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Athletico-PR campeão pelo que fez até a pane mental de uma final em casa
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André Rocha

Bernardinho é um dos treinadores mais vencedores da história dos esportes coletivos, mas com a lendária seleção de vôlei masculino que comandou de 2001 a 2016 tinha enormes dificuldades para vencer decisões no Brasil. A única conquista em alto nível, tirando Sul-Americanos e o Pan-Americano de 2007, foi a última: o ouro olímpico no Rio de Janeiro há dois anos.

Sempre que questionado ele dizia que a preparação mudava muito em casa. O atleta pensava em tudo, menos na partida. Seja pela preocupação em conseguir convite de última hora para um familiar, seja por questões como o local da festa pela conquista depois ou na cara de quais críticos o título seria esfregado. Não era falta de profissionalismo e obviamente havia também os méritos do vencedor, mas o cenário ficava complexo demais.

Porque quando o jogo fica complicado toda aquela confiança se transforma em pânico de fracassar diante do seus, de dar mais munição para os detratores. Vem a pane mental que compromete qualquer desempenho.

O Athletico quase sucumbiu na Arena da Baixada. Jogou com alguma naturalidade até abrir o placar aos 25 minutos com Pablo completando assistência espetacular de Raphael Veiga. A equipe paranaense trocava passes no ritmo de Lucho González, grande regente do time, pressionava a saída de bola e acelerava quando se aproximava da área do Junior Barranquilla.

Mas repetiu o pecado do jogo de ida e de outras partidas na temporada: recua demais as linhas, especialmente os ponteiros Marcelo Cirino e Nikão e perde a saída em velocidade. A bola batia e voltava. Para complicar, o time colombiano passou a encontrar espaços entre a defesa e os volantes Lucho e Bruno Guimarães. Especialmente Barrera, que saía da direita para articular por dentro.

Mas o empate veio mesmo na bola parada, com Teo Gutiérrez desviando o toque do zagueiro Jefferson Gómez. Dentro de um segundo tempo de domínio completo dos visitantes.  A transição defensiva dos rubro-negros definhava conforme Lucho cansava. Nem mesmo a troca do argentino por Wellington resolveu o problema. A entrada de Rony no lugar de Cirino também acrescentou pouco.

Já a entrada de Yoni González na vaga de James Sánchez adicionou ainda mais força e velocidade na transição ofensiva do Junior. Foram muitas chances desperdiçadas no tempo normal e a decisiva justamente na prorrogação, com Barrera isolando a cobrança de pênalti de Santos sobre González.

O Athletico saiu de um estado catatônico para a confiança de que tudo ainda poderia dar certo. E deu na decisão por pênaltis. Impressionante o péssimo aproveitamento da equipe do treinador Julio Comesaña. Fuentes e Teo Gutiérrez perderam. Com o de Barrera e o do zagueiro Pérez em Barranquilla, foram quatro cobranças erradas, sem necessidade de intervenção de Santos. Não se pode errar tanto numa final.

O campeão acertou mais. Na competição e na temporada. Belo trabalho de Tiago Nunes, que aprimorou as ideias de Fernando Diniz tornando o time mais vertical, objetivo. Talvez o melhor jogo coletivo do país no último semestre.

Mas quase pagou no grande fechamento da temporada pela típica distorção brasileira da máxima “finais são para ser vencidas, não jogadas”. Uma senha para o estádio virar uma arena de desesperados, com gente chorando nas arquibancadas e jogadores apavorados. No país do futebol de resultados uma final se transforma em uma imensa máquina de moer corações e mentes.

O ato final carregou mais alívio que felicidade para o Athletico. Assim como tirou um peso dos ombros de Bernardinho em 2016.


Atlético-PR recua demais e empate fica muito melhor do que foi o desempenho
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André Rocha

O Junior Barranquilla sabia que precisava sair da partida em casa na final da Copa Sul-Americana com vantagem para encarar o “inferno” da volta na Arena da Baixada. Mesmo com quatro desfalques, o mais importante do capitão Téo Gutiérrez.

A solução era colocar intensidade máxima na pressão pós perda e adiantar as linhas na execução do 4-3-3. Os laterais em especial. Piedrahita e Germán Gutiérrez empurravam Nikão e Marcelo Cirino, os pontas atleticanos, para o próprio campo e deixando as saídas para os contragolpes menos rápidas com Raphael Veiga e Pablo, os mais adiantados sem a bola do 4-2-3-1 de Tiago Nunes.

O time do treinador Julio Comesaña saía de trás com passes verticais e rápidos do volante Luis Narváez e eventualmente dos zagueiros Jefferson Gómez e Rafael Pérez. Os laterais desciam e faziam triângulos com os meias Sánchez e Cantillo e os ponteiros Barrera e Díaz. Toques simples e cruzamentos procurando Jony González, o substituto de Téo no centro do ataque.

Mas o Atlético fechava bem o “funil” e impedia as infiltrações em diagonal dos ponteiros e Lucho González e Bruno Guimarães protegiam a entrada da área. Com os pontas voltando até o fim, Jonathan e Renan Lodi estreitavam a última linha com Thiago Heleno e Léo Pereira. Mesmo com algum sofrimento, o jogo estava controlado.

Quando Nikão ficou mais adiantado pela direita quando o lado oposto foi atacado e Cirino voltou, o time brasileiro enfim ganhou uma referência de velocidade para a transição ofensiva. Arranque e passe do ponteiro, deslocamento de Pablo entrando no tempo e no espaço certos para finalizar e abrir o placar.

