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São Paulo sofre sem títulos porque não se preparou para perder
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André Rocha

Em dezembro de 2008, o debate por essas terras era se o São Paulo se transformaria no “Lyon brasileiro” e criaria uma dinastia, com títulos seguidos sem dar chance aos demais. Havia um projeto ambicioso de se tornar a maior torcida do país.

O ano virou, o Corinthians trouxe Ronaldo Fenômeno, transformou sua imagem e construiu os alicerces para o período mais vitorioso de sua história. Com sete títulos brasileiros, um a mais que o rival tricolor. O Santos de Neymar venceu Copa do Brasil e Libertadores. O Palmeiras afundou e depois submergiu com Paulo Nobre, depois Crefisa. Os dois rivais na cidade agora têm estádios modernos, não precisam mais do Morumbi. O Santos, quando precisa, “herda” o Pacaembu.

O São Paulo venceu uma Sul-Americana em 2012 e só. Segue olhando para o passado “Soberano” e andando em círculos. Sempre os mesmos nomes se revezando na presidência. A solução parece ser sempre resgatar algo. Os três zagueiros, Muricy Ramalho, Paulo Autuori, Raí, Ricardo Rocha… Lugano e a raça uruguaia agora com Diego Aguirre no comando técnico.

No empate sem gols contra o Atlético Paranaense no Morumbi, a pá de cal anímica na pretensão de voltar a ser campeão brasileiro. Na matemática ainda é possível, mas em campo não há mais respostas. Logo no período em que se imaginava que as semanas para recuperação física e dedicada a treinamentos levariam a equipe a outro patamar.

O São Paulo estagnou. Ou congelou com o favoritismo inesperado. O elenco parece frágil, sem opções. Mas qual era a oferta, por exemplo, para Fabio Carille no ano passado? As informações de bastidores sinalizam que a relação entre Aguirre e elenco é tensa. Mas o Palmeiras de Cuca de 2016 era uma panela de pressão, o ambiente quase paranóico, mas o time em campo entregava os resultados, nem que fosse na marra.

O que falta no Morumbi? A impressão é de que os títulos não chegam porque o clube não se preparou para perder na típica alternância de poder do futebol paulista e brasileiro. A sequência de conquistas de 2005 a 2008 com Libertadores, Mundial e três brasileiros era apenas um ciclo, não o resultado de uma fórmula mágica e eterna.

Agora sente o peso da responsabilidade de voltar a ser vencedor. Neste ambiente, as semanas sem jogos são um tormento. Minutos, horas e dias lembrando que o gigante brasileiro é obrigado a despertar e levantar uma taça. Pressão que esmaga mentes e espíritos.

Não pode ser só falta de conteúdo nos treinos porque no Brasil isto nunca foi problema. Desfalques todos têm, o líder do campeonato escala há tempos mais reservas que titulares. O problema é mais profundo e emocional. Típico num futebol mais sentido que pensado e jogado.

Ver Corinthians e Palmeiras dominando o cenário nacional recente é um pesadelo sem fim. A sensação de ter ficado para trás desmancha a autoestima, alimenta um saudosismo destrutivo.  Talvez o clube peça perdão e traga Rogério Ceni de volta para 2019. De novo olhando para as glórias do passado, como está no hino.

O São Paulo é fraco mentalmente hoje porque não consegue enxergar um lugar para si no futuro. Um ciclo vicioso e perigoso que ganha novo capítulo dramático.

 


Nem vitória sobre Argentina tira o Brasil de Tite da “ressaca” pós-Copa
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André Rocha

Tite resolveu resgatar contra a Argentina na Arábia Saudita uma ideia da Copa do Mundo. Mais especificamente o segundo tempo da vitória sobre o México nas oitavas de final. Ou emular a dinâmica do ataque do PSG para deixar Neymar partindo da esquerda, mas à vontade para circular.

Gabriel Jesus na ponta direita buscando as diagonais em velocidade como Mbappé, Roberto Firmino no centro do ataque sendo o “Cavani”. No meio, Philippe Coutinho por dentro com Arthur e Casemiro. Variação do 4-1-4-1 para o 4-4-2 sem bola com o camisa dez e capitão sem grandes atribuições defensivas.

Valeu o teste para observar a movimentação, mas novamente ficou a impressão de que a “ressaca” da Copa do Mundo ainda não passou. Talvez por conta da permanência de Tite, sem um recomeço, “fato novo”…O fato é que as atuações têm sido com baixa intensidade. O forte calor também jogou contra.

Dentro desta nova proposta, a presença de laterais de maior vigor físico, atenção defensiva, mas que não chegam ao fundo com velocidade deixam a equipe um pouco mais travada, previsível. Sem Paulinho e com Arthur, o Brasil ganha circulação da bola, mas perde outra opção de infiltração.

Melhorou um pouco com a entrada de Richarlison no lugar de Gabriel Jesus, mas nada especial. Com Neymar articulador é preciso ajustar a movimentação de Coutinho para não subaproveitar o talentoso meia do Barcelona que rendeu pouco mais uma vez.

