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No clássico sem os gênios, Lopetegui erra e Suárez comanda “la manita”
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André Rocha

Desde 2007 não havia um Barcelona x Real Madrid sem Messi e Cristiano Ronaldo em campo. Foi estranho não ver no Camp Nou os gênios que por onze anos atraíram os olhos do mundo. Mas o jogo foi histórico apesar das enormes ausências.

Porque o Barça sobrou no primeiro tempo com Arthur novamente ditando o ritmo e “escondendo” a bola. Atacando pelo lado que tem profundidade: o esquerdo, com Jordi Alba voando. Mesmo sem as inversões de Messi. O planeta bola conhece a jogada, mas Julen Lopetegui parece não ter percebido.

Deixou Nacho solitário pela direita, sem o auxílio de Bale ou Modric nem a cobertura rápida de Varane, e ainda com linhas adiantadas. No primeiro passe longo de Rakitic, um dos destaques da partida, Alba disparou, olhou para trás e serviu Philippe Coutinho.

Com a desvantagem, o time merengue adiantou ainda mais as linhas tentando pressionar a marcação e sem corrigir o problema pela direita. Alba infiltrou mais três vezes. Na última passou para Suárez, que foi derrubado por Varane. Pênalti marcado com auxílio do VAR. O próprio uruguaio fez 2 a 0 com uma batida de manual, na bochecha da rede para não dar chances a Courtois, que acertou o canto.

Lopetegui corrigiu o erro, que não é mérito nenhum, na volta do intervalo. Trocou Varane por Lucas Vázquez, que foi jogar na lateral direita. Nacho foi para a zaga fazer dupla com Casemiro, que recuou e mandou Sergio Ramos para fazer um lateral zagueiro à esquerda liberando Marcelo como ponteiro.

Ernesto Valverde e seus comandados demoraram a assimilar a mudança. Porque o lado de Alba que atacava foi obrigado a defender. Vázquez apoiava e Isco e Bale alternavam na ponta. Em jogada pela direita, o gol de Marcelo para equilibrar as forças. O Real teve bola na trave e boas oportunidades para empatar.

Não aproveitou e o Barça ajustou a marcação. Também descobriu que a mudança no rival criou um buraco pela esquerda, entre Marcelo e Sergio Ramos, que foi bem explorado por Sergi Roberto. Primeiro como lateral, depois como ponteiro quando Nelson Semedo substituiu Rafinha, que tentou jogar às costas do meio-campo adversário, mas cometeu muitos erros técnicos.

Duas assistências de Roberto, gols de Suárez para resolver o jogo. No final, mais um ataque pela esquerda com o Real já com a guarda baixa e gol de Vidal. Para completar a sequência de seis gols de jogadores sul-americanos. Podia ter sido mais se Suárez não tivesse desperdiçado mais duas chances.

De qualquer forma, o time catalão recupera a liderança da liga espanhola e repete 2010 com a “manita”. Goleada que marcou a trajetória de José Mourinho, mas deu início a uma reformulação no modelo de jogo que terminou na conquista da liga na temporada seguinte. Será que Lopetegui terá tempo para fazer a equipe reagir? Neste momento parece improvável.

 


Valverde enfim se rende à lógica e o Barcelona de Messi voa em Wembley
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André Rocha

Muitas vezes se confunde o simples com o tosco, simplório. Mesmo caótico e apaixonante, o futebol tem alguma lógica e é tarefa do treinador tentar reduzir ao máximo a aleatoriedade do jogo a favor do seu time.

Ernesto Valverde vinha congestionando o lado esquerdo do Barcelona ao deslocar Dembelé para aquele setor, se juntando a Philippe Coutinho e Jordi Alba. Tudo para deixar o lado direito para Messi receber numa zona de menor pressão e partir em diagonal conduzindo a bola.

Na prática, porém, o treinador desequilibrou o time, tirou a fluência ofensiva e deixou o lateral direito entregue à própria sorte na defesa. Foi preciso sofrer em La Liga com empates contra Girona e Athletic Bilbao, além da derrota para o Leganés, mesmo sem perder a liderança, para o treinador enfim se render ao óbvio.

Messi precisa de liberdade, Alba do corredor para voar pela esquerda e a defesa de maior proteção. Bastou trocar Dembelé por Arthur e o Barça ganhou liga. No 4-4-2, com Coutinho voltando pela esquerda e Arthur, eventualmente Rakitic abrindo pela direita para auxiliar Semedo, que também ganhou o corredor para apoiar.

