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Dorival Júnior, exclusivo: “Flamengo é um time pronto para grandes títulos”
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André Rocha

Foto: Getty Images

11 jogos, sete vitórias, três empates e uma derrota. 24 pontos conquistados. 72% de aproveitamento, acima dos 69,4% do campeão Palmeiras. Se contarmos o tempo em que trabalhou efetivamente, depois da estreia no empate contra o Bahia em Salvador um dia depois da confirmação como novo treinador, o aproveitamento de Dorival Júnior no Flamengo sobe para 77%. Atuações consistentes com a oscilação de desempenho no único revés, diante do Botafogo.

Contra o Atlético Paranaense no Maracanã encerra sua segunda passagem pelo clube, ao menos na gestão Bandeira de Melo. Sem a conquista almejada, porém com um novo patamar no mercado. Que corre por fora, mas com Renato Gaúcho renovando com o Grêmio e Abel Braga aberto a propostas de Santos e outros clubes, pode ser a solução “caseira” da chapa vencedora das eleições no dia oito de dezembro.

O rendimento da equipe e a gestão de grupo, recuperando jogadores como Willian Arão e a personalidade para enfrentar Diego Alves e convencer Diego Ribas, Everton Ribeiro e Lucas Paquetá a ficarem no banco e colaborarem são credenciais importantes para as metas a partir de 2019.

Esses são os principais pontos abordados nesta entrevista exclusiva para o blog, além de sua visão crítica sobre o futebol praticado no Brasil em relação aos grandes centros.

 

BLOG – Qual é o saldo desses dois meses de trabalho?

DORIVAL JÚNIOR – Não ficamos satisfeitos com a colocação final do campeonato. É uma frustração. Mas a alegria é grande pelo trabalho desenvolvido e a evolução dele em tão pouco tempo. Os atletas acreditaram na proposta, que já vinha com o Maurício Barbieri. Eu acrescentei um olhar de fora e dei umas pinceladas. Hoje a maior conquista, a meu ver, é eles perceberem que possuem uma qualidade superior ao que acreditavam ter. Acredito que é um grupo pronto para grandes conquistas que virão no momento certo.

BLOG – O time marcou 20 gols em 11 partidas sob seu comando, melhorando muito a média de gols – com Barbieri foram 38 em 26 partidas. Você saiu de Santos e São Paulo criticado porque seu time tinha a bola, porém infiltrava pouco. O que foi diferente agora, o time ou o Dorival?

DORIVAL JÚNIOR – O Santos em 2016, quando tive uma temporada completa de trabalho, criava de 12 a 16 chances de gol por partida. O ano seguinte foi complicado por muitas baixas num elenco que não era grande. No São Paulo o time saiu da zona de rebaixamento para a terceira melhor campanha no returno. Perdemos Hernanes e Pratto e emendamos o Paulista e estreia na Copa do Brasil com poucos treinamentos. Eu preciso do campo para trabalhar e no calendário brasileiro isso é impossível. Mas tive no Flamengo e focamos o trabalho em ajustar a última linha de defesa e, principalmente, o ataque através de tabelas, infiltrações, jogadores atacando espaços. Os atletas têm um cognitivo muito bom, pegaram rápido. Com a repetição de treinos e escalações veio a confiança.

BLOG – Você reclamou do calendário, mas quando aceita um trabalho num time grande brasileiro tem conhecimento das condições. Acaba virando um ciclo vicioso com transferência de responsabilidade. Como minimizar os problemas do excesso de jogos na prática?

DORIVAL JÚNIOR – O nosso trabalho é muito atropelado. No início do ano o jogador entra em campo longe das condições mínimas para estar atuando. É uma ciranda muito prejudicial e a gente acaba se acostumando, criando uma couraça. Entre jogos desgastantes fazemos treinos de posicionamento, sem intensidade, apenas de repetição de movimentos. O grande problema é que a maioria dos envolvidos não entende os processos e só cobram resultados imediatos. A pré-temporada ideal é de 40 a 45 dias. Tivemos um período de 28 a 30 dias e já foi bem melhor, mas agora regrediu novamente. Fica impossível trabalhar bem dessa forma.

BLOG – Uma solução seria escalar reservas e jovens da base nos estaduais, como o Atlético-PR faz durante todo o campeonato e o Flamengo com Carpegiani numa fase inicial para os titulares completarem os 30 dias de férias?

DORIVAL JÚNIOR – Seria uma adaptação. O ideal é que dirigentes, torcedores e jornalistas entendam e não pressionem por resultado já na primeira rodada. Eu sou defensor dos estaduais, acho fundamental para o surgimento de novos jogadores e sustentação dos times do interior. Mas já voltei de férias dia três de janeiro e no dia nove estava com o time disputando três pontos. Nós terminamos a temporada com 25 ou 26 jogos a mais que os principais times europeus. Aí dizem que o treinador brasileiro não tem qualidade. Precisamos debater isso melhor. Esses últimos jogos do Flamengo provam que com tempo a qualidade aparece.

BLOG – Nesses dois meses você teve um problema sério a solucionar: a insatisfação do Diego Alves com a reserva. O César virou titular contra o Paraná meio “no susto” e depois veio uma sequência de desentendimento com o goleiro e a pior série de resultados, com empates com Palmeiras e São Paulo e derrota para o Botafogo. Foi coincidência ou o problema disciplinar de um líder no elenco interferiu no rendimento da equipe?

