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Valverde enfim se rende à lógica e o Barcelona de Messi voa em Wembley
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André Rocha

Muitas vezes se confunde o simples com o tosco, simplório. Mesmo caótico e apaixonante, o futebol tem alguma lógica e é tarefa do treinador tentar reduzir ao máximo a aleatoriedade do jogo a favor do seu time.

Ernesto Valverde vinha congestionando o lado esquerdo do Barcelona ao deslocar Dembelé para aquele setor, se juntando a Philippe Coutinho e Jordi Alba. Tudo para deixar o lado direito para Messi receber numa zona de menor pressão e partir em diagonal conduzindo a bola.

Na prática, porém, o treinador desequilibrou o time, tirou a fluência ofensiva e deixou o lateral direito entregue à própria sorte na defesa. Foi preciso sofrer em La Liga com empates contra Girona e Athletic Bilbao, além da derrota para o Leganés, mesmo sem perder a liderança, para o treinador enfim se render ao óbvio.

Messi precisa de liberdade, Alba do corredor para voar pela esquerda e a defesa de maior proteção. Bastou trocar Dembelé por Arthur e o Barça ganhou liga. No 4-4-2, com Coutinho voltando pela esquerda e Arthur, eventualmente Rakitic abrindo pela direita para auxiliar Semedo, que também ganhou o corredor para apoiar.

É claro que o gol de Coutinho no primeiro minuto, completando assistência de Alba na primeira disparada pela esquerda recebendo de Messi, condicionou o jogo em Wembley. Obrigou o Tottenham a adiantar as linhas e ceder espaços. Mesmo criando problemas com a movimentação do trio Lucas-Kane-Son, o Barça controlou o jogo com relativa tranquilidade através da posse de bola e setores mais compactos. Mais uma jogada pela esquerda, Coutinho errou a finalização, mas acertou o passe para um chute espetacular de Rakitic. O gol mais bonito da partida.

A segunda etapa começou com eletricidade. Messi acertou a trave esquerda de Lloris em duas arrancadas por dentro no início da segunda etapa e, na sequência, Kane marcou trazendo os Spurs de volta para o jogo. Mas bastou acionar novamente Alba pela esquerda para sair a assistência para o camisa dez, com direito a finta de Suárez.

Quando Mauricio Pochettino trocou Wanyama e Son por Dier e Sissoko o Tottenham passou a fazer um jogo mais físico e intenso. Diminuiu com Lamela e buscou uma pressão final com Fernando Llorente no ataque ao lado de Kane. Muitos cruzamentos, domínio dos rebotes. A vitória que parecia tranquila correu algum risco.

Valverde demorou a trocar e em alguns momentos o Barça sofreu sem um escape para os contragolpes. É neste momento que Dembelé faz falta. O ponta francês pode ser titular ou uma peça utilizada com frequência, mas pela direita. Garantindo amplitude e profundidade nos dois flancos.

Com Rafinha e Vidal nas vagas de Coutinho e Arthur, Messi resolveu em nova jogada que nasceu pela esquerda. Chega a cinco na Champions em dois jogos. Poderia ter marcado mais. Se o adversário não está na primeira prateleira do futebol europeu, o contexto era de jogo grande e o gênio argentino sobrou.

Assim como o time catalão, que teve a posse de bola quase durante todo o tempo acima dos 60% – terminou com 58% – e acertou 85% dos passes. Finalizou o dobro do adversário: 12 a seis, sete a cinco no alvo. Um desempenho consistente e animador.

Um ótimo sinal para Valverde. Basta não interromper o fluxo natural de sua equipe. Às vezes a melhor “assinatura” é não interferir no que funciona.

(Estatísticas: UEFA)


Croácia prova que jogo eliminatório se decide com talento e força mental
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André Rocha

O golaço de falta de Trippier logo aos quatro minutos podia ter desmanchado de vez a Croácia que vinha de duas prorrogações e teria que subir a ladeira em Moscou. Numa semifinal de Copa do Mundo e diante de uma Inglaterra com mais tradição, descanso e que costuma desgastar o adversário com seu jogo físico e de velocidade.

A primeira etapa teve a equipe de Zlatko Dalic com 52% de posse e seis finalizações contra quatro. Mas controle da Inglaterra com bom posicionamento da última linha de defesa do 5-3-2 e a movimentação de Kane, recuando para deixar Sterling mais avançado para os contragolpes e alternando com os meias Lingard e Dele Alli.

A dinâmica criava uma indefinição em Brozovic, o volante entre as duas linhas de quatro na volta do 4-1-4-1 que dá mais liberdade a Rakitic e Modric. Com um estilo vertical, a Inglaterra de Gareth Southgate teve a bola do segundo gol com Kane entrando pela esquerda e acertando a trave depois de finalizar e Subasic defender.