É claro que o gol de Coutinho no primeiro minuto, completando assistência de Alba na primeira disparada pela esquerda recebendo de Messi, condicionou o jogo em Wembley. Obrigou o Tottenham a adiantar as linhas e ceder espaços. Mesmo criando problemas com a movimentação do trio Lucas-Kane-Son, o Barça controlou o jogo com relativa tranquilidade através da posse de bola e setores mais compactos. Mais uma jogada pela esquerda, Coutinho errou a finalização, mas acertou o passe para um chute espetacular de Rakitic. O gol mais bonito da partida.

A segunda etapa começou com eletricidade. Messi acertou a trave esquerda de Lloris em duas arrancadas por dentro no início da segunda etapa e, na sequência, Kane marcou trazendo os Spurs de volta para o jogo. Mas bastou acionar novamente Alba pela esquerda para sair a assistência para o camisa dez, com direito a finta de Suárez.

Quando Mauricio Pochettino trocou Wanyama e Son por Dier e Sissoko o Tottenham passou a fazer um jogo mais físico e intenso. Diminuiu com Lamela e buscou uma pressão final com Fernando Llorente no ataque ao lado de Kane. Muitos cruzamentos, domínio dos rebotes. A vitória que parecia tranquila correu algum risco.

Valverde demorou a trocar e em alguns momentos o Barça sofreu sem um escape para os contragolpes. É neste momento que Dembelé faz falta. O ponta francês pode ser titular ou uma peça utilizada com frequência, mas pela direita. Garantindo amplitude e profundidade nos dois flancos.

Com Rafinha e Vidal nas vagas de Coutinho e Arthur, Messi resolveu em nova jogada que nasceu pela esquerda. Chega a cinco na Champions em dois jogos. Poderia ter marcado mais. Se o adversário não está na primeira prateleira do futebol europeu, o contexto era de jogo grande e o gênio argentino sobrou.

Assim como o time catalão, que teve a posse de bola quase durante todo o tempo acima dos 60% – terminou com 58% – e acertou 85% dos passes. Finalizou o dobro do adversário: 12 a seis, sete a cinco no alvo. Um desempenho consistente e animador.

Um ótimo sinal para Valverde. Basta não interromper o fluxo natural de sua equipe. Às vezes a melhor “assinatura” é não interferir no que funciona.

(Estatísticas: UEFA)


Neymar na ponta não é mais atacante como CR7, nem tem a genialidade de R10
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André Rocha

Tite divulgou os convocados da seleção brasileira para os amistosos contra Arábia Saudita e Argentina em outubro e, na coletiva, voltou a falar sobre Neymar.

“Acompanhei as atuações recentes dele no PSG. São possibilidades táticas para potencializar o talento do Neymar. Vejo ele desequilibrante na esquerda, onde tem decidido pela Seleção. É o DNA dele no Santos, no Barcelona e na Seleção. Mas sem fechar conceitos como no jogo contra o México, que foi diferente desse desenho.”

Importante o treinador abrir o leque de opções para aproveitar seu talento mais desequilibrante, como tenta fazer Thomas Tuchel no time francês. Mas ainda mais fundamental é notar uma transformação silenciosa no estilo de jogo do camisa dez.

No Santos e no Barcelona, Neymar era um ponteiro finalizador. Com habilidade, rapidez e visão de jogo, mas essencialmente mirando o gol. Com Messi, Iniesta e mesmo Xavi em fim de carreira para pensar o jogo no time catalão, o brasileiro se comportava como atacante. Recebia mais próximo da área adversária e partia para finalizar ou concluir. Na última temporada jogou aberto, quase como um típico ponta fazendo todo o corredor esquerdo.

Mesmo sem a companhia de um grande armador de jogadas na seleção, Neymar também era mais atacante. No 4-1-4-1 de Tite, até recuava um pouco para trabalhar com os meio-campistas, mas os movimentos principais eram de condução, drible ou infiltração para dar o passe ou o toque final.

Como Cristiano Ronaldo no Manchester United e no início de sua passagem pelo Real Madrid. Sem comparações, obviamente. Só no comportamento que foi mudando com o tempo até o português se transformar no gênio da grande área do século XXI com eficiência maior em menos toques na bola. Atacante puro.

A ida para o PSG mudou a dinâmica de Neymar. Na composição do trio ofensivo, ele é quem tem mais perfil de meia para acionar Mbappé e Cavani. Ou seja, tem que ser o que foi Messi para ele no Barça. Ou o que Ronaldinho Gaúcho foi para Messi no início da trajetória do argentino.

Neymar não tem a objetividade de Messi. É mais artístico, como Ronaldinho. Não por acaso, referência e ídolo. Inconscientemente ou não, repete alguns movimentos característicos do “Bruxo”: recebe pela esquerda, conduz com o pé direito e define se tenta o drible na ponta ou corta para dentro e busca o lançamento ou a inversão de lado. Como esquecer as “pifadas” do melhor do mundo em 2004 e 2005 para Giuly, Eto’o e Messi?

