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Abel Braga pode ser o Renato ou Felipão do Flamengo, mas não basta querer
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André Rocha

Foto: Nelson Peres/Fluminense

O presidente eleito Rodolfo Landim disse que só pediu títulos a Abel Braga. Este afirma que escolheu o Flamengo porque tinha mais chances de ganhar. Marcos Braz é o novo vice-presidente porque esteve à frente do futebol rubro-negro na última conquista do Brasileiro, em 2009.

É compreensível a sede por taças e obviamente um currículo com experiências bem sucedidas sempre conta a favor. Mas nada garante pelo motivo simples e óbvio que o contexto de 2018 é diferente de tudo que já passou. O futebol mudou, a relação com a torcida não é a mesma por conta das redes sociais e, também por isto, a cabeça dos jogadores também é diferente.

A opção por um treinador mais vivido e bom gestor de pessoas tem relação direta com o sucesso recente de Renato Gaúcho no Grêmio e Luiz Felipe Scolari no Palmeiras. Comandantes de perfil “paizão”, que sabem dosar cobrança e proteção. Com história para alargar as costas e servir de escudo, enquanto os técnicos mais jovens costumam sucumbir ou balançar muito na primeira turbulência política ou de vestiário.

Os grandes obstáculos para os veteranos costumam ser os conceitos de jogo ultrapassados e os métodos de treinamento obsoletos. Não faltam relatos de bastidores de atletas batendo porta de vestiário ou até debochando na cara de técnico depois de um coletivo de onze contra onze à moda antiga, sem nenhuma intensidade. O jogador hoje sabe bem o que quer.

Renato Gaúcho encontrou em Alexandre Mendes e Felipão em Paulo Turra os auxiliares capazes de fazer essa espécie de “tradução” para o campo. Os técnicos traçam as estratégias no macro e no micro e sabem mobilizar o elenco. Os assistentes fazem acontecer em treinamentos estimulantes, com as devidas repetições e intensidade semelhante à do jogo.

Abel Braga tem Leomir, seu auxiliar há 20 anos. Difícil avaliar se a dupla terá a mesma capacidade de se reinventar no olho do furacão. Pedro Moreno, que comandou o Fluminense na última rodada do Brasileiro, chega para reforçar a comissão técnica do Fla, mas sem o mesmo status do assistente mais próximo.

Abel é observador e intuitivo. Em sua passagem pelo clube em 2004 teve boas sacadas, como Felipe na ponta-direita e Ibson saindo diretamente da base para titular no profissional. No Flu campeão brasileiro de 2012 puxava Thiago Neves do lado esquerdo para circular às costas dos volantes adversários. Dizia que não aceitava ter inferioridade numérica no meio-campo. Já em 2018, pelas circunstâncias, não abriu mão da linha de cinco na defesa, muito utilizada atualmente na Europa.

Em sua carreira já montou times ofensivos e mais reativos. Com elenco mais farto tem condições de montar uma equipe inteligente, que se adapte às necessidades de cada partida. Abel também foi o primeiro a ressaltar a necessidade de focar jogo a jogo no Brasileiro por pontos corridos. Sem metas até no curto prazo, o compromisso mais importante é sempre o próximo. Virou tendência.

O Flamengo não deve priorizar nada em 2019. Todos querem taças e o investimento da nova direção deve ser proporcional à “fome”. Abel tem cancha e até uma dose de malandragem para encarar a responsabilidade, mas tirando o peso desnecessário. Pode, sim, repetir Renato e Felipão sendo mais um veterano a se impor no mercado.

Mas ao contrário do que parece pensar Landim, não basta querer ou ter história para contar. É preciso ter um plano e também métodos para executá-lo. A experiência conta, mas não pode ser tudo. 2019 ainda é uma página em branco.


Na aula ou na praia, técnicos precisam decidir o que fazer com nosso caos
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André Rocha

Mano Menezes, Dunga, Tite, André Jardine, Zé Ricardo, Emily Lima e outros estão na sala de aula da CBF no curso de Licença Pro. Renato Gaúcho alterna com a praia. Vanderlei Luxemburgo prefere o poker. Ou criar polêmica com jornalistas no seu canal no Youtube. Afinal, segundo ele, se tivesse que aparecer em qualquer curso sobre futebol seria para ensinar. Nada para aprender…

Independentemente do que cada um faz nas férias, forçadas ou não, os treinadores no Brasil precisam encontrar respostas para um grande problema brasileiro. Um dilema, talvez. O que fazer com o nosso caos de todo dia?