A impressão era de que não faria tanta falta, já que com a passagem do tempo o desgaste pesaria para os croatas. Os ingleses controlavam os espaços e tentavam acelerar nos contragolpes. Mas com muitos erros técnicos que não criavam a chance clara para finalizar. A Croácia foi adiantando as linhas e rodando a bola. Mas também não havia ideias ou a jogada diferente.

Até Perisic começar a encontrar brechas entre Trippier e Walker, logo o lateral que foi para a zaga com o intuito de deixar o trio de zagueiros mais móvel e rápido na cobertura. Walker hesitou, Perisic se antecipou e empatou, completando centro de Rakitic.

Os ingleses acusaram o golpe, passaram a errar além da conta e perder agressividade na marcação. Fizeram a Croácia acreditar e colocar o talento no jogo. Modric e Rakitic tomaram conta do meio-campo. Dalic não fez nenhuma substituição nos 90 minutos.

Guardou tudo para a prorrogação. Quatro substituições e toda a alma e personalidade. Alimentada a cada erro inglês, mesmo com Rashford, Rose, Dier e, no desespero, Vardy na vaga de Walker. Porque a Croácia tinha virado com Mandzukic. Mesmo exausto e com câimbras, aproveitou mais um vacilo da defesa inglesa na cobertura. Com participação de Perisic.

Nos minutos finais, os croatas sobraram fisicamente. Com Corluka, Badelj, Pivaric e Kramaric em campo. Estratégia arriscada que podia ter falhado na segunda etapa do tempo normal, mas que teve a chance de render mais um gol se Kramaric tivesse visto o inesgotável Perisic livre no contragolpe final. Foram 22 finalizações, o dobro dos ingleses, que só finalizaram no alvo com o gol de Trippier. Muito pouco em 12o minutos.

A Croácia teve qualidade e fé inquebrantável de que era possível. Armas poderosas em uma partida eliminatória com tanto em jogo. Por isto fará uma final histórica, consagrando a melhor e maior geração do país, superando 1998. Com 90 minutos a mais de futebol e suor na Copa em relação à França. Mas como duvidar de quem parece crer que tudo pode?

A Inglaterra pode e deve seguir investindo em um trabalho que tem tudo para dar frutos. Com esta e as próximas gerações, campeãs mundial sub-17 e sub-20. Só que agora é hora de Modric, Rakitic, Perisic, Mandzukic, Subasic e uma nação inteira.

(Estatísticas: FIFA)


Difícil avaliar a força da Inglaterra, mas há pontos positivos além de Kane
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André Rocha

Não é fácil fazer avaliações mais profundas sobre o Grupo G pela disparidade de Inglaterra e Bélgica em relação a Panamá e Tunísia. Esperada e confirmada no campo, apesar de algumas dificuldades na estreia – a Inglaterra por abrir o placar cedo e se acomodar e a Bélgica ao sofrer para superar o forte bloqueio do Panamá.

Na segunda rodada, mais relaxados, construíram duas das três maiores goleadas do Mundial até aqui. A Inglaterra enfiou 6 a 1 no Panamá e confirmou algumas boas impressões, apesar da obrigação de relativizar pelas muitas fragilidades do adversário.

A começar pelo jogo vertical do trio de defensores. Walker, Stones e Maguire se juntam a Henderson na articulação de trás com bons passes. Acionam diretamente os alas Trippier e Ashley Young ou o trio ofensivo formado por Sterling e Lingard circulando em torno do artilheiro Harry Kane.

Uma vantagem em relação à Bélgica, que não construía a partir dos zagueiros e facilitava a concentração de panamenhos guardando a própria área. Óbvio que o gol de Stones logo aos oito minutos muda toda a percepção. Ainda mais porque desta vez os ingleses mantiveram a intensidade.

Muita força no jogo aéreo ao enviar Stones e Maguire se juntando a Kane na área adversária. Walker, Henderson e Loftus-Cheek, a única mudança de Gareth Southgate no seu 3-5-2, sacando Eric Dier, também possuem boa estatura. Na Copa dos gols de bola parada é arma que pode resolver ou descomplicar jogo. Ainda mais pela precisão de Trippier nos cruzamentos.

Kane se destaca pela presença de área e também precisão que já o coloca na artilharia com cinco gols. É centroavante dinâmico, que chama lançamento e sabe fazer pivô. Garante mobilidade ao lado de Sterling e a aproximação de Lingard, que cresceu demais na seleção pela evolução nas mãos de José Mourinho no Manchester United.

Os espaços cedidos, principalmente às costas dos alas, que proporcionaram oito finalizações, duas no alvo e o gol de Felipe Baloy, são questão de ajuste. Até porque contra grandes seleções a solidez defensiva se fez presente – como o muro em Wembley que despertou Tite para as dificuldades da seleção brasileira para furar a linha de cinco na defesa?