DORIVAL JÚNIOR – A minha experiência diz que se tivesse que ocorrer algum problema seria no jogo contra o Paraná. Nós tivemos domínio das ações contra Palmeiras e São Paulo e criamos chances claras para vencer. Contra o Botafogo, sim, foi nosso pior momento. Honestamente não vejo nenhuma ligação. Sem contar a qualidade dos adversários, especialmente o campeão Palmeiras, time muito pragmático, que se defende muito bem e sabe acionar suas individualidades no ataque. A nossa tabela não foi fácil, com sete jogos como visitante em onze.

BLOG – Esse grupo de jogadores é muito criticado pela torcida por falhar em momentos decisivos. Que cenário você encontrou quando assumiu e qual a diferença hoje?

DORIVAL JÚNIOR – São grandes jogadores e a resposta sempre foi positiva. Posso citar o exemplo do Diego Ribas. De início discordou da minha decisão de colocá-lo no banco porque estava voltando de contusão. Expliquei meus motivos e pedi a ele que continuasse treinando e acreditasse no que estava dizendo. Era uma decisão técnica e tática, não má vontade. Ele foi leal, correto e profissional. Trabalhou, não reclamou externamente e voltou a ganhar oportunidades pelos próprios méritos. Foi fundamental nessa reta final.

BLOG – E o Paquetá, reagiu da mesma forma ao voltar da expulsão contra o Sport no banco?

DORIVAL JÚNIOR – Ele reconheceu que errou. O jogador é inteligente e sabe quando se equivoca. O Everton Ribeiro ficou no banco contra o Sport e nos ajudou demais no segundo tempo com um homem a menos. Aí entra a importância do exemplo. Como o Paquetá poderia reclamar de ficar fora depois de um erro se o Diego aceitou voltando de lesão e modificou jogos a nosso favor saindo do banco?

BLOG – Mas no geral o grupo é forte mentalmente?

DORIVAL JÚNIOR – São profissionais abertos a melhorar conceitos. No aspecto de liderança, jogadores como Rever, Rhodolfo e Rômulo dão muita sustentação ao grupo pela experiência. Todos são atletas de bom nível de concentração e que aos poucos foram acreditando no trabalho. Não ficamos satisfeitos com o segundo lugar, mas temos que reconhecer os muitos méritos do campeão. Somos o segundo melhor ataque, a segunda defesa menos vazada. Só uma derrota, recorde de pontos do clube nos pontos corridos, acima até do título que conquistou em 2009. Logicamente com muitos méritos também do Barbieri, a quem agradeço pelo trabalho que é alinhado à minha forma de pensar futebol. Repito: é um grupo pronto para grandes títulos muito em breve.

BLOG – Você é fã do Guardiola, que desde o Bayern de Munique e agora no Manchester City procura ampliar o repertório em relação ao Barcelona. Tem posse, mas agora adiciona contra-ataques e jogadas aéreas. O futebol mundial parece caminhar para a versatilidade, com treinadores intensos como Klopp e Simeone buscando mais controle do jogo com a bola quando necessário. Você também busca esse jogo mais inteligente, capaz de se adaptar às demandas de uma partida?

DORIVAL JÚNIOR – Há formas e formas de ganhar partidas e campeonatos. Eu tenho 13 anos de carreira e dez títulos conquistados. Tirei equipes de rebaixamentos praticamente certos. Meus times sempre buscaram essa versatilidade. O Santos de 2015/16 tinha posse, mas também um contra-ataque veloz que foi considerado o mais rápido do mundo, por chegar à área adversária em pouco tempo e com poucos passes. Para isso você precisa dos jogadores certos, que foi o que faltou no São Paulo. Sem velocidade tentávamos infiltrar com trocas de passes. No Flamengo eu tenho o Berrío que ataca espaços em velocidade e tento aproveitar o máximo de minutos que ele pode estar em campo com alta intensidade.

Quanto ao Guardiola é uma evolução natural. Tudo depende do grupo de atletas. Se eu fosse o Klopp também jogaria acelerando para acionar o seu trio de ataque com Salah, Firmino e Mané. No Bayern e agora no City o Guardiola coloca mais intensidade na pressão assim que a equipe perde a bola. Os jogadores estão sempre muito próximos. É uma maneira competitiva e agradável de jogar desde os tempos de Barcelona. Exatamente o que busco nos meus times. Mas para isso o tempo é essencial. Guardiola implantou seu modelo na primeira temporada na Inglaterra e só foi vencer na segunda. Aqui teria essa chance? No Brasil é utopia. Nossos contratos deveriam ser semanais e não anuais. Treinamos mais os reservas, porque os titulares quase sempre estão no regenerativo. Aqui cobram qualidade na quantidade. A grande pergunta que gostaria de deixar para refletirmos é: você está satisfeito com o nível de futebol apresentado em nosso país?

BLOG – E o futuro?

DORIVAL JÚNIOR – É o jogo contra o Atlético Paranaense no sábado para terminarmos bem o ano e deixarmos o nosso torcedor satisfeito com o rendimento, já que o resultado esperado não veio. Depois veremos.


São Paulo de Jardine sofre com dilema: como mudar de estilo sem treinar?
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André Rocha

Foto: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Em conversa informal recente com este blogueiro, Roger Machado ressaltou o maior dilema dos treinadores que tentam algo diferente no futebol brasileiro: mudar comportamentos sem tempo para treinar dentro do nosso calendário inchado. Mais complicado ainda quando esses automatismos do jogador vêm desde as divisões de base.