O primeiro cenário caótico é o do calendário. Não dá para só ficar reclamando do excesso de jogos e do tempo escasso para pré-temporada e treinamentos ao longo do ano e usar como muleta ou álibi quando as coisas não acontecem e os resultados não aparecem. Ou se unem, buscam adesão dos jogadores, os mais afetados pelo desgaste no campo, e tentam mudar com greves, protestos, o que for possível…ou procuram soluções para minimizar os danos.

Que coloquem como condição, de preferência em contrato, a utilização de um time “alternativo” na grande maioria dos jogos do estadual. Reservas e jovens fazendo transição para o profissional. Tanto para diminuir o total de jogos na temporada dos titulares quanto para entrosar uma equipe que será útil quando as partidas de Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil ficarem “encavaladas” no segundo semestre.

Aí entra outro caos: o amadorismo dos dirigentes. Os mesmos que contratam medalhões para funcionarem como escudos ou dão oportunidades aos mais jovens para mostrarem que o clube está antenado, passando uma aura de moderno. Para demitir na primeira sequência ruim de resultados. É preciso criar mecanismos de proteção no momento da contratação, quando está com mais moral e o diretor pressionado pela torcida atrás do “salvador”.

Outra saída é regulamentar um limite de troca de treinadores por temporada. Assim esse ciclo de tentativa e erro, o “vamos ver no que vai dar”, sem critério ou planejamento, por ouvir falar, será interrompido. Haveria uma melhor avaliação do perfil do profissional de acordo com a tradição do clube e as características dos jogadores. Para evitar discrepâncias como Roger Machado no Palmeiras que tende a jogar um futebol reativo ou Jair Ventura no Santos com DNA ofensivo.

Mas é dentro do campo que a questão do caos se torna mais complexa. Porque os técnicos trabalham para minimizar as aleatoriedades inerentes ao esporte e ter maior controle do jogo sem a bola, mas dependem deste mesmo caos para atacar.

Ou seja, no trabalho defensivo a missão é compactar setores, sem brechas. Concentração máxima para pressionar o adversário com a bola, fechar linhas de passe e cuidar das coberturas e dos movimentos coletivos para garantir superioridade numérica no setor em que está a bola e proteger o “funil”. Racionalidade absoluta para se organizar e evitar a “bagunça”.

Já com a bola é o inverso. Tudo fica entregue ao talento do jogador para passar, infiltrar, driblar e finalizar. Natural, é assim no mundo todo. Só que por aqui não há a preocupação de pensar na maneira de atacar para potencializar essa qualidade. Fazer com que o mais habilidoso tenha apenas um marcador pela frente.

Isso só acontece nos contragolpes. Quando o oponente cede o espaço depois que a bola sai da pressão logo após a perda e a defesa fica mais exposta. Um drible em velocidade e o caminho está aberto. Mas como, se o adversário está cada vez mais preocupado em não ceder esse campo?

Nossa tradição é de deixar as ações ofensivas para as iniciativas individuais. Muricy Ramalho até hoje, como comentarista, afirma que o treinador só deve intervir quando não há qualidade ou quando esta não está aparecendo. Seu Santos campeão da Libertadores vivia fundamentalmente dos lampejos de Neymar.

Não é só o Muricy. Nem vem de hoje essa mentalidade. O futebol brasileiro dos coletivos de onze contra onze e de jogadores que passavam uma carreira inteira no mesmo clube construía as jogadas combinadas pelo entrosamento natural de anos atuando juntos. Os próprios atletas tinham suas jogadas ensaiadas. O trabalho coletivo acontecia pela repetição, não por um estímulo.

Agora os elencos mudam o ano todo. Entradas e saídas, encontros e despedidas. Muitas contratações e vendas na janela europeia, justamente quando a temporada afunila e os jogos quarta e domingo obrigam o que acabou de chegar a se readaptar ao jogo daqui e se entender com os novos companheiros em jogos decisivos. Loucura.

Então um time deixa a posse de bola para o adversário, que não sabe o que fazer com ela além de acionar o melhor jogador da equipe. A única forma de diminuir o caos atacando é na bola parada. Cada um no seu lugar, movimentos ensaiados. Ainda assim, depende de onde a bola cai, como o oponente está posicionado, aonde vai cair o rebote, etc.

Não é apenas questão de dinheiro, da venda cada vez mais precoce de nossos talentos e da partida até dos mais velhos que se destacam, mesmo para centros periféricos como China, mundo árabe, etc. É também de falta de ideias. As semanas cheias quando só resta o Brasileiro, mesmo quando o elenco está menos sujeito a baixas, não costumam gerar avanços na execução do modelo de jogo.

