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Concentrado e alternando ritmos, City não dá chance ao United “Balboa”
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André Rocha

Pep Guardiola certamente conferiu a virada do Manchester United sobre a Juventus em Turim pela Liga dos Campeões na quarta-feira. Impossível esquecer dos 3 a 2 no Etihad Stadium que adiaram a confirmação do título inglês do Manchester City na temporada passada.

O plano de jogo do catalão para o dérbi da 12ª rodada deu a impressão de que levou muito em consideração essa capacidade de reação da equipe de José Mourinho. Quase como um “Rocky Balboa”, apanhando e sendo castigado para arrancar uma remontada improvável na pura força mental.

A ausência de Pogba, o grande talento dos Red Devils e protagonista das duas viradas citadas, certamente pesou. Mas os méritos do City foram inquestionáveis.

Início avassalador nos dois tempos. Pressão, movimentação e posse de bola objetiva. Com Fernandinho distribuindo passes magistrais, Mahrez e Sterling abrindo bem pelos flancos e deixando espaços para Bernardo Silva, Aguero e David Silva por dentro. Mas nada estático. Longe disso.

Na inversão de Sterling para Bernardo Silva, o toque do português para trás e o gol de David Silva. A posse chegou a 88% no período de domínio – 69% no final. Para em seguida recuar um pouco as linhas, diminuir a intensidade da pressão logo após a perda e administrar a posse com cuidado.

Ato contínuo, o United avançou as linhas, aproximou Fellaini do trio Lingard-Rashford-Martial e rondou a área de Enderson. Os visitantes, porém, finalizaram apenas três vezes em 45 minutos. Nenhuma no alvo. Contra nove dos citizens. Só o gol foi na direção da meta do goleiro De Gea.

Volta do intervalo no mesmo ritmo e gol de Aguero em tabela com Mahrez logo aos dois minutos. Novamente a expectativa de repetir goleada – a equipe havia marcado 12 gols nas últimas duas partidas, no Inglês e pela Champions – foi frustrada por conta do pragmatismo do time de Guardiola.

Também da entrada de Lukaku na vaga de Lingard. Na primeira intervenção, o centroavante belga sofreu pênalti de Ederson que Martial converteu. Parecia que o filme se repetiria. Mourinho acreditou e trocou Rashford e Herrera por Sánchez e Juan Mata. Desfez o 4-1-4-1 e se repaginou num 4-2-3-1, como aconteceu contra a Juventus.

Mas Guardiola respondeu com mudanças para seu time não sofrer fisica e mentalmente. Primeiro Sané entrou no lugar de Mahrez. Bernardo Silva abriu à direita e Sterling seguiu por dentro. Depois o ponteiro inglês foi adiantado para ser a referência dos contragolpes quando Gundogan substituiu Aguero.

Como meio encorpado e velocidade na frente, o City seguiu concentrado e sem deixar o rival se impor na força física e mental. Pelo contrário, o United é que foi definhando, sem vigor na pressão e cedendo espaços. Até a obra prima: sequência de quase dois minutos de 44 passes com todos os jogadores de azul tocando na bola e, por fim, Bernardo Silva encontrando Gundogan às costas de Matic.

Um golaço coletivo para matar o clássico nos 3 a 1 e não dar chances ao United traiçoeiro. No total, um massacre de 64% de posse de bola e 17 finalizações contra seis. Controle absoluto por alternar ritmos. Ao comando de Fernandinho, o melhor em campo.

Confirmando a liderança do City que vai aprimorando processos, entendendo as necessidades de cada partida e adaptando o modelo de jogo às demandas. Tudo sem perder a beleza, sempre fundamental.

(Estatísticas: BBC)


Manchester City de Guardiola ataca para não sofrer gols
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André Rocha

O Tottenham havia marcado pelo menos um gol nas nove rodadas do Campeonato Inglês. Até encarar em seu estádio o Manchester City de Pep Guardiola no gramado surrado por uma partida da NFL.

O treinador catalão vai mantendo uma prática de suas equipes nas ligas por pontos corridos. Ataca e fica com a bola para ser menos ameaçado. Mesmo se adaptando ao futebol por demanda e aprendendo a recuar linhas e também jogar em contragolpes quando necessário.