Roger citou o exemplo de um atleta sob seu comando que recebeu insistentemente orientações para guardar seu posicionamento na ponta às costas do lateral adversário. Se este descesse, a marcação estaria pronta para fechar os espaços, evitar a superioridade numérica e, ao recuperar a bola, acionar rapidamente o atacante com espaço para acelerar e só parar na área do oponente.

No campo, porém, o ponta voltava com o lateral e o time perdia a referência para os contragolpes. No intervalo, Roger foi conversar com o jogador e ele respondeu: “professor, eu sei o que você me pediu. Mas meu corpo corre instintivamente para colar no lateral porque eu faço isso desde garoto”.

Há décadas nosso jogo é baseado em confrontos individuais. Ponta contra lateral, volante contra meia, zagueiro contra centroavante. Indo e voltando, com perseguições mais ou menos longas. Marcação que prioriza o homem em detrimento do espaço.

Ainda que Zezé Moreira tenha sido um dos pioneiros da marcação por zona nos anos 1950 como discípulo do treinador húngaro Dori Kruschner. Só com a ascensão de Tite no Internacional e depois no Corinthians é que a velha lógica sem a bola foi resgatada e atualizada, mas à base de muito trabalho e convencimento dos comandados.

E assim chegamos ao São Paulo, que sai de Diego Aguirre para André Jardine. modelos de jogo diametralmente diferentes. Para piorar, o próprio clube hoje não tem uma identidade. As duas referências, Telê Santana e Muricy Ramalho, embora tenham trabalhado juntos no início e este trate aquele como grande referência, na prática são ideias opostas. Ofensiva e reativa. Este embate, ainda que inconsciente, existe até na direção do futebol, com Raí e Ricardo Rocha dos tempos de Telê e Diego Lugano, campeão com Muricy.

Jardine recebeu o time e tem cinco partidas para melhorar desempenho e alcançar resultados com o objetivo de se manter no projeto para 2019. Ainda com o compromisso de afirmar seu estilo, deixar uma “assinatura”.

Missão inglória, principalmente pela falta de tempo para treinar. Ou seja, é preciso mudar hábitos na conversa, com auxílio de vídeos e uma ou outra sessão de treinamentos. Sair de uma proposta reativa, baseada na velocidade pelos flancos e nas jogadas aéreas com bola parada ou rolando definindo rapidamente os ataques, para um trabalho com posse de bola, compactações defensiva e ofensiva, pressão depois da perda, paciência para movimentar e trocar passes até infiltrar e finalizar.

Mudar a lógica, ainda que tenham o espaço como referência e não o homem. É preciso trocar o sistema inteligente com o carro em movimento e precisando cumprir metas a curtíssimo prazo. A oscilação seria mais que natural e até esperada, mesmo com a motivação natural pela troca de comando.

Foi o que aconteceu em São Januário na derrota por 2 a 0 para o Vasco. Com 68% de posse de bola, 378 passes trocados e nove finalizações, a rigor teve duas grandes oportunidades: uma no belo chute do lateral Reinaldo que passou muito perto da trave esquerda de Fernando Miguel, que já estava sem reação no lance, e na defesa espetacular do goleiro cruzmaltino em cabeçada de Rodrigo Caio. Na bola parada, já dentro de um abafa final no desespero buscando o empate.

Poucas infiltrações em jogadas trabalhadas. Para piorar, Jucilei errou passe fácil com a equipe saindo do posicionamento defensivo para a transição ofensiva e Andrey aproveitou o desequilíbrio para bater forte e o goleiro Jean aceitar o chute de longe no primeiro gol. Com o time escancarado já nos acréscimos, o pivô de Maxi López encontrou Yago Pikachu livre para definir o jogo.

A reação ensaiada no empate contra o Grêmio e na vitória sobre o Cruzeiro, ambos no Morumbi, travou no Rio de Janeiro contra o Vasco. Faltam duas partidas: Sport no Morumbi e Chapecoense na Arena Condá. Confrontos com times desesperados na luta para se manter na Série A, que devem optar por um jogo mais físico e reativo. Atraindo para explorar espaços às costas da defesa tricolor.

Missão complicada para André Jardine e seus conceitos. Pelo menos entre os jogos haverá uma semana para treinamentos. Será suficiente para assimilar tantas ideias novas? Como diz Roger Machado, o relógio está sempre contra quem não opta pelo futebol mais simples. O São Paulo é só mais um clube que não entende e respeita processos e desafia o tempo. Quase sempre não funciona e seguimos insistindo.

(Estatísticas: Footstats)


Diego Aguirre, Quique Setién e o parâmetro único do futebol brasileiro
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André Rocha

Aconteceu de novo. Em seu terceiro trabalho no futebol brasileiro, Diego Aguirre sai sem completar uma temporada. No Internacional em 2015, título gaúcho e semifinal da Libertadores. No Atlético Mineiro, final mineira e eliminação nas quartas do torneio continental. Aproveitamento em torno de 60% nos dois clubes.

O mesmo agora no São Paulo. Quando assumiu sucedendo Dorival Júnior, a perspectiva de disputar no Brasileiro uma vaga direta na fase de grupos da principal competição sul-americana parecia distante, improvável.

Mas Aguirre virou refém do próprio sucesso momentâneo. Na volta da competição nacional depois da Copa do Mundo, o Tricolor do Morumbi assumiu a liderança e ficou no topo por oito rodadas. O suficiente para a meta subir demais: o título brasileiro que o clube não conquista desde 2008.

