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São Paulo goleia com pragmatismo, depois beleza. Jardine vence 1ª “final”
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André Rocha

André Jardine já entendeu que precisa de resultados para não ser fritado rapidamente no São Paulo em um clima hostil para um jovem treinador – torcida impaciente, parte da imprensa já “sugerindo” a troca por um nome mais experiente e necessidade de desempenho imediato pelos compromissos na primeira fase da Libertadores. Vai se manter jogo a jogo, vitória a vitória.

A solução, então, é trabalhar conceitos quando for possível treinar e ter cartas na manga para simplificar processos e usar “atalhos” para chegar ao gol. A solução encontrada na virada sobre o Mirassol por 4 a 1 no Pacaembu foi a jogada aérea com bola parada. Uma cabeçada letal em cada tempo.

Cobrança de escanteio pela esquerda de Nenê, gol de Anderson Martins para empatar depois do gol contra de Bruno Peres que parecia o prenúncio de uma tragédia já no primeiro ato. No mesmo lado, Reinaldo bateu falta e Pablo marcou em sua primeira partida oficial.

Com a equipe mais tranquila e confiante, o tricolor pôde trabalhar a bola, Hudson preencher o espaço que havia entre os volantes e Nenê na execução do 4-2-3-1 com a ausência de Hernanes por não estar inscrito no BID a tempo e o jogo, enfim, fluiu naturalmente. Cobrança de falta de Nenê no travessão. O próprio camisa dez conduziu até servir Reinaldo no terceiro.

O que parecia dramático ganhou um toque de espetáculo com belas jogadas e números de goleada no chutaço de Hudson no ângulo do jovem goleiro Matheus Aurélio. Um minuto antes do volante sair aplaudido para a entrada de Liziero. Outro clima no estádio e em campo.

Com um a mais depois da expulsão de Leandro Amaro foi possível “treinar”, já que a equipe praticamente não teve pré-temporada por conta da viagem para a Flórida. Um luxo para quem terá que ser competitivo já em fevereiro contra o Talleres.

É possível investir em mais infiltrações em diagonal dos ponteiros Helinho e Everton, alternando com os laterais Bruno Peres e Reinaldo nas investidas abertos ou atacando os espaços por dentro. Com os deslocamentos de Pablo, muitas vezes falta presença física na área adversária para receber os cruzamentos. O trabalho pelo centro também não precisa depender tanto de Nenê.

O meia veterano inclusive pode abrir o leque de opções para Jardine. Em partidas que seja preciso mais criatividade e passe qualificado, Nenê e Hernanes podem atuar no meio à frente de apenas um volante. O camisa dez é alternativa também como ponta articulador, saindo do flanco e circulando às costas do meio-campo adversário e se juntando ao “Profeta” para articular.

Questões para pensar e testar. Fundamental é seguir vencendo para ir a Argentina com confiança. No segundo mês de 2019 o São Paulo já tem decisão. Na prática, são várias finais para Jardine. A primeira foi vencida.

O cenário não dá brechas para oscilações. Uma insanidade em começo de temporada. Mas parece que o treinador já entendeu e acrescentou pragmatismo ao seu repertório. Faz bem.


Com Goulart, Palmeiras consolida ideia de dois times fortes na temporada
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André Rocha

Foto: Divulgação Palmeiras

O Palmeiras vive aquele período mágico no qual já tem um elenco forte e vencedor, só necessita de contratações pontuais e, também por conta da solidez financeira, muitos jogadores querem vestir a camisa do clube e participar desse momento de conquistas.

Mas desta vez a ida ao mercado foi um pouco mais voraz. Zé Rafael, Arthur Cabral, Carlos Eduardo, Felipe Pires, Matheus Fernandes e agora Ricardo Goulart. Sem contar a contratação de Mayke, que estava emprestado pelo Cruzeiro, e o retorno de empréstimo de atletas como Raphael Veiga e Fabiano.

O cenário no Brasil é de mercado aberto durante praticamente todo o ano, mas o Palmeiras acertou ao tomar a iniciativa desde o final de 2018 e definir a grande maioria das contratações ainda na pré-temporada. Quanto mais rápido o atleta estiver ambientado ao clube, à cidade, aos companheiros e ao modelo de jogo da equipe, melhor. Algumas agremiações esperam demais e o jogador acaba chegando no olho do furacão, com jogos em sequência, sem tempo para treinar e já pressionado por resultados imediatos.

A proposta é clara: consolidar a ideia de contar com dois times fortes na temporada. Primeiro Paulista e Libertadores, depois pontos corridos (Brasileiro) e mata-mata (Copa do Brasil e o torneio continental). Elenco farto e equilibrado, de qualidade equivalente em todas as posições e funções. Nas entrevistas, Luiz Felipe Scolari tem usado muito a palavra “característica”. Com razão. É a chave para atender as demandas que podem surgir na temporada. O objetivo é repetir 2018 e disputar todos os títulos, porém com mais conquistas que o Brasileiro. A obsessão pela Libertadores é evidente.

Com Carlos Eduardo a ideia é ter velocidade na transição, um jogador que possa ser referência para lançamentos quando o time estiver pressionado. Um desafogo. Zé Rafael chega para adicionar técnica ao meio-campo. Pode também atuar como ponta articulador partindo da esquerda, assim como Gustavo Scarpa do lado oposto. Matheus Fernandes vem para que Felipe Melo, Thiago Santos e Bruno Henrique não precisem ficar se revezando na função de volante ou Moisés seja obrigado a recuar. Arthur Cabral pode atuar pelos lados ou disputar posição com Borja e Deyverson no centro do ataque.

Já Ricardo Goulart é jogador para fazer a equipe subir ainda mais o patamar no país e no continente. Não é meia de organização. Funciona mais como uma espécie de “ponta de lança” moderno. Atua como meia central num 4-2-3-1, mas faz praticamente uma dupla com o centroavante. Tem excelente leitura de espaços e ótima finalização. Marcou 102 gols em três temporadas na China.

No estilo simples e direto de Felipão, vai aproveitar a parede do atacante de referência nas bolas longas para receber e infiltrar. Forte também no jogo aéreo para completar as jogadas pelos flancos. O treinador conhece bem o potencial de Goulart dos tempos de Guangzhou Evergrande.