Em Wembley, avançou a marcação e atacou com Mahrez e Sterling pelas pontas, Bernardo Silva e David Silva por dentro. Os quatro à frente de Fernandinho e atrás de Sergio Aguero. De uma ponta a outra, passe de Sterling e gol de Mahrez. Jogada iniciada com um lançamento do goleiro Ederson.

Primeiro tempo de controle e domínio, com 57% de posse e oito finalizações contra duas – três a um no alvo. Diante de um Tottenham com Eriksen no banco, por conta do desgaste de cinco partidas em 12 dias, e um 4-2-3-1 com Sissoko como “ponta volante” pela direita e Lucas Moura do lado oposto buscando as diagonais para se juntar a Harry Kane.

Lamela como meia central. Argentino que se transformou em um dos personagens do jogo ao perder uma chance inacreditável na segunda etapa. Lembrando o gol perdido por Paquetá contra o Palmeiras no sábado. Das outras duas conclusões do time da casa, contra três dos citizens. Mesmo defendendo mais no próprio campo e tentando acelerar com De Bruyne na vaga de David Silva. Diminuiu a posse para 52%, mas resistiu.

Completando seis partidas sem sofrer gols. Já é o ataque mais efetivo com 27. Apenas três sofridos. Invicto como o Liverpool, mas superando no topo da tabela justamente no saldo de gols. Impressiona o equilíbrio que alcança nos campeonatos nacionais. Agora falta encontrar a medida para a Liga dos Campeões, especialmente no aspecto mental.

A receita inteligente de integrar ataque e defesa não precisa mudar.

(Estatísticas: BBC)

 

 


É triste ver José Mourinho parado no tempo
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André Rocha

Foto: Lee Smith/Reuters

José Mourinho foi indiscutivelmente e com alguma sobra o melhor treinador do mundo de 2004 a 2010. O grande divulgador da periodização tática – resumindo bastante, uma metodologia em que todos os treinamentos, até os físicos, contribuem para a construção e manutenção de um modelo de jogo.

Nos tempos de Chelsea, em que os números do sistema tático eram mais valorizados e debatidos, o português afirmava em entrevistas que o 4-3-3 e o 4-3-1-2 eram os que melhor distribuíam os jogadores em campo. Mas na Internazionale mudou para o 4-2-3-1 e ganhou a tríplice coroa em 2009/10. Seu maior mérito era formar equipes intensas, com a coordenação quase perfeita entre os setores, linhas compactas e muito rápidas nas transições ofensiva e defensiva.

Nos  bastidores, seus “jogos mentais” que começavam na coletiva da véspera ou antevéspera de uma partida decisiva tiravam o foco e a pressão de seus jogadores, pilhavam os adversários e suas equipes, mais concentradas, quase sempre levavam vantagem também no aspecto emocional. Assim venceu Arsene Wenger, Alex Ferguson, Rafa Benítez e tantos outros, também colecionando inimizades.

Quando desafiado por Pep Guardiola, o outro grande expoente dos últimos 15 anos, radicalizou no trabalho defensivo, montou uma linha de handebol guardando a própria área e talvez tenha influenciado mais o futebol jogado no mundo que o rival catalão. Afinal, é mais fácil vermos equipes colocando em prática essa compactação defensiva do que o complexo jogo de posição. Na última Copa do Mundo ficou bem nítido.

Por tudo isso é muito triste ver Mourinho parado no tempo. Seu Manchester United é chato de ver jogar. Lento na circulação da bola, pouco intenso na pressão pós perda, sem ideias. Um elenco milionário que vive essencialmente de lampejos de Pogba e das vitórias pessoais de Lukaku contra a defesa adversária em bolas longas ou jogadas aéreas. Os movimentos em diagonal dos ponteiros – seja Rashford, Martial, Lingard ou Alexis Sánchez – são previsíveis. Só há alguma criatividade ou movimento quando joga Juan Mata, que não consegue manter uma consistência nas atuações. Há qualidade no meio com Fred e Andreas Pereira, mas Mourinho insiste com Fellaini…

Para complicar, o treinador repete em sua terceira temporada um fenômeno que vem desde o Real Madrid em 2012/13: exaure seus atletas mentalmente e desgasta a gestão de grupo com cobranças exageradas, muitas vezes públicas. Elege inimigos no vestiário, pressiona as estrelas com a intenção de desafiá-las e extrair melhor rendimento. Não funciona e ele insiste no erro.