Só que o time vivia fundamentalmente da velocidade de Rojas e Everton pelos lados. Intensidade máxima na ida e volta para compensar o pouco dinamismo de Nenê e Diego Souza, os companheiros de quarteto ofensivo na execução do 4-2-3-1 no melhor momento da equipe no ano. Quando os pontas se lesionaram o time caiu.

Junte a isso toda a tensão pela expectativa criada com as semanas “cheias” para trabalhar, mas dentro de um ambiente de ansiedade total, e veio a queda. Em desempenho e resultados. A perspectiva anterior não servia mais e o diretor Raí agora demite o uruguaio.

Quem lê este blog sabe que não há defesa incondicional de treinadores nem obsessão por manutenção sem avaliar rendimento. É fato que o trabalho não teve a evolução esperada. Mas demitir em novembro? Buscando em André Jardine um “fato novo” para o time buscar vaga no G-4 em cinco jogos? Difícil entender.

Assim como o mundo foi surpreendido com a vitória do Real Betis no Camp Nou sobre o Barcelona, com Messi de volta, por 4 a 3. Com os visitantes disputando a posse de bola com o time catalão e chegando sempre na área adversária com no mínimo três jogadores.

A proposta ultraofensiva, de jogo de posição dentro ou fora de casa, é de Quique Setién. Treinador de 60 anos que veio do Las Palmas na temporada passada e acredita na execução de um modelo de jogo baseado no trabalho coletivo com a bola, pressão logo após a perda e aceleração e infiltração quando se aproxima da área do oponente. Coragem mesmo sem orçamento gigantesco que permita a contratação de grandes estrelas.

Aguirre é pragmático. Ainda que para a cultura brasileira de “em time que está ganhando não se mexe” o hábito de mudar formações e sistemas táticos incomode, ele está mais alinhado ao jogo praticado por aqui: muitos cuidados defensivos e no ataque jogar com espaços ou apostando nos cruzamentos, com bola parada ou rolando.

Já Setién é idealista. Não se importa com placar “roleta russa” e prefere arriscar. Seu time está em 12º lugar em doze rodadas. Quatro vitórias, quatro empates, quatro derrotas. 12 gols a favor, 15 contra. Saldo negativo de três. Só que na Espanha há um conceito mais definido de times grandes, médios e pequenos. Todos sabem seus lugares e perspectivas. Em 2017/18, o Betis terminou na mesma colocação e Setién seguiu no clube. Tem contrato até 2020.

No Brasil, se assumisse um clube grande por sua tradição, mas médio pelo contexto, seria pressionado a montar um time engessado, contrariar seus princípios inegociáveis. Décimo segundo colocado? “Professor Pardal”, “muito conceitinho”, “não conhece a realidade daqui”, etc.

Aguirre nada tem de revolucionário e deixa o Brasil pela terceira vez. No San Lorenzo, ficou de junho de 2016 a setembro do ano seguinte, entregando o cargo após eliminação para o Lanús nas quartas de final da Libertadores. Lá, em geral, há mais paciência.

Aqui só há um parâmetro: o resultado. Puro e simples. Sem análise, contexto…Placar e colocação na tabela. Está na liderança? Tudo perfeito, sem ressalvas ou críticas. “Ótima fase” e vamos atrás dos “segredos” do time e do treinador. O segundo colocado é o primeiro dos últimos e só há alguma valorização se acontece uma campanha de recuperação ou algo parecido. Uma trajetória “de campeão” pelas circunstâncias.

Todos são grandes, ambiciosos, têm que usar o discurso hipócrita de que a meta é a taça para agradar torcedores mimados e insanos. Se conseguir, mesmo com um futebol indigente, é maravilhoso. Se fracassa a porta da rua é o destino inexorável.

Por isso Aguirre parte para provavelmente não voltar tão cedo. Já Setién…bem, se o espanhol conhece a realidade do nosso futebol só deve vir mesmo a passeio. Pior para nós.


Campeão da Série B, Rogério Ceni não pode virar as costas para o Fortaleza
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André Rocha

Há um costume cruel no Brasil de só prestar atenção no Nordeste quando o Sul e o Sudeste viram as costas. Preconceito injustificável com uma das regiões mais importantes do país em cultura, história e representatividade nos mais variados segmentos.

Rogério Ceni começou a carreira de treinador se impondo o desafio de trabalhar no São Paulo. O maior ídolo da história do clube sofreu em suas primeiras experiências no comando técnico e, por isso, parecia sem grandes perspectivas. O que fazer depois de iniciar no que deveria ser o ponto final?

O Fortaleza foi o destino escolhido. Depois de penar por oito anos seguidos na Série C, o clube cearense conseguiu o acesso e o clima era de mais paz e otimismo. No Cearense, mesmo com boa campanha na primeira fase, o bicampeonato do rival Ceará foi um baque, mas não a ponto de colocar a sequência do trabalho em risco.

O início da Série B foi de ótimos resultados, mas alguma oscilação no desempenho. Rogério Ceni seguia variando escalações e desenhos táticos dentro da sua ideia de ser protagonista. Até notar que precisava ser mais pragmático para não deixar escapar a possibilidade de acesso que parecia cada vez mais palpável.

Ceni entendeu a necessidade de se adaptar ao contexto e, sem perder de vista o desempenho, priorizar o resultado sendo um pouco mais conservador quando necessário. O futebol mais conceitual deu lugar ao jogo por demanda, de respostas jogo a jogo. Para se manter na liderança por 34 rodadas e sempre no G-4.

