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A lesão de Daniel Alves e o grande jogo de dados que é o futebol
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André Rocha

Imagem: Franck Fife / AFP Photo

Em sua ótima coluna na Folha de São Paulo, Tostão afirma que o jogo é uma mistura de inspiração e expiração, de ciência e imprevistos.

Podia ser Meunier ou qualquer outro lateral direito do futebol profissional do mundo inteiro em campo ontem na conquista da Copa da França pelo PSG na vitória por 2 a 0 sobre o Les Herbies, da terceira divisão francesa. Faria pouca diferença em mais um título do campeão francês e da Copa da Liga. Que volta a sobrar no país depois do “meteoro” Monaco na temporada passada.

Mas era Daniel Alves. Na noite de seu 38º título na carreira, mas que também pode lhe negar a chance de conquistar o trofeu mais cobiçado pelo brasileiro. A lesão no joelho direito, em um exame preliminar, afetou o ligamento cruzado e há o risco real do lateral ficar de fora da Copa do Mundo. A última de sua trajetória multicampeã.

Logo a lateral direita sem uma reposição confiável. Que pode cair no colo de Fagner, sem grande experiência internacional no mais alto nível, ou de Danilo, reserva do Manchester City e outra incógnita em  jogo grande no Mundial da Rússia. Talvez uma surpresa que apareça na lista pela emergência.

Daniel também pode se recuperar a tempo e o Brasil contar com os melhores laterais do mundo na formação titular. Mas também sofrer com as conhecidas fragilidades defensivas do jogador do PSG e também de Marcelo do lado oposto. Como já aconteceu há quatro anos. O gol da Croácia logo aos dez minutos da estreia do time de Felipão teve bola nas costas de Daniel Alves, cruzamento e Marcelo, no movimento errado da diagonal de cobertura, marcou contra. Fora o sufoco em outros jogos.

Algo minimizado pelo bom trabalho coletivo sem a bola com Tite, mas ainda um problema. Que no detalhe de um jogo eliminatório na reta final pode afastar a seleção brasileira da disputa do título. Mas a possibilidade do substituto na direita ser a solução para uma maior estabilidade na retaguarda não pode ser descartada. Afinal, entrando no time sem tanto lastro e minutos entre os titulares, a tendência natural é guardar mais o posicionamento atrás e só descer na boa.

Considerando que Danilo já atuou como zagueiro e até volante com Pep Guardiola e Fagner conhece toda a dinâmica das equipes de Tite na última linha de defesa pelos anos trabalhando juntos no Corinthians é possível que a mudança até traga um equilíbrio que não existia.

Impossível prever. E dependendo do desempenho e do resultado uma ou outra alternativa pode ser a justificativa para a glória ou o fracasso. Na mesma coluna citada acima, Tostão provoca: “Quando termina a partida, elegemos os heróis e os vilões e tentamos explicar, com bons ou maus argumentos, o que, muitas vezes, não tem explicação. Tem existência”.

O campeão mundial em 1970 às vezes exige do comentarista uma “não análise”. A função de quem estuda, observa e coloca sua visão é oferecer pontos de vista para que o espectador ou leitor forme sua própria opinião. Há sempre indícios que podem justificar um desempenho ruim e o mau resultado.

Mas tem toda razão quando fala do imponderável. Daniel Alves se lesionou numa decisão. Podia ser em um treino. Como Neymar dobrou o pé em um lance banal num jogo qualquer da Ligue 1. Como Casemiro, Marcelo e Firmino correm riscos na final da Liga dos Campeões. Ou qualquer um dos possíveis convocados. Até em casa, brincando com o filho.

Uma ausência pode definir tudo. Para o bem ou para o mal. Quantos não lamentam o corte de Romário em 1998 imaginando que o Baixinho poderia compensar o problema de Ronaldo antes da final da Copa? Mas quatro anos antes, o Brasil conquistou o tetra com Aldair e Márcio Santos na zaga que tinha como titulares os Ricardos, Rocha e Gomes. Em 2002, Gilberto Silva se transformou em um dos destaques da campanha do penta porque Emerson foi cortado por uma luxação no ombro. Brincando de goleiro em um rachão na véspera da estreia.