A impressão que passa é de que Mourinho não conseguiu se livrar do personagem. O malvado, o “lado negro da força”, o expoente máximo do futebol pragmático. Ou seja, o anti-Guardiola. É como se obrigasse a ser a antítese do futebol ofensivo.

Sem notar que mesmo o treinador que comanda o rival dos Red Devils em Manchester vem mudando o seu estilo. Saindo de um extremo e vindo para o meio. Compreendendo que o futebol atual exige equipes versáteis e inteligentes. Que jogem por demanda, se adaptem a qualquer cenário.

O raciocínio é lógico: um grande time, com camisa pesada e tradição, terá que ser ofensivo na maioria das partidas. Afinal, o número de clubes de menor investimento e envergadura sempre será maior dentro de um campeonato. Até na Liga dos Campeões. Então a equipe precisa saber trabalhar a bola para criar espaços em sistemas defensivos cada vez mais organizados e fechados. Mas também deve estar preparada para jogar com transições ofensivas rápidas e matar o adversário nos contragolpes. Ou nas bolas paradas.

Assim Jupp Heynckes levou o Bayern de Munique à tríplice coroa em 2012/13 e o Real Madrid se consagrou com Carlo Ancelotti e depois Zinedine Zidane. Diego Simeone vai tentando adaptar o seu estilo a essa nova realidade no Atlético de Madrid. O mesmo com Jurgen Klopp no Liverpool. Cada um à sua maneira. Até o City de Guardiola busca definir as jogadas de maneira mais rápida, utiliza mais os contra-ataques e a bola parada.

Mourinho segue agarrado às suas convicções. Parece não aprender com as críticas dentro e fora do clube. Sua equipe não evolui nem encontra soluções. Como tem qualidade no elenco consegue se manter competitivo. Mas sem o salto não chega ao topo. Para um clube que disputa com Barcelona e Real Madrid o posto de mais rico do planeta é muito pouco.

Para quem foca tanto em resultados este início de temporada é decepcionante. Derrota para o Tottenham por 3 a 0, empate com o Wolverhampton, eliminação vexatória na Copa da Liga Inglesa para o Derby County e empate sem gols em casa pela Liga dos Campeões contra o Valencia, perdendo a liderança do Grupo H. É apenas o décimo colocado da Premier League.

Mourinho não repete escalação há 43 partidas. Parece perdido, embora tente manter a imagem de líder frio e inabalável. A pergunta é até quando o Manchester United será capaz de suportar. A julgar pelas vaias da torcida e críticas de ídolos do clube, o futuro não parece tão promissor.

 


Na abertura do Inglês, as demonstrações de força de City e Liverpool
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André Rocha

Na temporada 2017/18, Manchester City e Liverpool sobraram na Inglaterra. O time de Guardiola empilhando recordes na conquista da Premier League e ainda a Copa da Liga na carona. Já os Reds terminaram a liga na quarta colocação, não faturaram nenhum troféu, mas voaram na Liga dos Campeões só parando na final contra o tricampeão Real Madrid em jogo polêmico. Eliminando com sobras o próprio City nas quartas de final.

Com a manutenção das estrelas dos citizens e a vinda de Mahrez, melhor jogador do Leicester City campeão em 2015/16, além dos reforços para deixar a equipe de Jurgen Klopp ainda mais poderosa, natural que a dupla se destaque já na primeira rodada como os times a serem batidos na principal competição nacional.