Time com mais vitórias (20) e menos derrotas (oito). Melhor saldo de gols (19) e vantagem na tabela para garantir a conquista na antepenúltima rodada com a vitória por 1 a 0 sobre o Avaí. Gol de Rodolfo nos acréscimos. Na 34ª havia confirmado o acesso com os 2 a 1 sobre o Atlético-GO. Duas vitórias fora de casa, afirmando a competitividade do time de Ceni.

Jogando em função de Gustagol, artilheiro do time com 12 gols, a quatro de Lucão do Goiás, o goleador máximo da competição. Mas mantendo o cuidado com a bola. Líder absoluto em posse e passes certos. Mas também o que mais cruza na área adversária. Ataque por baixo e pelo alto. Defensivamente, só desarma menos que o Vila Nova e é o que comete menos faltas entre os 20 times. Time bem posicionado e consciente.

Conquista com autoridade que muito provavelmente colocará Rogério Ceni na roda de especulações de treinadores para clubes do “eixo” pensando em 2019. Mas ainda que apareça uma proposta interessante financeiramente e nas condições de trabalho, o jovem treinador deve seguir no clube que o projetou e agora terá ainda mais moral e autonomia.

Em São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais, o jovem comandante será cobrado e num período de turbulência pode ter sua imagem atrelada ao São Paulo e a primeira experiência mal sucedida lembrada com mais frequência que o triunfo no Fortaleza.

Não é hora para entrar na vala comum e virar as costas para o Nordeste. Ceni pode e deve fazer diferente.

(Estatísticas: Footstats)


Só um improvável “efeito São Paulo” pode tirar o título do Palmeiras
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André Rocha

As chances de reação do Flamengo de Dorival Júnior em busca do título voaram longe como os chutes de Lucas Paquetá contra o Palmeiras e Vitinho diante do São Paulo no Morumbi. Fraqueza mental que deve minar ainda mais as forças em uma tabela complicada nos seis jogos que restam – Botafogo, Sport e Cruzeiro como visitante e Santos, Grêmio, Atlético-PR em casa.

Sobra o Internacional, novo vice-líder depois da virada dramática sobre o Atlético-PR no Beira-Rio com gol no final em pênalti mais que discutível sobre Rossi. Com o ânimo de quem chegou mais longe que imaginava pode sonhar com uma virada. A tabela é acessível: América, Atlético-MG e Fluminense em Porto Alegre e Ceará, Botafogo e Paraná fora.

Mas depois da vitória no sábado sobre o Santos por 3 a 2 em um jogo maluco com gol de falta de Victor Luis num frango de Vanderlei quando o adversário parecia mais próximo da virada, é impossível não ver o título se encaminhando para Luiz Felipe Scolari e seus comandados.

A única chance de surpresa desagradável seria um “efeito São Paulo”. Ou seja, cair vertiginosamente de produção quando passa a se dedicar exclusivamente ao Brasileiro por conta de eliminações no mata-mata. As semanas cheias jogando contra pelo tempo para pensar no peso do favoritismo. A ansiedade sufocante fazendo o desempenho despencar e os resultados seguirem a trilha ladeira abaixo.

Algo bastante improvável. Primeiro porque o Palmeiras, mesmo carregando a pressão por grandes conquistas depois que o investimento no elenco aumentou,  foi campeão brasileiro há dois anos. Não carrega o fardo de falta de títulos do Tricolor do Morumbi. Ainda há no grupo remanescentes da conquista de 2016 com Cuca. E mesmo que Felipão não tenha um título por pontos corridos no país, a experiência do treinador para lidar com essa responsabilidade também cria ambiente mais sereno. Há um escudo.

Sem contar a qualidade. É claro que a ausência de Dudu, por exemplo, seria um duro golpe, mas não do tamanho da de Everton para Diego Aguirre pela falta de reposição. Com todos à disposição é possível armar o time em função de cada adversário.

Nada muito complicado: visita Atlético-MG, Paraná e Vasco e enfrenta Fluminense, América e Vitória em São Paulo. Com cinco pontos de vantagem sobre o Inter. Uma rodada e mais dois pontos. Fruto da campanha espetacular no returno até aqui: dez vitórias e três empates. Incríveis 85% de aproveitamento. Para perder o título teria que cair para 66% – ou seja, ganhar apenas 12 dos 18 que restam –  e o Internacional responder com 100%.

Se derrapar só não será mais vexatório que em 2009, quando o time comandado por Muricy Ramalho era favorito absoluto e perdeu até a vaga na Libertadores. Nada leva a crer que possa acontecer. Parece questão de tempo. A tendência é que a matemática faça seu serviço na antepenúltima ou penúltima rodada.


São Paulo sofre sem títulos porque não se preparou para perder
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André Rocha

Em dezembro de 2008, o debate por essas terras era se o São Paulo se transformaria no “Lyon brasileiro” e criaria uma dinastia, com títulos seguidos sem dar chance aos demais. Havia um projeto ambicioso de se tornar a maior torcida do país.

O ano virou, o Corinthians trouxe Ronaldo Fenômeno, transformou sua imagem e construiu os alicerces para o período mais vitorioso de sua história. Com sete títulos brasileiros, um a mais que o rival tricolor. O Santos de Neymar venceu Copa do Brasil e Libertadores. O Palmeiras afundou e depois submergiu com Paulo Nobre, depois Crefisa. Os dois rivais na cidade agora têm estádios modernos, não precisam mais do Morumbi. O Santos, quando precisa, “herda” o Pacaembu.