O tempo faz os adversários estudarem melhor as ações de ataque mais efetivas, otimizarem o trabalho defensivo. É quando falta repertório para quem se propõe ou precisa atacar, seja pelo mando de campo, peso da camisa ou pressão da torcida. Não dá para viver de contra-ataque e bola parada.

Eis o desafio dos treinadores. Com ou sem licença ou diploma. Estudando ou no ócio criativo. É urgente que nosso jogo seja tão sentido quanto pensado. Não pode ser só raça, fechar a casinha, bola no craque do time e seja o que Deus quiser. O jogo evoluiu, com e sem a bola. Chegou a hora das soluções, porque as desculpas já conhecemos.


Quem com drone fere, com rádio será ferido
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André Rocha

“O mundo é dos espertos”

A ação do Grêmio junto à Conmebol para tentar transformar o ato irregular do treinador Marcelo Gallardo – suspenso e utilizando dentro do estádio um rádio para se comunicar com o auxiliar à beira do campo e ainda aparecendo no vestiário durante o intervalo para dar instruções –  em perda dos pontos do River Plate foi legítima. Mas já era esperado que não daria em nada.

Porque o clube argentino sabe da conivência da entidade máxima do futebol sul-americano. Tinha certeza da impunidade. Ou de uma pena branda apenas para Gallardo e ainda passível de recurso, liminar, etc.

Uma imoralidade. Tão grande quanto invadir o treino fechado de um adversário com recurso tecnológico recente e, portanto, sem regras para punir o clube espião. É bem provável que o Grêmio vencesse o Lanús na final do ano passado sem necessidade do drone filmando as jogadas ensaiadas do time argentino, mas a prática não foi das mais éticas. Renato Gaúcho chamou de “esperteza”, depois se corrigiu e mudou para “inteligência”.

O que incomoda é que só gritamos contra o vale tudo quando ele nos prejudica. No futebol, na política, na reunião de condomínio. O desprezo ao politicamente correto é quase revolucionário quando nós somos os “malandros” da história. Se perdemos é “tudo armado” e viramos os bastiões da moralidade. Se ganhamos deixamos apenas o “chora mais” para os derrotados.

É bem provável que este texto seja alvo da ira dos gremistas. Como fizeram com a ótima Gabriela Moreira, da ESPN Brasil, que apenas fez o seu trabalho investigando o uso do drone. Está na moda no Brasil tentar calar a voz de quem pensa diferente. Ofender, perseguir, ameaçar até que o silêncio do lado oposto venha trazer alívio ao inconsciente que grita que estamos indo para o precipício moral. Uma sociedade doente.

A vida segue com o River Plate na final da Libertadores e o Grêmio protestando e colocando em dúvida a idoneidade da Conmebol, do clube argentino e de seu treinador. Com toda razão. O problema é não se olhar no espelho. Para o próprio rabo. Essa reflexão que nunca chega.

Quem com drone fere, com rádio será ferido.

 


A virada improvável do River Plate em um jogo aleatório que puniu o Grêmio
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André Rocha

Partida decisiva, tensa, com muito em jogo é cada vez mais decidido com força mental e individualidades. Mas a improvável e histórica virada do River Plate sobre o Grêmio não seguiu exatamente este roteiro.

O time do suspenso Marcelo Gallardo, comandado à beira do campo por Matias Biscay, dominou inteiramente o primeiro tempo. Com os laterais Montiel e Casco adiantados e arrastando Ramiro e Alisson, o que deixava o Grêmio sem desafogo no contragolpe com Jael na frente e Cícero próximo como o meia mais adiantado do 4-2-3-1. Dois jogadores mais lentos. A ausência de Luan pesou.

Já os argentinos ocupavam o campo de ataque, com Pratto circulando às costas de Maicon e Michel e Borré mais adiantado buscando as jogadas em profundidade. Alimentados por Palacios, Quintero e Fernández. 62% de posse e 12 finalizações, mas apenas uma na direção da meta de Grohe. O time gaúcho também só acertou o alvo uma vez. Com Léo Gomes no rebote de um escanteio cobrado por Alisson. Com dois desvios para sair do alcance de Armani.

Tudo parecia conspirar novamente a favor da equipe de Renato Gaúcho. Inclusive uma substituição de Gallardo que piorou o desempenho coletivo do River. Não a de Ponzio por Enzo Pérez ainda no primeiro tempo, mas a saída de Fernández para a entrada de Gonzalo Martínez na volta do intervalo. Mudança que alterou o comportamento dos laterais, que ficaram mais contidos.