A começar pelo Liverpool voando no Anfield para atropelar o West Ham por 4 a 0. Com Alisson estreando com pouco trabalho na meta e vendo seu time colocando muita intensidade e volume de jogo. Mantendo uma característica da temporada passada: o trio Salah-Firmino-Mané se aproximando para tabelas e entrando na área oferecendo aos companheiros as melhores opções de finalização. Não por acaso, dois gols de Mané, o de Salah abrindo o placar e o último de Sturridge, que entrou na vaga justamente do atacante egípcio.

Bem assessorados pelo trio Wijnaldum-Milner-Keita. Este último vindo do Leipzig e se adaptando rapidamente ao jogo com o pé no acelerador de Klopp. Mais os laterais Alexander-Arnold e Robertson, que serviu a assistência para Salah. Com Van Dijk se afirmando, um goleiro mais confiável e as peças mais entrosadas, fica a impressão também de uma equipe mais sólida defensivamente.

Um vendaval de 65% de posse, mas com controle apenas na segunda etapa com a vitória já construída, e 18 finalizações contra cinco – oito a dois no alvo. Nítida demonstração de que o Liverpool nunca pareceu tão pronto para encerrar o período de 28 anos sem conquistar a liga, estacionando nos 18 e vendo o Manchester United ultrapassá-lo na Era Alex Ferguson.

Mas terá como grande obstáculo exatamente o time de Pep Guardiola, um treinador que vem se mostrando especialista nos campeonatos por pontos corridos. Porque seu time trabalha para se impor jogo a jogo. Mesmo fora de casa. No Emirates Stadium contra o Arsenal na primeira partida de liga sem Arsene Wenger, a equipe azul de Manchester se impôs contra os gunners hesitantes sob o comando de Unai Emery.

Sem David Silva, com De Bruyne no banco e num 4-2-3-1 dando liberdade a Bernardo Silva à frente de Fernandinho e Gundogan. Forte pela esquerda com o trator Mendy agora titular, ora atacando aberto, ora por dentro. Sempre voando. Nas combinações com Mahrez ou Sterling, os ponteiros que inverteram o posicionamento na maior parte do jogo.Trabalhando com os pés “bons” ou invertidos.

Como no primeiro gol, com Sterling cortando para dentro e, aproveitando que Mendy arrastou a marcação para o fundo, batendo no canto esquerdo de Petr Cech. Pelo setor também saiu a jogada do segundo, com Mendy servindo Bernardo Silva, já atuando pela ponta direita com a entrada do De Bruyne na vaga de Mahrez.

Muita pressão depois da perda da bola intimidando um Arsenal que parece ter se apequenado como instituição nos últimos anos e sente os jogos grandes. Ainda que seja muito cedo para qualquer avaliação mais profunda. Taticamente, o 4-2-3-1 com Ramsey atrás de Aubameyang, Ozil e Mkhitaryan nas pontas e o jovem francês Guendouzi como surpresa deixando o uruguaio Torreira no banco não foi tão funcional e só ameaçou na vitória pessoal do lateral Bellerín sobre Mendy e o chute perigoso que fez Ederson trabalhar.

Depois um 4-3-1-2 com Lacazette na vaga de Ramsey e Ozil como “enganche”. Mas deixou muitos espaços e não conseguiu duelar na consistência do jogo. Há muito a fazer, tanto dentro quanto fora de campo. É preciso recuperar confiança para render no mais alto nível.

Mesmo valorizando a bola, o City se mostra mais vertical, resolvendo a jogada o mais rápido possível quando rouba no campo de ataque. Foram “apenas” 58% de posse e 17 finalizações contra nove – oito a três no alvo. Na reta final, Guardiola trocou Aguero, que perdeu chance clara à frente de Cech pouco antes do segundo gol, por Gabriel Jesus e Sané entrou na vaga de Sterling. A prova de que há elenco para seguir dominando o cenário.

Mas terá um Liverpool mais “cascudo” e com elenco completo nas características pela frente. Se desta vez não priorizar o mata-mata poderemos ter o mais equilibrado duelo Guardiola x Klopp numa liga. Ainda é cedo para cravar qualquer coisa, mas se Manchester United e Tottenham não se cuidarem podem ficar pelo caminho.