Se Dudu e o clube não resistirem às investidas do futebol chinês, Goulart também pode assumir a bronca de ser o líder técnico, a referência do Palmeiras. Em recuperação de lesão, só deve estrear em março, na Libertadores. Será uma opção com características diferentes das de Moisés, Lucas Lima, Guerra e Raphael Veiga.

A tendência é que Felipão defina dois times e faça alterações por meritocracia – como foi a mudança na zaga, com Luan e Gustavo Gómez virando titulares na reta final do Brasileiro – e também pelo contexto do jogo. Cabe ao treinador e à comissão técnica manter todos mobilizados e trabalhar as variações, inclusive cumprindo a promessa de trabalhar mais a bola em determinados momentos para evitar o bate-volta que desgasta física e mentalmente.

O treinador não quer sofrer nem improvisar por conta de lesões e suspensões, como aconteceu no empate contra o Flamengo no Maracanã pelo returno, nem com as ausências forçadas nas datas FIFA. A meta é ser competitivo sempre, inclusive com boas opções no banco em todas as partidas.

As perspectivas são as melhores. O Palmeiras foi ao mercado com agilidade e inteligência. Um mérito, mesmo considerando que a fase é mais de oferta que procura. Todos querem jogar no campeão brasileiro. A boa notícia para os 30 atletas que devem formar o elenco é que a grande maioria terá bons minutos na temporada para mostrar seu valor.


A caminho do Fla, Gabigol é atacante que aproveita espaços, mas não os cria
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André Rocha

Gabriel Barbosa, o Gabigol, conseguiu liberação da Internazionale para atuar por empréstimo pelo Flamengo e até já vestiu a camisa rubro-negra em um vídeo pessoal. Oficialmente, o clube apenas aguarda o atacante para fazer exames médicos e assinar contrato.

Com tudo acertado e à disposição do treinador Abel Braga, a missão principal será o ajuste à proposta de jogo do Flamengo, que é basicamente a mesma desde 2016, ainda com Muricy Ramalho. Em função do aumento da capacidade de investimento, o favoritismo natural nas competições que disputa empurra o time para o campo adversário, com controle do jogo pela posse de bola e trabalho coletivo para furar as linhas de marcação.

Pode haver um ou outro ajuste com o novo comandante, mas principalmente no Carioca e na primeira fase da Libertadores será difícil ver a equipe  atraindo o oponente e acelerando contragolpes para aproveitar a defesa adiantada. Ninguém vai se abrir contra um time milionário.

Com isso, a adaptação de Gabriel é um desafio. Com Everton Ribeiro, De Arrascaeta – enfim confirmado oficialmente como nova contratação –  e Vitinho, ainda com a possibilidade de fechar com Bruno Henrique, o Flamengo só oferece a função de centroavante. Abel quer dois ponteiros bem abertos buscando os dribles e chegando ao fundo. Assim a mobilidade fica prejudicada. Caberia ao novo atacante recuar, jogar com um ou dois toques, fazer o pivô, ou aparecer na área para finalizar. Trabalhar mais coletivamente para criar espaços.

Não é o ponto forte. Gabriel funciona melhor com total liberdade e sendo a referência para as transições ofensivas em velocidade às costas da retaguarda adversária. Na seleção campeã olímpica foi o que se destacou menos no quarteto formado com Luan, Neymar e Gabriel Jesus. Na Internazionale e no Benfica praticamente não jogou – disputou 15 partidas em uma temporada na Itália e meia em Portugal – muito em função dos problemas para se encaixar como mais uma peça no modelo de jogo. Leia mais AQUI.

No Santos de Cuca voou e terminou a temporada como goleador máximo do Brasileiro e um dos artilheiros da Copa do Brasil, um feito inédito, sendo a estrela máxima e a equipe jogando para ele. No Fla deve ser a principal referência para as finalizações e colaborar muito para a equipe deixar de ser “arame liso” em jogos grandes, mas há mais gente com currículo para dividir protagonismo.

Em tese, a manutenção de Everton Ribeiro como um ponta articulador saindo da direita para criar e não por dentro como meia em um 4-1-4-1, como indica Abel, Gabriel teria um espaço para se deslocar e confundir a marcação. Agora cabe ao técnico combinar da melhor forma possível as características dos atletas com o estilo ofensivo que a torcida e o contexto exigem.

Não basta “juntar as feras”. Sobram exemplos de “SeleFlas” que deram muito errado – como o “pior ataque do mundo” com Edmundo, Romário e Sávio em 1995 e o time de estrelas formado na mal sucedida parceria com a ISL em 2000 que reuniu no clube Gamarra, Edilson, Petkovic, Alex e Denílson.

Para 2019, a obsessão por títulos para acabar com o estigma de “cheirinho” deixa a margem de erro bem pequena. A diretoria aposta alto, mas sem garantias. Como será desta vez?


Afinal, De Arrascaeta vale toda essa guerra entre Cruzeiro e Flamengo?
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André Rocha

Foto: Uarlen Valério – O Tempo/Estadão

A ideia deste post não é avaliar o comportamento dos dirigentes de Cruzeiro e Flamengo no imbróglio por De Arrascaeta. Os colegas Rodrigo Mattos e Julio Gomes já abordaram o tema e a opinião deste blogueiro fica entre as duas visões: o Fla poderia ter sido mais transparente e se dirigido primeiro ao clube mineiro, que deveria ter honrado o compromisso e não contraído uma dívida com o Defensor. Não há santos nesse caso. Nem o jogador, que força a saída com seu agente de maneira pouco ética.

O que o blog propõe é uma análise sobre a importância de contar com o meia uruguaio na equipe. O time carioca oferece um salário bem superior ao que o atleta recebe no Cruzeiro, que luta como pode para mantê-lo em seu elenco ou ao menos receber a melhor compensação financeira possível, ainda que não tenha pagado integralmente por seus direitos econômicos.

De Arrascaeta é o típico meia que agrada a maioria dos treinadores brasileiros. Camisa dez que “pisa na área”. Marcou quinze gols em 2018. Atua centralizado ou cortando da esquerda para dentro. Combina técnica e timing para aparecer na área e finalizar. Ou servir seus companheiros. No Brasileiro, em 20 jogos foi responsável por seis assistências. Com 24 anos, ainda tem muita lenha para queimar.

