no banco não foi tão funcional e só ameaçou na vitória pessoal do lateral Bellerín sobre Mendy e o chute perigoso que fez Ederson trabalhar.

Depois um 4-3-1-2 com Lacazette na vaga de Ramsey e Ozil como “enganche”. Mas deixou muitos espaços e não conseguiu duelar na consistência do jogo. Há muito a fazer, tanto dentro quanto fora de campo. É preciso recuperar confiança para render no mais alto nível.

Mesmo valorizando a bola, o City se mostra mais vertical, resolvendo a jogada o mais rápido possível quando rouba no campo de ataque. Foram “apenas” 58% de posse e 17 finalizações contra nove – oito a três no alvo. Na reta final, Guardiola trocou Aguero, que perdeu chance clara à frente de Cech pouco antes do segundo gol, por Gabriel Jesus e Sané entrou na vaga de Sterling. A prova de que há elenco para seguir dominando o cenário.

Mas terá um Liverpool mais “cascudo” e com elenco completo nas características pela frente. Se desta vez não priorizar o mata-mata poderemos ter o mais equilibrado duelo Guardiola x Klopp numa liga. Ainda é cedo para cravar qualquer coisa, mas se Manchester United e Tottenham não se cuidarem podem ficar pelo caminho.

(Estatísticas: BBC)


Low corta Sané, o “Douglas Costa alemão”. Tite é menos radical pelo sistema
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André Rocha

Quando o Manchester City contratou Leroy Sané para a temporada 2016/17, Pep Guardiola afirmou que buscava um jogador para fazer na sua nova equipe o que Douglas Costa realizava sob seu comando em sua melhor fase na carreira no Bayern de Munique.

Ou seja, o ponta canhoto dentro do jogo de posição que espera a bola bem aberto para driblar, cortar para o fundo e finalizar ou servir os companheiros. Ou à direita cortando para dentro e finalizando. Normalmente recebendo numa inversão para enfrentar apenas um marcador. Sem se incomodar de pegar pouco na bola, mas ser decisivo. O fator de desequilíbrio. Em 2015/16, o brasileiro marcou seis gols e serviu 12 assistências na Bundesliga e na Champions.

Na temporada seguinte, o encontro entre Guardiola e Sané em Manchester rendeu sete gols e cinco assistências, ainda se adaptando a um novo modelo de jogo. Na campanha do título nacional, a explosão com dez gols e 17 passes para os companheiros irem às redes. Totalmente adaptado e ciente de sua missão em campo.

Por isso a surpresa pela ausência do atacante entre os 23 convocados da atual campeã Alemanha para a Copa do Mundo na Rússia. Nem tanto pelo desempenho na seleção, mas pelo potencial que poderia ser desenvolvido e, principalmente, pelas características diferentes de Draxler, Reus e Brandt. Mesmo iniciando sempre no banco, seria uma possibilidade de mexer com a marcação adversária. Joachim Low preferiu os jogadores mais associativos, de tabelas e infiltrações. Preferiu a afirmação do sistema à alternativa de ruptura.

Exatamente a crítica que Tite recebeu por deixar no Brasil o meia do Grêmio, eleito melhor jogador da América do Sul. Porque é jogador de entrelinhas, centralizado num 4-2-3-1. No 4-1-4-1 da seleção, não rendeu aberto nem por dentro nos treinamentos.

Discordar da lista de convocados é mais que legítimo. É até saudável. Contestar Taison é compreensível por estar jogando na Ucrânia e Luan ainda por aqui. A questão é que o camisa sete gremista seria opção apenas para uma função. Na prática, a mesma que Roberto Firmino executa no Liverpool: busca espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente e aciona os companheiros ou aparece para finalizar. Isto no mais alto nível do futebol mundial: Premier League e Liga dos Campeões. A Libertadores fica abaixo neste parâmetro de avaliação. Ou seja, se precisar de um Luan existe Firmino.

A prova de que Tite é menos radical na defesa de seu sistema é justamente Douglas Costa. Quase sempre lesionado quando o treinador precisou, mas sempre no radar. É ponteiro diferente de Willian, Coutinho e Neymar. Mais drible e força em direção ao fundo, ainda que na Juventus não guarde tanta posição no flanco como nos tempos de Guardiola em Munique. É o tal “cara para mudar o jogo”. A preocupação é que está novamente com problemas físicos, mas deve estar pronto para enfim dar sua contribuição a Tite.

Low justificou a ausência afirmando que Sané “não deu tudo que podia nos jogos da seleção”. Na Alemanha nem houve tanta contestação. Porque, de fato, nunca houve uma atuação memorável do ponteiro de 22 anos com a camisa tetracampeã mundial, como tantas fardando o uniforme azul de Manchester. Mas também pela moral do treinador no comando há 12 anos. Que confia em seu sistema e vai com ele até o fim.

