Blog do André Rocha

Arquivo : luizfelipescolari

Atento e eficiente, Palmeiras é campeão brasileiro. Só falta a matemática
Comentários Comente

André Rocha

A vitória por 3 a 0 sobre o Fluminense no Allianz Parque foi mais um típico triunfo do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari.

Concentração sem a bola, futebol simples e direto usando e abusando da qualidade de jogadores como Bruno Henrique, Dudu e Lucas Lima para definir o jogo. Insiste, inclusive na bola parada, explora as deficiências dos adversários com maiores fragilidades técnicas e táticas, além da carência de peças de qualidade.

É simplesmente impossível tirar do líder absoluto mais um título brasileiro, repetindo 2016 na era dos pontos corridos. Com todos disponíveis, foco total na competição, confiança lá no teto e os concorrentes diretos Internacional e Flamengo já jogando a tolha e tropeçando na própria incompetência.

Gol de Borja no primeiro tempo completando bela jogada de Diogo Barbosa, depois Felipe Melo, que entrou na vaga de Lucas Lima, acertou um chute espetacular no ângulo de Julio César e Luan no final completou na bola parada. O Flu tentou duelar de igual para igual, Marcelo Oliveira desfez o sistema com três zagueiros e apelou para o 4-2-3-1.  Mas simplesmente não dá para competir.

55% de posse de bola, ainda que apelando para lançamentos e rebatidas, ou chutões mesmo, por 76 vezes e trocando menos passe que o Flu – 264 x 267. Mas foram 17 finalizações, oito no alvo. Enquanto os demais oscilam, o Palmeiras completa um turno sem derrotas, 19 partidas. Impossível questionar a competência para pontuar sempre. Sempre atento.

É o campeão brasileiro de 2018. No apito final, mais uma comemoração de jogadores, comissão técnica e torcedores. Agora só falta a matemática para entregar a taça. Questão de tempo.

(Estatísticas: Footstats)


Só um improvável “efeito São Paulo” pode tirar o título do Palmeiras
Comentários Comente

André Rocha

As chances de reação do Flamengo de Dorival Júnior em busca do título voaram longe como os chutes de Lucas Paquetá contra o Palmeiras e Vitinho diante do São Paulo no Morumbi. Fraqueza mental que deve minar ainda mais as forças em uma tabela complicada nos seis jogos que restam – Botafogo, Sport e Cruzeiro como visitante e Santos, Grêmio, Atlético-PR em casa.

Sobra o Internacional, novo vice-líder depois da virada dramática sobre o Atlético-PR no Beira-Rio com gol no final em pênalti mais que discutível sobre Rossi. Com o ânimo de quem chegou mais longe que imaginava pode sonhar com uma virada. A tabela é acessível: América, Atlético-MG e Fluminense em Porto Alegre e Ceará, Botafogo e Paraná fora.

Mas depois da vitória no sábado sobre o Santos por 3 a 2 em um jogo maluco com gol de falta de Victor Luis num frango de Vanderlei quando o adversário parecia mais próximo da virada, é impossível não ver o título se encaminhando para Luiz Felipe Scolari e seus comandados.

A única chance de surpresa desagradável seria um “efeito São Paulo”. Ou seja, cair vertiginosamente de produção quando passa a se dedicar exclusivamente ao Brasileiro por conta de eliminações no mata-mata. As semanas cheias jogando contra pelo tempo para pensar no peso do favoritismo. A ansiedade sufocante fazendo o desempenho despencar e os resultados seguirem a trilha ladeira abaixo.

Algo bastante improvável. Primeiro porque o Palmeiras, mesmo carregando a pressão por grandes conquistas depois que o investimento no elenco aumentou,  foi campeão brasileiro há dois anos. Não carrega o fardo de falta de títulos do Tricolor do Morumbi. Ainda há no grupo remanescentes da conquista de 2016 com Cuca. E mesmo que Felipão não tenha um título por pontos corridos no país, a experiência do treinador para lidar com essa responsabilidade também cria ambiente mais sereno. Há um escudo.

Sem contar a qualidade. É claro que a ausência de Dudu, por exemplo, seria um duro golpe, mas não do tamanho da de Everton para Diego Aguirre pela falta de reposição. Com todos à disposição é possível armar o time em função de cada adversário.

Nada muito complicado: visita Atlético-MG, Paraná e Vasco e enfrenta Fluminense, América e Vitória em São Paulo. Com cinco pontos de vantagem sobre o Inter. Uma rodada e mais dois pontos. Fruto da campanha espetacular no returno até aqui: dez vitórias e três empates. Incríveis 85% de aproveitamento. Para perder o título teria que cair para 66% – ou seja, ganhar apenas 12 dos 18 que restam –  e o Internacional responder com 100%.