Um ótimo parceiro para Thiago Neves no Cruzeiro. O meia que o Flamengo deseja para substituir Lucas Paquetá, artilheiro da equipe na temporada passada com 12 gols, junto com Henrique Dourado. Com a provável saída de Diego Ribas para o Orlando City, a camisa dez ficará vaga.

Mas talvez a virtude que mais justifique essa guerra seja a capacidade de decidir jogos grandes. O Fla sentiu na própria carne, com o uruguaio marcando o gol do empate por 1 a 1 na ida da final da Copa do Brasil 2017 que não complicou a vida dos mineiros para o jogo em Belo Horizonte. No ano passado, novo confronto pelas oitavas da Libertadores e mais um gol de Arrascaeta no Maracanã na vitória por 2 a 0.

Em 2018 o meia também foi protagonista na final do Mineiro, marcando o gol que abriu o caminho para a vitória por 2 a 0 sobre o rival Atlético no Mineirão, e na decisão da Copa do Brasil. O Cruzeiro fez um enorme esforço para contar com o atleta, a serviço da seleção uruguaia, e o camisa dez saiu do banco para ir às redes e não só confirmar a virada sobre o Corinthians, mas também garantir a campanha histórica com 100% de aproveitamento como visitante.

Tudo que Abel Braga precisa para tirar do Fla o rótulo de “arame liso” e “pecho frio” em finais. Justamente o que Mano Menezes não quer perder para manter seu time competitivo. Ainda que o meia se ausente em muitas datas FIFA e não seja um jogador regular, constante. Tanto nas competições quanto nas próprias partidas. Às vezes peca também na intensidade do trabalho defensivo, mesmo atuando com mais liberdade. A reação rápida com pressão logo após a perda da bola hoje é fundamental para os que atuam mais adiantados.

O futebol tem seus mistérios e De Arrascaeta pode não ser feliz numa possível, até provável, mudança de clube. Mas para o nível da bola jogada no Brasil a resposta à pergunta do título deste post é simples: vale muito o investimento. Mesmo com toda polêmica que já arranhou a relação entre dois dos maiores clubes do país.


Os muitos acertos do Internacional no retorno de Rafael Sóbis
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André Rocha

Foto: Ricardo Duarte/Internacional

Cultura de vitória. Um valor intangível, difícil de mensurar. Normalmente algo que é, sim, guiado pelo resultado e que não é propriedade eterna de um clube. O Real Madrid, gigante mundial, recordista absoluto de títulos e atual tricampeão da Liga dos Campeões ficou de 2005 a 2010 sem conseguir ultrapassar as oitavas de final do torneio.

O Internacional tenta resgatar o espírito de um período de glórias com o retorno de Rafael Sóbis. Pode parecer simples superstição, como um “amuleto” que esteve presente nas conquistas da Libertadores em 2006 e 2010 com direito a gols nas finais contra São Paulo e Chivas, justamente no ano da volta do clube ao torneio continental. Mas vai muito além disso.

O Colorado precisa de um símbolo que transfira à equipe atual uma aura vencedora, não a que viu o rival Grêmio empilhar títulos nos últimos dois anos e ainda desceu ao inferno da Série B. No último Brasileiro claramente faltou personalidade, “punch” para duelar com o Palmeiras pelo título, mesmo com uma tabela teoricamente mais favorável, com muitos jogos em casa.

No confronto direto, era nítido o desconforto mental da equipe de Odair Hellmann diante dos reservas de Luiz Felipe Scolari. O empate sem gols no Beira-Rio mostrou que o time paulista podia sonhar alto, mesmo com os titulares focados nos torneios de mata-mata. Restou ao Inter a vaga direta na Libertadores, importante numa volta à Série A.

Mesmo sem a titularidade absoluta no Cruzeiro, Sóbis esteve presente no bicampeonato da Copa do Brasil. Ou seja, a cultura da vitória não está apenas no passado do jogador. E reforça a imagem de atleta que agrega, não cria problemas com a reserva.

Um perfil importante, já que o novo atacante provavelmente não será titular absoluto. Com 33 anos, obviamente não conta mais com a rapidez e a intensidade da década passada, nem é o típico centroavante goleador. Neílton, Pottker e Nico López levam vantagem na disputa das vagas pelos flancos e, no centro do ataque, Jonatan Álvez sai na frente na briga pela vaga de Damião que provavelmente será de Paolo Guerrero quando terminar a punição por doping.

Mas ainda pode entregar desempenho nas duas funções, dependendo do contexto, ou até como um segundo atacante, atrás do centroavante, dentro de uma proposta mais ofensiva. A confiança pela volta para casa deve ajudar no encaixe das suas características na equipe e a experiência vai contribuir nos momentos de dificuldade. Com quatro anos a menos que D’Alessandro, tem mais lenha para queimar a favor do time.

O tempo de contrato também é um acerto: apenas 12 meses. Se corresponder a renovação se faz praticamente automática. Em caso de insucesso, o desligamento acontece sem maiores traumas e problemas legais. Melhor para os dois lados.

Manutenção do trabalho aparando arestas, cobrindo carências e agora trazendo um ídolo para retomar algo que se perdeu no caminho. O Internacional tem tudo para dar liga em 2019.


Flamengo de Landim precisa ser competitivo no futebol, mas sem oba oba
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André Rocha

A Copa do Brasil de 2013 foi a única conquista nacional da gestão Bandeira de Mello no futebol. No primeiro dos seis anos nos dois mandatos, ainda sem grande capacidade de investimento. Com time limitado e, por isso, desacreditado, Jayme de Almeida como o tradicional técnico interino com raízes no clube e força no mata-mata.

No último título brasileiro, arrancada na reta final com Petkovic e Adriano como estrelas improváveis, Andrade sucedendo Cuca, sorte por enfrentar o Corinthians na penúltima rodada quando o São Paulo disputava a liderança e o Grêmio na última quando o concorrente era o Internacional. O pior aproveitamento entre os campeões nos pontos corridos com 20 clubes: apenas 67 pontos, cinco a menos que a campanha do vice em 2018.