Com apenas dois anos, ou meio ciclo de Copa, Tite também carrega suas convicções. Mas deixa uma brecha para novas possibilidades, ainda que quebrem o desenho tático e a proposta de jogo. Quem tem razão? Já sabemos qual será o único critério de avaliação geral, muito mais no Brasil que na Alemanha: o resultado final na Rússia.


Seis lições que o Real Madrid deixa para as seleções da Copa do Mundo
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André Rocha

Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Sergio Ramos à parte – ou aproveitando apenas o melhor de um dos grandes zagueiros do futebol mundial -, o Real Madrid impõe com o tricampeonato e os quatro títulos nas últimas cinco edições uma supremacia única na Era Champions League do maior torneio de clubes do mundo. Tempos em que clubes são maiores que as seleções, ainda que a Copa do Mundo siga imbatível no tamanho e na repercussão, até por acontecer com menos frequência.

O time de Zinedine Zidane ganhou três Ligas dos Campeões e apenas uma liga espanhola. É de mata-mata. Ou só de “mata”, como provou nas finais que venceu. Como será para as seleções no Mundial da Rússia a partir das oitavas de final. Por isto o blog destaca seis lições que esta equipe deixa para os países envolvidos, especialmente o grupo de favoritos:

1 – Todo pecado será castigado

Errar contra o Real costuma ser letal. Até rimou. Mas tem sido assim. É um time que não perdoa vacilos. PSG, Juventus, Bayern de Munique e Liverpool. Todos tiveram períodos de domínio ou de equilíbrio e sucumbiram em falhas, individuais ou coletivas. Assim também nas outras duas conquistas. Já os equívocos dos merengues não foram aproveitados com a mesma competência. Em 180 minutos, imagine em, no máximo, 120 a importância de minimizar erros. A precisão, como sempre, será fundamental.

2 – A força da mente

O gigante de Madri se alimenta de confiança que proporciona conquistas que aumentam a força mental. Para sair de situações complicadas e também atropelar quando o oponente baixa a guarda. Tantas vezes a desorganização dos setores em campo foi compensada com uma autoridade que intimida. Até os árbitros, diga-se. Mas não deixa de ser um mérito. Tantas vitórias transmitem a certeza de que no fim tudo terminará bem e joga a insegurança natural em um jogo grande para o outro lado.

3 – O talento é fundamental

Zidane foi um dos maiores jogadores da história do esporte. Tinha um talento especial que quando foi potencializado pelo coletivo produziu maravilhas nos gramados do planeta. Como treinador manteve esta convicção e explora o melhor de seus atletas. Porque uma bicicleta de Cristiano Ronaldo, um voleio de Bale, uma assistência de Kroos e um drible de Marcelo podem desmoronar qualquer modelo de jogo. Ainda que nenhum país consiga reunir craques como os clubes bilionários, quem tem qualidade deve explorá-la muito bem.

4 – A melhor notícia é não ter novidades

Os mesmos onze titulares em duas finais de Liga dos Campeões. Só o Real Madrid conseguiu. E a base mudou bem pouco desde 2014. O entrosamento também foi um trunfo. Para jogar ao natural, “de memória”. No universo de seleções é ainda mais importante, pela impossibilidade do trabalho diário ao longo das temporadas. Não por acaso, Espanha e Alemanha venceram os últimos mundiais usando Barcelona e Bayern de Munique como bases. A renovação é inevitável, mas quanto menos mexer durante a Copa, melhor.

5 – Fase de grupos não diz muita coisa

Nas últimas duas conquistas, o Real não terminou na liderança do seu grupo na primeira etapa do torneio continental. Ficou atrás do Borussia Dortmund em 2016 e do Tottenham no ano passado. Ainda que a Copa não tenha a pausa de dois meses, nem sorteio de confrontos, a lógica segue a mesma: jogos eliminatórios são de outra natureza, envolvem outras valências e a tradição costuma contar muito. No universo das seleções, com seu grupo seleto de campeões mundiais, mais ainda. Fase de grupos é para se classificar.

6 – Serenidade e simplicidade no comando

Se há algo para Pep Guardiola, sempre pilhado demais na Champions, e outros treinadores pelo mundo devem aprender com Zidane é que num ambiente que já carrega pressão descomunal por envolver paixão e muito dinheiro, quanto mais calma o comando passar, melhor. E mesmo quando promove variações táticas ou na proposta de jogo, o treinador merengue faz com simplicidade, para que os atletas entendam e executem. Sem chamar para si os holofotes. Até porque não há revolução a ser feita numa Copa do Mundo. É jogar com calma e atenção nos detalhes.


Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)