Se derrapar só não será mais vexatório que em 2009, quando o time comandado por Muricy Ramalho era favorito absoluto e perdeu até a vaga na Libertadores. Nada leva a crer que possa acontecer. Parece questão de tempo. A tendência é que a matemática faça seu serviço na antepenúltima ou penúltima rodada.


Palmeiras é mais uma vítima brasileira da força mental do Boca Juniors
Comentários Comente

André Rocha

Não é o melhor Boca Juniors da história, longe disso. Mas o time dos irmãos Schelotto que vai fazer uma das maiores, se não for a maior, final da Libertadores da história contra o River Plate segue uma tradição do clube na principal competição sul-americana.

A equipe que perdeu para o Palmeiras de Roger Machado na fase de grupos e correu sério risco de ser eliminada cresceu demais no mata-mata por conta de sua mentalidade vencedora. Independentemente de quem está em campo, a postura é de time grande e vencedor.

Pode sofrer e ficar acuado, como no início do jogo no Allianz Parque e na virada do segundo tempo que deu alguma esperança a Luiz Felipe Scolari e seus comandados. Mas nunca abdica do jogo, dificilmente se desespera e sabe “congelar” a bola para o sufoco passar e voltar a atacar.

Desta vez num 4-3-3 com Villa e Pavón nas pontas e Ábila no centro do ataque. Para se antecipar a Luan e abrir o placar sobre um Palmeiras forçando demais o jogo em Dudu pela direita ou no pivô de Deyverson. Mesmo com Lucas Lima tentando qualificar o toque no meio-campo.

O jogo direto e rústico criou alguns problemas para o time argentino quando se transformava em volume de jogo ao dominar os rebotes e voltar a atacar, insistindo nas jogadas pelos flancos. Mas foi no abafa da segunda etapa que saíram os gols de Luan e Gómez cobrando pênalti sobre Dudu.

O único momento em que o time xeneize baixou um pouco a guarda. Mas impressiona como admite a dificuldade, oscila mentalmente, porém não se desmancha. Voltou a jogar com Zárate na vaga de Pavón e Benedetto no lugar de Ábila. Sem mudar o desenho tático e o modelo.

Quando Felipe Melo, em reta final da carreira e obrigado a marcar por encaixe e perseguição depois de anos na Europa defendendo por zona, cansou e deu espaços, Benedetto marcou seu terceiro gol dos quatro do Boca na semifinal e matou o confronto com os 2 a 2.

Com Moisés, Borja e Gustavo Scarpa, o Palmeiras insistiu, porém perdeu organização. 31 lançamentos, 37 cruzamentos e 30 rebatidas. Mesmo com 326 passes certos e 60% de posse sempre fica a impressão de que o Palmeiras de Felipão poderia trabalhar mais a bola. No futebol jogado no Brasil tem bastado.

Os argentinos administraram com aquela combinação de pressão no adversário com a bola e seguir atacando, mas sempre ganhando todo o tempo possível para esfriar o oponente.

Confirmando a 16ª classificação em 19 duelos em mata-mata contra brasileiros. Massacre histórico de uma força mental que vai buscar contra o maior rival a sétima conquista para se igualar ao Independiente como maior vencedor da história do torneio.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras e Flamengo iguais na força pela esquerda. Empate encaminha taça
Comentários Comente

André Rocha

Apesar das ausências importantes e da preocupação com a volta contra o Boca Juniors pela Libertadores, o Palmeiras tinha o jogo à sua feição pelo contexto. Mesmo contra o Maracanã cheio e um Flamengo confiante depois da chegada de Dorival Júnior.

Porque no futebol jogado dentro do Brasil quem pode atuar negando espaços e explorando as costas da retaguarda adversária sempre leva vantagem. Física, tática, técnica e mental. O time de Felipão se fechava em duas linhas de quatro com muita concentração para não permitir as triangulações e sempre pressionando o adversário com a bola.

Só tinha um “ponto cego”. Já esperado pelas ausências de Marcos Rocha e Mayke. Felipão posicionou Luan na lateral direita, mas o zagueiro sofreu no duelo com Vitinho, o grande destaque rubro-negro no primeiro tempo. O ponteiro do 4-2-3-1 do Fla que teve a grande chance nos primeiros 45 minutos quando Vitinho passou como quis por Luan e teve tempo e espaço para levantar a cabeça, mas não percebeu o deslocamento perfeito de Arão, que ficaria de frente para Weverton. Cruzamento errado, chance desperdiçada.