A Argentina renovada de Lionel Scaloni sem Messi também teve problemas para criar, com Dybala e Correa alternando pelas pontas, mas sem infiltrar e Icardi encaixotado por Marquinhos e Miranda. O mesmo 4-1-4-1 variando para as duas linhas de quatro, também sem ultrapassagens rápidas pelos flancos. A albiceleste teve um período de domínio no início da segunda etapa e só.

O resultado foi um jogo sonolento, protocolar. Para cumprir contrato. Sem espírito de clássico, um triste retrato da perda de protagonismo mundial dos gigantes sul-americanos. No final, o gol de Miranda completando de cabeça escanteio de Neymar, após enrosco com Otamendi, para evitar uma decisão por pênaltis que seria constrangedora.

A expectativa é de que o trabalho de Tite desde o início do ciclo ganhe vida em 2019, com a Copa América como uma meta mais próxima. Algo para ser encarado como desafio e tirar do marasmo de um “luto” que apesar dos sorrisos está demorando demais a passar.

 


Neymar na ponta não é mais atacante como CR7, nem tem a genialidade de R10
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André Rocha

Tite divulgou os convocados da seleção brasileira para os amistosos contra Arábia Saudita e Argentina em outubro e, na coletiva, voltou a falar sobre Neymar.

“Acompanhei as atuações recentes dele no PSG. São possibilidades táticas para potencializar o talento do Neymar. Vejo ele desequilibrante na esquerda, onde tem decidido pela Seleção. É o DNA dele no Santos, no Barcelona e na Seleção. Mas sem fechar conceitos como no jogo contra o México, que foi diferente desse desenho.”

Importante o treinador abrir o leque de opções para aproveitar seu talento mais desequilibrante, como tenta fazer Thomas Tuchel no time francês. Mas ainda mais fundamental é notar uma transformação silenciosa no estilo de jogo do camisa dez.

No Santos e no Barcelona, Neymar era um ponteiro finalizador. Com habilidade, rapidez e visão de jogo, mas essencialmente mirando o gol. Com Messi, Iniesta e mesmo Xavi em fim de carreira para pensar o jogo no time catalão, o brasileiro se comportava como atacante. Recebia mais próximo da área adversária e partia para finalizar ou concluir. Na última temporada jogou aberto, quase como um típico ponta fazendo todo o corredor esquerdo.

Mesmo sem a companhia de um grande armador de jogadas na seleção, Neymar também era mais atacante. No 4-1-4-1 de Tite, até recuava um pouco para trabalhar com os meio-campistas, mas os movimentos principais eram de condução, drible ou infiltração para dar o passe ou o toque final.

Como Cristiano Ronaldo no Manchester United e no início de sua passagem pelo Real Madrid. Sem comparações, obviamente. Só no comportamento que foi mudando com o tempo até o português se transformar no gênio da grande área do século XXI com eficiência maior em menos toques na bola. Atacante puro.

A ida para o PSG mudou a dinâmica de Neymar. Na composição do trio ofensivo, ele é quem tem mais perfil de meia para acionar Mbappé e Cavani. Ou seja, tem que ser o que foi Messi para ele no Barça. Ou o que Ronaldinho Gaúcho foi para Messi no início da trajetória do argentino.

Neymar não tem a objetividade de Messi. É mais artístico, como Ronaldinho. Não por acaso, referência e ídolo. Inconscientemente ou não, repete alguns movimentos característicos do “Bruxo”: recebe pela esquerda, conduz com o pé direito e define se tenta o drible na ponta ou corta para dentro e busca o lançamento ou a inversão de lado. Como esquecer as “pifadas” do melhor do mundo em 2004 e 2005 para Giuly, Eto’o e Messi?

A diferença é que Ronaldinho, além de mais genial, era forte e acertava nas escolhas das jogadas com mais frequência. Não caía com qualquer choque e sabia o momento de prender a bola. Neymar muitas vezes fica encaixotado pela esquerda e toca para o lado, para trás ou tenta o drible e perde a bola. Ou sofre a falta.

Na seleção, o problema se agrava muitas vezes pela falta de um atacante de profundidade pela direita e por dentro. No início da Era Tite, Philippe Coutinho era o ponta armador do lado oposto, depois foi para o meio e Willian virou titular. Nenhum dos dois tem como característica infiltrar em velocidade na diagonal. Roberto Firmino também é um jogador de toque curto, não de bola longa.

Talvez por isso Tite tenha trazido Gabriel Jesus de volta, mesmo com imagem desgastada pela Copa do Mundo e sem viver um bom momento no Manchester City, e dado mais uma oportunidade a Richarlison. Ambos chamam lançamentos e podem ser úteis no entendimento com este Neymar mais pensador.

Este que escreve, porém, segue com a leitura de que a liberdade que ganhou de Rogerio Micale na conquista do ouro olímpico há dois anos é a melhor solução. Ou a que tinha na reta final do trabalho de Mano Menezes em 2012. Quem sabe repetindo a dinâmica da vitória sobre o México citada pelo próprio Tite, quando Neymar ficou mais solto na frente, alternando com Firmino o posicionamento mais adiantado ou recuando para buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário. Assim prende menos a bola e não chama tanto a falta. Cria e conclui na mesma proporção.