Só que a equipe rubro-negra pecou de novo pela desconcentração fora de casa. O Junior saiu com tudo para um “abafa” e, três minutos depois, no vacilo em conjunto dos veteranos Jonathan e Thiago Heleno, a bola aérea terminou com a bela virada de González. O empate contagiou o Estádio Metropolitano e induziu o time da casa a novamente se lançar à frente e, por consequência, o recuo dos visitantes. Tiago Nunes acusou o golpe ao trocar Raphael Veiga pelo volante Wellington.

Depois tentou dar velocidade aos contra-ataques com Rony na vaga de Pablo – mais tarde Marcinho substituiria Lucho González. No entanto, o atacante substituto que definiu a virada sobre o Flamengo no sábado entrou mal e cometeu pênalti em Gutiérrez. O zagueiro Pérez explodiu o travessão numa cobrança fortíssima. Esfriou a torcida, mas o Junior sabia que não tinha opção além de seguir atacando.

Com Moreno, Hernández e Ruiz nas vagas de Narváez, Sánchez e González, seguiu rondando a área atleticana e teve a chance derradeira no chute forte de Barrera, mas Santos salvou com bela defesa. A última das 13 finalizações, cinco no alvo. O Junior terminou com 58% de posse, 15 desarmes corretos e apelou 30 vezes para os cruzamentos. Faltou o gol do desafogo.

O Atlético enfrentou os mesmos problemas de outras partidas sem vitória fora de casa, principalmente o recuo excessivo para defender a meta de Santos.  Mas volta da Colômbia com resultado interessante para definir o título continental em seus domínios. Com proposta ofensiva e volume de jogo tende a se impor. Mas é final, jogo tenso e que costuma atrapalhar os times brasileiros pela tensão por conta do favoritismo. É inegável, porém, que a taça e a vaga na Libertadores 2019 ficaram mais próximas de Curitiba.

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo com alma de clássico carioca num duelo continental. Como deve ser
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André Rocha

Indignação com a derrota ou resultado negativo. O que faltou ao Flamengo na maioria da temporada, menos nos clássicos cariocas – com exceção da única derrota para o Botafogo pelo Brasileiro utilizando reservas. O que vinha faltando principalmente em competições sul-americanas.

Não aceitar outro resultado senão a vitória foi o que moveu o time de Reinaldo Rueda no Maracanã com imperdoáveis espaços vazios, fruto da obtusa política de preços que pensa induzir o torcedor a virar sócio. Mas a virada por 2 a 1 sobre o Junior de Barranquilla na ida da semifinal da Copa Sul-Americana não seria possível não fossem as muitas falhas do adversário justamente na jogada mais eficiente dos rubro-negros em toda temporada, desde os tempos de Zé Ricardo.

A jogada aérea, com bola parada ou rolando. Podia ter acontecido com Vizeu ainda no primeiro tempo, completando cruzamento de Everton Ribeiro. Já com desvantagem no placar. E Alex Muralha em campo na vaga do Diego Alves, que sofreu fratura na clavícula após cometer pênalti não marcado sobre Jony González. Uma infelicidade tão grande quanto o primeiro ataque colombiano terminar em gol. Juan perdeu a disputa com Teo Gutierrez, passe de Mier nas costas de Pará e González rolando para Teo. O goleiro, frio e nitidamente inseguro, deixou passar o cruzamento.

Parecia que os visitantes repetiriam o passeio que deram no Sport em Recife nas quartas de final, mas abdicaram um pouco do jogo, recuando as linhas e esperando o contragolpe letal com o velocíssimo Yimmi Chará nas costas de Trauco. Não veio no primeiro tempo de 54% de posse do Fla e sete finalizações, mas nenhuma no alvo. O Junior concluiu quatro, duas no alvo e o gol único antes do intervalo.

Com oito minutos de atraso, Reinaldo Rueda trocou Mancuello por Vinicius Júnior. Nem tanto pelo desempenho do argentino, que finalizou duas vezes com perigo e tentou colaborar na articulação. Mas principalmente pela entrada de um atacante com característica semelhante à de Berrío e Everton. Até então o Fla não tinha uma referência de velocidade para lançamentos, que desse profundidade aos ataques.

Melhorou um pouco o desempenho, mas faltava criatividade, o passe diferente qualificado. Não veio de Everton Ribeiro, substituído por Lucas Paquetá. Muito menos de Diego, novamente um líder em campo, mas burocrático na articulação. O jogo do Fla não fluía mais uma vez. De novo o time que não dá liga, das peças que não encaixam.

Mas desta vez havia alma. E um recurso óbvio. Na fibra, no grito da torcida que respondeu à postura diferente da equipe e nos muitos cruzamentos – 41 no total, 22 na primeira etapa – a virada com Juan e Vizeu. Golaço do jovem centroavante completando no ângulo de Viera a assistência de Willian Arão. Comemoração no banco com Rhodolfo para se redimir da enorme bobagem que fez nos 3 a 0 sobre o Corinthians no domingo.

Virada e vantagem para a volta. Mas há muitas preocupações. Porque logo após o empate, o time de Barranquilla teve duas grandes chances, com Chará e Luiz Díaz, que substituiu Mier e centralizou Chará no 4-2-3-1. O treinador uruguaio Julio Comesaña pecou ao chamar demais o Fla para o próprio campo e confiar nos contragolpes que não encaixaram. Os visitantes sempre foram mais perigosos quando desceram em bloco, trocando passes no meio e acelerando pelos flancos.  Deve ser assim na Colômbia.

O Flamengo vai precisar de velocidade nas transições ofensivas – Everton deve retornar pela esquerda – e, principalmente, de concentração defensiva absoluta para não precisar tanto de Muralha. Um enorme desafio para quem deixou a Libertadores exatamente por não pontuar longe do Rio de Janeiro.

Se repetir longe da torcida o comportamento no Maracanã as chances serão maiores. Um time com alma de clássico carioca num duelo continental. Como deve ser.

(Estatísticas: Footstats)


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