O São Paulo venceu uma Sul-Americana em 2012 e só. Segue olhando para o passado “Soberano” e andando em círculos. Sempre os mesmos nomes se revezando na presidência. A solução parece ser sempre resgatar algo. Os três zagueiros, Muricy Ramalho, Paulo Autuori, Raí, Ricardo Rocha… Lugano e a raça uruguaia agora com Diego Aguirre no comando técnico.

No empate sem gols contra o Atlético Paranaense no Morumbi, a pá de cal anímica na pretensão de voltar a ser campeão brasileiro. Na matemática ainda é possível, mas em campo não há mais respostas. Logo no período em que se imaginava que as semanas para recuperação física e dedicada a treinamentos levariam a equipe a outro patamar.

O São Paulo estagnou. Ou congelou com o favoritismo inesperado. O elenco parece frágil, sem opções. Mas qual era a oferta, por exemplo, para Fabio Carille no ano passado? As informações de bastidores sinalizam que a relação entre Aguirre e elenco é tensa. Mas o Palmeiras de Cuca de 2016 era uma panela de pressão, o ambiente quase paranóico, mas o time em campo entregava os resultados, nem que fosse na marra.

O que falta no Morumbi? A impressão é de que os títulos não chegam porque o clube não se preparou para perder na típica alternância de poder do futebol paulista e brasileiro. A sequência de conquistas de 2005 a 2008 com Libertadores, Mundial e três brasileiros era apenas um ciclo, não o resultado de uma fórmula mágica e eterna.

Agora sente o peso da responsabilidade de voltar a ser vencedor. Neste ambiente, as semanas sem jogos são um tormento. Minutos, horas e dias lembrando que o gigante brasileiro é obrigado a despertar e levantar uma taça. Pressão que esmaga mentes e espíritos.

Não pode ser só falta de conteúdo nos treinos porque no Brasil isto nunca foi problema. Desfalques todos têm, o líder do campeonato escala há tempos mais reservas que titulares. O problema é mais profundo e emocional. Típico num futebol mais sentido que pensado e jogado.

Ver Corinthians e Palmeiras dominando o cenário nacional recente é um pesadelo sem fim. A sensação de ter ficado para trás desmancha a autoestima, alimenta um saudosismo destrutivo.  Talvez o clube peça perdão e traga Rogério Ceni de volta para 2019. De novo olhando para as glórias do passado, como está no hino.

O São Paulo é fraco mentalmente hoje porque não consegue enxergar um lugar para si no futuro. Um ciclo vicioso e perigoso que ganha novo capítulo dramático.

 


Corinthians pode ter seis decisões em nove jogos para se manter na Série A
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André Rocha

Foto: Rodrigo Gazzanel (Agência Corinthians)

O Corinthians não terá direito a “ressaca” ou “luto” pela perda da Copa do Brasil para o Cruzeiro. No domingo já enfrenta o Vitória no Barradão. Com 35 pontos em 29 partidas, está três à frente do adversário e quatro de distância do Ceará, 17º colocado, mas ainda com um jogo a cumprir contra o já saciado Cruzeiro no Mineirão.

Cenário preocupante, principalmente porque o time não consegue evoluir no desempenho com Jair Ventura. As semanas livres para treinar sem o mata-mata para priorizar podem ajudar o treinador a encontrar uma formação que entregue mais soluções em campo.

O atual campeão brasileiro vai precisar, porque ainda terá pela frente mais seis duelos com equipes que orbitam pela metade de baixo da tabela e podem ser decisivos para se manter na Série A sem sustos: Bahia, Vasco e Chapecoense em casa e Botafogo, além do Vitória, fora. O Cruzeiro ocupa a décima colocação com 37 pontos e tem um jogo a menos, mas dependendo de como vai se comportar até o fim do campeonato, com o relaxamento natural pelo objetivo alcançado, pode se complicar e tornar dramático o confronto pela 34ª rodada, no Mineirão.

O Corinthians ainda terá o clássico com o São Paulo em Itaquera, o Atlético Paranaense que ainda nutre uma esperança de chegar ao G-6 ou G-7 fora de casa e fecha o campeonato em Porto Alegre contra o Grêmio que pode novamente estar com a cabeça no Mundial Interclubes. Ou lutando por vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2019.

Tudo muito incerto e perigoso pelo que o time de Jair Ventura não vem fazendo em campo. É preciso resgatar a organização defensiva sem necessidade de se entrincheirar guardando a própria área e ganhar fluência ofensiva. Reunir Pedrinho, Jadson e Mateus Vital, os mais talentosos do quarteto ofensivo, com Romero, o melhor finalizador, mais próximo da meta adversária como um centroavante móvel, pode ser um bom início.

É urgente aumentar o número de finalizações – média de dez por jogo, só superior à do América. Bizarro para a equipe que é a segunda que mais acerta passes, atrás apenas do Grêmio, e está em sexto na posse de bola. Ou seja, é um time “arame liso”: cerca, mas não fura as defesas adversárias. Apenas 28 gols marcados, 27 sofridos. Irregularidade condizente com as mudanças de treinador e as dificuldades financeiras do clube.