(Estatísticas: BBC)


Low corta Sané, o “Douglas Costa alemão”. Tite é menos radical pelo sistema
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André Rocha

Quando o Manchester City contratou Leroy Sané para a temporada 2016/17, Pep Guardiola afirmou que buscava um jogador para fazer na sua nova equipe o que Douglas Costa realizava sob seu comando em sua melhor fase na carreira no Bayern de Munique.

Ou seja, o ponta canhoto dentro do jogo de posição que espera a bola bem aberto para driblar, cortar para o fundo e finalizar ou servir os companheiros. Ou à direita cortando para dentro e finalizando. Normalmente recebendo numa inversão para enfrentar apenas um marcador. Sem se incomodar de pegar pouco na bola, mas ser decisivo. O fator de desequilíbrio. Em 2015/16, o brasileiro marcou seis gols e serviu 12 assistências na Bundesliga e na Champions.

Na temporada seguinte, o encontro entre Guardiola e Sané em Manchester rendeu sete gols e cinco assistências, ainda se adaptando a um novo modelo de jogo. Na campanha do título nacional, a explosão com dez gols e 17 passes para os companheiros irem às redes. Totalmente adaptado e ciente de sua missão em campo.

Por isso a surpresa pela ausência do atacante entre os 23 convocados da atual campeã Alemanha para a Copa do Mundo na Rússia. Nem tanto pelo desempenho na seleção, mas pelo potencial que poderia ser desenvolvido e, principalmente, pelas características diferentes de Draxler, Reus e Brandt. Mesmo iniciando sempre no banco, seria uma possibilidade de mexer com a marcação adversária. Joachim Low preferiu os jogadores mais associativos, de tabelas e infiltrações. Preferiu a afirmação do sistema à alternativa de ruptura.

Exatamente a crítica que Tite recebeu por deixar no Brasil o meia do Grêmio, eleito melhor jogador da América do Sul. Porque é jogador de entrelinhas, centralizado num 4-2-3-1. No 4-1-4-1 da seleção, não rendeu aberto nem por dentro nos treinamentos.

Discordar da lista de convocados é mais que legítimo. É até saudável. Contestar Taison é compreensível por estar jogando na Ucrânia e Luan ainda por aqui. A questão é que o camisa sete gremista seria opção apenas para uma função. Na prática, a mesma que Roberto Firmino executa no Liverpool: busca espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente e aciona os companheiros ou aparece para finalizar. Isto no mais alto nível do futebol mundial: Premier League e Liga dos Campeões. A Libertadores fica abaixo neste parâmetro de avaliação. Ou seja, se precisar de um Luan existe Firmino.

A prova de que Tite é menos radical na defesa de seu sistema é justamente Douglas Costa. Quase sempre lesionado quando o treinador precisou, mas sempre no radar. É ponteiro diferente de Willian, Coutinho e Neymar. Mais drible e força em direção ao fundo, ainda que na Juventus não guarde tanta posição no flanco como nos tempos de Guardiola em Munique. É o tal “cara para mudar o jogo”. A preocupação é que está novamente com problemas físicos, mas deve estar pronto para enfim dar sua contribuição a Tite.

Low justificou a ausência afirmando que Sané “não deu tudo que podia nos jogos da seleção”. Na Alemanha nem houve tanta contestação. Porque, de fato, nunca houve uma atuação memorável do ponteiro de 22 anos com a camisa tetracampeã mundial, como tantas fardando o uniforme azul de Manchester. Mas também pela moral do treinador no comando há 12 anos. Que confia em seu sistema e vai com ele até o fim.

Com apenas dois anos, ou meio ciclo de Copa, Tite também carrega suas convicções. Mas deixa uma brecha para novas possibilidades, ainda que quebrem o desenho tático e a proposta de jogo. Quem tem razão? Já sabemos qual será o único critério de avaliação geral, muito mais no Brasil que na Alemanha: o resultado final na Rússia.


Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


A lesão de Daniel Alves e o grande jogo de dados que é o futebol
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André Rocha

Imagem: Franck Fife / AFP Photo

Em sua ótima coluna na Folha de São Paulo, Tostão afirma que o jogo é uma mistura de inspiração e expiração, de ciência e imprevistos.