Já Renato ganhou o escape para explorar os espaços às costas da defesa avançada do adversário. Mas Everton Cebolinha, que entrou na vaga de Maicon, perdeu à frente de Armani. Era a bola do jogo e da vaga. Mas nada fazia crer que uma remontada seria possível.

Porque o River perdeu ainda mais organização com Scocco no lugar de Quintero e partiu para o desespero. Na bola parada, gol de Borré – legal, já que a bola bate na cabeça do atacante e depois toca acidentalmente no seu braço, mas sem um desvio que interferisse diretamente. A disputa ficou mais tensa, a torcida gremista apoiou e o time parecia mais confiante e seguro.

Mas veio o lance só notado pelo VAR. É claro o toque no braço de Bressan – substituto de Paulo Miranda, um dos melhores em campo. O problema é a interpretação que ficou nebulosa com as novas orientações da FIFA. O movimento foi natural? O zagueiro brasileiro não estava próximo do chute de Scocco, a ponto de não ter como tirar o braço?

O árbitro Andrés Cunha preferiu marcar pênalti, convertido por Martínez. Será questionado pelos derrotados, até pela baixa credibilidade da Conmebol. Duro golpe para o atual campeão sul-americano em uma disputa equilibrada nos 180 minutos da semifinal. Em Porto Alegre, a aleatoriedade que torna o futebol ainda mais apaixonante puniu o Grêmio.

(Estatísticas: Footstats)


A vitória gigante do Grêmio “camaleão” com dez dedos de Renato Gaúcho
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André Rocha

O futebol mundial caminha para a versatilidade total. Ou seja, equipes capazes de se adaptar às circunstâncias de cada momento de uma partida. Que não sejam apenas posse ou só transição. Porque vai precisar ocupar o campo de ataque e no outro de velocidade para explorar espaços às costas da defesa adversária.

O Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo tricampeão da Champions foi o exemplo mais bem acabado desta tendência. Outras equipes e técnicos buscam o mesmo caminho, cada um com sua identidade, mas se ajustando com inteligência.

No Brasil e na América do Sul, um time começa a dar os primeiros passos nesta direção. A atuação do Grêmio no Monumental de Nuñez foi de uma equipe que essencialmente gosta de controlar com a bola, mas pelo contexto, inclusive ausências importantes, teve como maior virtude a concentração absoluta no trabalho defensivo.

Venceu o River Plate no jogo de ida da semifinal da Libertadores negando espaços e oportunidades cristalinas do adversário e decidindo na bola parada. Com Michel, o volante entre as linhas de quatro que tinham Ramiro, Maicon, Cícero e Alisson atrás de Jael, o único atacante. Sem Luan e Everton, as grandes estrelas.

A equipe de Marcelo Gallardo, invicto no torneio continental, foi simplesmente encaixotada. O tricolor gaúcho impediu a circulação de bola, cortou circuitos entre Palacios, Quintero e Martínez com Borré e Scocco. Quando surgia uma brecha, Geromel e Kannemann conseguiam bloquear as finalizações. E ainda tinha Marcelo Grohe para garantir.

Com a bola, autoridade de campeão e um jogo mais vertical. Mas com Maicon ditando o ritmo quando necessário. Explorando especialmente as brechas entre os cinco jogadores mais adiantados e o já desgastado Ponzio. Dez finalizações contra oito do time da casa. Com apenas 38% de posse. Vinte desarmes corretos, cinco interceptações.

Uma enorme força mental aliada à organização. Méritos totais de Renato Gaúcho. Cada vez mais líder e estrategista. Conscientemente ou não, antenado ao que há de mais atual no futebol. Um time “camaleão”, que lê o cenário e se adapta. Uma vitória com dez dedos de Renato Gaúcho, muito perto de sua quinta final de Libertadores, a terceira como treinador.

(Estatísticas: Footstats)


Palmeiras de Felipão é versão aprimorada do campeão brasileiro com Cuca
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André Rocha

Everton faz uma falta tremenda ao Grêmio. É o desafogo dos contragolpes, o ponteiro do drible que desarticula o sistema defensivo adversário. Da infiltração em diagonal para a finalização. Um desfalque imenso para uma partida do tamanho do confronto fora de casa contra o líder do campeonato.

Mas convenhamos que por mais que se dedique e reforce o discurso de que a competição por pontos corridos é importante, a concentração e a intensidade do Grêmio no Brasileiro nunca é a mesma em relação à Libertadores. É cultura, assimilada por Renato Gaúcho, maior ídolo da história do clube, e por seus comandados.