Agora é contar com a paciência e o apoio da torcida em casa e um time mais consistente como visitante. Se não for possível na técnica e na tática, o Corinthians terá que ser coração puro para sobreviver a um 2018 que começou bem, mas foi desmoronando até sobrar a missão mais básica. Típico da montanha russa que é o futebol brasileiro.


Palmeiras de Felipão é versão aprimorada do campeão brasileiro com Cuca
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André Rocha

Everton faz uma falta tremenda ao Grêmio. É o desafogo dos contragolpes, o ponteiro do drible que desarticula o sistema defensivo adversário. Da infiltração em diagonal para a finalização. Um desfalque imenso para uma partida do tamanho do confronto fora de casa contra o líder do campeonato.

Mas convenhamos que por mais que se dedique e reforce o discurso de que a competição por pontos corridos é importante, a concentração e a intensidade do Grêmio no Brasileiro nunca é a mesma em relação à Libertadores. É cultura, assimilada por Renato Gaúcho, maior ídolo da história do clube, e por seus comandados.

Nada disso, porém, tira os méritos dos 2 a 0 do Palmeiras no Pacaembu. Uma atuação segura, sólida, que permitiu apenas três finalizações do atual campeão sul-americano. Nenhum no alvo. O Alviverde concluiu sete, cinco na direção da meta de Paulo Victor. Nem tanto assim, mas o jogo todo deixou a impressão de que poderia marcar mais gols, mesmo com apenas 40% de posse.

Porque Luiz Felipe Scolari e sua comissão técnica conseguiram fazer o elenco assimilar a proposta de jogo rapidamente e com muita precisão, aditivada pela confiança por conta dos bons resultados. A ponto de poder mesclar cada vez mais titulares e reservas sem queda de desempenho por falta de entrosamento.

Contra o Grêmio, a maior virtude foi a concentração no trabalho sem bola. Depois do sucesso no duelo com o Colo Colo pelas quartas de final da Libertadores, Felipão resolveu seguir apostando na marcação por encaixe. Diante do time de Renato Gaúcho, que no país é quem trabalha no modelo mais próximo do jogo de posição, com toques curtos e mobilidade em pequenos espaços, as perseguições nem precisavam ser tão longas, o que costuma desarrumar mais os setores.

Os duelos, então, ficavam bem definidos: Dudu e Willian voltavam com os laterais Leo Gomes e Marcelo Oliveira, Thiago Santos pegava Luan, Moisés bloqueava Maicon, Bruno Henrique batia com Cícero. Mayke esperava Pepê, o mesmo do lado oposto com Diogo Barbosa contra Alisson. Zagueiros Luan e Gustavo Gómez cuidavam de Jael. Na frente, Deyverson incomodava Geromel e Bressan.

O gremista que recebia a bola era imediatamente pressionado por seu marcador. Nas tentativas de triangulação, quase nunca o Palmeiras permitia o terceiro homem livre – ou seja, aquele que se desmarca e vai receber a bola mais à frente. Impressionante como o time da casa permaneceu ligado durante os noventa minutos.

Bola retomada, muitas ligações diretas. Foram 44 lançamentos na partida. Quase sempre buscando Deyverson no pivô ou Dudu na velocidade. Não por acaso, os dois melhores em campo. Um desequilibrou com gols, outro como o ponteiro que Everton costuma ser para o Grêmio. O centroavante finalizou três vezes, duas no alvo. Nas redes.

O camisa sete, melhor em campo, foi quem mais acertou dribles e passes para finalizações. Cruzou para Deyverson desviar para o primeiro gol. Ganhou da defesa e rolou para Bruno Henrique chutar e Cícero salvar quase sobre a linha. Apesar de ainda insistir muito nas reclamações com a arbitragem, já é candidato a grande destaque individual do campeonato.

Marcação por encaixe, perseguições individuais, ligações diretas, concentração, Dudu desequilibrando. Tudo isso lembra demais a trajetória que terminou com o título em 2016. Sob o comando de Cuca. Campanha fantástica no segundo turno, outra semelhança.

Só que o time de Felipão, pelo menos até aqui, parece uma evolução daquele Palmeiras. Que tinha o talento de Gabriel Jesus, mas nem sempre um pivô como Deyverson para reter a bola e contribuir para o volume ofensivo. Mais leve, sem o peso dos 22 anos sem título brasileiro e o clima tenso que Cuca costuma criar na gestão do elenco, o jogo flui melhor.

Conta também, e muito, o elenco mais qualificado e homogêneo que o de dois anos atrás. Para vencer o Grêmio e praticamente tirá-lo da briga pelo título. Com os 3 a 1 do Internacional sobre o São Paulo no Beira-Rio, sobram três reais candidatos à principal competição nacional. Os dois vencedores das partidas mais importantes do domingo e mais o redivivo Flamengo de Dorival Júnior.

A menos que surja um “fato novo”, a única possibilidade de queda do líder é o contexto da semifinal da Libertadores contra o Boca Juniors e de uma possível decisão continental interferir muito nas rodadas de fim de semana. Hoje parece improvável. Mais fácil os outros dois tropeçarem na ansiedade por taças.

Favoritismo absoluto do Palmeiras, maior que os três pontos de vantagem na tabela sobre o Inter. Returno de oito vitórias e dois empates, 16 gols a favor e apenas cinco contra. Praticamente imune a desfalques, com confiança no teto e tratando o Brasileiro sem obsessão. Não é a prioridade, mas parece ser levado cada vez mais a sério faltando nove rodadas.