Pela esquerda, Neymar ficou “manjado”. Principalmente em grandes jogos. Na derrota para o Liverpool na Liga dos Campeões, o brasileiro cresceu quando saiu da ponta e colocou sua criatividade a serviço da equipe. Limitá-lo a uma zona do campo é desperdiçar talento.

Nem máquina, nem mágico. O melhor Neymar é o leve, solto. Mas com “anarquia” na dose certa.

 

 

 


Firmino desequilibra quando o Liverpool cansava. Mais uma lição para o PSG
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André Rocha

O Liverpool tem uma vantagem essencial sobre o PSG antes mesmo do confronto entre as equipes na abertura da Liga dos Campeões: o time inglês se testa praticamente toda semana na Premier League no mais alto nível de competitividade, enquanto o Paris Saint-Germain muito eventualmente na Ligue 1 se depara com um rival que seja efetivamente um adversário mais complicado.

Na temporada passada, o time francês bateu um Bayern de Munique em crise ainda com Carlo Ancelotti, mas levou o choque de realidade na volta, com o time bávaro já sob o comando de Jupp Heynckes no encerramento da fase de grupos. Para nas oitavas da Champions cair para o campeão Real Madrid. A rigor, três desafios. Na temporada em que conquistou todos os títulos no país.

Mesmo com Roberto Firmino no banco e Sturridge no centro do ataque do 4-3-3 habitual da equipe de Jurgen Klopp, os Reds mostraram quase sempre um volume de jogo bem maior que o adversário no Anfield Road. Muita intensidade e superioridade numérica atacando e defendendo. Pressão logo após a perda da bola com a fúria de sempre.

Os laterais Alexander-Arnold e Robertson atacavam juntos e bem abertos para que os três atacantes ficassem mais próximos uns dos outros e da área adversária. Mais Wijnaldum chegando sempre, já que Klopp optou por Henderson à frente da defesa e deixou Keita no banco.

O PSG de Thomas Tuchel busca exatamente uma maior competitividade. Com um “discípulo” de Klopp e sucessor no Borussia Dortmund. Já melhorou no início da temporada, mas ainda não é o suficiente para encarar o vice-campeão europeu e 100% em cinco rodadas no campeonato inglês.

Justamente pela falta de prática. Questão de hábito. No 4-3-3 isolando muito o trio Mbappé-Cavani-Neymar do resto do time. Com Marquinhos à frente da defesa para evitar os espaços entre retaguarda e meio-campo. Sem sucesso, porém. Até pelo auxílio frágil de Rabiot e Di María.

O Liverpool abriu 2 a 0 com Sturridge em falha de Thiago Silva e no pênalti cobrado por Milner. Mas o PSG voltou para o jogo ainda na primeira etapa “imitando” o adversário ao chegar com muita gente no campo de ataque, inclusive os laterais Bernat, que cruzou, e Meunier, que finalizou diminuindo para 2 a 1.

Segundo tempo de domínio inglês, mas com um velho problema: o desgaste por conta de uma maneira de jogar com o pé fundo no acelerador o tempo todo, porém sem transformar o domínio em larga vantagem no placar. Foram 17 finalizações contra nove, oito a cinco no alvo. Também mais posse de bola, que chegou a bater em 60% e terminou com 52%. Pelo domínio dos rebotes mais que por conta do controle do jogo através dos passes. Mas cedendo espaços e baixando a guarda quando o gás começou a acabar.

Tuchel  colaborou trocando Cavani e Di María por Draxler e Choupo-Moting. Não só por reoxigenar o setor ofensivo, mas principalmente por dar liberdade a Neymar, novamente subaproveitado pela esquerda, e Mbappé sair da direita e assumir o comando do ataque. Com os dois na frente, o gol de empate da joia francesa.

O Liverpool dava sinal de esgotamento. Mas entrou Firmino, dúvida para o jogo depois do acidente no olho contra o Tottenham no fim de semana. Mesmo com a boa atuação de Sturridge, o ataque com o brasileiro ganha outro brilho. Não só pelo entrosamento com Salah e Mané, mas também pela inteligência na movimentação e os recursos técnicos.

Na individualidade, limpou Marquinhos e resolveu o jogo. Um trunfo desequilibrante da equipe que novamente parece mais pronta para chegar longe no maior torneio de clubes do planeta. Ainda mais com o elenco reforçado, equilibrado e sem os elos fracos de outras temporadas.

Os 3 a 2 são mais uma lição para o PSG. Difícil é colocar em prática o aprendizado contra os “sparrings” do seu quintal.

