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Copa e maturidade fazem PSG de Tuchel inverter status entre Neymar e Mbappé
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André Rocha

Quando Mbappé foi anunciado no PSG, este blog projetou o time francês ainda jogando em função de Neymar, mais experiente e afirmado no cenário mundial. Ao jovem que explodiu no Monaco restaria um posicionamento de relevância no ataque da equipe, porém com maior sacrifício tático.

Sem comparações, mas a expectativa era que simbolicamente Neymar seria Messi. Ou seja, o ponta articulador partindo do flanco para criar e finalizar, com total liberdade. Já a joia francesa seria o Neymar do Barcelona: coadjuvante de luxo, o ponteiro do lado oposto que acelera e busca as infiltrações em diagonal. Mas também com a responsabilidade de voltar e formar com o tripé de meio-campo uma segunda linha de quatro para bloquear as ações ofensivas dos adversários.

Justamente a opção do treinador Unai Emery na maior parte da temporada. Neymar solto com Cavani à frente, Mbappé se juntando à dupla, mas com maior entrega no trabalho coletivo. A contratação mais cara da história como a estrela, o garoto prodígio servindo de fiel escudeiro.

O reflexo nos números é inegável: Neymar marcou 19 gols e serviu 13 assistências em 20 aparições na liga francesa. Na Liga dos Campeões foram sete jogos, seis gols e três assistências. Desempenho excepcional prejudicado pela lesão no pé que fez o brasileiro retornar praticamente na Copa do Mundo.

Mbappé disputou 27 partidas (três saindo do banco de reservas), marcou 13 e entregou oito passes para gols na Ligue 1 e nos oito jogos que o Paris Saint-Geirman disputou na Champions anotou quatro gols e três assistências. Estatísticas respeitáveis para um atacante de 19 anos, mas bem inferiores ao seu companheiro e “tutor” no vestiário de estrelas do campeão francês e também das Copas da França e da Liga Francesa.

Mas veio a Copa do Mundo…França campeã e Mbappé como destaque e tendo a melhor atuação justamente na vitória mais simbólica dos Bleus na Rússia – 4 a 3 na Argentina pelas oitavas de final, com dois gols e desempenho fantástico, “varrendo” a defesa albiceleste com velocidade e técnica. Anotou quatro gols, inclusive na final contra a Croácia, e, para este que escreve, foi o melhor do Mundial.

Já Neymar, em que pese o tempo de inatividade, não teve o mesmo brilho nem conseguiu evitar a eliminação da seleção brasileira para a Bélgica nas quartas. Dois gols e uma assistência em cinco partidas. Ainda desgastou terrivelmente sua imagem por simulações de faltas e contusões e rodou o mundo piadas com o hábito de rolar no gramado e fazer caras e bocas quando sofre as infrações (ou não).

Na volta ao clube, um novo comandante: Thomas Tuchel. Com 45 anos e fama de “inventivo”, chegou valorizando todas as estrelas do elenco, elogiando muito Neymar. Com paciência, mas firmeza, mobiliza o grupo de jogadores, diminui as rusgas do brasileiro com Cavani e muda a mentalidade da equipe para a disputa da Champions, prioridade máxima na temporada.

O espírito ficou claro na vitória sobre o Liverpool na penúltima rodada da fase de grupos que praticamente garantiu a vaga no mata-mata em um grupo complicado que acabou jogando o bom Napoli de Carlo Ancelotti para a Liga Europa. Muita fibra, vibração e entrega para conquistar o único resultado que não complicaria a classificação. Nem a surpreendente eliminação na Copa da Liga para o Guingamp com derrota de virada por 2 a 1 muda essa impressão, até porque a “vingança” veio na Ligue 1 com uma goleada implacável: 9 a 0 e o time jogando sério o tempo todo, como um rolo compressor.

Nos dois triunfos simbólicos e em outras partidas da temporada fica bem clara uma mudança de status que se reflete no campo: agora é Mbappé quem joga livre na frente com Cavani e Neymar se sacrifica um pouco mais pelo time. Sem a bola, o camisa dez retorna e compõe uma segunda linha de quatro com Di María do lado oposto e Marquinhos ou Daniel Alves e Verratti no centro. No início da jornada 2018/19 chegou a atuar por dentro, como um “enganche”. Mas sempre municiando Mbappé.

Os números novamente apresentam as consequências do posicionamento em campo. Neymar segue com ótimo desempenho: 13 gols e seis assistências na liga. Na Champions foi às redes cinco vezes e serviu dois passes decisivos em seis partidas. Mas a joia francesa deu um salto, especialmente no campeonato por pontos corridos. São 17 gols e cinco assistências. No torneio continental, curiosamente, serviu mais que foi às redes: quatro assistências, três bolas nas redes adversárias.

É claro que a confiança com o título mundial e a melhor ambientação com os companheiros contribuíram significativamente para o progresso de Mbappé. Mas o posicionamento mais adiantado, com liberdade para procurar os lados e infiltrar em diagonal ou muitas vezes até ser a referência do ataque, com Cavani recuando para colaborar defensivamente quando o time recua as linhas para jogar em rápidas transições ofensivas, também colaborou para a evolução.