Como não lembrar de Einstein e sua famosa frase “Deus não joga dados com o Universo”? Mas cada vez mais o futebol, mesmo tendo também a sua porção de ciência, vai se mostrando um grande jogo de dados. De sorte e azar. Do imprevisto que salva ou destroi. Vejamos o que o destino reserva para Tite e seus comandados na Rússia.


Tite acerta nas novidades no meio-campo, mas é incoerente nos “brasileiros”
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André Rocha

A boa notícia da convocação da seleção brasileira para os amistosos contra Rússia e Alemanha é que Tite está com o leque aberto e os olhos atentos. Sem grupo fechado. Até porque há conceitos novos a trabalhar e, a rigor, o que aconteceu nas eliminatórias sul-americanas não pode ser o único parâmetro de avaliação. Está claro que o amistoso em Wembley contra a Inglaterra praticamente reserva mudou muita coisa na cabeça do treinador.

É óbvio que o Brasil pode ser eliminado no Mundial por uma seleção do nosso continente. Jogo único, tensão, os times podem mudar até lá. Mas o parâmetro é a Europa. A maneira como ocupam espaços, se defendem e fazem suas transições ofensivas. Mesmo no mundo globalizado, sem grandes segredos em termos táticos e estratégicos, há diferenças e Tite está atento.

Por isso o acerto nas escolhas do meio-campo para observação. Fred tem as características de “ritmista” que ele quer para o setor. Sabe acelerar e desacelerar o jogo e no Shakhtar Donetsk atua mais numa linha intermediária de articulação. Já Anderson Talisca é meia central de uma linha de três num 4-2-3-1. JJoga mais adiantado, buscando as brechas entre o meio e a defesa do oponente. Assim funciona no Besiktas. Ambos times que se classificaram para o mata-mata da Liga dos Campeões. Fred, inclusive, pode seguir na competição se ultrapassar a Roma no confronto das oitavas de final. Junto com Taison, mais uma vez incluído na lista.

Ou seja, estão no contexto europeu. Da dinâmica, do posicionamento, do movimento buscando espaço entre as linhas, da circulação de bola, da busca do passe que quebra o sistema de marcação posicionado com quatro ou cinco na última linha. Ou seja, da leitura de jogo e dos espaços a ocupar e atacar.

Independentemente do nível técnico, gosto pessoal ou identificação de cada um, é consenso que o futebol jogado aqui parece outro esporte em relação à Europa. O leitor pode questionar se é melhor ou pior. Mas diferente não há dúvidas. Também por causa do clima, gramados, imediatismo e outros problemas bem nossos. Há também dificuldades bem deles…

Mas o que espera o Brasil na Copa é o jeito europeu de jogar futebol. É preciso se adaptar e nada melhor que contar com jogadores que atuam por lá. No mais alto nível, de preferência.

Por isso é difícil entender a opção por Fagner na lateral direita. Com Danilo disponível e que poderia ser mais um jogador a colaborar com Tite para a assimilação do jogo de posição por jogar no Manchester City de Pep Guardiola. Mesmo não sendo titular, teria muito a acrescentar como o reserva de Daniel Alves. Fagner não comprometeu quando o treinador precisou, mas nem vive sua melhor fase para compensar a diferença entre o que é jogado aqui e lá.

Pior ainda Rodrigo Caio, em mau momento no São Paulo disputando o Paulista. A impressão que deixa é que a honestidade demonstrado no caso do fair play com Jô virou uma credencial eterna para o zagueiro. Para arriscar melhor seria insistir com Jemerson, mesmo fazendo temporada bem hesitante no Monaco.

Geromel é um caso à parte. Vive fase esplendorosa no Grêmio. Fundamental na conquista da Libertadores, bom desempenho contra o Real Madrid no Mundial de Clubes e cresce em jogos grandes. Mas taticamente o time de Renato Gaúcho trabalha na defesa quebrando a última linha para os jogadores perseguirem os adversários. Não guarda posicionamento marcando por zona. Pode ser um problema, ainda que o zagueiro tenha atuado por oito anos no futebol do Velho Continente. De qualquer forma vale o teste, por merecimento.