Podia ser Meunier ou qualquer outro lateral direito do futebol profissional do mundo inteiro em campo ontem na conquista da Copa da França pelo PSG na vitória por 2 a 0 sobre o Les Herbies, da terceira divisão francesa. Faria pouca diferença em mais um título do campeão francês e da Copa da Liga. Que volta a sobrar no país depois do “meteoro” Monaco na temporada passada.

Mas era Daniel Alves. Na noite de seu 38º título na carreira, mas que também pode lhe negar a chance de conquistar o trofeu mais cobiçado pelo brasileiro. A lesão no joelho direito, em um exame preliminar, afetou o ligamento cruzado e há o risco real do lateral ficar de fora da Copa do Mundo. A última de sua trajetória multicampeã.

Logo a lateral direita sem uma reposição confiável. Que pode cair no colo de Fagner, sem grande experiência internacional no mais alto nível, ou de Danilo, reserva do Manchester City e outra incógnita em  jogo grande no Mundial da Rússia. Talvez uma surpresa que apareça na lista pela emergência.

Daniel também pode se recuperar a tempo e o Brasil contar com os melhores laterais do mundo na formação titular. Mas também sofrer com as conhecidas fragilidades defensivas do jogador do PSG e também de Marcelo do lado oposto. Como já aconteceu há quatro anos. O gol da Croácia logo aos dez minutos da estreia do time de Felipão teve bola nas costas de Daniel Alves, cruzamento e Marcelo, no movimento errado da diagonal de cobertura, marcou contra. Fora o sufoco em outros jogos.

Algo minimizado pelo bom trabalho coletivo sem a bola com Tite, mas ainda um problema. Que no detalhe de um jogo eliminatório na reta final pode afastar a seleção brasileira da disputa do título. Mas a possibilidade do substituto na direita ser a solução para uma maior estabilidade na retaguarda não pode ser descartada. Afinal, entrando no time sem tanto lastro e minutos entre os titulares, a tendência natural é guardar mais o posicionamento atrás e só descer na boa.

Considerando que Danilo já atuou como zagueiro e até volante com Pep Guardiola e Fagner conhece toda a dinâmica das equipes de Tite na última linha de defesa pelos anos trabalhando juntos no Corinthians é possível que a mudança até traga um equilíbrio que não existia.

Impossível prever. E dependendo do desempenho e do resultado uma ou outra alternativa pode ser a justificativa para a glória ou o fracasso. Na mesma coluna citada acima, Tostão provoca: “Quando termina a partida, elegemos os heróis e os vilões e tentamos explicar, com bons ou maus argumentos, o que, muitas vezes, não tem explicação. Tem existência”.

O campeão mundial em 1970 às vezes exige do comentarista uma “não análise”. A função de quem estuda, observa e coloca sua visão é oferecer pontos de vista para que o espectador ou leitor forme sua própria opinião. Há sempre indícios que podem justificar um desempenho ruim e o mau resultado.

Mas tem toda razão quando fala do imponderável. Daniel Alves se lesionou numa decisão. Podia ser em um treino. Como Neymar dobrou o pé em um lance banal num jogo qualquer da Ligue 1. Como Casemiro, Marcelo e Firmino correm riscos na final da Liga dos Campeões. Ou qualquer um dos possíveis convocados. Até em casa, brincando com o filho.

Uma ausência pode definir tudo. Para o bem ou para o mal. Quantos não lamentam o corte de Romário em 1998 imaginando que o Baixinho poderia compensar o problema de Ronaldo antes da final da Copa? Mas quatro anos antes, o Brasil conquistou o tetra com Aldair e Márcio Santos na zaga que tinha como titulares os Ricardos, Rocha e Gomes. Em 2002, Gilberto Silva se transformou em um dos destaques da campanha do penta porque Emerson foi cortado por uma luxação no ombro. Brincando de goleiro em um rachão na véspera da estreia.