Em 1992 e 1987 o time rubro-negro também cresceu na reta final. A campanha na Copa do Brasil de 2006 teve perfil semelhante ao de 2013. Em 1990, primeiro título do torneio, o Fla também não era favorito.

Nos últimos cinquenta anos, o Flamengo só foi campeão como grande candidato, forte financeiramente e vanguarda na gestão do clube no auge da Era Zico, de 1978 a 1983. Um time de exceção, o maior da história do clube e, para muitos, o melhor do Brasil depois do Santos de Pelé. Liderado por seu maior craque e ídolo, combinava talento, fibra e profissionalismo. Se deixando levar pela empolgação da torcida, mas sem ilusão de onipotência.

Rodolfo Landim é o novo presidente. Recebe de Bandeira de Mello para o triênio 2019-2021 um clube com saúde financeira, dívidas equacionadas e estrutura de primeiro nível para o departamento de futebol. Salários em dia e as melhores condições de trabalho para atletas, comissão técnica e demais profissionais, além de forte investimento nas divisões de base.

Falta ser competitivo no futebol profissional. Ou seja, disputar os principais títulos em igualdade de condições com as grandes equipes do país e alternar com estas nas conquistas de Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil.

A máxima de que “o Flamengo organizado é imbatível”, defendida até por dirigentes rivais como o atleticano Alexandre Kalil, já caiu por terra há tempos. Até porque é praticamente impossível criar uma dinastia no Brasil. O que o torcedor deseja é que o time entre no ciclo de perde-ganha de Cruzeiro, Grêmio, Palmeiras e Corinthians.

Com Bandeira foi perde-perde. Por conta de uma gestão incompetente e paternalista no futebol. Contratações equivocadas, elencos montados sem a preocupação de combinar as características dos jogadores. Alguns atletas e o treinador Reinaldo Rueda vieram mais por pressão da torcida nas redes sociais do que por uma avaliação com convicção da direção.

Em termos de comportamento, o conformismo com a derrota foi o maior pecado, como se o revés fosse um rito de passagem inexorável para o triunfo. Mera consequência. Confundindo continuidade com continuismo. Aos poucos construiu uma mentalidade perdedora, com jogadores “encolhendo a perna” na hora de decidir jogos grandes e se abatendo diante da primeira dificuldade.

A ponto de criar uma visão entre muitos torcedores de que o Flamengo só funciona na bagunça. Jogador corre e luta apenas se souber que receberá os salários atrasados se conseguirem resultados e as consequentes premiações – dura realidade em muitas das conquistas em um passado recente. Uma falácia, obviamente. É possível fazer bem melhor com mais recursos.

Landim recebe o clube em seu melhor cenário administrativo dos últimos quarenta anos. Manter a austeridade e a responsabilidade na gestão financeira é obrigação. O desafio é resgatar a mentalidade vencedora dos tempos de Zico, ainda que hoje pareça impossível formar um time em casa e manter as estrelas por tanto tempo no clube. Porque a capacidade de investimento sempre fará do Flamengo um dos grandes candidatos a qualquer título que disputar. Então a possibilidade de entrar desacreditado e surpreender reduz consideravelmente.

Se conseguir montar uma equipe forte e com comando que consiga transformar as cobranças naturais num ambiente competitivo em desempenho, a missão será não entrar no oba oba da torcida. Massa que é o grande patrimônio do clube, mas muitas vezes atrapalha com a megalomania que sempre respinga no campo. Seja superestimando  jogadores medianos ou tratando como craques consagrados jovens ainda em formação e mais suscetíveis ao deslumbramento.

É preciso deixar o “cheirinho” para trás e trazer de volta o “deixou chegar”. Ainda que não vença sempre que decidir. Há dinheiro e competência nos rivais também. O que se espera é que todas as chances de levantar uma taça não sejam desperdiçadas. Não combina com o Flamengo.


Na aula ou na praia, técnicos precisam decidir o que fazer com nosso caos
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André Rocha

Mano Menezes, Dunga, Tite, André Jardine, Zé Ricardo, Emily Lima e outros estão na sala de aula da CBF no curso de Licença Pro. Renato Gaúcho alterna com a praia. Vanderlei Luxemburgo prefere o poker. Ou criar polêmica com jornalistas no seu canal no Youtube. Afinal, segundo ele, se tivesse que aparecer em qualquer curso sobre futebol seria para ensinar. Nada para aprender…

Independentemente do que cada um faz nas férias, forçadas ou não, os treinadores no Brasil precisam encontrar respostas para um grande problema brasileiro. Um dilema, talvez. O que fazer com o nosso caos de todo dia?

O primeiro cenário caótico é o do calendário. Não dá para só ficar reclamando do excesso de jogos e do tempo escasso para pré-temporada e treinamentos ao longo do ano e usar como muleta ou álibi quando as coisas não acontecem e os resultados não aparecem. Ou se unem, buscam adesão dos jogadores, os mais afetados pelo desgaste no campo, e tentam mudar com greves, protestos, o que for possível…ou procuram soluções para minimizar os danos.

Que coloquem como condição, de preferência em contrato, a utilização de um time “alternativo” na grande maioria dos jogos do estadual. Reservas e jovens fazendo transição para o profissional. Tanto para diminuir o total de jogos na temporada dos titulares quanto para entrosar uma equipe que será útil quando as partidas de Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil ficarem “encavaladas” no segundo semestre.

Aí entra outro caos: o amadorismo dos dirigentes. Os mesmos que contratam medalhões para funcionarem como escudos ou dão oportunidades aos mais jovens para mostrarem que o clube está antenado, passando uma aura de moderno. Para demitir na primeira sequência ruim de resultados. É preciso criar mecanismos de proteção no momento da contratação, quando está com mais moral e o diretor pressionado pela torcida atrás do “salvador”.

Outra saída é regulamentar um limite de troca de treinadores por temporada. Assim esse ciclo de tentativa e erro, o “vamos ver no que vai dar”, sem critério ou planejamento, por ouvir falar, será interrompido. Haveria uma melhor avaliação do perfil do profissional de acordo com a tradição do clube e as características dos jogadores. Para evitar discrepâncias como Roger Machado no Palmeiras que tende a jogar um futebol reativo ou Jair Ventura no Santos com DNA ofensivo.