Até por temperamento, Neymar segue dando as cartas no vestiário e ajuda o companheiro a se soltar ainda mais. Mas o status mudou claramente: Mbappé é a estrela ascendente, com segurança e, principalmente, maturidade para desequilibrar e decidir nos momentos-chave. O brasileiro segue fundamental, mas terá que recuperar terreno em jogos grandes para voltar a ser o protagonista. Justamente o que o motivou a trocar Barcelona por Paris.

Se o sonho é ganhar a Bola de Ouro, Neymar ganhou um “inimigo íntimo”. O desafio é fazer com que essa disputa seja leal, sem prejudicar o rendimento coletivo. Até aqui vem funcionando, com os dois trocando muitos passes e comemorando juntos os gols. E Cavani sem reclamar do papel menor.

Todos parecem saber o lugar em campo e o valor do que entregam. Entenderam a nova “hierarquia”. Méritos também de Tuchel.


De Gea, Pogba, 6ª vitória. United de Solksjaer faz história “à brasileira”
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André Rocha

O Brasil faz parte da história de Ole Gunnar Solksjaer como jogador. Duas vitórias sobre a seleção brasileira, a segunda na Copa do Mundo de 1998 por 2 a 1. Em 2006, voltou a vestir a camisa de seu país em novo confronto com o Brasil. Empate por 1 a 1 e manutenção da invencibilidade contra o futebol cinco vezes campeão do mundo em quatro confrontos na história.

Agora é treinador do Manchester United, sucedendo José Mourinho. Assumiu sem nenhum alarde, pompa ou circunstância. Mas ao seu jeito vai construindo um ótimo início de trabalho. Histórico, com 100% de aproveitamento nos seis primeiros jogos – cinco vitórias pela Premier League, outra na Copa da Inglaterra. Nem as lendas Alex Ferguson e Matt Busby conseguiram tal feito.

O triunfo em Wembley sobre o Tottenham é o maior e mais emblemático até aqui. Pelo jogaço, por ser o primeiro contra um grande e também pela afirmação de um estilo de comando que, pela urgência e considerando o contexto, acabou apresentando características de treinadores brasileiros.

A começar pela gestão de elenco. Mesmo com a ressalva de que qualquer coisa seria melhor que a terra arrasada de Mourinho, saindo de um clima insuportável pra algo mais leve. Partindo do resgate de Paul Pogba, maior contratação da história do clube e o grande talento do elenco, que vivia às turras com o treinador português e assistiu a algumas derrotas do banco de reservas.

O resultado: em seis partidas, são quatro gols e cinco assistências do meio-campista francês. A última em um lançamento primoroso para Rashford infiltrar em diagonal pela direita e bater cruzado para marcar o gol único da partida. Em um típico contragolpe dos Red Devils nos tempos de Mourinho, dentro de um primeiro tempo de apenas 40% de posse e cinco finalizações contra sete dos Spurs, mas acertando a direção da meta de Lloris por cinco vezes. Eficiência.

Também aproveitando a saída de Sissoko, lesionado ainda na primeira etapa. Lamela entrou e Mauricio Pochettino só conseguiu acertar o posicionamento do meio-campo na volta do intervalo, saindo do 4-3-1-2 para o 4-2-3-1 com o recuo de Eriksen e o meia argentino se juntando a Son e Dele Alli atrás de Harry Kane. E Solksjaer respondeu como um treinador brasileiro, reorganizando sua equipe em função do adversário.

De início saindo do 4-2-3-1 das últimas partidas e armando um 4-3-3 com Lingard centralizado e ajudando no combate a Winks, volante que inicia a construção das jogadas do Tottenham. Tudo para dar liberdade a Pogba, que mesmo com espírito renovado continua pouco intenso sem a bola. Também explorando com Rashford e Martial as costas dos ofensivos laterais Trippier e Davies.

Na segunda etapa, a equipe retornou ao sistema original, voltando a posicionar Rashford na frente, soltar Pogba, que quase ampliou em jogada pessoal e Lingard e Martial voltando pelos flancos formando com Matic e Herrera a segunda linha de quatro. De novo uma estratégia “à brasileira”: encaixar a marcação, definir duelos individuais e fazer perseguições longas, porém com muita entrega e concentração.

Mas com falhas e também méritos do Tottenham, que trabalhava a bola, invertia da esquerda para Trippier e chegava à área do United com muita gente. Rondou a área e finalizou muito! Foram 16 no segundo tempo, onze no alvo. Todas defendidas por De Gea. Outra atuação individual espetacular. Disparado o melhor em campo para garantir o resultado que faz o maior campeão inglês voltar a sonhar com a quarta vaga na Liga dos Campeões.

É bem provável que Solksjaer não conheça os métodos brasileiros de comando técnico no futebol, mas vai se estabelecendo como “fato novo” – olha o Brasil de novo! Mobiliza o grupo, tira o melhor de seus talentos, arma o time em função de suas individualidades e usa os resultados para ganhar moral. Competência ou sorte? O tempo vai mostrar, especialmente quando chegar fevereiro e o duelo com o PSG pela Liga dos Campeões.

(Estatísticas: BBC)


Demissão de José Mourinho no United é péssima notícia para o PSG
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André Rocha

A imagem de Paul Pogba, maior contratação da história do Manchester United, vendo do banco seu time levar um chocolate muito maior que o placar de 3 a 1 imposto pelo rival Liverpool no Anfield Road era emblemática demais para não ter consequências.