Como não lembrar de Einstein e sua famosa frase “Deus não joga dados com o Universo”? Mas cada vez mais o futebol, mesmo tendo também a sua porção de ciência, vai se mostrando um grande jogo de dados. De sorte e azar. Do imprevisto que salva ou destroi. Vejamos o que o destino reserva para Tite e seus comandados na Rússia.


Nem Deus, nem farsa. Pep Guardiola é apenas o melhor em 10 anos de carreira
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André Rocha

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Há muita romantização em torno da figura de Pep Guardiola. Alimentada por uma certa carga dramática e poética de Martí Perarnau em seus livros sobre o treinador, ainda que ele também desconstrua alguns mitos. Especialmente o de que é um esteta que despreza os resultados em nome da arte de jogar futebol.

A conquista da Premier League pelo Manchester City é o sétimo título em campeonatos nacionais por pontos corridos. Ou oitavo, se considerarmos a primeira experiência no Barcelona B campeão da terceira divisão espanhola. Em dez anos de carreira, com o hiato em 2012/13.

Com as duas Ligas dos Campeões que conquistou no Barça, o currículo construído até aqui é invejável. 23 títulos no total. José Mourinho tem 18 anos de carreira, Jurgen Klopp um a menos que o português, Carlo Ancelotti há 23 no comando técnico, 16 a menos que Jupp Heynckes. Antonio Conte tem uma temporada a mais que Guardiola. Mas nenhum chega perto na média de conquistas por temporada. Zidane com suas duas Champions e a liga espanhola pelo Real Madrid é quem parece competir nos resultados imediatos. Mas há um fator preponderante além dos títulos que separa Pep de seus pares: a influência na evolução do jogo.

Ele mesmo admite não ter inventado nada, só recombinado ideias. Mas basta um olhar mais atento à prática do esporte nos últimos dez anos para notar a mão do catalão. Tanto na proposta que virou a sua marca, com o jogo de posição através da construção desde a defesa com passes buscando a superioridade numérica no setor em que está a bola e a pressão sufocante após a perda, como nas respostas dos adversários.

A partir do “ônibus” de Mourinho até o caos de intensidade e pressão de Klopp. O maior mérito de Guardiola foi gerar ainda mais inquietação e busca de novas soluções em um esporte que se transforma o tempo todo. Com ele o futebol evoluiu 30 anos em dez. Eis o ponto de sua genialidade.

Talento que incomoda. Talvez por não fazer parte da elite do futebol mundial em termos de seleções: Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. O que os gigantes teriam a aprender com um cara da Catalunha? Os tradicionalistas ou puristas preferem o jogo mais lúdico, menos intenso. Outros o mais físico, de choque. Ou simplesmente o costume no futebol de torcer pelo lado mais fraco.

Mas Guardiola não é infalível, longe disso. A obsessão pela vitória tem atrapalhado na Liga dos Campeões. Os relatos de Perarnau em seus livros descrevem um homem atormentado, dando voltas e voltas em torno do próprio time e do oponente em busca de algo diferente para surpreender. Não tem dado certo e já são cinco eliminações seguidas. Na maioria das vezes contando com o melhor jogo coletivo do continente.

Mas pecando em escalações e estratégias, passando do ponto, tirando naturalidade e carregando tensão em seus comandados. Sucumbindo diante de Cristiano Ronaldo, do “pupilo” Messi, da fortaleza defensiva de Simeone, do “one hit wonder” do Monaco e do “maluco beleza” Klopp.

Algo para melhorar, aprender. E Guardiola é louco por aprendizado e crescimento profissional. Não é e nunca foi um homem acomodado e “engenheiro de obra pronta” como acusam seus “haters”. Basta um resgate histórico feito com honestidade para posicionar as coisas.

Ele chegou ao comando do time principal do Barcelona depois de temporadas fracassadas de Frank Rijkaard. Elenco desgastado e envelhecido. Deco e Ronaldinho Gaúcho saíram e ele reconstruiu a equipe que tinha, sim, algumas estrelas. Mas não para automaticamente se transformar em uma equipe histórica, a melhor que este blogueiro viu em ação acompanhando futebol há mais de três décadas.