Mas é dentro do campo que a questão do caos se torna mais complexa. Porque os técnicos trabalham para minimizar as aleatoriedades inerentes ao esporte e ter maior controle do jogo sem a bola, mas dependem deste mesmo caos para atacar.

Ou seja, no trabalho defensivo a missão é compactar setores, sem brechas. Concentração máxima para pressionar o adversário com a bola, fechar linhas de passe e cuidar das coberturas e dos movimentos coletivos para garantir superioridade numérica no setor em que está a bola e proteger o “funil”. Racionalidade absoluta para se organizar e evitar a “bagunça”.

Já com a bola é o inverso. Tudo fica entregue ao talento do jogador para passar, infiltrar, driblar e finalizar. Natural, é assim no mundo todo. Só que por aqui não há a preocupação de pensar na maneira de atacar para potencializar essa qualidade. Fazer com que o mais habilidoso tenha apenas um marcador pela frente.

Isso só acontece nos contragolpes. Quando o oponente cede o espaço depois que a bola sai da pressão logo após a perda e a defesa fica mais exposta. Um drible em velocidade e o caminho está aberto. Mas como, se o adversário está cada vez mais preocupado em não ceder esse campo?

Nossa tradição é de deixar as ações ofensivas para as iniciativas individuais. Muricy Ramalho até hoje, como comentarista, afirma que o treinador só deve intervir quando não há qualidade ou quando esta não está aparecendo. Seu Santos campeão da Libertadores vivia fundamentalmente dos lampejos de Neymar.

Não é só o Muricy. Nem vem de hoje essa mentalidade. O futebol brasileiro dos coletivos de onze contra onze e de jogadores que passavam uma carreira inteira no mesmo clube construía as jogadas combinadas pelo entrosamento natural de anos atuando juntos. Os próprios atletas tinham suas jogadas ensaiadas. O trabalho coletivo acontecia pela repetição, não por um estímulo.

Agora os elencos mudam o ano todo. Entradas e saídas, encontros e despedidas. Muitas contratações e vendas na janela europeia, justamente quando a temporada afunila e os jogos quarta e domingo obrigam o que acabou de chegar a se readaptar ao jogo daqui e se entender com os novos companheiros em jogos decisivos. Loucura.

Então um time deixa a posse de bola para o adversário, que não sabe o que fazer com ela além de acionar o melhor jogador da equipe. A única forma de diminuir o caos atacando é na bola parada. Cada um no seu lugar, movimentos ensaiados. Ainda assim, depende de onde a bola cai, como o oponente está posicionado, aonde vai cair o rebote, etc.

Não é apenas questão de dinheiro, da venda cada vez mais precoce de nossos talentos e da partida até dos mais velhos que se destacam, mesmo para centros periféricos como China, mundo árabe, etc. É também de falta de ideias. As semanas cheias quando só resta o Brasileiro, mesmo quando o elenco está menos sujeito a baixas, não costumam gerar avanços na execução do modelo de jogo.

O tempo faz os adversários estudarem melhor as ações de ataque mais efetivas, otimizarem o trabalho defensivo. É quando falta repertório para quem se propõe ou precisa atacar, seja pelo mando de campo, peso da camisa ou pressão da torcida. Não dá para viver de contra-ataque e bola parada.

Eis o desafio dos treinadores. Com ou sem licença ou diploma. Estudando ou no ócio criativo. É urgente que nosso jogo seja tão sentido quanto pensado. Não pode ser só raça, fechar a casinha, bola no craque do time e seja o que Deus quiser. O jogo evoluiu, com e sem a bola. Chegou a hora das soluções, porque as desculpas já conhecemos.


Palmeiras pode se impor na América com adaptações ao estilo que já é seu
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André Rocha

Foto: César Greco/Folhapress

Copa do Brasil de 2015 e Brasileiros de 2016 e 2018. Os títulos do Palmeiras na Era Paulo Nobre/Crefisa tiveram Marcelo Oliveira, Cuca e Luiz Felipe Scolari no comando. Treinadores com diferenças nas visões de futebol, mas que no clube seguiram uma linha em comum pelas circunstâncias.

Um jogo mais direto, de fácil assimilação e simples execução. Marcando correndo e não posicionado, com grande desgaste físico e mental, porém crescendo em momentos decisivos, grandes jogos – final contra o Santos na competição de mata-mata. Um tanto rústico, às vezes tosco. Mas eficiente e vencedor no cenário nacional.

Estilo bem distante da Academia, de Ademir da Guia. Palmeiras não mais do Dudu volante discreto e elegante, fiel escudeiro do camisa dez eterno do clube. Mas do Dudu atacante, intenso e rápido, que chama o jogo para si e quer decidir o tempo todo. Ambos históricos.

Pode não agradar a todos e propor uma discussão profunda sobre o nível do futebol jogado no Brasil, mas no país do futebol de resultados é suficiente para dirigentes, treinadores, atletas, boa parte dos jornalistas e a grande maioria dos torcedores. Na cabeça de muitos o questionamento é simples: se venceu no mata-mata e nos pontos corridos, por que mudar?

O Palmeiras até tentou alterar a rota. Com Eduardo Baptista, Alberto Valentim e Roger Machado. Jovens treinadores com conceitos mais atuais, acreditando em um jogo elaborado, de domínio pelo controle da bola. Mas penando com problemas na gestão do grupo e/ou para fazer os jogadores assimilarem e aceitarem uma nova maneira de entender o jogo.

Na troca de Roger por Felipão, as declarações de Edu Dracena deram o tom: é melhor jogar protegido, com a última linha de defesa mais recuada, não tão exposta. A saída da defesa mais sustentada, que apela para a ligação direta assim que o adversário tenta pressionar procura um centroavante  – mais Deyverson que Borja – que disputa essa bola e tenta retê-la. Se perde, apenas ele e mais três ou quatro entraram no campo de ataque. Outros seis ou sete já estão prontos para defender. Difícil ser surpreendido em contragolpes.