José Mourinho foi demitido seguindo seu ciclo recente de perda de comando na terceira temporada. Foi assim no Real Madrid e no Chelsea, mas desta vez sem uma conquista entre as mais relevantes na Europa – faturou apenas a Copa da Liga Inglesa, a Supercopa da Inglaterra e a Liga Europa. O ambiente de pressão insuportável criado e alimentado ao longo do tempo explode e o treinador nada produz para tentar reverter o quadro ou ganhar uma sobrevida.

Enquanto seus concorrentes Guardiola, Klopp e Simeone procuram tornar o ambiente mais leve e confiante em seus clubes,, mesmo com a cobrança natural pela excelência, o português ainda crê nos jogos mentais dentro e fora do vestiário. Sem contar a vaidade de medir forças com as lideranças técnicas e anímicas do elenco.

Michael Carrick deve ser o interino até o final da temporada. Mesmo sem experiência no comando é possível recuperar a equipe em desempenho e resultados apenas com a mudança de ambiente. Carrick deve tentar trazer Pogba e outras estrelas para perto numa espécie de gestão compartilhada.

Sem Mourinho, o United passa a ser uma incógnita e esta é uma péssima notícia para o PSG. O adversário do maior campeão inglês nas oitavas de final da Liga dos Campeões agora não sabe mais o que poderá enfrentar daqui a pouco mais de dois meses.

Qualidade não falta a um dos elencos mais valiosos do planeta. Quando há desempenho, o peso da camisa tricampeã da Europa também pode pesar no mata-mata. O que parecia um confronto tranquilo para Thomas Tuchel, Neymar, Mbappé e companhia com um oponente em frangalhos nos aspectos técnico, tático e emocional agora é um enorme ponto de interrogação.

A primeira missão dos Red Devils é se recuperar na Premier League, já que a campanha é pífia e nem a tão aclamada solidez defensiva dos times de Mourinho se reflete nos números: 29 gols sofridos em 17 rodadas. A tendência é que Carrick faça o simples para resgatar a confiança e depois tentar deixar sua marca nesta bela oportunidade profissional.

Resta ao PSG monitorar o rival na Champions aproveitar o período de competições apenas na França para seguir ganhando corpo e Tuchel fazer experiências para a equipe se fortalecer até fevereiro. Sem Mourinho, o United pode ser bem indigesto.


Liverpool elimina Napoli com futebol no volume máximo
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André Rocha

Na penúltima rodada o PSG deu uma aula de fibra, comunhão com a torcida e estratégia pensada especialmente para um jogo grande e decisivo em casa. Derrotado, restava ao Liverpool se impor em casa diante do Napoli, então líder do Grupo C da Liga dos Campeões.

O time de Carlo Ancelotti entrou no Anfield Road pensando em jogar, desde a manutenção do 4-4-2 com Insigne formando a dupla de ataque com Mertens até a proposta de evitar as ligações diretas na saída da bola.

Mas foi empurrado para o próprio campo pelo time da casa com a essência da visão de futebol de Jurgen Klopp: intensidade máxima, pressão absurda no adversário com a bola em todo campo e volume ofensivo chegando na área adversária com o trio Salah-Firmino-Mané, mais os laterais Alexander-Arnold e Robertson e os meias Wijnaldum e Milner, protegidos por Henderson mais fixo à frente de Matip e Van Dijk.

Os Reds chegaram a ter 60% de posse jogando num ritmo alucinante, acelerando e simplificando os passes para chegar mais rápido na área do oponente. Diante de tamanho domínio, o gol único de Salah ganhando de Mário Rui e Koulibaly e aproveitando o erro do goleiro Ospina que “telegrafou” a saída da meta para cortar o cruzamento pareceu barato para o time italiano.

Napoli que adiantou suas linhas naturalmente na segunda etapa, mas com muitos erros técnicos e alguns jogadores sentindo nitidamente o peso do jogo, como Fabián Ruiz. Ancelotti trocou o meia espanhol, Mario Rui e Mertens por Ghoulam, Zielinski e Milik. Considerando o histórico dos times de Klopp, o 1 a 0 parecia pouco e o risco do desgaste chegar e o time acabar cedendo o empate era grande.

Mas era decisão e os jogadores deixaram tudo em campo. Só na reta final entraram Lovren, Fabinho e Keita nas vagas de Alexander-Arnold, Milner e Firmino. Com muita entrega e velocidade absurda nos contragolpes, com a bola sempre passando por Salah na referência, empilhou chances desperdiçadas. Mané perdeu dois gols feitos que poderiam ter definido o jogo e a vaga mais cedo.

Quase pagou nos acréscimos, quando Milik, no abafa, apareceu livre diante de Alisson. O brasileiro, porém, foi perfeito no movimento rápido e ampliando o próprio espaço para que a bola batesse em seu corpo. Defesaça do grande goleiro que fez falta na temporada passada.

No futebol não existe justiça. Mas foram 21 finalizações dos Reds contra apenas oito. Domínio sem controle e eficiência, já que foram só cinco conclusões no alvo. Mesmo errando tecnicamente à frente de Ospina, o Liverpool sobrou em espírito e entendimento do tamanho da partida e do que estava em jogo.

Com a segunda vaga do grupo, as chances de um novo duelo grande nas oitavas são enormes. Se repetir o futebol no volume máximo pisando fundo no acelerador, o atual vice-campeão do torneio deve dar trabalho para quem aparecer do outro lado no sorteio. Melhor para a Champions.