A diferença é que Ronaldinho, além de mais genial, era forte e acertava nas escolhas das jogadas com mais frequência. Não caía com qualquer choque e sabia o momento de prender a bola. Neymar muitas vezes fica encaixotado pela esquerda e toca para o lado, para trás ou tenta o drible e perde a bola. Ou sofre a falta.

Na seleção, o problema se agrava muitas vezes pela falta de um atacante de profundidade pela direita e por dentro. No início da Era Tite, Philippe Coutinho era o ponta armador do lado oposto, depois foi para o meio e Willian virou titular. Nenhum dos dois tem como característica infiltrar em velocidade na diagonal. Roberto Firmino também é um jogador de toque curto, não de bola longa.

Talvez por isso Tite tenha trazido Gabriel Jesus de volta, mesmo com imagem desgastada pela Copa do Mundo e sem viver um bom momento no Manchester City, e dado mais uma oportunidade a Richarlison. Ambos chamam lançamentos e podem ser úteis no entendimento com este Neymar mais pensador.

Este que escreve, porém, segue com a leitura de que a liberdade que ganhou de Rogerio Micale na conquista do ouro olímpico há dois anos é a melhor solução. Ou a que tinha na reta final do trabalho de Mano Menezes em 2012. Quem sabe repetindo a dinâmica da vitória sobre o México citada pelo próprio Tite, quando Neymar ficou mais solto na frente, alternando com Firmino o posicionamento mais adiantado ou recuando para buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário. Assim prende menos a bola e não chama tanto a falta. Cria e conclui na mesma proporção.

Pela esquerda, Neymar ficou “manjado”. Principalmente em grandes jogos. Na derrota para o Liverpool na Liga dos Campeões, o brasileiro cresceu quando saiu da ponta e colocou sua criatividade a serviço da equipe. Limitá-lo a uma zona do campo é desperdiçar talento.

Nem máquina, nem mágico. O melhor Neymar é o leve, solto. Mas com “anarquia” na dose certa.

 

 

 


Temporada do Barcelona começa com mais do mesmo, mas precisa ser diferente
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André Rocha

Supercopa da Espanha, baterias começando a aquecer, os muitos jogadores que disputaram a Copa do Mundo voltando aos poucos. O jogo único no Marrocos entre Barcelona e Sevilla manteve o clima de pré-temporada dos amistosos, algo que não costumava existir quando jogado no próprio país.

Ernesto Valverde escalou Arthur de início e deixou Phillipe Coutinho no banco. Um 4-3-3 variando para o 4-4-2 sem a bola com Rafinha abrindo à direita e dando liberdade a Messi. Dembelé foi para o setor esquerdo, formando dupla com Jordi Alba. Do lado oposto, Nelson Semedo fazia todo o corredor.

O gol logo aos oito minutos condicionou o primeiro tempo. Até porque o Sevilla, agora comandado por Pablo Machín, tinha como proposta deixar o adversário com a bola, negar espaços num 5-4-1 compacto e acelerar nos contragolpes. Com os ponteiros Pablo Sarabia e Franco Vázquez, na variação para o 4-3-3, se aproximando de Muriel, o atacante único que serviu Sarabia numa transição ofensiva rápida que terminou com conclusão precisa e a ajuda do VAR para validar o gol legal inicialmente anulado.

Depois o Barcelona ficou com a bola, tentando as inversões em busca dos laterais que chegam ao fundo. Suárez ainda nitidamente fora de ritmo, não conseguia dar sequências às jogadas como de costume e desperdiçou boa chance em chute cruzado. Dembele buscava os dribles para infiltrar em diagonal, mas batia no muro da última linha de defesa do Sevilla até bem coordenada para a primeira partida oficial da temporada.

Messi caminhava ou trotava em campo, buscando espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente, por vezes recuando para ajudar na articulação. Só acelerava com a bola colada no pé esquerdo. Ou fazia a tradicional inversão para Alba. Impressiona a qualidade quando interfere no jogo e o respeito que impõe ao adversário, ao menos dentro da Espanha.

Cada vez mais preciso na bola parada. Cobrança de falta do camisa dez na trave esquerda, a bola bateu no goleiro Vaclik e Piqué empatou no rebote. O Barça manteve o domínio, sofrendo com um ou outro contra-ataque. Especialmente pelo setor esquerdo, com o zagueiro francês Lenglet, ex-Sevilla, mais uma contratação para a temporada, sem conseguir fazer a cobertura de Alba com a rapidez e a eficiência de Umtiti.