Pressão no homem da bola, encaixe e perseguições impedindo jogadores livres nas tabelas, triangulações e ultrapassagens. Concentração. Bola roubada, acionamento direto e constante do pivô ou do talento maior. No caso, Dudu. Sempre partindo de uma das pontas para decidir com passes ou finalizações.

Quando o time perde a bola, pressiona, retoma e vai criando volume, mais jogadores se aproximam da área rival e aí fluem as jogadas pelos flancos com os laterais chegando e Bruno Henrique, o volante mais ofensivo na execução do 4-2-3-1, se juntando ao quarteto ofensivo.

Rodando o elenco, com mais reservas que titulares enquanto o time seguiu vivo na Copa do Brasil e na Libertadores, construiu uma campanha espetacular no Brasileiro. Invicto por 23 rodadas, melhor turno da história dos pontos corridos. Superando no saldo de gols o Corinthians do ano passado. Os mesmos 47 pontos em 57 possíveis. Impressionantes 82% de aproveitamento. Campeão só na penúltima rodada por conta dos muitos tropeços no turno com Roger e pela campanha do vice Flamengo – 72 pontos que garantiriam títulos em outras edições do campeonato, inclusive a de 2009, vencida pelos rubro-negros.

Primeira conquista de Felipão por pontos corridos no Brasil. Delegando mais poderes, liderando o vestiário de forma mais leve e serena, contando com Paulo Turra na montagem dos treinamentos. Mas ainda essencialmente Felipão.

Para 2019,  a Libertadores novamente como meta. Para buscar o tão sonhado título mundial nos moldes atuais da FIFA para sepultar de vez as provocações dos rivais. A impressão que a eliminação para o Boca Juniors na semifinal do torneio continental deixou é de que a maneira de jogar está ultrapassada numa disputa em nível mais alto e não é suficiente para vencer além das fronteiras do país. Mas talvez com alguns ajustes as chances aumentem.

Na derrota por 2 a 0 na Bombonera, o Palmeiras tentou controlar o jogo negando espaços ao time xeneize e buscando as transições ofensivas rápidas. Teve 43% de posse, acertou 242 passes. Mas efetuou 53 lançamentos e errou 40 porque eram ligações diretas com muito mais chances para os defensores. Também 56 rebatidas. Ou seja, foi um time de chutões. De positivo, os 24 desarmes corretos contra 15.

No triunfo com Roger sobre o mesmo Boca na fase de grupos, 302 passes num universo de 48% de posse, 12 finalizações contra 11 , 17 desarmes certos, mas 11 lançamentos certeiros de 36 e só 37 rebatidas. Por mais que haja diferenças óbvias de pressão, mobilização e espírito num mata-mata, são números que deixam lições.

Qual o aprendizado possível? O que Felipão já disse em coletivas desde a eliminação: tentar ficar mais com a bola. Mesmo que seja através de passes simples, com jogadores próximos. Para acalmar o jogo, respirar, pausar. Há jogadores com qualidade no fundamento para isto no meio-campo: Felipe Melo, Bruno Henrique, Moisés, Lucas Lima, Gustavo Scarpa…Basta adaptar a proposta e estimular os atletas a fazerem a leitura do momento certo para tirar velocidade, quebrar o “bate-volta”.

Já a eliminação para o Cruzeiro na Copa do Brasil, também na semifinal, teve um contexto diferente: primeiro jogo em São Paulo, mas o gol de Barcos logo no início. Diante do time de Mano Menezes, especialista na organização defensiva, o Palmeiras sofreu para criar espaços. Teve 66% de posse, finalizou 19 vezes, nove no alvo. Mas faltou preparar as chances mais cristalinas para ao menos empatar. Cruzou 37 vezes na área cruzeirense. Descontando a polêmica na disputa de Dracena com o goleiro Fabio que a arbitragem viu falta no final da partida, a equipe de Scolari produziu pouco.

Um número chama atenção: apenas três tentativas de viradas de jogo, duas bem sucedidas. Diante de um sistema defensivo com linhas compactas e atenção aos movimentos, virar o jogo tirando da zona de maior pressão na marcação para achar um Dudu com mais liberdade para o confronto direto com o marcador é o cenário desejado. O Palmeiras está acostumado a acelerar. Podemos chamar até de “vício”. Há qualidade para fazer diferente.

Basta querer e treinar certo. Missão para Felipão, Turra e comissão técnica. Se o estilo tem agradado por garantir taças não é preciso renegá-lo, só torná-lo mais versátil e adaptável às demandas. Como pede o futebol atual no mais alto nível. Com Marcelo Oliveira e Cuca, o Alviverde ficou bem distante do sonho da América. Já Felipão chegou mais perto.

Polindo, ajustando e incrementando um pouco o repertório conforme a necessidade é possível dar o tão esperado passo para dominar também o continente com o estilo que já é seu.

A Libertadores já premiou times propositivos e reativos. Superataques e retrancas. Também equipes “mutantes” ou “camaleões”. Entregou duas taças a Scolari nos anos 1990. Por que não outra a um Felipão “renovado” em 2019?

(Estatísticas: Footstats)


Brasil deve unir futebol intuitivo de Felipão e o jogar de memória de Tite
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André Rocha

Foto: Alex Silva (Agência Estado)

O maior título da carreira de Luiz Felipe Scolari é o último mundial do Brasil em 2002. Pouco mais de um ano depois de ser anunciado como treinador da seleção. Aos trancos e barrancos formou uma base que contou com a ascensão de Ronaldinho Gaúcho e a volta de Ronaldo para encontrar o time no amistoso contra Portugal há dois meses da Copa e depois efetuar duas trocas: Emerson por Gilberto Silva e Kléberson por Juninho Paulista.

Sem muito tempo, fez o básico da escola brasileira: “fechou a casinha” com Edmilson ora terceiro zagueiro, ora volante e baseou seu jogo ofensivo na força e velocidade dos laterais Cafu e Roberto Carlos e no talento dos dois Ronaldos e mais Rivaldo. Venceu sete jogos – na estreia contra a Turquia e nas oitavas diante da Bélgica com erros graves da arbitragem que beneficiaram a seleção – e faturou a quinta taça para a camisa verde e amarela.