(Estatísticas: UEFA)


Ancelotti é o líder tranquilo que inspira Tite e Zidane e combina Pep e Mou
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André Rocha

“Antes de sua chegada ao Real, pensávamos que por ser italiano ele daria muito destaque a treinos táticos, mas os treinos começaram e nada de tática. Carlo dizia: “Com esse time, não preciso de muita tática. Quero marcar gols com esses jogadores’. Quando se tem essa mentalidade ofensiva, a ênfase deixa de ser dada à defesa”.

Palavras de Cristiano Ronaldo sobre Carlo Ancelotti no livro “Liderança Tranquila”, do próprio treinador italiano com Chris Brady e Mike Forde traduzido pela Editora Grande Área. Uma obra que trata fundamentalmente de gestão de pessoas e da importância da serenidade e da resiliência no meio insano que é o futebol.

Impossível não lembrar da tradicional “Oração da Serenidade”, do teólogo Reinhold Niebuhr: “Concedei-nos, senhor, serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguirmos uma das outras”.

Ancelotti não sofre com a pretensão de controlar tudo. Entende as particularidades de cada atleta, dirigente e subordinado e busca sempre um consenso. O meio termo. Equilíbrio.

Por isso Tite foi procurá-lo em Madrid no seu 2014 “sabático”. O técnico da seleção brasileira descreve brevemente na orelha do livro como foi sua experiência com Ancelotti e, ao contrário da visão de Cristiano Ronaldo, viu muita tática no Real Madrid que venceu “La Décima” e seria a referência para Zinedine Zidane, então seu auxiliar, a faturar de 2016 a 2018 o tricampeonato da Liga dos Campeões.

“Um time que atacava em 4-3-3 e defendia em 4-4-2. Era desafiador saber como ele havia montado uma equipe tão equilibrada, que vencia e encantava”, elogia Tite. Uma boa explicação vem justamente do treinador brasileiro em conversa com este blogueiro: “Ele circula com inteligência entre as ideias de Pep Guardiola e José Mourinho”.

Ancelotti monta equipes que sabem jogar com posse e em transições rápidas de acordo com a necessidade desde o Milan que venceu duas das três Champions que o técnico ostenta em seu currículo. Em 2007 montou o 4-3-2-1, a “Árvore de Natal” que protegia o “regista” Pirlo com os marcadores Gattuso e Ambrosini e dava liberdade a Kaká para ser a força de arranque no típico “contropiede” italiano para desequilibrar finalizando ou servindo Pippo Inzaghi. Tudo isso com o auxílio luxuoso de Clarence Seedorf. Um time histórico, assim como o Chelsea dos 103 gols marcados e campeão inglês na temporada 2009/10.

Foi jogador e discípulo de Arrigo Sacchi. Sabe usar o “pressing” e atacar com volume de jogo como Guardiola, mas se preciso é capaz de atropelar o Bayern do próprio treinador catalão nos 4 a 0 em Munique pela semifinal da Liga dos Campeões jogando à la Mourinho: recuando as linhas até a entrada da área, fazendo Bale voltar pela direita e abrir Di María à esquerda para se trancar num 4-4-2 guardando a meta de Casillas e pulverizar o time alemão nas saídas rápidas procurando Cristiano Ronaldo.

Mas abrindo o caminho na bola parada com Sergio Ramos. Vencendo com todas as armas possíveis. Gerenciando e dando confiança aos jogadores para tomarem as melhores decisões em campo. Sem forçar protagonismo, como se tudo fosse meticulosamente planejado e treinado antes. Como se o jogo não tivesse suas múltiplas improbabilidades e surpresas.

Assim comanda o Napoli que herdou de Maurizio Sarri. Mantendo o gosto pela posse de bola, mas adicionando velocidade, contundência e mobilidade, além da capacidade de competir em altíssimo nível. Assim lidera o duríssimo Grupo C da Champions com PSG e Liverpool e precisa de um empate em Anfield para eliminar os Reds de Jurgen Klopp, vice da edição passada.

Na liga italiana tem 76% de aproveitamento, mas é difícil concorrer com a Juventus heptacampeã e que em 14 rodadas faturou 95% dos pontos e já tem Cristiano Ronaldo como um dos artilheiros. Continua sendo bonito ver a equipe de Allan, Hamsik, Callejón, Mertens e Insigne, que com Ancelotti ganhou liberdade para sair da esquerda e se juntar à referência na frente formando uma dupla. Assim como CR7 no time merengue há cinco anos.

Carlo Ancelotti pode ser considerado o “pai” do futebol por demanda. Ainda que Jupp Heynckes tenha sido uma espécie de introdutor da ideia em 2013, ainda na dicotomia Pep x Mou, fazendo seu Bayern de Munique ser o rolo compressor que varreu a Alemanha e a Europa amassando os adversários ao se instalar no campo do oponente ou voando nos contragolpes com os ponteiros Robben e Ribéry para enfiar 7 a 0 no agregado sobre o Barcelona na semifinal continental.

Se hoje Guardiola procura ser um pouco mais direto e usar mais as jogadas aéreas com bola parada ou rolando no Manchester City; Simeone e Klopp tentam dosar a intensidade e ter mais a posse para controlar jogos, Mourinho parece parado no tempo exatamente por se manter preso ao velho pragmatismo, sem variações, e Zidane venceu tudo tão rapidamente como treinador é porque Ancelotti, discretamente, apontou o caminho. A pista do centro para chegar mais rápido e seguro ao destino.