Nada disso, porém, tira os méritos dos 2 a 0 do Palmeiras no Pacaembu. Uma atuação segura, sólida, que permitiu apenas três finalizações do atual campeão sul-americano. Nenhum no alvo. O Alviverde concluiu sete, cinco na direção da meta de Paulo Victor. Nem tanto assim, mas o jogo todo deixou a impressão de que poderia marcar mais gols, mesmo com apenas 40% de posse.

Porque Luiz Felipe Scolari e sua comissão técnica conseguiram fazer o elenco assimilar a proposta de jogo rapidamente e com muita precisão, aditivada pela confiança por conta dos bons resultados. A ponto de poder mesclar cada vez mais titulares e reservas sem queda de desempenho por falta de entrosamento.

Contra o Grêmio, a maior virtude foi a concentração no trabalho sem bola. Depois do sucesso no duelo com o Colo Colo pelas quartas de final da Libertadores, Felipão resolveu seguir apostando na marcação por encaixe. Diante do time de Renato Gaúcho, que no país é quem trabalha no modelo mais próximo do jogo de posição, com toques curtos e mobilidade em pequenos espaços, as perseguições nem precisavam ser tão longas, o que costuma desarrumar mais os setores.

Os duelos, então, ficavam bem definidos: Dudu e Willian voltavam com os laterais Leo Gomes e Marcelo Oliveira, Thiago Santos pegava Luan, Moisés bloqueava Maicon, Bruno Henrique batia com Cícero. Mayke esperava Pepê, o mesmo do lado oposto com Diogo Barbosa contra Alisson. Zagueiros Luan e Gustavo Gómez cuidavam de Jael. Na frente, Deyverson incomodava Geromel e Bressan.

O gremista que recebia a bola era imediatamente pressionado por seu marcador. Nas tentativas de triangulação, quase nunca o Palmeiras permitia o terceiro homem livre – ou seja, aquele que se desmarca e vai receber a bola mais à frente. Impressionante como o time da casa permaneceu ligado durante os noventa minutos.

Bola retomada, muitas ligações diretas. Foram 44 lançamentos na partida. Quase sempre buscando Deyverson no pivô ou Dudu na velocidade. Não por acaso, os dois melhores em campo. Um desequilibrou com gols, outro como o ponteiro que Everton costuma ser para o Grêmio. O centroavante finalizou três vezes, duas no alvo. Nas redes.

O camisa sete, melhor em campo, foi quem mais acertou dribles e passes para finalizações. Cruzou para Deyverson desviar para o primeiro gol. Ganhou da defesa e rolou para Bruno Henrique chutar e Cícero salvar quase sobre a linha. Apesar de ainda insistir muito nas reclamações com a arbitragem, já é candidato a grande destaque individual do campeonato.

Marcação por encaixe, perseguições individuais, ligações diretas, concentração, Dudu desequilibrando. Tudo isso lembra demais a trajetória que terminou com o título em 2016. Sob o comando de Cuca. Campanha fantástica no segundo turno, outra semelhança.

Só que o time de Felipão, pelo menos até aqui, parece uma evolução daquele Palmeiras. Que tinha o talento de Gabriel Jesus, mas nem sempre um pivô como Deyverson para reter a bola e contribuir para o volume ofensivo. Mais leve, sem o peso dos 22 anos sem título brasileiro e o clima tenso que Cuca costuma criar na gestão do elenco, o jogo flui melhor.

Conta também, e muito, o elenco mais qualificado e homogêneo que o de dois anos atrás. Para vencer o Grêmio e praticamente tirá-lo da briga pelo título. Com os 3 a 1 do Internacional sobre o São Paulo no Beira-Rio, sobram três reais candidatos à principal competição nacional. Os dois vencedores das partidas mais importantes do domingo e mais o redivivo Flamengo de Dorival Júnior.

A menos que surja um “fato novo”, a única possibilidade de queda do líder é o contexto da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors e de uma possível decisão continental interferir muito nas rodadas de fim de semana. Hoje parece improvável. Mais fácil os outros dois tropeçarem na ansiedade por taças.

Favoritismo absoluto do Palmeiras, maior que os três pontos de vantagem na tabela sobre o Inter. Returno de oito vitórias e dois empates, 16 gols a favor e apenas cinco contra. Praticamente imune a desfalques, com confiança no teto e tratando o Brasileiro sem obsessão. Não é a prioridade, mas parece ser levado cada vez mais a sério faltando nove rodadas.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio x River deveria ter sido a final de 2017. Agora será duelo gigante
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André Rocha

Renato Gaúcho repetiu na Arena do Grêmio o trio ofensivo do jogo de ida com Alisson e Everton nas pontas e Luan como falso nove. Mas sem Ramiro e Maicon mudou o desenho tático. Alinhou Matheus Henrique e Cícero à frente da defesa e deu liberdade a Thaciano num 4-2-3-1.