(Estatísticas: UEFA)


Tite está preso em um mundo paralelo perigoso, desconectado da “voz da rua”
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André Rocha

Foto: Divulgação/CBF

Na finada revista sobre música e cultura “Bizz,” alguém escreveu nos anos 1980 – muito provavelmente o hoje correspondente internacional Pepe Escobar – que o grande problema de artistas como Michael Jackson, Prince e George Michael era que a fama impossibilitava que eles vivessem como pessoas comuns. Perdiam o contato com a rua, com realidades diferentes. A vida era da mansão para o estúdio, aeroporto, hotel e casas de show ou estádios para os shows. Interferia diretamente no trabalho e também na vida pública. O texto era um elogio à Madonna, que não havia perdido essa conexão com o povo.

Tite não é um astro pop, embora tenha sido tratado como tal nos meses que antecederam a Copa do Mundo na Rússia. Mas ao ouví-lo nas coletivas a impressão é de que a rotina na seleção brasileira não tem feito bem ao treinador.

Não por sua retórica muitas vezes enfadonha e com discurso de autoajuda que pouco acrescenta, embora o conteúdo tático siga relevante. Mas principalmente por respostas como a direcionada a Donald Trump. Tola, até infantil. Como se o presidente dos Estados Unidos fosse algum personagem relevante no mundo do futebol que justificasse algum posicionamento de Tite.

Quando fala de Neymar, por mais que compreendamos que externamente o apoio ao seu atleta mais talentoso é uma necessidade política do cargo que ocupa, a impressão é de que ele de fato acredita que basta dar carinho e a braçadeira de capitão para que a referência técnica se transforme de fato numa liderança positiva.

Na coletiva depois da goleada sobre El Salvador, Tite voltou a citar Marquinhos. Como se tivesse notado todo seu talento quando surgiu no Corinthians e mantido a “joia” no clube. O zagueiro saiu emprestado para a Roma por uma bagatela e acabou contratado a preço baixo para depois o PSG desembolsar uma fortuna por seu futebol. O Corinthians perdeu dinheiro. E Tite mais uma chance de ficar calado e não lembrar de seu erro de avaliação.

Porque parece desconectado do mundo real. Da casa para a CBF, camarotes de estádios, aviões, hoteis, centros de treinamento. Conversa só com família e auxiliares. Uma realidade paralela, virtual e perigosa. Tite não precisa seguir o que todos falam, até porque enlouqueceria. Mas descer do pedestal e ouvir um pouco a “voz da rua” sempre faz bem.


Nem contra El Salvador, Neymar?
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André Rocha

O problema não é usar uma data FIFA para fazer um treino nos Estados Unidos com a camisa oficial da seleção brasileira contra El Salvador. Nenhuma seleção do mundo passa todo o ciclo de quatro anos sem um enfrentamento muito desproporcional como esse.

O que gerou desconforto desta vez foi mais do mesmo: o calendário inchado que não permite uma pausa até o fim de semana e sacrificando, na prática, duas das quatro equipes envolvidas nas semifinais da Copa do Brasil. Responsabilidade da CBF. Mas Tite poderia ter encontrado uma solução de bom senso. Se queria testar Dedé e Paquetá, que o fizesse por 45 ou mesmo 90 minutos contra os Estados Unidos e dispensasse os dois no sábado. Simples assim.

Mas a pior notícia dos  5 a 0 em Washington foi Neymar simulando um pênalti, levando cartão amarelo, reclamando da arbitragem e depois, claramente por birrinha infantil, dar um chapéu no adversário na linha média, para trás, e perder a bola. Um “combo” no final do primeiro tempo, com 3 a 0 no placar, que ressalta a falta de maturidade, mesmo depois de toda repercussão negativa pós-Copa do Mundo. Pelo visto, a braçadeira de capitão não veio com uma cobrança do comando pela mudança de postura. A transmissão mostrou Tite sinalizando que o cartão amarelo para Neymar teria sido injusto.

Eis o ponto: não fosse Neymar, talvez o árbitro não interpretasse com tanta certeza a simulação. Ou seja, está estigmatizado e alimenta a imagem mais que desgastada. Mesmo contra um adversário indigente tecnicamente, sem capacidade de oferecer uma mínima resistência. Pouco inteligente, para dizer o mínimo. Muito pior que o gol perdido por puro individualismo minutos antes. Até compreensível por ter marcado dois, mas em cobranças de pênalti.

Quem acompanha este blog sabe que não há má vontade, nem perseguição com o craque controverso. Pelo contrário. Este que escreve tenta focar no rendimento em campo e, dentro do alcance do espaço, propor soluções para potencializar um talento que, na seleção, quase sempre pareceu subaproveitado. Mas não pode recolher a crítica diante de uma situação absurda. Mesmo com tristeza.

Richarlison aproveitou bem a primeira oportunidade de início com dois gols. Valeu também para dar minutos a Neto, Militão, Dedé, Felipe, Arthur, Paquetá, Andreas e Everton. E pouco mais que isso. Não é o fim do mundo. O trabalho está no começo. Se é para enfrentar uma “carne assada”, que seja agora e não às vésperas de uma Copa do Mundo. Como aconteceu em 1994, por exemplo, nos 4 a 0 também sobre El Salvador. Mas como a CBF terceiriza a agenda da seleção, tudo parece suspeito. Ou pouco transparente.