O mesmo futebol intuitivo que consagra o técnico veterano 16 anos depois na sua volta ao Brasil após três temporadas de sucesso na China. Sem muito tempo para treinar por estar envolvido em três competições fez o simples: organizou a defesa, protegeu os veteranos Edu Dracena e Felipe Melo e apelou para ataques mais diretos, procurando um pivô – Borja ou Deyverson – e o talento de Dudu, potencializado pelo carinho de Scolari ao atacante.

Fez o que a diretoria e a torcida queriam: priorizou Libertadores e Copa do Brasil e alternava três ou quatro titulares no Brasileiro. Atrás de Flamengo e São Paulo nos pontos corridos, foi resgatando o desempenho de Lucas Lima e Mayke, ganhou o reforço do zagueiro paraguaio Gustavo Gómez e, com o clima leve pelos bons resultados no mata-mata, foi pontuando e subindo até chegar à liderança.

Com as eliminações para Cruzeiro no torneio nacional e Boca Juniors no continental, a pressão para transformar a primeira colocação e a invencibilidade em título. O desempenho caiu, mas não o aproveitamento. Na vitória sobre o Vasco em São Januário, a confirmação do décimo título brasileiro do Palmeiras.

Todos felizes e à vontade. Clima de família. Funciona desde que o comandante gaúcho ganhou destaque no cenário nacional com a conquista da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma. Passando por Grêmio, Palmeiras e Cruzeiro em sua fase mais gloriosa que alcançou o ápice no Mundial de 2002.

Felipão coloca cada um em seu lugar, se defende com encaixe na marcação, pressão sobre o adversário com a bola e perseguições curtas ou longas dependendo do adversário. Ofensivamente abusa das ligações diretas para ganhar metros de campo e acionar os atacantes mais perto da área do oponente para definir a jogada rapidamente. Se a bola bater e voltar, o sistema defensivo está organizado para não ser surpreendido no contragolpe.

Para isto não precisa de muitas sessões de treinamento. A assimilação é rápida também porque cada atleta só necessita colocar para fora os instintos de cada função. Velocidade dos laterais, vigor e senso de cobertura dos zagueiros, desarmes dos volantes, criatividade do meia mais solto, agressividade dos ponteiros, pivô e faro de gol do atacante de referência.

Bem diferente do jogar “de memória” de Tite. Porque exige repertório mais amplo e maior entendimento coletivo. A começar pela marcação por zona com última linha de defesa posicionada para proteger a própria meta. Algo pouco ou nada trabalhado nas divisões de base nas décadas passadas.

Exige convencimento e tempo. Algo que Tite ganhou no Corinthians, mesmo com o furacão Tolima no início de 2011. Foi burilando o time até vencer o Brasileiro. Com a proposta amadurecida e direito a variações do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 com o avanço do volante Paulinho como meia e alternando Danilo e Emerson Sheik pelo centro e à esquerda do ataque venceu a Libertadores. Com Guerrero comandando o ataque num 4-4-1-1 superou o Chelsea no último título brasileiro no Mundial de clubes.

Em 2014 foi para a Europa buscar repertório ofensivo para adicionar à solidez sem a bola que marcou sua fase vitoriosa. Mirava a seleção depois da Copa de 2014, com Felipão no comando. A CBF preferiu Dunga e Tite voltou ao Corinthians no ano seguinte. Encontrou atletas campeões com ele, mas de novo encarou o desafio de convencer e fazer funcionar suas novas ideias com horas em campo, treinando e jogando.

Adicionou posse de bola e criatividade através de tabelas e triangulações para infiltrar. Ajustou peças até encaixar Vagner Love no ataque, aprimorar Jadson como ponta articulador partindo da direita e fazer Renato Augusto comandar a saída de bola e as trocas de passes para o time voar na reta final do Brasileiro e ser o último campeão capaz de dar espetáculo com um belo jogo coletivo.

Em 2016 foi chamado para resgatar a seleção. Precisando de resultados imediatos para colocar o Brasil na Copa e sem tempo para treinar, Tite criou uma rotina árdua com sua comissão técnica de estudo e observação de atletas. O objetivo era claro: fazer o jogador repetir na seleção os movimentos e a dinâmica individual e coletiva que pratica no clube. Ativar a memória de um jeito diferente. Totalmente sintonizado com as práticas do futebol atual não foi difícil convencer os comandados nas Eliminatórias.

O único que fugia do que fazia no clube era Philippe Coutinho. Meia pela esquerda no Liverpool virou ponta articulador pela direita, mas aproveitando a liberdade para circular e aparecendo por dentro para marcar um golaço nos 3 a 0 sobre a Argentina no Mineirão. Ascensão rápida até o topo nas Eliminatórias e vaga garantida no Mundial da Rússia com enorme antecedência.

Na Copa, Tite sentiu o peso da missão. Ele mesmo admite que na execução do hino na estreia contra a Suíça a ficha caiu. Faltou tempo para se preparar mentalmente. Em dois anos teve que colocar o Brasil na Copa, depois trabalhar para ser competitivo diante dos europeus.

Pior: teve sua base abalada. Daniel Alves cortado, Renato Augusto fora de forma, Neymar lesionado três meses antes da Copa, Gabriel Jesus oscilando no Manchester City. Usou Danilo na lateral direita, depois Fagner. Centralizou Coutinho e abriu Willian pela direita. Quando Douglas Costa viraria titular se contundiu.

Mexeu na estrutura, perdeu desempenho. Mas seguiu na Copa até o golpe fatal: sem Casemiro, viu Fernandinho marcar a favor da Bélgica e o sistema defensivo desmoronar com a instabilidade emocional de seu volante de proteção e também a qualidade de Lukaku, De Bruyne e Hazard. Para depois cumprir sua melhor atuação na Copa ao longo do segundo tempo, desperdiçar chances claras com Renato Augusto e Coutinho, ver Courtois fazer milagre em chute de Neymar e voltar para casa nas quartas de final.

Eliminação que colocou Tite no olho do furacão resultadista tipicamente brasileiro. De gênio, referência de competência até para políticos a burro e fraco, incapaz de gerir o mimado Neymar. Da China, Felipão deu o recado: agora não era o último a perder com a seleção, mas era o último a ter vencido.