Fuga dos extremos. Fundamental no futebol e na vida, ainda mais nestes tempos tão estranhos. “Liderança Tranquila” não é um tratado sobre coaching. Até porque Ancelotti deixa claro que não há um jeito certo para liderar. Existe a maneira de cada um. O italiano mostra dentro e fora de campo uma possibilidade de vencer e inspirar combinando ideias. Sem exageros e estrelismos. Apenas a justa medida.

 


Vitória de mata-mata do PSG sobre Liverpool passa pelos zagueiros de Tuchel
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André Rocha

Neymar e Mbappé conseguiram se recuperar para a decisão do Grupo C contra o Liverpool no Parc des Princes. E desde os primeiros minutos ficou claro que a preparação do Paris Saint-Germain pelo treinador Thomas Tuchel foi completa.

Na parte mental com concentração e intensidade máximas, chamando a torcida em vários momentos e até exagerando na fibra e entrega, como no carrinho desnecessário de Di María que derrubou Sadio Mané na área no final do primeiro tempo e a cobrança precisa de Milner deslocando Buffon recolocou os Reds no jogo.

Mas a mesma fibra foi essencial para sustentar a vitória por 2 a 1 na segunda etapa. Com dedicação de todos, inclusive Neymar que na maior parte do tempo voltou pela esquerda, ajudado pela formação mais conservadora de Jurgen Klopp, com Joe Gomez na lateral direita sem descer tanto e o ofensivo Alexander-Arnold no banco de reservas.

Ao recuperar a bola, o craque brasileiro atacava por dentro, se juntando a Mbappé e Cavani. Como no contragolpe rápido do segundo gol, trocando com o jovem atacante francês e completando rebote de Alisson – 31º na Champions, superando Kaká como maior goleador brasileiro no torneio. Mas também abrindo o corredor para Bernat, o lateral ofensivo que abriu o placar em aparição na área inglesa.

Mas a chave tática de Tuchel foi a preocupação mais que compreensível com o trio Salah-Firmino-Mané. Sem marcação individual, mas usando zagueiros para defender a própria meta. Kehrer na lateral direita contra Mané; Marquinhos como volante negando espaços a Firmino e Kimpembe fechando as diagonais de Salah da direita para dentro. Thiago Silva fazia uma espécie de sobra.

Sem riscos de vacilos de laterais ofensivos nas coberturas por dentro e volantes deixando brechas às costas. Muita atenção na execução do 4-4-2 sem bola. Perfeito entendimento de que era o jogo da vida.

Na segunda etapa, Liverpool mais ofensivo voltando ao 4-2-3-1 das últimas partidas pela Premier League com Shaquiri pela direita na vaga de Milner e adiantando Salah como centroavante e recuando Firmino, que depois deu lugar a Sturridge. Ainda Keita substituindo Wijnaldum.

Tuchel respondeu com Daniel Alves, Choupo-Moting e Rabiot nos lugares de Di María, outro a se dedicar voltando muito pela direita, Cavani e Mbappé. Para se reoxigenar e defender melhor. No geral, jogo equilibrado. Liverpool com 53% de posse, 80% de efetividade nos passes. Mas apenas sete finalizações, só o gol no alvo. O PSG concluiu 12, oito na direção da meta de Alisson, mesmo com 77% de acerto nos passes. Mais eficiência, inclusive no jogo aéreo. Também por aumentar a estatura com seus zagueiros na área do oponente.

Vitória fundamental para tentar confirmar a vaga fora de casa contra o Estrela Vermelha na última rodada e deixar para Liverpool x Napoli em Anfield a definição do grupo. O time francês se impôs com maior intensidade no primeiro tempo e a organização defensiva durante os 90 minutos diante de ataque tão poderoso – treinada na manhã da partida, segundo Thiago Silva em entrevista ao Esporte Interativo após a partida.

Méritos inegáveis de Tuchel e seus zagueiros numa vitória típica de mata-mata, mesmo na fase de grupos.

(Estatísticas: UEFA)


Ajustar seleção com Arthur, Coutinho e Neymar é o desafio de Tite para 2019
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André Rocha

Há um mito no Brasil de que basta escalar os melhores de cada posição que eles se entendem em campo. Vem dos tempos das “Feras do Saldanha” ou, pouco tempo depois, da Copa do Mundo de 1970. Com outra lenda, a dos “cinco camisas dez” – leia mais AQUI.

Mesmo há quase meio século não fazia muito sentido, já que no México o lateral Marco Antonio foi reserva de Everaldo, este menos qualificado tecnicamente, mas que defendia melhor e dava liberdade para Carlos Alberto Torres apoiar do lado oposto e os canhotos Gérson, Rivelino e Tostão podiam trabalhar ofensivamente pela esquerda.

Equilibrar setores e combinar características são justamente os grandes desafios de Tite na remontagem da seleção brasileira no novo ciclo até 2022. Mas que tem uma etapa decisiva no ano que vem com a disputa da Copa América em casa. Como sempre, tudo fica condicionado ao resultado final, sem avaliar evolução e potencial de crescimento.