O Palmeiras também atacava pela esquerda, com Dudu para cima de Pará. Na primeira etapa não teve grande efeito prático, mas logo após a volta do intervalo a bola longa pegou o lateral direito do Flamengo mal posicionado e cedento espaço suficiente para o melhor jogador do campeonato até aqui cortar para dentro, limpar também Léo Duarte e bater no canto esquerdo de César.

Vitinho sentiu lesão no segundo tempo e Dorival colocou Marlos Moreno. Antes havia trocado Arão por Diego e voltado ao 4-1-4-1 dos tempos de Mauricio Barbieri. Luan também saiu desgastado para a entrada de Gustavo Gómez. As trocas criaram uma vantagem clara do atacante colombiano sobre o zagueiro paraguaio na velocidade.

Marlos recebeu nas costas de Gómez, cortou Antônio Carlos e empatou. Marlos não marcava desde 2016. Já o artilheiro do Flamengo no Brasileiro com dez gols perdeu a grande chance da virada. Antes de Felipão corrigir a marcação no setor ao deslocar o volante Thiago Santos para a direita, o ponteiro disparou e serviu Paquetá que, livre, bateu por cima.

Era a bola de um jogo estrategicamente igual. Já era esperado que o Flamengo tivesse muito mais posse (62%). Talvez não tantas finalizações – 19, mas só quatro no alvo. Mas novamente exagerou nos cruzamentos em uma partida decisiva: 43. O Palmeiras efetou 64 lançamentos e 50 rebatidas, também previsível para o “padrão Felipão”. Assim como a eficiência de finalizar sete vezes, duas no alvo e uma nas redes.

De Dudu, que se sacrifica nas duas competições porque o time depende dele. Vai precisar demais do fator de desequilíbrio contra o Boca no Allianz Parque. Já no Brasileiro a missão agora é administrar. Quatro pontos de vantagem mantidos, um confronto direto a menos e sete rodadas com tabela em tese mais fácil que a sequência de jogos dos concorrentes.

O título parece encaminhado. Logo o que o Palmeiras não priorizou e, por isso, jogou com calma e leveza. Vantagem considerável no tenso, quase surtado, ambiente de time grande no Brasil.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras de Felipão é versão aprimorada do campeão brasileiro com Cuca
Comentários Comente

André Rocha

Everton faz uma falta tremenda ao Grêmio. É o desafogo dos contragolpes, o ponteiro do drible que desarticula o sistema defensivo adversário. Da infiltração em diagonal para a finalização. Um desfalque imenso para uma partida do tamanho do confronto fora de casa contra o líder do campeonato.

Mas convenhamos que por mais que se dedique e reforce o discurso de que a competição por pontos corridos é importante, a concentração e a intensidade do Grêmio no Brasileiro nunca é a mesma em relação à Libertadores. É cultura, assimilada por Renato Gaúcho, maior ídolo da história do clube, e por seus comandados.

Nada disso, porém, tira os méritos dos 2 a 0 do Palmeiras no Pacaembu. Uma atuação segura, sólida, que permitiu apenas três finalizações do atual campeão sul-americano. Nenhum no alvo. O Alviverde concluiu sete, cinco na direção da meta de Paulo Victor. Nem tanto assim, mas o jogo todo deixou a impressão de que poderia marcar mais gols, mesmo com apenas 40% de posse.

Porque Luiz Felipe Scolari e sua comissão técnica conseguiram fazer o elenco assimilar a proposta de jogo rapidamente e com muita precisão, aditivada pela confiança por conta dos bons resultados. A ponto de poder mesclar cada vez mais titulares e reservas sem queda de desempenho por falta de entrosamento.

Contra o Grêmio, a maior virtude foi a concentração no trabalho sem bola. Depois do sucesso no duelo com o Colo Colo pelas quartas de final da Libertadores, Felipão resolveu seguir apostando na marcação por encaixe. Diante do time de Renato Gaúcho, que no país é quem trabalha no modelo mais próximo do jogo de posição, com toques curtos e mobilidade em pequenos espaços, as perseguições nem precisavam ser tão longas, o que costuma desarrumar mais os setores.