Na frente, foram 12 finalizações. Sete no alvo, seis nas redes. Eficiência sem precisar de controle absoluto da posse de bola (58%). Chamou atenção a efetividade nos passes: 91%. Mais um item que merece desconto pelos muitos espaços cedidos por um adversário que se descoordenou com o gol sofrido nos primeiros minutos. De qualquer forma, a Inglaterra cumpriu sua obrigação.

Falta o teste mais forte. Virá na última rodada contra a Bélgica, mas ambas parecem mais preocupadas em rodar o grupo e poupar pendurados e desgastados do que com a primeira vaga. Até porque não fará tanta diferença os adversários que virão do Grupo H que não conta com um favorito ou seleção temida pelo desempenho, ao menos até aqui.

(Estatísticas: FIFA)


Camisa pesa, sim! É o clichê do qual não podemos fugir
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André Rocha

Este que escreve aprendeu com os mestres amigos e os da sala de aula que no texto jornalístico devemos fugir dos clichês. O senso comum evitado ao máximo na afirmação de um estilo de escrita ou comunicação.

Mas com o tempo de ofício uma pergunta sempre ronda essa busca: se narramos ou analisamos acontecimentos sobre pessoas e estas costumam se agarrar a clichês, crendices e superstições como podemos desprezar a existência destes?

A história do futebol apresenta questões subjetivas, baseadas em acontecimentos eventuais, mas tratadas como regras não escritas. Capazes de interferir na disputa e ajudar na definição de vencedores e vencidos.

O “peso da camisa” é um exemplo clássico. Longe de garantir resultado, mas que no campo pode pesar se o contexto favorecer. Uma ideia que resume eventos importantes dentro de uma partida.

Como a vivência de um clube em jogos grandes, o histórico de momentos em que se agigantou e subverteu a lógica, a capacidade de no primeiro sinal de reação instalar medo no rival com menos tradição ou o respeito que impõe só pelo que representa.  Até mesmo diante da arbitragem. Afinal, na dúvida qual clube terá mais poder de prejudicar o apitador e sua equipe em caso de erro?

É óbvio que esses fatores têm mais relevância se os desempenhos são equivalentes ou não há uma disparidade na verdade do campo. Como nos 180 minutos entre Real Madrid e PSG. Valeu mais a qualidade e a maturidade da equipe bicampeã da Europa.

Na prática, porém, podem influir, sim, na força mental dos times. Porque jogadores e torcedores, em geral, acreditam nesta espécie de “força estranha” que se mistura com toda a loucura e falta de lógica do jogo.

Como na virada da Juventus em Wembley sobre o Tottenham por 2 a 1 pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Primeiro tempo dominado e controlado pelo time londrino com o gol do sul-coreano Son e outras oportunidades. Organização e volume ofensivo mantendo a torcida quente no estádio.

Mas bastou a equipe italiana mostrar solidez para o Tottenham nitidamente ter sua confiança abalada, dentro e fora de campo. As jogadas de Eriksen e Dele Alli passaram a não acontecer com frequência, Harry Kane ficou isolado e o time de Mauricio Pochettino nitidamente se abateu com a pressão de um jogo deste tamanho. A torcida virou plateia. Silenciosa.

Empate com Higuaín. Com o golpe final três minutos depois, no contragolpe letal construído pelo pivô de Higuaín que encontrou Dybala livre, restou ao Tottenham o desespero. Que podia até ter acabado no empate que levaria à prorrogação na bola na trave de Buffon já nos acréscimos. Talvez a história contada fosse outra.

É óbvio que Massimiliano Allegri foi feliz nas substituições, especialmente a entrada de Lichtsteiner no lugar de Benatia e Barzagli sendo deslocado para fazer dupla com Chiellini na zaga. Com o lateral, o time ganhou um escape pela direita e companhia para Douglas Costa na execução do 4-4-1-1 que não havia até então. Ainda assim, o brasileiro, que cumpriu boa atuação, sofreu pênalti claro ignorado pela arbitragem na primeira etapa.

Com o melhor rendimento, o gigante italiano se impôs especialmente pela tradição na Liga dos Campeões. Ainda que com apenas duas conquistas em nove finais, a história é muito maior que a do Tottenham, cuja melhor campanha na competição foi o terceiro lugar em 1962, bem anterior à fase Champions. Mais ainda da geração da Velha Senhora que vem de duas decisões em três temporadas. A trajetória dos Spurs de Kane é de “pato novo”. Faz diferença. Fez.

Por maior que seja a resistência à ideia, a camisa pesou. Entortou varal, como se costuma dizer. Acontece. E não dá para fugir deste clichê. Porque os grandes agentes do esporte se permitem afetar por isto. Para o bem e para o mal.


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