Arthur sofreu a falta do gol de empate, mas não foi tão bem. Ainda precisa se adaptar à velocidade da circulação da bola no ritmo de competição no mais alto nível. Questão de tempo e entendimento. Deu lugar a Philippe Coutinho e Rafinha saiu para a entrada de Rakitic. Com o 4-4-2 mais próximo da temporada passada e Dembelé indo para o lado direito, saiu o golaço do ponteiro francês em chute forte e preciso.

Gol de título, porque nos acréscimos Ter Stegen fez pênalti em Aleix Vidal, mas Ben Yedder bateu fraco e o goleiro alemão segurou. Mesmo sem uma clara superioridade sobre o adversário, o Barcelona alcançou mais uma conquista. A décima terceira do maior vencedor da história.

Mais do mesmo. Fruto de uma cultura de vitória dentro do país nos últimos anos. Ou desde Guardiola. Contando a partir da temporada 2008/09, são sete conquistas em dez edições do Espanhol. Mais seis taças da Copa do Rei e o mesmo número de Supercopas. Aproveitamento espetacular, mesmo considerando o foco habitual do Real Madrid na Liga dos Campeões e a trajetória bem sucedida deste nos últimos cinco anos.

Mas exatamente por essa sequência de triunfos é que o patamar subiu e a exigência para voltar a ser protagonista na Champions aumentou. Até porque depois do último título em 2015 o time vem caindo antes das semifinais. Nos confrontos contra Atlético de Madri, Juventus e Roma, a impressão de que faltou competitividade. Talvez um pouco mais de intensidade de Messi. Ou um elenco que aumentasse o leque de opções e fosse possível alterar as características da equipe, caso necessário.

Por isso a busca por Arthur, Malcom, Vidal para se somar à base titular que é reconhecidamente forte. Agora com Coutinho desde o início da temporada. Porque precisa ser diferente. Ou voltar ao que já foi. Sem perder o protagonismo na Espanha, mas voltando a dar as cartas no continente. Ir além do “piloto automático” na liga e na Copa. Ou mesmo repetir o grande rival e festejar a conquista mais importante, mesmo que as “domésticas” não venham.

No apito final, a comemoração tímida e protocolar. Mais uma. Parece pouco. O Barcelona tem que sair do marasmo. Inusitado pelas muitas conquistas recentes, mas sem deixar de parecer estagnado.

 


A Copa não vai dar outra chance para o Brasil perder tantos gols
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André Rocha

O primeiro tempo foi de tensão e dificuldades diante do 5-4-1 da Costa Rica que lembrou 2014 contra Itália, Uruguai e Inglaterra. Muita pressão no adversário com a bola, última linha de defesa bem coordenada e saída rápida, especialmente pela direita nas costas de Marcelo.

O Brasil podia ter sofrido mais nos primeiros 45 minutos, não fosse a ineficiência ofensiva do adversário. Simplesmente nenhuma finalização na direção da meta de Alisson. Incluindo o chute de Borges pra fora na jogada mais bem concatenada. Exatamente o que faltou à seleção de Tite. Sem infiltração, sem abrir o jogo. A destacar apenas o passe em profundidade de Casemiro para a única diagonal de Neymar, mas Keylor Navas chegou antes.

Tudo mudou na volta do intervalo, não só pela entrada de Douglas Costa. Mas intensidade e mobilidade. Paulinho passou a encontrar espaços para infiltrar, Fagner chegou bem à frente e centrou para Gabriel Jesus cabecear no travessão. A primeira de uma série de chances que se convertidas descomplicariam o jogo.

Com Firmino no lugar de Paulinho, o desespero em busca do gol salvador. Número absurdo de cruzamentos: 42. O cenário ficou ainda mais complexo com o pênalti bem anulado pelo árbitro Bjorn Kuipers. Neymar, mais uma vez, tentou trocar a sequência do lance por uma falta. Houve toque de Gonzalez, sim, mas o camisa dez ao notar o braço no peito joga o corpo para trás. Se tentasse seguir haveria a chance de finalização. A confusão só aumentou a tensão, inclusive de Neymar, que levou amarelo.

Quando parecia que o Brasil repetiria 1978 com dois empates nas duas primeiras partidas e correria um sério risco de eliminação na fase de grupos como em 1966, valeu a presença na área dos dois centroavantes. Centro de Marcelo, Firmino ajeitou, a bola passou por Jesus e Coutinho acabou com a agonia. O gol de Neymar nos acréscimos completando assistência de Douglas Costa foi mera consequência do alívio.

Vitória fundamental. Mas é bem provável que a Copa do Mundo não dê outra chance de perder tantos gols. 23 finalizações. Nove no alvo, melhorando o aproveitamento em relação à estreia. Mas foram duas finalizações de Neymar à frente de Navas com liberdade. Uma de Coutinho.