Com o meio-campo tão mexido, o time gaúcho sofreu um pouco no início contra um Atlético Tucumán obrigado a adiantar as linhas, porém mais organizado que no jogo em casa. Os argentinos terminaram o primeiro tempo dividindo a posse de bola e finalizando oito vezes, mas apenas duas no alvo.

O Grêmio foi mais eficiente: concluiu nove, quatro no alvo. Duas nas redes. Com Léo Moura como protagonista. Cruzamento na segunda trave, toque de Thaciano e gol de Luan. Depois iniciando a jogada que terminou no passe de Luan para Alisson disparar e sofrer pênalti do goleiro Lucchetti, que acabou expulso com auxílio do VAR. A cobrança precisa de Cícero resolveu o jogo e, dobrando a vantagem conquistada na ida, definiu o confronto já no primeiro tempo.

Na segunda etapa, com um homem a mais foi um passeio em ritmo de treino, com gol contra de Sánchez em finalização de Alisson e o time perdendo outras boas chances até marcar no último ataque em outro pênalti sofrido e convertido por Jael.

Quatro a zero para impor ainda mais respeito. Como esperado desde a definição do confronto, o Grêmio sobrou. Ataque mais positivo com 22 gols, apenas cinco sofridos. Líder do torneio na posse, na troca de passes e nas finalizações. 100% de aproveitamento em casa nesta edição. Encontra equilíbrio na hora de decidir.

Semifinal contra o River Plate. Equipe forte com trabalho consolidado do treinador Marcelo Gallardo. Desde 2014, com títulos da Sul-Americana e Libertadores. Também semifinalista no ano passado. Domínio absoluto no Monumental de Nuñez diante do Lanús: 59% de posse, 12 finalizações contra apenas duas. Nenhuma no alvo do time visitante. Mas só 1 a 0 no placar. Na volta, o Lanús dominou a posse, com 62%, mas novamente finalizou menos – 11 a 8 para o River, cinco no alvo para cada lado. Quatro gols contra apenas dois do então finalista inédito.

A equipe de Gallardo foi superior nos 180 minutos, mas pagou pela falta de contundência, especialmente em seus domínios. O Grêmio nada tinha com isso, dominou a decisão vencendo os dois jogos com autoridade e garantiu o tricampeonato sul-americano.

Vai buscar o tetra enfrentando outro gigante três vezes campeão. Definindo em Porto Alegre a vaga na decisão. Duelo saturado de tradição. O Estudiantes eliminado nas oitavas tem quatro taças no currículo, mas vive fase de transição. O River, não. Comprovou sua força eliminando o Independiente “Rei de Copas” e campeão da Sul-Americana. Parece mais maduro desta vez. Time de Scocco, Pratto, Quintero, Ponzo, Nacho Fernández…

Na teoria, o maior desafio da jornada épica do time de Renato Gaúcho, digna de roteiro de filme, desde setembro de 2016. Devia ter sido a final do ano passado, agora é confronto de difícil prognóstico. Mas com um favorito: o atual campeão.

(Estatísticas: Footstats)


Grêmio muda time, esquema, modelo…só não perde a “casca” na Libertadores
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André Rocha

Sem centroavante disponível para o jogo de ida pelas quartas de final da Libertadores, Renato Gaúcho decidiu resgatar a ideia de Luan como “falso nove”, abandonada desde a grave lesão de Douglas em 2017. Armou um 4-3-3 com Ramiro no meio-campo, abrindo vaga pela direita para Alisson. Com Everton na esquerda, o ataque tinha pontas para acelerar e buscar as infiltrações em diagonal.

No entanto, mesmo para o atual campeão sul-americano e com trabalho de dois anos consolidado, não é simples mudar um padrão. O Grêmio sofreu no primeiro tempo do Monumental José Fierro contra um Atlético Tucumán intenso e que atacava como se não houvesse amanhã e nem a partida de volta. Trunfo de uma equipe fortíssima em seus domínios – não perdia desde março.

Tanto volume que impôs superioridade na posse sobre um time que preza o controle da bola. Mas a equipe gaúcha não se perdeu. Controlou espaços e esperou a hora de acelerar as transições ofensivas. O primeiro gol em mais um momento inusitado para o Grêmio: bola longa de Maicon, toque de Cícero vencendo a disputa pelo alto para servir Alisson.