Os duelos, então, ficavam bem definidos: Dudu e Willian voltavam com os laterais Leo Gomes e Marcelo Oliveira, Thiago Santos pegava Luan, Moisés bloqueava Maicon, Bruno Henrique batia com Cícero. Mayke esperava Pepê, o mesmo do lado oposto com Diogo Barbosa contra Alisson. Zagueiros Luan e Gustavo Gómez cuidavam de Jael. Na frente, Deyverson incomodava Geromel e Bressan.

O gremista que recebia a bola era imediatamente pressionado por seu marcador. Nas tentativas de triangulação, quase nunca o Palmeiras permitia o terceiro homem livre – ou seja, aquele que se desmarca e vai receber a bola mais à frente. Impressionante como o time da casa permaneceu ligado durante os noventa minutos.

Bola retomada, muitas ligações diretas. Foram 44 lançamentos na partida. Quase sempre buscando Deyverson no pivô ou Dudu na velocidade. Não por acaso, os dois melhores em campo. Um desequilibrou com gols, outro como o ponteiro que Everton costuma ser para o Grêmio. O centroavante finalizou três vezes, duas no alvo. Nas redes.

O camisa sete, melhor em campo, foi quem mais acertou dribles e passes para finalizações. Cruzou para Deyverson desviar para o primeiro gol. Ganhou da defesa e rolou para Bruno Henrique chutar e Cícero salvar quase sobre a linha. Apesar de ainda insistir muito nas reclamações com a arbitragem, já é candidato a grande destaque individual do campeonato.

Marcação por encaixe, perseguições individuais, ligações diretas, concentração, Dudu desequilibrando. Tudo isso lembra demais a trajetória que terminou com o título em 2016. Sob o comando de Cuca. Campanha fantástica no segundo turno, outra semelhança.

Só que o time de Felipão, pelo menos até aqui, parece uma evolução daquele Palmeiras. Que tinha o talento de Gabriel Jesus, mas nem sempre um pivô como Deyverson para reter a bola e contribuir para o volume ofensivo. Mais leve, sem o peso dos 22 anos sem título brasileiro e o clima tenso que Cuca costuma criar na gestão do elenco, o jogo flui melhor.

Conta também, e muito, o elenco mais qualificado e homogêneo que o de dois anos atrás. Para vencer o Grêmio e praticamente tirá-lo da briga pelo título. Com os 3 a 1 do Internacional sobre o São Paulo no Beira-Rio, sobram três reais candidatos à principal competição nacional. Os dois vencedores das partidas mais importantes do domingo e mais o redivivo Flamengo de Dorival Júnior.

A menos que surja um “fato novo”, a única possibilidade de queda do líder é o contexto da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors e de uma possível decisão continental interferir muito nas rodadas de fim de semana. Hoje parece improvável. Mais fácil os outros dois tropeçarem na ansiedade por taças.

Favoritismo absoluto do Palmeiras, maior que os três pontos de vantagem na tabela sobre o Inter. Returno de oito vitórias e dois empates, 16 gols a favor e apenas cinco contra. Praticamente imune a desfalques, com confiança no teto e tratando o Brasileiro sem obsessão. Não é a prioridade, mas parece ser levado cada vez mais a sério faltando nove rodadas.

(Estatísticas: Footstats)


Vitória do Palmeiras é de favorito, mas pane mental do São Paulo assusta
Comentários Comente

André Rocha

A atuação do Palmeiras foi segura dentro de sua proposta de jogo. Cuidados defensivos no início do clássico no Morumbi, exagerando um pouco nas ligações diretas para quem tinha Felipe Melo, Moisés e Lucas Lima no meio-campo. Compreensível pelo peso do jogo.

Mas quando a tensão típica de um “Choque-Rei” decisivo deu lugar à leveza com que o Alviverde disputa o Brasileiro, com muitos jogadores considerados reservas e priorizando os torneios de mata-mata (agora a Libertadores), o time de Luiz Felipe Scolari foi adiantando as linhas e trocando mais passes na execução do 4-1-4-1 que encaixava com o 4-2-3-1 tricolor.

Mas o gol novamente veio na bola parada. Escanteio da direita cobrado por Dudu, gol de Gustavo Gómez suficiente para dar pane mental no São Paulo. O segundo foi o retrato do momento do jogo: rebote do escanteio para o time da casa, transição ofensiva rápida que encontrou três palmeirenses contra dois são-paulinos. Passe de Mayke, chute de Dudu na trave. Com os adversários estáticos, o Palmeiras recuperou a bola e Mayke colocou na cabeça de Deyverson, totalmente livre.