Em um torneio marcado até aqui pelo equilíbrio e pela solidez defensiva das “zebras” é obrigatório ser mais preciso. No desempenho já há duas referências: os primeiros 20 minutos contra a Suíça e o início do segundo tempo contra a Costa Rica. Falta o acabamento.

Sem comparações técnicas e históricas, mas Peru e Marrocos já estão eliminados por conta dos ataques “arame liso”. É preciso fazer o ajuste fino. Com a primeira vitória, a ansiedade pode atrapalhar menos contra a Sérvia.

(Estatísticas: FIFA)


Brasil empata na estreia como em 1978. Mas só não venceu sofrendo em 1994
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André Rocha

A primeira observação sobre o empate por 1 a 1 na estreia da Copa do Mundo 2018 é que havia um adversário do outro lado. Algo óbvio, mas que no Brasil costuma ser desprezado. Empatamos ou perdemos sempre para nós mesmos, nunca há mérito do adversário.

A Suíça tem base consolidada, entrosamento e jogadores interessantes como os laterais Lichtsteiner e Rodríguez, o meio-campista Xhaka e Shaqiri, ponta canhoto cortando da direta para dentro que criou problemas para Marcelo, Casemiro e Miranda com sua movimentação. Fez atuação correta e aproveitou os erros brasileiros.

Equívocos técnicos provocados nitidamente por ansiedade, pressão por vitória. Inevitável depois de um 7 a 1 em casa. Mesmo com a transformação sob o comando de Tite. A Copa muda os parâmetros e a seleção sentiu.

Mesmo com um bom começo, de volume de jogo interessante e o lado esquerdo forte ofensivamente. Como no gol de Philippe Coutinho, com a bola indo e voltando ao setor até a bela finalização do camisa 11, o meia por dentro ao lado de Paulinho no 4-1-4-1.

Mas surpreendentemente oscilou no segundo tempo em um mantra de Tite desde o Corinthians: concentração. Inclusive no gol da Suíça. A disputa entre Zuber e Miranda era passível de falta. Este que escreve não marcaria, mas a reclamação é aceitável. Houve, porém, um descuido geral. Mais uma vez na bola aérea.

Depois foi ansiedade. Melhorou a produção no meio com Renato Augusto no lugar de Paulinho. Casemiro vinha bem, mas saiu por conta do amarelo e do risco de vermelho na cobertura de Marcelo contra Shaqiri. Fernandinho, outro personagem dos 7 a 1, foi outro a demonstrar nítida ansiedade. Firmino que entrou no lugar de Gabriel Jesus foi mais um a esbarrar na afobação. Péssimo aproveitamento coletivo nas finalizações: quatro no alvo de 20.

E Neymar foi um contraponto a esta eletricidade. Por isso a incógnita sobre sua condição física na primeira partida oficial depois de três meses. Em seu estado normal, Neymar partiria para cima, talvez até atrapalhasse o time com individualismo e irritação. Ainda mais sofrendo dez das 19 faltas cometidas pelos suíços. Mas pareceu um tanto passivo e preocupado. Ora com mão na panturrilha, ora fazendo cara feia como se sentisse o pé. Estranho…

É a primeira vez que várias gerações veem o Brasil não vencer em uma estreia de Mundial. A última foi em 1978, o famoso jogo em que o árbitro encerrou a partida quando Zico completou uma cobrança de escanteio. Também 1 a 1 com a Suécia. Depois só vitórias. Mas quase todas com sofrimento.

Em 1982, 1986 e 2002 precisou do “apito amigo”. Pênaltis não marcados contra a União Soviética na Espanha, gol mal anulado da Espanha no México e pênalti “maroto” em Luisão diante da Turquia no início da trajetória do penta na Ásia. Contra a Suécia em 1990, o Brasil de Lazaroni abriu 2 a 0, mas não foi bem nos 2 a 1. Assim como contra a Coréia do Norte em 2010.

Em 1998, a Escócia deu trabalho nos 2 a 1 do time de Zagallo e o desempenho do “quadrado mágico” formado por Kaká, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo contra a Croácia na Alemanha em 2006 foi sofrível na vitória por 1 a 0. O mesmo adversário na abertura da Copa no Brasil com o susto no início com o gol contra de Marcelo e dependendo de Neymar para construir a virada por 3 a 1.