A expulsão de Gervásio Núñez com auxílio do VAR por pisar em Alisson caído no gramado esfriou time e torcida. O Grêmio até avançou as linhas, mas definiu mesmo no passe longo de Léo Gomes para Alisson dar assistência e Everton marcar seu quinto gol no torneio continental.

O tricolor gaúcho, criticado tantas vezes na temporada pela posse de bola estéril, terminou com 48% e finalizou menos que o oponente, mesmo com um a mais durante boa parte do segundo tempo: oito contra treze, mas cinco no alvo. Duas nas redes.

A objetividade também tem sua beleza. E o Grêmio venceu bonito na Argentina. Encaminha bem demais a classificação para a nona semifinal. Porque pode mudar escalação, sistema, até o modelo de jogo. O time de Renato Gaúcho só não perde a “casca” na Libertadores.

(Estatísticas: Footstats)


Internacional e Palmeiras vencem clássicos “típicos” e ganham uma rodada
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André Rocha

Beira-Rio e Allianz Parque foram os palcos dos grandes clássicos da 24ª rodada do Brasileiro. Mesmo prejudicados pelo Grêmio muito desfalcado e o Palmeiras seguindo seu roteiro de colocar mais reservas em campo no fim de semana quando tem jogo de mata-mata em seguida.

Duelos que seguiram o roteiro da maioria dos clássicos e jogos decisivos no país: muita concentração defensiva, jogo simples para minimizar erros e não correr riscos, disputa física com jogadores pilhados para mostrar aos torcedores que estão ligados e, claro, pressão nas arbitragens. Ou seja, seguindo velhos discursos: “clássico não é para jogar, mas para vencer” e “será decidido nos detalhes, quem errar menos sairá com os três pontos”.

Em ambos, times sem muita ambição e mais preocupados com o trabalho defensivo no primeiro tempo. Mesmo para quem tomava a iniciativa e ficava com a bola – inicialmente os times da casa. Compreensível para o Corinthians que estreava Jair Ventura na casa do rival e buscava um reequilíbrio. Ou, no popular, “fechar a casinha”.

Vitórias dos mandantes que souberam se impor. O líder Internacional manteve sua proposta de jogo, alternando Nico López e William Pottker pelas pontas no 4-1-4-1 habitual, ora ocupando o campo de ataque, ora negando espaços ao maior rival. Até Uendel, substituto do suspenso Iago, colocar na cabeça de Edenilson e decidir.

Porque faltou ao Grêmio de Renato Gaúcho o “punch” de outros momentos. Muito pelas ausências de Kannemann, na seleção argentina, e Maicon por lesão. Também da velocidade e do drible de Everton, a serviço de Tite. Sobraram a fibra do campeão da Libertadores e a boa surpresa do meia Jean Pyerre, que entrou na vaga de Luan deu trabalho a Rodrigo Dourado e Marcelo Lomba. Foram 55% de posse e 12 finalizações contra nove do Colorado, três para cada lado.

Triunfo simbólico para comprovar a força da equipe de Odair Hellmann e tirar a má impressão do empate sem gols com os reservas do Palmeiras na primeira partida em casa contra os times na ponta da tabela.

Até porque a formação que Luiz Felipe Scolari manda a campo no Brasileiro também vai se impondo na autoridade da transformação anímica no clube com a chegada do treinador ídolo e multicampeão. Com Weverton no gol, Felipe Melo no meio e Dudu na frente. Mas usando o fator campo para acuar o rival.

Thiago Santos e Felipe Melo mais fixos liberando Lucas Lima e os laterais Marcos Rocha e Victor Luís. Passes longos, Deyverson no pivô retendo a bola ou partindo para a conclusão. Dudu e Hyoran alternando pelos flancos e buscando as infiltrações em diagonal. Jogo direto, eficiente e que vai desgastando o adversário.

Ainda mais o Corinthians em transição, abalado e que só queria retomar a solidez sem a bola. No 4-2-3-1, com Romero pela esquerda tentando acompanhar Marcos Rocha, que aparecia nas ultrapassagens e também nas cobranças de lateral diretamente na área adversária. Na segunda etapa, a entrada de Moisés no lugar de Thiago Santos deu ainda mais volume ao Alviverde.

Até o passe de Marcos Rocha para a finalização de Deyverson. A mais precisa das 12 do Palmeiras contra apenas quatro do atual campeão brasileiro – nenhuma no alvo. Mesmo verticalizando o jogo quase o tempo todo, o time da casa terminou com 54% de posse. Controlou bem a partida dentro do contexto.

Dudu foi o destaque, com cinco finalizações, um chute no travessão em bela jogada individual e levando vantagem principalmente quando aparecia pela esquerda contra o inseguro Mantuan. Muito diferente do jogador inconstante dos tempos de Roger Machado. Mais um ponto para Felipão.