Os comandados de Diego Aguirre pareciam pregados no chão. Apatia assustadora. Desde o início dando a impressão de estarem perdidos com a mudança na escalação sem mexer no 4-2-3-1 que tinha Rodrigo Caio na lateral direita, Bruno Peres como ponta e Rojas do lado oposto. Pouco mudou com Carneiro, Everton e depois Tréllez.

Porque elenco e treinador parecem não ter assimilado bem a condição de líder e favorito ao título. Talvez pese a responsabilidade de encerrar o jejum de títulos num cenário em que os rivais da cidade, Corinthians e Palmeiras, vem dominando o cenário nacional.

Na prática, justamente quando se imaginava o crescimento do time com as semanas livres para recuperação e treinamento o desempenho despencou. O time não troca passes no campo de ataque com desenvoltura nem se destaca pelo jogo mais direto. Finaliza pouco quando ocupa o campo de ataque por necessidade. Nem a ausência de Everton por lesão justifica tamanha estagnação.

O revés complica demais a briga pela liderança. Até por abalar a confiança para o duelo da próxima rodada contra o Internacional no Beira-Rio. Se voltar de Porto Alegre com a derrota será a pá de cal na disputa pelo título. Cenário surreal para quem cresceu com jogos seguidos, inclusive na Sul-Americana, logo após a Copa do Mundo e se perdeu com tempo para trabalhar.

O Palmeiras vai na contramão. Melhor campanha do returno com viés de alta. Apenas 40% de posse, 62 lançamentos de uma equipe que corre poucos riscos atrás e procura muito o pivô (Deyverson ou Borja). Mas oito finalizações – cinco no alvo contra apenas uma do rival, total de cinco. Eficiência que impressiona, ainda que tenha desperdiçado a chance de aplicar uma goleada fora de casa.

Volta a vencer no Morumbi depois de 16 anos (24 jogos). Triunfo não só de candidato ao título, mas do grande favorito nesta reta final.

(Estatísticas: Footstats)


Raniel errou mais que Dedé. Cruzeiro fora, mas Boca só se segura na camisa
Comentários Comente

André Rocha

De novo a expulsão de Dedé condicionou o jogo. A primeira absurda e, por isso, anulada; a segunda bem discutível. Aliás, os dois cartões que o zagueiro levou no Mineirão. A questão é simples: será que na Bombonera um zagueiro do Boca Juniors seria advertido da mesma forma?

De qualquer forma, um jogador experiente e ciente de uma certa má vontade da arbitragem com times brasileiros deveria ter sido mais prudente. Depois do “indulto” da Conmebol, natural que ficasse visado. Errou.

Mais ainda Raniel, que entrou na vaga de Barcos e perdeu duas chances cristalinas por pura afobação. A última sem goleiro, com 1 a 0 no placar. É atacante promissor, mas precisa de mais equilíbrio emocional. Como esquecer de sua saída de campo logo nos primeiros minutos da final da Copa do Brasil no ano passada contra o Flamengo no Mineirão por dores musculares causadas por uma tensão descomunal?

O Cruzeiro teve dificuldades no primeiro tempo mais “racional”, tentando criar espaços com a movimentação de Thiago Neves e De Arrascaeta às costas do volante Barrios. Guillermo Schelotto armou um 4-3-3 com Zárate como “falso nove” e os pontas Villa e Pavón alternando pelos flancos. Jogou para congelar a bola e a torcida gastando tempo. Faltou ao time mineiro pressionar mais no campo de ataque.

O cenário poderia ter mudado no final do primeiro tempo com o gol de Barcos. Mas Dedé, de novo ele, fez falta no hesitante goleiro Rossi e o lance já estava anulado no momento do toque final. A arbitragem comandada por Andrés Cunha acertou também ao assinalar impedimento de Barcos no lance que terminou no pênalti sobre De Arrascaeta. O erro capital foi mesmo no jogo de ida, com ajuda do VAR. A expulsão foi anulada, mas não o segundo gol do time xeneize que foi consequência.

O Cruzeiro cresceu no abafa com Raniel e também Sassá, que substituiu Lucas Silva e marcou o gol no seu primeiro toque na bola. Mano Menezes ainda colocou Rafinha na vaga de Arrascaeta, mas com um zagueiro a menos depois de três substituições para deixar a equipe mais ofensiva a equipe ficou fragilizada.

Com o passar do tempo veio a pressa e depois o desânimo pelos gols perdidos. Até Léo falhar ficando entre a disputa no alto com Ábila e fechar a passagem de Pavón, que não errou à frente de Fabio. Boca na semifinal, mas contra o Palmeiras de Felipão, se não melhorar muito o desempenho, esse time só se segura na camisa que impõe respeito demais em jogos decisivos. Ou se cair no colo novamente os benefícios dos erros da arbitragem.