Nítido mesmo foi o comportamento lamentável de Neymar. E decepcionante, mesmo não se complicando na segunda etapa. Difícil vislumbrar uma melhora a curto prazo. Se nem contra El Salvador ele é capaz de se conter…

 

 


Primeiro teste mostra que Neymar precisa de liberdade, não da braçadeira
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André Rocha

O primeiro amistoso da seleção brasileira depois do Mundial da Rússia sinalizou algumas mudanças aventadas por Tite durante a preparação e nos jogos da Copa: Filipe Luís pela esquerda, Fred no meio-campo, Douglas Costa pela direita e Firmino no centro do ataque. No mesmo 4-1-4-1.

A atuação segura nos 2 a 0 sobre os Estados Unidos no Metlife Stadium foi construída com posse de bola lenta e alguns momentos de aceleração. Especialmente quando Douglas Costa entrava em ação. Assistência para Firmino no primeiro gol, lindo passe na segunda etapa para Neymar, que chutou fraco e permitiu que o zagueiro Miazga salvasse antes que cruzasse a linha.

Fabinho também foi muito bem na lateral direita. O único na formação inicial que não estava no grupo do Mundial apoiou bem, ora aberto, ora por dentro. Na jogada individual, o pênalti (duvidoso) cometido por Trapp e convertido por Neymar. O 58º do agora capitão fixo do Brasil.

Braçadeira que virou polêmica por ser vista como um prêmio de Tite que o craque não fez por merecer na Rússia. Discutível. Talvez seja apenas uma mudança de prática, acabando com o revezamento. Mas como tudo que envolve Neymar acabou ganhando uma atenção desmedida.

Porque na prática é mera “perfumaria”. Foi possível ver Thiago Silva, Filipe Luís e Casemiro conversando e orientando mais os companheiros em campo. Muda pouco.

O que acrescentaria e muito ao rendimento de Neymar seria a liberdade de movimentação, como já encontra no PSG de Thomas Tuchel. Saindo do lado esquerdo do 4-1-4-1 de Tite. Mesmo que eventualmente troque com Coutinho e até Firmino, a produção fica muito limitada. Muitos passes para trás, dribles desnecessários, erros bobos.

É claro que pelo talento o toque diferente vai desequilibrar em alguns momentos, mas é um desperdício a participação reduzida na construção das jogadas, ficando limitado a apenas um setor. E pior: colabora pouco sem a bola, sobrecarrega Coutinho, Filipe Luís e Thiago Silva na cobertura. Os ataques mais produtivos dos americanos foram por ali. Sem contar as dificuldades defensivas nas bolas paradas.

Para o primeiro jogo depois de uma eliminação traumática o saldo é positivo. Compreensível a manutenção da estrutura tática. Mas com o tempo é dever testar peças e variações. Como o 4-2-3-1 ou 4-4-2 com Neymar solto. Será muito mais útil que uma mera questão simbólica.


Versão “olímpica” de Neymar no novo PSG pode ser boa opção para Tite
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André Rocha

Foto: Christian Hartmann/Reuters

Thomas Tuchel, novo treinador do Paris Saint-Germain sucedendo Unai Emery, é um profissional inquieto e inventivo. Pensa suas equipes voltadas para o ataque, com muita gente chegando à frente e praticamente limitando o trabalho sem a bola à pressão pós perda e defensores rápidos na cobertura. Para seguir ocupando o campo adversário com posse, mas muita agressividade e rapidez na execução das jogadas. Foi assim no Mainz e no Borussia Dortmund.

Não seria diferente no comando do bilionário PSG. De Mbappé, Cavani e Neymar, mas também Di María. As dúvidas quanto à montagem da equipe com todas as estrelas disponíveis começaram a obter respostas nos 3 a 1 sobre o Angers no Parc des Princes. Terceira vitória consecutiva, 100% de aproveitamento na liga francesa.

Sem a bola, o 4-3-1-2, um dos sistemas preferidos do treinador. Com Meunier formando linha de quatro com os zagueiros Thilo Kehrer, Thiago Silva e Kimpembe. Marquinhos como volante, Rabiot pela direita e Di María à esquerda. Na frente, Cavani e Mbappé.

Atacando, uma espécie de 3-4-1-2 com os três zagueiros bem adiantados, Meunier e Di María abertos para esgarçar a marcação adversária, Marquinhos e Rabiot no meio, Cavani e Mbappé com liberdade para trocar o posicionamento, procurar os flancos e infiltrar em diagonal.

E Neymar? Solto. Com total liberdade, como Tuchel havia antecipado quando conversou com o jogador e o convenceu a ficar no clube francês, segundo informou o jornal “Le Parisien”. Para servir Cavani no primeiro gol em jogada pela direita e marcar o terceiro chegando de trás. Como um típico camisa dez. Aparecendo também na esquerda, onde deu uma “lambreta” em forma de passe no final do jogo. Se juntando aos atacantes, mas também fazendo o time jogar.