Mais três para Inter e Palmeiras. Em jogos mais pegados que jogados. Clássicos “típicos”. Vencidos pelas equipes em alta que souberam aproveitar o mando de campo para não deixar o São Paulo retomar a liderança. Ganham uma rodada na busca do título.

(Estatísticas: Footstats)


Volta do Grêmio titular salva mais um Brasileiro “água de salsicha”
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André Rocha

Sim, o São Paulo foi heroico sem Nenê e Everton no quarteto ofensivo e perdendo Diego Souza expulso ainda no primeiro tempo contra o Fluminense no Morumbi. Na fibra conseguiu o empate com Tréllez, o reserva que já descomplicou outras partidas e é mais um recurso de Diego Aguirre.

Está com jeito de campeão e Internacional e Flamengo, os concorrentes principais no momento, aumentam essa impressão deixando pontos pelo caminho e falhando em partidas em que deviam confirmar a força na disputa. Mais Palmeiras e Cruzeiro ainda envolvidos com Copa do Brasil e Libertadores.

Para os são-paulinos, o cenário é maravilhoso. E há muitos méritos do time em um clube gigante sem conquistas relevantes há tanto tempo. Especialmente na personalidade e na força mental. Se protagonizar o sétimo título do tricolor do Morumbi não é justo colocar ressalvas ou asteriscos – a menos que algo excepcional aconteça neste returno.

Mas o rendimento é o mais do mesmo da “água de salsicha” que tem sido as últimas edições do Brasileiro. Ainda mais com as competições mata-mata sendo disputadas o ano todo. Calendário inchado, pouco tempo para treinar, pressão por resultados imediatos, torcidas insanas nos estádios e redes sociais. É pensar no próximo jogo da competição tratada como prioridade. Fazer o simples sem muita margem de evolução.

A exceção é o Grêmio. Mesmo com oscilações ao longo da temporada e a dura adaptação à perda de Arthur para o Barcelona, o time de Renato Gaúcho continua jogando, na média, o melhor futebol do país. Trabalho menos longevo que o de Mano Menezes no Cruzeiro, porém mais assimilado e conseguindo manter o rendimento acima dos demais.

É o único capaz de proporcionar espetáculos como os 4 a 0 sobre o Botafogo. Sim, adversário frágil em Porto Alegre. Mas quantas vezes os demais concorrentes envolveram com tanta facilidade os oponentes mais fracos e ainda brindando o público com belas tabelas, triangulações e dribles?

Maicon assumindo a organização, Luan encontrando espaços entre a defesa e o meio-campo adversários – mesmo sem a fase de melhor da América em 2017. Na frente, enfim Jael se firmando como titular e Everton Cebolinha como o elemento desequilibrante partindo da esquerda para criar e finalizar. Alta posse de bola, ocupação do campo de ataque, mas também com solidez defensiva. Subiu para o quinto ataque mais positivo e segue como a equipe menos vazada.

Caiu na Copa do Brasil para o Flamengo, sim. Sendo inferior aos rubro-negros nos 180 minutos, mas tendo períodos de domínio e colocando o adversário em risco. Sem abrir mão da sua maneira de jogar que nos melhores momentos combina beleza e eficiência como nenhum outro no Brasil.

É claro que há outros times em ascensão e que merecem ser lembrados, como o Atlético Paranaense de Tiago Nunes e o Santos de Cuca. Mas com outros objetivos no campeonato. Há pouco ficar longe do Z-4, agora alcançar o G-6. Difícil sonhar mais alto que isso.

O Grêmio está a seis pontos do São Paulo faltando 16 rodadas. Diferença perfeitamente reversível, mas com a Libertadores como obsessão do clube e  boas possibilidades de eliminar o Tucumán para chegar às semifinais, a falta de foco e a utilização de reservas em jogos importantes devem tirar o fôlego para uma arrancada. Só se os suplentes encaixarem bons jogos nesses hiatos. Fica mais difícil com a competição afunilando, momento em que times lutando para não cair dão a vida por pontos.

Tudo é risco e a competição tratada como prioridade não é fácil de vencer. Pode até terminar o ano apenas com as conquistas do Gaúcho e da Recopa Sul-Americana e ver um Cruzeiro ou Palmeiras como o time do ano faturando as taças no mata-mata. No país do futebol de resultados talvez falem até em “fracasso”.

Ainda assim, seguirá ostentando o futebol mais agradável às retinas. A salvação até aqui de mais um Brasileiro achatado por baixo em técnica e tática.