Teve apenas 42% de posse e sete finalizações, mas seis no alvo. Foi mais eficiente que o Cruzeiro que concluiu na direção da meta de Rossi apenas três de um total de 17. O time brasileiro levantou 29 bolas na área e tentou 36 lançamentos. Mais uma vez faltou calma. Também criatividade de uma equipe que rende mais negando espaços e aproveitando os cedidos pelo adversário.

Ainda assim era possível estar na semifinal. Vai o Boca Juniors em busca de seu sétimo título. Mas desta vez não como favorito. Bem longe disto.

(Estatísticas: Footstats)

 


Palmeiras B campeão será a “experiência de quase-morte” do Brasileirão
Comentários Comente

André Rocha

Você consegue imaginar um Real Madrid valorizando mais a Copa do Rei do que La Liga ou o Bayern de Munique lamentando mais a eliminação da Copa da Alemanha do que ficar para trás na disputa pela salva de prata da Bundesliga?

Improvável, não? No Brasil, porém, funciona diferente. Além da Libertadores, a Copa do Brasil é tratada como prioridade pelos grandes clubes. Não só pelo alto valor da premiação, mas por uma simples questão de cultura. Se contarmos desde 1959, foram 43 anos de disputa do Brasileiro no mata-mata. Apenas 16 nos pontos corridos. De 1989 a 2002, as duas principais competições nacionais eram definidas em jogos eliminatórios e parecia ok pra todo mundo.

Os pontos corridos, mesmo com os lamentos de muita gente, chegaram a pegar por aqui. Assim como a visão de que a regularidade, valorizando todos os jogos, normalmente era a grande virtude do campeão.

Tudo mudou com Libertadores e Copa do Brasil passando a ser disputadas durante toda a temporada, como acontece na Europa. A possibilidade de ser campeão disputando menos partidas se transformou numa sedução quase irresistível. Os clubes com maior capacidade de investimento e elencos mais robustos agora disputam o Brasileiro utilizando várias vezes seus times reservas.

O que deveria ser a principal competição nacional virou, na prática, prêmio de consolação. Só passa a ser prioridade quando não há mais nada em disputa. Dependendo do clube, até a disputa da Sul-Americana pode ser colocada na frente. Também por conta do aumento de vagas para a Libertadores. Um G-6 que pode virar até G-9. Quase metade dos participantes…

Tudo isso cria um cenário de desvalorização que pode ganhar um capítulo dramático se o atual líder Palmeiras confirmar o título nas últimas onze rodadas. Desde a chegada de Luiz Felipe Scolari disputando a maioria das partidas com reservas. O experiente treinador usa a retórica para não admitir que é um time B e valorizar todos os jogadores. Mais que legítimo.

E vem dando certo. Usando três ou quatro titulares, normalmente no meio-campo e ataque, está invicto há onze rodadas: oito vitórias e três empates. Incríveis 82% de aproveitamento. Com Gustavo Gómez, Marcos Rocha, Lucas Lima, Hyoran e Deyverson se destacando, além de Felipe Melo e Dudu, tantas vezes pinçados do time A.

Todos os méritos para Felipão, comissão técnica e atletas. Mas um claro sintoma do achatamento técnico da competição. Não só pelo momento do futebol brasileiro já analisado tantas vezes neste blog, com equipes cada vez mais organizadas para defender e sem ideias quando precisam criar espaços diante de times compactos. E ainda tensas com a responsabilidade do favoritismo.

Incrível como o São Paulo caiu de rendimento depois que passou a ser de fato candidato ao título que não conquista há dez anos. Mesmo com desfalques importantes, a queda dos comandados de Diego Aguirre foi brusca. É possível notar em campo uma equipe travada pelos próprios nervos. Precisa vencer e não sabe bem como. A torcida fica ainda mais pilhada ao ver os grandes rivais da cidade em um momento tão bom em termos de resultados – Corinthians e Palmeiras são os últimos campeões brasileiros e seguem fortes no mata-mata.

O mesmo com o Internacional vindo da Série B e que de repente se viu disputando o topo da tabela. Outro time que precisa dar respostas diante da força do grande rival, o Grêmio campeão sul-americano e praticamente garantido nas semifinais do torneio continental em 2018. Mais uma equipe que sem brechas para infiltrar entra em parafuso e sofre mais do que devia, mesmo em jogos relativamente tranquilos contra times tentando se afastar do Z-4.