(Estatísticas: Footstats)


Lucas Paquetá vai para o Milan. Nossa sina é admirar pedras brutas
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André Rocha

Lucas Paquetá não é um jogador pronto, até pelos 21 anos sem ser um fenômeno daqueles que surgem muito raramente. Tanto que não foi negociado para um time da primeira prateleira do futebol europeu. Vai em janeiro para o Milan que volta a investir em busca de um protagonismo difícil de vislumbrar a médio/longo prazo mesmo na Série A italiana.

O Flamengo recebe 100 milhões de reais para Eduardo Bandeira de Mello fechar seu mandato sem deixar um buraco no orçamento para o sucessor que não deve ser da situação. A menos que consiga uma arrancada para o título brasileiro.

Mais um jovem saindo. Não tão prematuro quanto Vinicius Júnior ou Rodrygo, mas ainda precisando de lapidação. Soltar a bola mais rapidamente, tomar melhor as decisões, ocupar os espaços corretos. Entender o jogo coletivamente sem a necessidade do drible em qualquer região do campo para se destacar na multidão. No mais alto nível é aprender a jogar mesmo.

Sem comparações, Paquetá lembra um pouco Toninho Cerezo. Estilo “peladeiro”, com boa técnica e vigor físico para preencher as intermediárias, mas um tanto aleatório no posicionamento e na movimentação. Só quando foi para a Itália passou a “correr certo”. Voltou experiente, versátil e inteligente para ser multicampeão no São Paulo.

Por aqui o meia se destaca. É o rubro-negro que mais finaliza. Artilheiro da equipe com nove gols. Quatro a menos que Gabriel Barbosa do Santos. Outro que saiu cedo, foi para Milão, mas não conseguiu se destacar na Internazionale. Exatamente pela carência de leitura de jogo. Volta ao Brasil e o desempenho sobe com a liberdade total no ataque do time de Cuca.

Pode acontecer o mesmo com Paquetá, liberado por Dorival Júnior para atuar mais avançado. Mas a tendência é que amadureça longe de tantos holofotes, elogios desmedidos, oba oba e o típico paternalismo do nosso futebol. Porque nos empolgamos com qualquer centelha de talento. Nossa sina é admirar pedras brutas.


Vitória do Palmeiras é de favorito, mas pane mental do São Paulo assusta
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André Rocha

A atuação do Palmeiras foi segura dentro de sua proposta de jogo. Cuidados defensivos no início do clássico no Morumbi, exagerando um pouco nas ligações diretas para quem tinha Felipe Melo, Moisés e Lucas Lima no meio-campo. Compreensível pelo peso do jogo.

Mas quando a tensão típica de um “Choque-Rei” decisivo deu lugar à leveza com que o Alviverde disputa o Brasileiro, com muitos jogadores considerados reservas e priorizando os torneios de mata-mata (agora a Libertadores), o time de Luiz Felipe Scolari foi adiantando as linhas e trocando mais passes na execução do 4-1-4-1 que encaixava com o 4-2-3-1 tricolor.

Mas o gol novamente veio na bola parada. Escanteio da direita cobrado por Dudu, gol de Gustavo Gómez suficiente para dar pane mental no São Paulo. O segundo foi o retrato do momento do jogo: rebote do escanteio para o time da casa, transição ofensiva rápida que encontrou três palmeirenses contra dois são-paulinos. Passe de Mayke, chute de Dudu na trave. Com os adversários estáticos, o Palmeiras recuperou a bola e Mayke colocou na cabeça de Deyverson, totalmente livre.

Os comandados de Diego Aguirre pareciam pregados no chão. Apatia assustadora. Desde o início dando a impressão de estarem perdidos com a mudança na escalação sem mexer no 4-2-3-1 que tinha Rodrigo Caio na lateral direita, Bruno Peres como ponta e Rojas do lado oposto. Pouco mudou com Carneiro, Everton e depois Tréllez.

Porque elenco e treinador parecem não ter assimilado bem a condição de líder e favorito ao título. Talvez pese a responsabilidade de encerrar o jejum de títulos num cenário em que os rivais da cidade, Corinthians e Palmeiras, vem dominando o cenário nacional.

Na prática, justamente quando se imaginava o crescimento do time com as semanas livres para recuperação e treinamento o desempenho despencou. O time não troca passes no campo de ataque com desenvoltura nem se destaca pelo jogo mais direto. Finaliza pouco quando ocupa o campo de ataque por necessidade. Nem a ausência de Everton por lesão justifica tamanha estagnação.

O revés complica demais a briga pela liderança. Até por abalar a confiança para o duelo da próxima rodada contra o Internacional no Beira-Rio. Se voltar de Porto Alegre com a derrota será a pá de cal na disputa pelo título. Cenário surreal para quem cresceu com jogos seguidos, inclusive na Sul-Americana, logo após a Copa do Mundo e se perdeu com tempo para trabalhar.

O Palmeiras vai na contramão. Melhor campanha do returno com viés de alta. Apenas 40% de posse, 62 lançamentos de uma equipe que corre poucos riscos atrás e procura muito o pivô (Deyverson ou Borja). Mas oito finalizações – cinco no alvo contra apenas uma do rival, total de cinco. Eficiência que impressiona, ainda que tenha desperdiçado a chance de aplicar uma goleada fora de casa.

Volta a vencer no Morumbi depois de 16 anos (24 jogos). Triunfo não só de candidato ao título, mas do grande favorito nesta reta final.

(Estatísticas: Footstats)