Mas parece claro que o desempenho pós-Copa não foi dos mais empolgantes. Talvez em resultados: seis vitórias, 12 gols marcados, nenhum sofrido. 50% na bola parada, nove com participação direta de Neymar – seis assistências e três gols.

Em campo, porém, fica nítido que o encaixe das peças não é tão simples. Começando pelo novo titular do meio-campo: Arthur vai ganhando cancha internacional atuando pelo Barcelona e também minutos com a camisa verde e amarela para se soltar. É o jogador que dá o ritmo e o tempo do jogo, muitas vezes com passes para o lado e para trás. Faz sua equipe controlar pela posse, desde o período vitorioso no Grêmio.

Mas para completar o trio do setor com Casemiro é necessário um companheiro de estilo mais direto, com infiltração. Não é Renato Augusto, nem Paulinho. Fred tem características parecidas com as deArthur. Talvez Allan, novidade da última lista e que atuou assim contra Camarões. Perdeu duas boas chances, mas vai se soltando.

E Philippe Coutinho? Bem, este é mais um problema de ter atletas talentosos, porém com características parecidas e ocupando o mesmo espaço. No Barcelona se acertou justamente abrindo vaga para Arthur no meio e formando o ataque com Messi e Suárez. Exatamente na faixa deixada por Neymar que Dembelé não conseguiu ocupar.

Na seleção, Coutinho atuando por dentro oscila muito. É capaz de ajudar a equipe com um belo passe para gol, mas também deixar espaços às costas e sobrecarregar Casemiro, como aconteceu na Copa. Não parece à vontade, também por causa de Neymar.

O camisa dez e estrela máxima da seleção deixou de ser o atacante no Barça que recebia os passes e inversões de Messi e infiltrava em diagonal para se juntar a Suárez. No PSG essa função é de Mbappé. Neymar agora faz a do gênio argentino no ex-clube: ponta articulador. Recebe, conduz, dribla e aciona um companheiro em velocidade.

Com Tomas Tuchel na maioria das partidas da atual temporada se transforma mesmo em um camisa dez, com liberdade de ação e chegando de trás. Tite prefere Neymar partindo da esquerda, mas os movimentos são praticamente os mesmos. Agora ele procura mais a bola, não ataca tanto os espaços às costas da última linha de defesa do adversário. Carrega e passa ou corta para dentro e finaliza. Assim como Coutinho.

Soluções? Talvez mudar o desenho tático para o 4-2-3-1 e dar mais liberdade a um dos dois. Melhor Neymar, deixando Coutinho pela esquerda. Ou voltar à ideia do início do trabalho, deslocando Coutinho para o lado direito como ponta articulador, circulando e procurando as costas dos volantes do oponente. Só que agora seriam dois extremos cortando para dentro, afunilando a jogada. O mesmo se a opção for pelo canhoto Douglas Costa à direita.

Para compensar, só com profundidade dos laterais. A má notícia é que Danilo, Fabinho e Filipe Luís não têm como características a intensidade e a rapidez para fazer a ultrapassagem e cruzar do fundo. Nem Marcelo. Só Alex Sandro dos últimos convocados.

Então o Brasil roda a bola no ritmo de Arthur, toca, toca, toca…e dificilmente encontra o passe que clareia tudo, quebra as linhas de marcação e encontra o homem livre para servir ou concluir. É um time travado na maior parte do tempo. Lógico que há a questão mental, de ressaca da derrota para a Bélgica na Rússia, do desgaste da imagem da seleção, do treinador e do craque. Mas não é só isso que vem tornando os jogos enfadonhos, sonolentos.

A boa notícia é Richarlison. Atacante rápido, móvel e finalizador. Assim como Gabriel Jesus, procura os espaços para infiltrar, porém vivendo um melhor momento que o jogador do Manchester City. Firmino é mais um jogador de passe e que procura a bola para só depois acelerar. Como Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian…

Defensivamente os problemas parecem bem menores. Tite organiza e compacta bem os setores, a resposta com pressão depois da perda da bola é positiva e opções para goleiro e zaga não faltam. Para ficar ainda mais tranquilo só falta um reserva confiável para Casemiro. Por mais que Fernandinho renda no City de Guardiola o histórico na seleção joga contra.

Há qualidade, como quase sempre nas gerações brasileiras. O desafio de Tite é seguir com seu trabalho de estudo e observação, vendo partidas e treinos dos atletas nos clubes e fazendo experiências nos jogos. Esquentar o cérebro até montar o quebra-cabeças. Cada peça em seu lugar e todas funcionando para o time. Em função de Arthur, Coutinho e Neymar, os diferentes.

Sem fórmula mágica,  mas precisando de um “click” para fazer tudo fluir melhor a partir do ano que vem.


Lesões de Mbappé e Neymar podem abalar PSG, mas também futebol de seleções
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André Rocha

Neymar Jr. e Kylian Mbappé. As duas contratações mais caras da história do futebol. 400 milhões de euros despejados no mercado pelo Paris Saint-Germain. Para dar o salto na Europa e buscar o título da Liga dos Campeões.

Primeira temporada com os dois, liderança do grupo com Bayern de Munique, mas duelo contra o Real Madrid logo nas oitavas de final. 3 a 1 em Madri, lesão grave de Neymar e eliminação na volta para o time de Zidane que ganharia o tricampeonato europeu. Títulos na França, mas demissão de Unai Emery.