Por enquanto o Palmeiras está leve. Disputa as partidas sem maiores cobranças. Não só pelo crédito histórico de seu treinador, mas principalmente por também estar com a classificação bem encaminhada para as semifinais do principal torneio sul-americano. Buscando o bi com Felipão. A eliminação na Copa do Brasil teve seu impacto em um clube ávido por taças, mas sem gerar crise.

Esta tranquilidade somada ao desempenho com notável regularidade pode, sim, acabar em título. Ainda que a tabela reserve o clássico contra o São Paulo no Morumbi já na próxima rodada e depois duelos fora de casa contra Flamengo e Atlético Mineiro.

Se acontecer será uma espécie de “experiência de quase-morte” do Brasileirão. Um duro atestado de desvalorização. A dança com a prima no final da festa. Algo para CBF, clubes e até a TV Globo repensarem. Ainda que a audiência siga com bons números e até a média de público esteja mais alta, turbinada pelos programas de sócio-torcedor que estimulam a fidelidade. Mas fica cada vez mais cristalino que o foco é mata-mata.

As quartas estão mais nobres que os fins de semana. Sinal dos tempos.


Corinthians e Cruzeiro: a cultura de vitória na final da Copa do Brasil
Comentários Comente

André Rocha

O último campeão brasileiro e paulista. O último campeão da Copa do Brasil e mineiro. Os jogos de volta das semifinais do torneio mata-mata nacional foram parelhos, com momentos de pressão no final de Palmeiras e Flamengo, mesmo como visitantes.

Mas a cultura de vitória está na final da Copa do Brasil. Conceito subjetivo, mas que transmite confiança para quem conquista títulos e muitas vezes “encolhe” a perna dos jogadores da equipe que coleciona fracassos e sofre pressão. Exatamente o perfil atual dos derrotados, embora o Alviverde tenha taças mais recentes para ostentar. Só que depois de aumentar ainda mais o poder de investimento está devendo em resultados. Ao menos por enquanto.

Já o Corinthians sofre por restrições no orçamento e baixas seguidas no elenco e na comissão técnica. Mas se desta vez não encontrou forças para ser competitivo nos pontos corridos, especialidade nos últimos anos, chega na Copa do Brasil. Nove anos depois do terceiro e último título.

Em 2009 com Mano Menezes. Treinador na segunda final consecutiva, semifinalista em 2016. Com um Cruzeiro pragmático, que novamente não venceu o jogo de volta no Mineirão e vai se garantindo fora de casa. No 4-2-3-1 sólido, mas nem sempre constante. Péssima notícia para a volta contra o Boca Juniors pela Libertadores, mas carrega favoritismo para o bi e a sexta conquista do torneio nacional.

Porque o time de Jair Ventura foi inferior ao Flamengo nos 180 minutos. Mas teve eficiência em Itaquera, desde a bela inversão de Jadson, novamente jogando mais adiantado, que pegou Pará com Clayson e Danilo Avelar nas costas de Everton Ribeiro para abrir o placar.

Depois o jovem e promissor Pedrinho, que entrara na vaga de Clayson, decidiu no talento, com a ajuda da passividade no combate de Willian Arão e Trauco –  as surpresas de Mauricio Barbieri que adiantou Paquetá para jogar com Henrique Dourado e abriu Diego na ponta esquerda num 4-2-3-1 – e do sacrifício de Diego Alves para seguir em campo depois de uma lesão no primeiro tempo.

O gol rubro-negro foi contra, mais uma vez. De Henrique, desviando cruzamento de Pará. O lateral que acertou a trave no último ataque. A 11ª finalização rubro-negra contra seis do Corinthians – quatro a três no alvo.

No Mineirão a disputa foi mais econômica em conclusões: seis do Palmeiras, quatro do Cruzeiro. Também pelo excesso de ligações diretas e chutões – 45 do time mineiro, 30 dos visitantes. Roteiro esperado: Cruzeiro abrindo o placar na saída rápida, com Lucas Silva encontrando Barcos, que driblou Weverton e parecia encaminhar a classificação. Mas o gol de Felipe Melo, completando cobrança de escanteio, deixou tudo mais eletrizante até o final. O desfecho, porém, acaba com o sonho da “tríplice coroa” do Palmeiras de Luiz Felipe Scolari.