Resultado e desempenho sólido apenas no tetra em 1994 nos Estados Unidos: 2 a 0 com autoridade sobre a Rússia, gols de Romário e Raí. Na maioria dessas vitórias sofridas, atuações piores que a da estreia na Rússia. Mas o desespero resultadista de torcida e imprensa vai criar um ambiente de pressão e cobrança desproporcional para a segunda rodada da fase de grupos. Por causa de um empate que, mesmo com todos os problemas, tivesse se transformado em três pontos seria tratado com alívio como “vitória sofrida”. Chances não faltaram.

É do jogo. Cabe ao Brasil de Tite tirar a pressão do primeiro jogo e vencer Costa Rica e Sérvia. Para manter a tradição de passar da fase de grupos desde 1966. Mas principalmente evoluir o desempenho para chegar forte na hora de decidir.

(Estatísticas: FIFA)


As boas respostas brasileiras no ótimo teste final contra a Áustria
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André Rocha

A seleção austríaca chamava atenção antes do amistoso em Viena pelas sete vitórias seguidas, inclusive sobre a Alemanha. E tinha a utilidade de ser mais uma experiência da seleção de Tite contra a linha de cinco na defesa.

Mas a Áustria apresentou mais que isto no primeiro tempo. Especialmente a pressão na saída de bola em vários momentos e uma jogada que não resultou em gols, mas mostrou que pode ser, ou continuar sendo, um problema para o Brasil: a jogada de Alaba buscando o fundo pela esquerda e cruzando na segunda trave procurando Arnautovic na zona de Marcelo, mais baixo e com suas habituais dificuldades de posicionamento. O ala Lainer também conseguiu algumas infiltrações nas costas do lateral esquerdo.

Defensivamente a resposta brasileira foi a concentração e a atuação segura de Thiago Silva, Miranda e Casemiro. Compensando também Danilo, ainda hesitante tanto no posicionamento atrás quanto no apoio por dentro, deixando Willian mais aberto. Assim como a pressão logo após a perda da bola. Com um pouco menos de intensidade por conta da proximidade da Copa do Mundo.

Na frente, a dificuldade para infiltrar com tabelas, triangulações e ultrapassagens diante de um sistema defensivo postado. Mesmo sem Fernandinho e com Coutinho por dentro na linha de meias do 4-1-4-1. O mérito foi trabalhar com paciência, sem se desorganizar. E encontrar nos chutes de fora da área e nas bolas paradas as soluções para furar o bloqueio. Tentou com Casemiro e Philippe Coutinho. Thiago Silva errou a cabeçada na cobrança de escanteio de Neymar.

Na jogada individual do camisa dez que sobrou para Paulinho, a melhor chance até Marcelo arriscar de longe no rebote de um escanteio e, na dúvida da arbitragem se a bola bateu em Sebastian Prödl ou o zagueiro interferiu no lance, Gabriel Jesus finalizou com estilo, marcando seu décimo gol com a camisa verde amarela.

Pronto. Problema resolvido. Com a vantagem, a Áustria se abriu e, com espaços, o Brasil é letal nas transições ofensivas. Ainda mais com Neymar solto, com fome e inspirado. Linda jogada pessoal no segundo gol, já na segunda etapa. Outro contragolpe e o terceiro com Coutinho.

Podia ter saído mais com o clima mais de amistoso depois das substituições e da Áustria jogando a toalha. Mas não era hora de forçar nada, mesmo para os reservas querendo mostrar serviço. Tite já tinha suas respostas. Dentro do contexto das favoritas evitarem se enfrentar tão próximo do Mundial, foi o melhor teste possível. Para efetuar as últimas correções e, principalmente, definir a maneira de enfrentar adversários fechados.

Deve ser a tônica na primeira fase. E o Brasil mostrou que não está no auge, nem é hora para isto. Mas está pronto para iniciar a trajetória na busca do hexa.


Mais importantes que os 23 são os 14 (ou 15) usados jogo a jogo na Copa
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André Rocha

A lista de Tite é boa e coerente. Embora, a rigor, não seja a definitiva. É tudo que a comissão técnica não quer, mas pode ser alterada até a estreia por alguma lesão ou qualquer outro problema, até particular. A expectativa criada, porém, é mais que compreensível no país cinco vezes campeão mundial.

Mas o fato é que os 23 não vão jogar. No máximo aquela terceira partida da fase de grupos com a seleção brasileira já classificada. Ou se vier o caos de uma sequência de lesões ou um desempenho tão ruim que obrigue o treinador a mexer profundamente na base durante o torneio. Improvável, ainda mais com Tite.

Por isso vale mesmo pensar nos 14 ou 15, no caso de prorrogação nos jogos eliminatórios que permitirá quatro substituições, que entrarão em campo jogo a jogo.