Novo PSG teve Meunier e Di María bem abertos e Neymar com liberdade total de movimentação. Pela direita serviu Cavani no primeiro gol sobre o Angers (reprodução ESPN)

Impossível não lembrar dos Jogos Olímpicos no Brasil em 2016. Sob o comando de Rogerio Micale, começou pela esquerda, mas depois, com a entrada de Luan na vaga de Felipe Anderson, ganhou liberdade total. Gabigol e Gabriel Jesus pelas pontas infiltrando em diagonal e voltando para colaborar sem a bola e Neymar pensando o jogo, mas também decidindo. Arco e flecha.

Tite insistiu com Neymar pela esquerda. Curioso pensar que para muita gente na época foi o treinador que havia acabado de assumir o cargo da principal que fez a mudança que resultou na medalha de ouro, passando por cima de Micale. Como, se a alteração mais importante quase não foi vista nas eliminatórias e nos amistosos?

Na seleção olímpica, Neymar jogou com liberdade para articular por dentro revezando com Luan. Gabigol e Gabriel Jesus jogavam abertos buscando as diagonais (reprodução TV Globo)

Só na Copa do Mundo, com Neymar voltando de um período de três meses lesionado, que Tite deixou em alguns momentos o seu camisa dez mais solto, adiantado e com autonomia total para se movimentar. Não por acaso, a melhor atuação aconteceu com essa dinâmica, na segunda etapa do jogo contra o México pelas oitavas de final. Marcou o primeiro gol e depois finalizou para Firmino marcar no rebote.

A mudança no clube pode e deve servir de inspiração para Tite neste novo ciclo que visa a Copa de 2022 no Qatar. Com Neymar numa zona de articulação a chance de prender a bola demais, levar pancada e simular faltas é menor. Já a de ser decisivo com gols e assistências cresce exponencialmente.

Não como no engessado esquema de Luiz Felipe Scolari na Copa de 2014, com Oscar e Hulk abertos e Fred na referência, sobrecarregando Neymar, que precisava buscar a bola nos volantes para pensar o jogo ou se adiantar nas ligações diretas para aproveitar alguma “casquinha” do centroavante e acelerar em direção à meta do oponente.

É possível pensar num quarteto leve e móvel, com Douglas Costa e Philippe Coutinho nas pontas, Neymar e Firmino buscando o jogo entre linhas e aparecendo na área adversária para finalizar. Não exatamente como a seleção olímpica ou o Paris Saint-Germain na movimentação do quarteto ofensivo, mas aproveitando o máximo de seu talento maior. Pode ser um bom recomeço para Tite, já nos amistosos contra Estados Unidos e El Salvador.

As primeiras experiências no novo PSG de Tuchel mostram que é um caminho com boas chances de sucesso.

Nos amistosos contra Estados Unidos e El Salvador, Tite pode experimentar um quarteto ofensivo com Douglas Costa e Coutinho abertos e Neymar e Firmino com liberdade para articular, se movimentar e aparecer para concluir (Tactical Pad).

 


Paulo Turra, auxiliar do Palmeiras: “Mourinho aprendeu muito com Felipão”
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André Rocha

A volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras após seis anos foi anunciada no dia 26 de julho. mas no dia seguinte chegavam ao clube os auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli. Na segunda-feira o primeiro treino e, em seguida, Turra à beira do campo no empate sem gols com o Bahia em Salvador pela Copa do Brasil, competição importante para o clube na temporada. Só depois Felipão chegou de Portugal e fez sua reestreia no o a 0 contra o América pelo Brasileiro.

Cronologia que mostra a relação de sintonia entre o ex-zagueiro, inclusive do Palmeiras, e o chefe Felipão. Sem Flávio Murtosa, que alegou problemas particulares, é Turra, aos 44 anos, quem aplica os treinos ao lado de Pracidelli. Antes, no Guangzhou Evergrande, trabalhava apenas na elaboração. Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Turra descreve a dinâmica de trabalho no novo clube e defende Scolari das críticas mais contundentes nos últimos tempos: o 7 a 1 e uma visão de futebol ultrapassada.

BLOG – O trabalho mais bem sucedido nos últimos dois anos no Brasil é o de Renato Gaúcho no Grêmio. O auxiliar, Alexandre Mendes, cuida da metodologia de treinamentos e do desenvolvimento do modelo de jogo e Renato fica com a decisão final, a parte mais estratégica e de gestão de grupo. A ideia da sua parceria com Felipão e o auxílio do Pracidelli é parecida?

PAULO TURRA – Em linhas gerais, sim. Antes eu cuidava da elaboração e Murtosa da aplicação dos treinamentos. Também observava os adversários, junto com o Pracidelli. Mas o trabalho está todo interligado. Nós também colaboramos, dentro da hierarquia, com a gestão do grupo. Conversamos individualmente, mas também em grupos, como os jogadores de um setor. Podemos também explicar como joga o próximo adversário.

BLOG – Vocês já utilizam o WhatsApp ou outro recurso para disponibilizar material diretamente no celular do atleta?