Plano refeito, vem Thomas Tuchel. Mas de novo o sorteio não ajuda, desde a fase de grupos. Com Napoli, Liverpool e ainda o Estrela Vermelha no Grupo C. Disputa parelha, como esperado. Na penúltima rodada, confronto entre PSG e os Reds no Parc des Princes. Com a equipe francesa em terceiro lugar, um ponto atrás de Napoli e Liverpool, um à frente da Estrela Vermelha. Necessidade absoluta de vitória.

Oito dias antes, amistosos na data FIFA. França, eliminada da Liga das Nações, contra Uruguai. Brasil, com Tite fazendo seis mudanças em relação à partida anterior, diante de Camarões. Partidas com alguma relevância para as seleções dentro do ciclo até 2022. Já para os clubes…

Duas lesões, do brasileiro no adutor, do francês no ombro. De difícil recuperação em prazo tão curto, ao menos em tese. Prováveis ausências das estrelas milionárias. Simplesmente no jogo que pode ser chave em 2018/19. Em caso de eliminação prematura na Champions a temporada perde o sentido na metade. Um prejuízo incalculável, não só financeiro.

Se o pior acontecer, o PSG terá todos os motivos para questionar o futebol de seleções. E certamente ganhará eco de outros clubes bilionários, que há tempos reclamam de expor seus atletas, cada vez mais valiosos, em partidas que fazem pouca diferença no calendário.

Será difícil defender as seleções. Caberá à Conmebol seguir o caminho da UEFA e criar uma competição como a Liga das Nações para dar algum sentido às datas FIFA e usar como “álibi” para não contar com seus jogadores apenas na Copa do Mundo, Eurocopa e Copa América.

Ou torcer para o PSG, mesmo sem Mbappé e Neymar, surpreender o mundo e superar o atual vice-campeão europeu.

 


Neymar na ponta não é mais atacante como CR7, nem tem a genialidade de R10
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André Rocha

Tite divulgou os convocados da seleção brasileira para os amistosos contra Arábia Saudita e Argentina em outubro e, na coletiva, voltou a falar sobre Neymar.

“Acompanhei as atuações recentes dele no PSG. São possibilidades táticas para potencializar o talento do Neymar. Vejo ele desequilibrante na esquerda, onde tem decidido pela Seleção. É o DNA dele no Santos, no Barcelona e na Seleção. Mas sem fechar conceitos como no jogo contra o México, que foi diferente desse desenho.”

Importante o treinador abrir o leque de opções para aproveitar seu talento mais desequilibrante, como tenta fazer Thomas Tuchel no time francês. Mas ainda mais fundamental é notar uma transformação silenciosa no estilo de jogo do camisa dez.

No Santos e no Barcelona, Neymar era um ponteiro finalizador. Com habilidade, rapidez e visão de jogo, mas essencialmente mirando o gol. Com Messi, Iniesta e mesmo Xavi em fim de carreira para pensar o jogo no time catalão, o brasileiro se comportava como atacante. Recebia mais próximo da área adversária e partia para finalizar ou concluir. Na última temporada jogou aberto, quase como um típico ponta fazendo todo o corredor esquerdo.

Mesmo sem a companhia de um grande armador de jogadas na seleção, Neymar também era mais atacante. No 4-1-4-1 de Tite, até recuava um pouco para trabalhar com os meio-campistas, mas os movimentos principais eram de condução, drible ou infiltração para dar o passe ou o toque final.

Como Cristiano Ronaldo no Manchester United e no início de sua passagem pelo Real Madrid. Sem comparações, obviamente. Só no comportamento que foi mudando com o tempo até o português se transformar no gênio da grande área do século XXI com eficiência maior em menos toques na bola. Atacante puro.

A ida para o PSG mudou a dinâmica de Neymar. Na composição do trio ofensivo, ele é quem tem mais perfil de meia para acionar Mbappé e Cavani. Ou seja, tem que ser o que foi Messi para ele no Barça. Ou o que Ronaldinho Gaúcho foi para Messi no início da trajetória do argentino.

Neymar não tem a objetividade de Messi. É mais artístico, como Ronaldinho. Não por acaso, referência e ídolo. Inconscientemente ou não, repete alguns movimentos característicos do “Bruxo”: recebe pela esquerda, conduz com o pé direito e define se tenta o drible na ponta ou corta para dentro e busca o lançamento ou a inversão de lado. Como esquecer as “pifadas” do melhor do mundo em 2004 e 2005 para Giuly, Eto’o e Messi?

A diferença é que Ronaldinho, além de mais genial, era forte e acertava nas escolhas das jogadas com mais frequência. Não caía com qualquer choque e sabia o momento de prender a bola. Neymar muitas vezes fica encaixotado pela esquerda e toca para o lado, para trás ou tenta o drible e perde a bola. Ou sofre a falta.

Na seleção, o problema se agrava muitas vezes pela falta de um atacante de profundidade pela direita e por dentro. No início da Era Tite, Philippe Coutinho era o ponta armador do lado oposto, depois foi para o meio e Willian virou titular. Nenhum dos dois tem como característica infiltrar em velocidade na diagonal. Roberto Firmino também é um jogador de toque curto, não de bola longa.