O universo neste momento inicial é de 17 atletas. Alisson no gol. Se foi titular sem sequência de jogos, imagine depois de uma fantástica temporada na Roma. Danilo ou Fagner disputando a vaga de Daniel Alves – e se um deles se afirmar talvez nem se alternem. Marquinhos, Thiago Silva e Miranda na zaga. Marcelo na lateral esquerda. No meio, o triângulo não deve fugir de Casemiro, Paulinho, Fernandinho, Renato Augusto e Philippe Coutinho.

Na primeira fase, a tendência contra equipes fechadas é Coutinho por dentro no mesmo 4-1-4-1 e Willian abrindo o campo pela direita. Com Danilo atacando naturalmente por dentro, podendo emular os movimentos de Daniel Alves. Até por ter atuado como volante e meia em momentos na carreira. Em jogos maiores e eliminatórios mais à frente, a possibilidade de entrar Fernandinho ou Renato Augusto, que perdeu terreno mas basta mostrar desempenho para voltar a concorrer. Tudo para dar liberdade ao infiltrador Paulinho.E aí Coutinho pode voltar ao lado direito para circular e buscar os espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário.

Na frente, Gabriel Jesus e Neymar iniciando. Roberto Firmino e Douglas Costa como as prováveis primeiras opções. Ou podendo até estar juntos em campo num momento de necessidade. E aí entra uma questão primordial na preparação até a estreia.

Tite não é exatamente um comandante intuitivo e inovador. Quase impossível tentar algo inédito dentro da Copa do Mundo. Por isso precisa testar no período de treinamentos todas as opções nos mais variados contextos. Como jogar com um homem a mais, um a menos. Perdendo por um ou mais gols num jogo eliminatório necessitando de um “abafa” para buscar o placar. Ou uma formação para suportar pressão e se defender de sequência de cruzamentos com vantagem no placar.

É legítimo questionar ausências, como Luan e Arthur do Grêmio. Ou mesmo presenças. Mas o fato é que o contexto de menos dois anos de trabalho reduziu bastante o espectro de experiências e observações. E na prática cinco ou seis jogadores podem nem entrar em campo na Rússia. Tite certamente não vai externar essa visão, mas sua torcida é para não precisar. Ederson vai precisar de sorte. Cássio mais ainda. Assim como Geromel, Filipe Luís, Fred e Taison devem dar suas contribuições apenas nos treinos.

Agora é pensar na oportunidade de estar com os jogadores pelo período mais longo dentro da trajetória de Tite. Para aprimorar tudo. Compactar setores, trabalhar coberturas, combinar triangulações, ultrapassagens, jogadas em profundidade, viradas de jogo para surpreender, o melhor momento para utilizar o drible e desequilibrar. Entrosar, jogar sem pensar. Afinar também a gestão de grupo, consolidar lideranças.

Depois é competir. Jogo a jogo. Com a partida disputada influenciando a seguinte. Analisando e reavaliando o trabalho, considerando também o adversário. Preparando para as situações imprevisíveis do futebol. Buscando desempenho para construir resultado.

O que se espera é que a emoção e a razão conduzam ao hexa. Ou ao melhor resultado possível. Porque o Brasil é apenas um dos favoritos em um Mundial que deve atingir nível altíssimo na reta final e tudo pode ser resolvido num detalhe. O resto é jogo de dados. Sorte. Não dá para descartar o imponderável, a favor ou contra.

 


Brasil vence, mas não fura linha de cinco da Rússia como Tite queria
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André Rocha

Não é nada fácil colocar em prática algo tão complexo como o jogo de posição em pouco tempo. Problema do ciclo de apenas dois anos de Tite e uma certa demora para trabalhar esses conceitos, só depois do “susto” contra a Inglaterra. E sempre é mais complicado desequilibrar sem Neymar, o maior talento brasileiro.

Por isso a seleção sofreu no primeiro tempo e, objetivamente, não furou a linha de cinco da Rússia como Tite queria: trocando passes, com meio-campistas buscando jogo entre as linhas e ponteiros bem abertos esgarçando a marcação adversária. Paciência até infiltrar e finalizar.

Imaginava-se os laterais atacando por dentro, mas Marcelo desceu mais aberto. Talvez porque Tite pense em Neymar circulando mais e procurando o centro, criando a necessidade do lateral ser o responsável pela amplitude. Preocupante mesmo foi o desempenho de Daniel Alves. Confuso, errando passes fáceis, arriscando lançamentos sem sentido. Sem contar o posicionamento defensivo às vezes desatento.

Casemiro também merece um capítulo à parte. Na construção das jogadas contribui pouco. E ainda obriga jogadores que neste conceito deveriam receber a bola mais adiantados a voltar para articular. Nesta ideia Fernandinho seria mais interessante. Só que com os lapsos defensivos dos laterais é preciso ter alguém mais seguro na proteção dos zagueiros. Efeito colateral.