PAULO TURRA – Ainda não, embora o Felipão esteja pensando em fazer algo neste sentido. Por enquanto conversamos individualmente, mas contando com o auxílio dos profissionais da Análise de Desempenho. Só para dar um exemplo, vamos conversar com três ou quatro jogadores sobre algumas dificuldades que encontramos no jogo contra o Bahia aqui em São Paulo. Mas também tem o outro lado: Lucas Lima evoluiu muito nas infiltrações por trás da defesa neste último jogo, contra o Vitória. Ele costuma voltar para buscar a bola nos pés dos volantes, até dos zagueiros, pisou muito mais na área adversária e ali ele é mais letal e pode nos ajudar.

BLOG – Como é a dinâmica dos treinamentos?

PAULO TURRA – Chegamos aqui com bastante antecedência para prepararmos tudo. A ideia é trabalhar 50% na assimilação do modelo de jogo e os outros 50% com ajustes de acordo com o adversário. Também evitamos o campo reduzido em todas as práticas, usando muitas vezes a largura total do campo para que tenhamos algo mais próximo da realidade da partida, especialmente nas inversões de jogo. O primeiro gol contra o Vitória, por exemplo, saiu de uma jogada treinada. Passamos informações concretas para que sejam assimiladas com mais facilidade e, principalmente, trabalhamos muito o lado mental do atleta. Pedimos para que mentalizem bem o que praticaram nos treinos e precisam fazer nos jogos.

BLOG – Que legado vocês receberam do trabalho do antecessor, Roger Machado?

PAULO TURRA – O Palmeiras é um clube muito bem estruturado. Na Análise de Desempenho temos o Gustavo e o Rafael, profissionais competentes que em três ou quatro reuniões entenderam rapidamente o que pretendemos. Quanto ao legado do Roger, eu posso dizer que foi uma espécie de “troca de favores” porque tenho certeza que quando ele assumiu o Grêmio em 2015 recebeu um trabalho pronto e bem feito do Felipão, inclusive em termos de estrutura do Centro de Treinamentos. Aprendeu e deu sequência. No futebol não existe certo ou errado, mas ideias complementares. Quem é inteligente pega o melhor de cada treinador.

BLOG – É óbvio que para convidá-lo para ser seu auxiliar, certamente Felipão tem ideias sobre futebol parecidas com as suas. Mas o quanto elas são semelhantes ou alinhadas?

PAULO TURRA – São bem próximas, de fato. Mas quando há divergência falamos normalmente. Todo mundo tem algo a aprender e Felipão me dá liberdade para discordar quando achar que devo. Com o devido respeito, pois é um profissional vencedor e que está na história do futebol. Mas minhas equipes (treinou times como Brusque, Avaí e Cianorte) também tinham um volante e um atacante de referência, como são Felipe Melo e Borja ou Deyverson. Outros detalhes também, como o lateral do lado oposto ao que está atacando fechando como terceiro zagueiro. Conhecia como amigo do futebol, já tínhamos ideias parecidas e desde que começamos a trabalhar juntos na China essa sintonia aumentou.

BLOG – Tanto que ele recentemente não aceitou que você retornasse a China como treinador, correto?

PAULO TURRA – Exatamente. A proposta nem chegou a mim. Felipão recebeu por e-mail, negou e depois me contou, sem nem dizer qual era o nome do clube chinês. Mas eu não sairia mesmo. Estou feliz no Palmeiras e sei que ele precisa de mim, ainda mais sem o Murtosa. Seria uma ingratidão. Quero seguir no Brasil, onde para mim é um dos lugares em que o futebol é melhor jogado.

BLOG – Você observa jogos e relata para o Felipão. No episódio do 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, os observadores Roque Júnior e Alexandre Gallo relataram sobre a força da Alemanha no meio-campo e a capacidade de preencher espaços no campo de ataque e Felipão descartou preencher o meio-campo e apenas trocou Neymar por Bernard. A decisão foi do Felipão, que muitas vezes se guia pela intuição – e também já venceu muito desta forma, diga-se. Como funciona com você?

PAULO TURRA – Ele ouve muito, mas é quem decide por ser o chefe. Honestamente nunca vi uma decisão dele por intuição. Pelo contrário, considero o Felipão muito atualizado, antenado. Não tem nada de ultrapassado. E a meu ver a derrota para a Alemanha não aconteceu por causa da entrada do Bernard. Foi uma conjunção de fatores.

BLOG – Você sempre que pode cita José Mourinho como uma referência de treinador. Que outros profissionais você e também o Felipão consideram como influentes na maneira atual de trabalhar no futebol?

PAULO TURRA – Para mim o Mourinho, sem dúvida, é uma referência. Mas com Felipão creio que seja o contrário. O Mourinho é um grande admirador dele. Aprendeu muito com ele quando treinava o Porto e Felipão estava em Portugal trabalhando na seleção, já como campeão do mundo pelo Brasil. Basta ver suas equipes, com os atacantes como os primeiros defensores, pressionando muito os adversários. Adota também a prática de forçar o adversário a jogar pelo lado e dali não sair mais. Lembra quem era o volante do Porto? Costinha, que depois Felipe levou para a seleção. Sempre um atacante de referência, dois jogadores velozes pelos lados. São visões de futebol muito próximas, inclusive na gestão de grupo.