É óbvio que Guardiola estava bem confortável em Barcelona. Conhecia o clube e o que fez foi apenas acrescentar ou resgatar elementos da filosofia implementada por Johan Cruyff. Potencializou todos os talentos e criou uma simbiose quase perfeita. Natural que as grandes conquistas tenham sido em seu “berço” logo no início de sua trajetória no ofício de liderar fora de campo.

Mas ao analisar sua partida para Munique é preciso contextualizar o momento do acerto. Final de 2012. A realidade do Bayern era a perda da hegemonia nacional para o Borussia Dortmund de Klopp, então bicampeão nacional, e a derrota dura nos pênaltis para o Chelsea na final da Champions em casa. Heynckes questionado e partindo para a aposentadoria. O clube queria reciclar sua maneira de praticar o esporte e, claro, voltar a vencer.

O primeiro semestre de 2013, porém, apresentou o cenário de um time bávaro faturando a tríplice coroa e se impondo como o modelo. Guardiola chegou como contracultura e sofreu uma resistência maior do que a esperada. Aquilo citado acima: os alemães ganharam tudo sem Pep, por que teriam que se curvar a ele?

Direção, jogadores e o responsável pelo comando técnico acabaram aprendendo juntos e cresceram. Sobraram na Bundesliga, também pelo enfraquecimento do rival Dortmund que perdeu as maiores estrelas justamente para o Bayern. Viraram referência de futebol bem jogado no planeta e influenciaram diretamente no estilo da Alemanha campeã mundial, assim como o Barcelona fizera com a Espanha quatro anos antes.

Agora o Manchester City. Clube menos tradicional em uma liga bem mais parelha, embora não superior em técnica e tática à espanhola. Sofrimento na primeira temporada pela total falta de controle das partidas através da posse. Também por conta de um elenco envelhecido e desalinhado às ideias do treinador. Era preciso aprender e se adaptar. Com o Chelsea de Conte tomando a liderança e disparando, os detratores foram implacáveis: “Acabou a moleza dos campeonatos de um time só!”

Pois Guardiola fez sua equipe reinar absoluta em 2017/18. Conquista com cinco rodadas de antecedência, apenas duas derrotas. Números e desempenho impressionantes. E ainda faturando a Copa da Liga de carona.

Sim, gastando mais do que os outros. Mas rendendo bem acima na média do que a diferença entre os orçamentos. Tornando o time mais objetivo quando necessário e circulando a bola com mais velocidade. Na base titular com apenas dois acréscimos em relação à temporada passada: Ederson no gol e Walker na lateral. No mais, quase sempre um 4-3-3 com jogadores amadurecidos dentro da ideia de jogo. Especialmente De Bruyne, o melhor na média de atuações.

De novo os críticos reduzem o feito como se o Inglês de uma temporada para outra tivesse se transformado numa Bundesliga ou Ligue 1. A única semelhança é que um time reinou absoluto. O melhor, disparado. 88% de aproveitamento, ataque mais positivo e defesa menos vazada. Líder em posse de bola, acerto de passes, finalizações. Incríveis 28 vitórias em 33 partidas. Na liga mais parelha e dos jogos malucos.

Para ratificar a distância, os simbólicos 3 a 1 sobre o forte Tottenham em Wembley depois da traumática eliminação na Champions para o Liverpool, enquanto o United de Mourinho perdeu vergonhosamente em casa para o lanterna West Bromwich. A matemática apenas confirmava o óbvio.

Mais uma conquista para a década de Guardiola. Genial, sim. Mas com muito a amadurecer e corrigir. Ainda é jovem, embora a fisionomia cansada já revele sinais do enorme desgaste mental. Vai ganhar minutos, rodagem, enfrentar novos cenários. Crescer.

Nem Deus, nem uma farsa. Humano, porém na justa primeira prateleira pela contribuição ao jogo respaldada por resultados consistentes. Como nenhum outro, ao menos por enquanto. Tão bom que até quem o detesta exige o impossível que parece menos improvável para ele: vencer tudo e com o “plus” do espetáculo.

Amado e odiado. Simplesmente por ser o melhor entre seus contemporâneos. Nada mais, nem menos.


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)