Porque os dois times mais vencedores do país nos últimos tempos, junto com o Grêmio, resistiram. Na fibra, no apoio de suas torcidas. Mas principalmente pela força mental de quem vem crescendo em momentos decisivos. Por isso mesmo devemos ter uma final imprevisível, até pela posição intermediária dos times no Brasileiro.

Foco total. O trabalho mais curto contra o mais longevo. Quem vai se impor?

(Estatísticas: Footstats)


A “nova ordem nacional” diz que o Palmeiras está bem vivo contra o Cruzeiro
Comentários Comente

André Rocha

Ninguém é uma coisa só e, por isso, devemos fugir dos estereótipos. Mas é inegável que Mano Menezes e Luiz Felipe Scolari, embora tenham suas origens no sul do país, têm perfis bem distintos.

Mano é mais “alemão”. Duro, pragmático, frio na maior parte do tempo. Ainda que ande cada vez mais destemperado à beira do campo, especialmente com a arbitragem. Já Felipão é “italiano”: sanguíneo, passional, protetor. Mas igualmente focado no resultado final.

Dois “europeus” que são símbolos do futebol jogado no Brasil. Não por acaso dois dos últimos quatro treinadores da seleção. Como Dunga e Tite, todos do sul.

Porque a “nova ordem nacional” copia o futebol europeu no trabalho sem bola. A sofisticação do “fechar a casinha”. O futebol gaúcho, em especial, sempre teve como característica a organização defensiva, o jogo físico e a pressão sobre o adversário com a bola. Características dos times de Ênio Andrade, Rubens Minelli e outros. Inspirações declaradas da grande maioria dos treinadores bem sucedidos vindos do Rio Grande do Sul.

A vitória do Cruzeiro sobre o Palmeiras no Allianz Parque pela semifinal da Copa do Brasil foi típica. O mando de campo induziu um dos times a avançar suas linhas e arriscar mais. Na entrevista antes da partida, Felipão foi bastante claro: “Precisamos ter cuidados principalmente quando estivermos com a bola”.

Dudu vacilou e o contragolpe foi letal. Toques rápidos, práticos até Barcos tocar na saída de Weverton. Jogada de manual. Com espaços a beleza se faz presente.

Diante de duas linhas de quatro compactas e muita concentração defensiva, o Palmeiras teve dificuldades para impor seu jogo simples e direto. Muitas vezes jogou feio. No geral, o desempenho não foi bom. Porque criar brechas em um “muro” é cada vez mais complexo.

Não basta entregar a bola para o talento resolver na base do drible ou do passe mágico no meio da defesa. Agora há mais corpos condicionados e bem posicionados para bloquear. Em jogos grandes mais ainda. Atacar requer repertório coletivo. Trocas de passes, movimentação, infiltração na hora certa e precisão no acabamento da jogada – assistência e finalização.

Tudo que o time da casa não teve. Mesmo com Lucas Lima no lugar de Thiago Santos aumentando a criatividade e a expulsão de Edilson empurrando ainda mais a equipe mineira para o próprio campo. Com 66% de posse, 19 finalizações contra apenas quatro. Levantando 37 bolas na área de Fábio. Mesmo com bola no travessão em chute de Willian faltou a chance cristalina em jogada construída.

No final, o lance polêmico. Para este que escreve, disputa normal entre Edu Dracena e Fábio. Goleiro não é intocável dentro da área. O árbitro Wagner Reway anulou antes do toque de Antonio Carlos para as redes. Podia ter sido o empate do Palmeiras. Mas também não é o fim do mundo.

O Cruzeiro não tem conseguido se impor no Mineirão. Muito pela proposta de Mano de não correr riscos mesmo quando o cenário é tão favorável. Ficou por um gol de ser eliminado pelo Santos na fase anterior da Copa do Brasil e de ter que disputar com o Flamengo nos pênaltis pela Libertadores.

É melhor se cuidar, porque o Palmeiras está bem vivo e parece mais forte que os outros oponentes eliminados. E Felipão certamente usará o tradicional discurso “contra tudo e todos” para inflamar seu time. Como visitante, a pressão diminui e o jogo costuma fluir melhor. O Cruzeiro tem sentido mais o peso, inclusive do favoritismo. Sempre incômodo no futebol brasileiro.

Confronto muito aberto. A missão do Cruzeiro é entregar em casa a atuação segura que a torcida tanto aguarda. Mas se terminar com a vaga em mais uma decisão do torneio, mesmo com sofrimento, a festa será igual. Porque a exigência no Brasil vai pouco além do resultado final. Mano e Felipão são dois grandes expoentes dessa mentalidade.

(Estatísticas: Footstats)