BLOG – Mas que outro treinador você poderia citar como alguém fazendo um bom trabalho capaz de agregar coisas ao que vocês fazem?

PAULO TURRA – São vários, difícil citar. Mas nunca vi o Felipão criticar o trabalho de um treinador, seja lá quem for. Já vi, sim, elogiando. Como fez com o Marcelo Caranhato, do Cianorte, quando eu o apresentei. Mas Simeone seria um deles, pela capacidade de armar seu time de forma compacta. Também Fabio Capello pela experiência, o André Villas-Boas, entre outros.

BLOG – O Palmeiras tem usado um time mais “alternativo” no Brasileiro e outro aparentemente mais completo, perto do que o Felipão considera o titular, nos torneios de mata-mata. Será essa a tônica até o final da temporada?

PAULO TURRA – Pensamos jogo a jogo. O grupo é bom, a maioria já conhecíamos de acompanhar jogos no Brasil. Eles absorveram as ideias muito rapidamente. O que fazemos é pensar na melhor formação possível considerando todos os aspectos, especialmente as informações do Departamento Médico e de Fisiologia. Se tiver um maior risco de lesão a gente segura. Queremos todos o mais próximo possível dos 100% fisicamente para poder manter o bom rendimento que estamos conseguindo neste início de trabalho. Não há prioridade, vamos brigar nas três frentes da melhor maneira possível.

 


Renovação no meio-campo é a melhor notícia da primeira lista de Tite
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André Rocha

É uma lista cheia de contextos, inclusive o cuidado de não desfalcar muito os times brasileiros envolvidos em disputas decisivas. São 13 remanescentes da Copa do Mundo por uma questão de coerência. Afinal, é a sequência de um trabalho.

Os adversários não são de primeira linha: Estados Unidos e El Salvador. Vale mais perceber as intenções de Tite neste início de novo ciclo na seleção. Já fica claro o vazio na lateral direita, com Fagner voltando e o zagueiro Marquinhos e Fabinho, há tempos atuando no meio-campo, podendo ser improvisados no setor. Militão parece ser o nome da vez e foi citado como um dos não convocados, mas observados. Questão de tempo.

Na esquerda, uma pausa para Marcelo e novas oportunidades para Filipe Luís e Alex Sandro. Na zaga, a oportunidade para Dedé já acenada com o elogio ao zagueiro do Cruzeiro quando do anúncio da lista dos 12 nomes além dos 23 convocados para o Mundial. Felipe do Porto e campeão brasileiro em 2015 com Tite no Corinthians, também é nome interessante. No gol, a surpresa ao levar Hugo, do sub-20 do Flamengo. Em um ciclo de quatro anos é possível pensar no futuro.

No ataque, Roberto Firmino largando na frente de Gabriel Jesus e prêmios a Everton, fator de desequilíbrio no Grêmio, e Pedro, o melhor camisa nove em atividade no país e com potencial para ser um centroavante seguindo a linhagem dos grandes que já vestiram a camisa cinco vezes campeã do mundo. Neymar era nome mais que esperado, mas desta vez quase como um coadjuvante. Boa oportunidade para repensar, reciclar e ressurgir. Malcom podia estar já nesta lista, Richarlison também. Vinícius Júnior e David Neres são joias para o futuro.

A melhor notícia, porém, vem do meio-campo. Casemiro é o homem da proteção e os melhores tecnicamente do grupo que esteve na Rússia continuam: Renato Augusto, Fred, Phillipe Coutinho e Willian. Sustentação e experiência para ajudar as ótimas novidades. Arthur e Lucas Paquetá, nomes já esperados pelo enorme potencial, e Andreas Pereira – bela sacada de Tite, jogando mais recuado no Manchester United e já demonstrando sintonia fina com Fred. E Douglas, ex-Vasco e hoje no Manchester City, é outro no radar. Sem falar em Maycon, ex-Corinthians.

Qualidade no nosso “gargalo” de muito tempo. Enfim jogadores de bom toque e leitura de jogo. Não só volantes de infiltração e intensidade ou o meia de talento, mas pouca entrega sem a bola. Meio-campistas completos. Pontos para os clubes, que estão propondo uma melhor formação aos jovens que atuam no setor.

Como em toda lista, presenças e ausências serão questionadas. Fica a impressão de que Tite não convocou jogadores do Palmeiras por um misto de convicção, até porque só Bruno Henrique tem bom desempenho recente para merecer, com instinto de defesa para evitar atritos com o desafeto Felipão.

Mas já é possível ver o copo meio cheio. Cabe ao treinador aprender com os dois anos atropelados à frente da seleção – um para classificar, outro para se tornar competitivo no mais alto nível – e construir um novo trabalho a partir do legado do anterior. Evolução é a palavra que deve nortear todos os processos a partir deste primeiro ato.