Talvez por isso Tite tenha trazido Gabriel Jesus de volta, mesmo com imagem desgastada pela Copa do Mundo e sem viver um bom momento no Manchester City, e dado mais uma oportunidade a Richarlison. Ambos chamam lançamentos e podem ser úteis no entendimento com este Neymar mais pensador.

Este que escreve, porém, segue com a leitura de que a liberdade que ganhou de Rogerio Micale na conquista do ouro olímpico há dois anos é a melhor solução. Ou a que tinha na reta final do trabalho de Mano Menezes em 2012. Quem sabe repetindo a dinâmica da vitória sobre o México citada pelo próprio Tite, quando Neymar ficou mais solto na frente, alternando com Firmino o posicionamento mais adiantado ou recuando para buscar espaços entre a defesa e o meio-campo do adversário. Assim prende menos a bola e não chama tanto a falta. Cria e conclui na mesma proporção.

Pela esquerda, Neymar ficou “manjado”. Principalmente em grandes jogos. Na derrota para o Liverpool na Liga dos Campeões, o brasileiro cresceu quando saiu da ponta e colocou sua criatividade a serviço da equipe. Limitá-lo a uma zona do campo é desperdiçar talento.

Nem máquina, nem mágico. O melhor Neymar é o leve, solto. Mas com “anarquia” na dose certa.

 

 

 


Firmino desequilibra quando o Liverpool cansava. Mais uma lição para o PSG
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André Rocha

O Liverpool tem uma vantagem essencial sobre o PSG antes mesmo do confronto entre as equipes na abertura da Liga dos Campeões: o time inglês se testa praticamente toda semana na Premier League no mais alto nível de competitividade, enquanto o Paris Saint-Germain muito eventualmente na Ligue 1 se depara com um rival que seja efetivamente um adversário mais complicado.

Na temporada passada, o time francês bateu um Bayern de Munique em crise ainda com Carlo Ancelotti, mas levou o choque de realidade na volta, com o time bávaro já sob o comando de Jupp Heynckes no encerramento da fase de grupos. Para nas oitavas da Champions cair para o campeão Real Madrid. A rigor, três desafios. Na temporada em que conquistou todos os títulos no país.

Mesmo com Roberto Firmino no banco e Sturridge no centro do ataque do 4-3-3 habitual da equipe de Jurgen Klopp, os Reds mostraram quase sempre um volume de jogo bem maior que o adversário no Anfield Road. Muita intensidade e superioridade numérica atacando e defendendo. Pressão logo após a perda da bola com a fúria de sempre.

Os laterais Alexander-Arnold e Robertson atacavam juntos e bem abertos para que os três atacantes ficassem mais próximos uns dos outros e da área adversária. Mais Wijnaldum chegando sempre, já que Klopp optou por Henderson à frente da defesa e deixou Keita no banco.

O PSG de Thomas Tuchel busca exatamente uma maior competitividade. Com um “discípulo” de Klopp e sucessor no Borussia Dortmund. Já melhorou no início da temporada, mas ainda não é o suficiente para encarar o vice-campeão europeu e 100% em cinco rodadas no campeonato inglês.

Justamente pela falta de prática. Questão de hábito. No 4-3-3 isolando muito o trio Mbappé-Cavani-Neymar do resto do time. Com Marquinhos à frente da defesa para evitar os espaços entre retaguarda e meio-campo. Sem sucesso, porém. Até pelo auxílio frágil de Rabiot e Di María.

O Liverpool abriu 2 a 0 com Sturridge em falha de Thiago Silva e no pênalti cobrado por Milner. Mas o PSG voltou para o jogo ainda na primeira etapa “imitando” o adversário ao chegar com muita gente no campo de ataque, inclusive os laterais Bernat, que cruzou, e Meunier, que finalizou diminuindo para 2 a 1.

Segundo tempo de domínio inglês, mas com um velho problema: o desgaste por conta de uma maneira de jogar com o pé fundo no acelerador o tempo todo, porém sem transformar o domínio em larga vantagem no placar. Foram 17 finalizações contra nove, oito a cinco no alvo. Também mais posse de bola, que chegou a bater em 60% e terminou com 52%. Pelo domínio dos rebotes mais que por conta do controle do jogo através dos passes. Mas cedendo espaços e baixando a guarda quando o gás começou a acabar.

Tuchel  colaborou trocando Cavani e Di María por Draxler e Choupo-Moting. Não só por reoxigenar o setor ofensivo, mas principalmente por dar liberdade a Neymar, novamente subaproveitado pela esquerda, e Mbappé sair da direita e assumir o comando do ataque. Com os dois na frente, o gol de empate da joia francesa.

O Liverpool dava sinal de esgotamento. Mas entrou Firmino, dúvida para o jogo depois do acidente no olho contra o Tottenham no fim de semana. Mesmo com a boa atuação de Sturridge, o ataque com o brasileiro ganha outro brilho. Não só pelo entrosamento com Salah e Mané, mas também pela inteligência na movimentação e os recursos técnicos.

Na individualidade, limpou Marquinhos e resolveu o jogo. Um trunfo desequilibrante da equipe que novamente parece mais pronta para chegar longe no maior torneio de clubes do planeta. Ainda mais com o elenco reforçado, equilibrado e sem os elos fracos de outras temporadas.

Os 3 a 2 são mais uma lição para o PSG. Difícil é colocar em prática o aprendizado contra os “sparrings” do seu quintal.

(Estatísticas: UEFA)