Como o Brasil, então, construiu os 3 a 0? Da maneira como o futebol viveu seus melhores momentos nos últimos dez anos: bola parada no gol de Miranda que abriu o placar, completando desvio de Thiago Silva, e a velocidade nas transições ofensivas quando a seleção anfitriã da Copa do Mundo se empolgou com as deficiências brasileiras e largou um pouco o ferrolho.

Deu ao jogador brasileiro o que ele mais precisa: espaços. Aí apareceram os pontas Willian e Douglas Costa em velocidade, Coutinho achou as brechas para conduzir e Paulinho para infiltrar. O meio-campista do Barcelona sofreu o pênalti que Coutinho converteu e completou mais um contragolpe brasileiro.

Alisson, Thiago Silva e Miranda salvaram alguns ataques e o Brasil podia ter marcado mais gols, inclusive na primeira infiltração do jogo, com Gabriel Jesus recebendo passe longo de Daniel Alves. Com as linhas postadas, só a desatenção russa deu chances ao Brasil.

Todo teste é válido para observações. Até para perceber as dificuldades para executar o que se planeja. Contra a Alemanha os desafios serão outros, ainda que Joachim Low arme sua seleção com cinco na defesa. É clássico mundial. Jogo para vislumbrar o que pode vir em fases finais da Copa.

Mas para enfrentar Suíça, Costa Rica e Sérvia na primeira fase as dúvidas continuam. Furar linha de cinco segue como um desafio.

 


Messi 600 e histórico! Mas dependência do Barcelona já passa do ponto
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André Rocha

O jogo decisivo da temporada para o Atlético de Madri reforça a impressão de que o modelo de Diego Simeone está desgastado depois de sete temporadas.

No Camp Nou, repetiu a estratégia de sempre contra o Barcelona: adianta linhas e pressiona saída de bola. Se o adversário ultrapassa esse bloqueio, se recolhe em duas linhas de quatro compactas para negar espaços, principalmente para Messi.

Mas com cinco pontos atrás na tabela era preciso mais e o time visitante não entregou. Só no segundo tempo, perdendo por 1 a 0, partiu para o desespero mantendo o 4-4-2, porém com Correa na ponta direita e Gameiro fazendo dupla com Diego Costa.

E Griezmann…Depois de sete gols nas últimas duas partidas era de se esperar mais do francês. Assumir o protagonismo, tentar algo diferente. Mas o camisa sete foi o atacante com liberdade atrás de Diego Costa e depois o ponteiro pela esquerda. A rigor, nada produziu.

Melhor para o Barcelona pragmático de Ernesto Valverde. Treinador que voltou a sacrificar Philippe Coutinho de início pela direita na linha de meio-campo. Só inverteu de lado por causa da lesão de Iniesta ainda no primeiro tempo.

Paulinho estava no banco, mas entrou…André Gomes. O blogueiro já desistiu de entender. Não melhora a produção pelo flanco, com ou sem a bola. É lento, tanto para buscar espaços às costas da defesa quanto para fazer a bola circular. Um corpo estranho em campo. Com Suárez lutando, mas pouco inspirado na luta contra Giménez e Godín, sobrou para Messi.

Qualquer time no planeta dependeria do argentino. Na história do esporte poucas equipes não teriam o genial camisa dez como seu maior destaque. Mas este Barcelona tem passado do ponto. Não é por acaso que é o artilheiro da liga espanhola com 24 gols e líder também em assistências, com doze.

Messi recua para organizar e distribuir. Se avança e encontra espaços entre a defesa e o meio do adversário parte para a decisão da jogada. Ou arranca e serve o último passe, ou toca rápido e aparece na área para finalizar.

Ou tenta resolver tudo sozinho. No clássico que encaminha o título espanhol foi o que aconteceu. Buscou a jogada individual, sofreu a falta e cobrou com a precisão que só aumenta. Terceiro gol seguido desta forma, tirando do alcance do ótimo goleiro Oblak.

O 600º gol na carreira em partidas oficiais. Histórico. Mas ele não é super homem, embora pareça um extraterrestre. Muito menos com 30 anos. Não dá para depender tanto, ainda que o talento transborde.

Abrindo oito pontos no topo da tabela, mais a vantagem no confronto direto, é o momento de descansar um pouco Messi. Administrar a liderança na liga e focar na Champions. Mas principalmente buscar soluções ofensivas para não viver de seu craque maior. A inversão de bola para Jordi Alba já está manjada pelos rivais. Sobra muito pouco.

Valverde tem que abrir o leque. Ou rezar para o maior jogador da história do Barcelona seguir fazendo seus milagres. Até quando ele aguenta?