Em tempos tão apressados, o 7 a 1 tinha sido empurrado para o passado. Com o fracasso da Alemanha em 2018, a maior derrota da seleção brasileira passou a ser relativizada. Justamente o revés que mostrou que o futebol meramente intuitivo pode desabar nas disputas em altíssimo nível. Também retirou definitivamente o nome de Scolari da mira de times e seleções nos principais centros.

Por outro lado, talvez tenha faltado mais instinto e sensibilidade a Tite no Mundial. Quando o entrosamento e a memória faltaram e era preciso ter feeling para tomar decisões sob pressão, o treinador com mais preparo e estudo vacilou. Com um novo ciclo, agora desde o início mas com enorme desafio já no ano que vem com a disputa da Copa América em casa, surge a chance de amadurecer, ganhar cancha no universo de seleções.

Acima de tudo se encaixar no jogo por demanda que ascende no futebol mundial. Inspirado no Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo, mas também na França de Deschamps e Mbappé. Campeões “camaleões”, que vencem atacando ou explorando contragolpes.

Inteligência e versatilidade para se adaptar aos mais diversos cenários. Ter conceitos, mas também capacidade de improvisar. Principalmente no mata-mata, quase sempre decidido com força mental e talento. Como em 2002 com Felipão. Agora, paradoxalmente, o campeão da regularidade em seu primeiro título brasileiro nos pontos corridos.

Tite e Scolari são dois lados de um futebol brasileiro buscando o retorno ao topo. Antigos companheiros da escola gaúcha, hoje separados por desavenças e trocas de farpas. Exatamente pelas visões antagônicas que resistem em ver valor no outro pólo.

O melhor caminho seria o aprendizado em conjunto para uma evolução segura. Dos treinadores e do nosso jogo, que pode e deve alternar memória e instinto para voltar a se impor no cenário mundial.

 


Futebol raiz no dos outros é refresco!
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André Rocha

Foto: Jorge Pablo Batista/Instagram

A Libertadores é uma competição que ainda carrega sua tradição, mas objetivamente não passa de um torneio que aos olhos do mundo significa muito pouca coisa. Baixo nível técnico e tático, estádios nem sempre modernos, confortáveis e cheios, péssimas arbitragens, jogos lentos e intensidade confundida com violência.

Só chama atenção dos envolvidos emocionalmente ou por dever da profissão. Especialmente observadores de clubes de grandes centros atrás de jovens talentos. O campeão, se chegar à final do Mundial de Clubes, não passa de um adversário “pitoresco” do vencedor da Liga dos Campeões e, na prática, se torna um sparring com algum charme.

Uma visão incômoda e inconveniente. Como diz um meme que circula por ai, “não podemos publicar isso”. Afinal, vai desvalorizar o produto e os nossos times que tratam como meta máxima da temporada. Conquista de prestígio. Então para buscar algo positivo e atraente sobre o principal campeonato de clubes da América do Sul alguns afirmam, orgulhosos, que é o fiel representante do “futebol raiz”.

O que significa? O oposto do “futebol Nutella” da Liga dos Campeões. Um contraste. E como num passe de mágica tudo que era negativo passa a ser “romântico”. Dos bons e velhos tempos. Como se o passado fosse algo que provocasse boas recordações, sem agressões aos times visitantes, jogadores usando e abusando do doping e de todo tipo de intimidação para vencer em seus domínios.

O fetiche do futebol “testosterona”, onde vence quem é mais macho, persiste. O último templo da virilidade, que não custa a se transformar em barbárie, dentro ou fora de campo. Como no Monumental de Nuñez no sábado. Ônibus do Boca Juniors atacado, jogadores lesionados e sem a devida condição emocional para disputar uma final contra o maior rival River Plate.

Disputa que atraiu os olhos do mundo. Pela enorme rivalidade dentro da mesma cidade, a grande tradição dos dois clubes, nove títulos em campo. Mas notava-se que a cobertura da imprensa internacional mirava algo inusitado, um tanto selvagem. Como turismo numa favela carioca ou visita a uma selva. Quase nada pelo futebol.

Como muitos turistas fazem ao visitar alguns estádios no continente. Apreciam a arquitetura ultrapassada, admiram a paixão dos torcedores que se vangloriam de sofrer por seus times nas arquibancadas de cimento e muitas vezes colocando até as próprias vidas em risco. Vale a visita. Para depois retornar ao conforto das arenas. Ou do ar condicionado de suas casas.

Enquanto isso seguimos cultuando o mal feito pela Conmebol, que só copia a UEFA no mais irrelevante e desconectado de nossa cultura: final da Libertadores em jogo único e campo neutro. Organização? Para quê? Não faz parte da nossa cultura. É o que dizem…

Até que no sábado uma decisão esperada pelo planeta bola foi adiada de 18h (hora de Brasília) para 19h, depois 20h15…Para às 20h30 anunciarem o que devia ter sido oficializado assim que foi detectada a lesão no olho do meio-campista do Boca Juniors Pablo Pérez. Não havia a mínima condição da partida ser realizada. Para só no domingo ser transferida sem previsão. Agora com o Boca ameaçando pedir a punição do River e ficar com a taça.

Frustrante para quem comprou ingresso ou conseguiu credencial para trabalhar. Mas não devia ser para quem acha toda essa balbúrdia uma prova de autenticidade, sem o chato rigor na organização da Champions. Dos estádios elitizados, dos times poderosos que “roubam nossos talentos”, das vitórias “assépticas” dos mais ricos.

Sim, garantir a inclusão é necessário com ao menos um setor do estádio cobrando um preço acessível. É claro que traços culturais precisam ser preservados, incluindo a identidade visual dos templos do futebol. Mas nivelar por baixo porque é América do Sul soa como preconceito. Mesmo entre os que defendem as práticas arcaicas.

Muito fácil para quem não vive o desconforto diário.Quem não enxerga e tem vergonha da própria miséria. Ou quem não se importa com a “maior final de todos os tempos” reduzida a um retrato da nossa indigência. A foto de Pérez vítima da nossa violência diária, ferido em um dos olhos.

Futebol raiz no dos outros é refresco!