E Luan? Bem, o melhor jogador da última Libertadores e campeão olímpico como um dos destaques em 2016 não convenceu Tite. Segundo ele, nos treinamentos foi “engolido” e não se adaptou à função pelo lado. Por dentro a concorrência é grande, a movimentação é diferente e a atuação sofrível contra o Real Madri, no único contato com o mais alto nível do futebol mundial, depõe muito contra o camisa sete do Grêmio, de talento inquestionável. Mas só isto não basta.

Willian José é mais uma novidade interessante dentro da nova linha de raciocínio de Tite. Se é preciso ter uma referência na área com maior estatura, que seja alguém atuando na Espanha e não Diego Souza, que não é centroavante de ofício e nem titular absoluto do São Paulo – ao menos o comandado por Dorival Júnior. William não é um primor técnico, mas conhece a dinâmica de abrir espaços e atuar como pivô sem deixar cair a intensidade.

Renato Augusto segue na cota da confiança do treinador, mas terá um último teste importante. Se fraquejar e algum novo nome entrar bem corre sério risco até de ficar fora da Copa. No mais, a lamentar a ausência de Neymar para o primeiro experimento do jogo de posição brasileiro. Boa oportunidade para Douglas Costa.

Faltam pouco mais de três meses para a estreia do Mundial da Rússia e Tite ainda carrega muitas dúvidas, de nomes e de jogo. Mesmo com incoerências, pode acreditar, isto é muito bom!


Dupla Jesus-Aguero, Danilo e Mendy. Guardiola parece ter achado melhor City
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André Rocha

A expulsão de Sadio Mané ainda no primeiro tempo após entrada imprudente e violenta sobre o goleiro Ederson praticamente definiu o jogo no Etihad Stadium. Mas o Manchester City já era superior ao Liverpool, inclusive no placar – 1 a 0, gol de Kun Aguero completando passe preciso em profundidade de Kevin De Bruyne.

O belga foi um dos destaques da formação que Pep Guardiola mandou a campo. Com Danilo como lateral-zagueiro pela direita, como Azpilicueta no Chelsea de Antonio Conte. Liberando Walker como ala, acelerando as coberturas e qualificando a saída de bola. Fora a versatilidade para mudar o desenho sem mexer nas peças.

No segundo tempo o brasileiro inverteu o lado e foi praticamente outro meio-campista no auxílio a Fernandinho. Dando suporte a Mendy que voava à esquerda para cima de Trent Alexander-Arnold, fragilizado na lateral direita da equipe de Jurgen Klopp, que de início tentou adiantar linhas e duelar pela posse de bola na execução de seu 4-3-3 sem Philippe Coutinho até no banco.

Perdeu capacidade de criação e flexibilidade. Eram três meio-campistas sem tanta qualidade no passe, dois ponteiros velozes e Firmino girando e tentando abrir espaços. Por isso teve a grande oportunidade na partida com Salah em contragolpe cedido pelo City mesmo com 1 a 0 no placar.

Efeito colateral da confiança em uma maneira de jogar que parece ter encontrado a melhor formação. O 5-3-2 que se transforma em 3-1-4-2 na retomada. Trabalhando a posse, pressionando no campo de ataque. Movimentando a dupla de ataque e abrindo o campo com os alas.

Passeio na segunda etapa com o segundo de Jesus cedido por Aguero depois de passe em profundidade letal de Fernandinho. O primeiro do atacante brasileiro saiu de cabeça, logo após a expulsão, em nova assistência do meia De Bruyne. Cruzamento cirúrgico da esquerda. O belga foi outro destaque individual em uma bela atuação coletiva.

Fica a dúvida em relação ao comportamento desta equipe diante de adversários bem fechados e com linhas compactas, de “handebol”. Porque induz o jogo posicional a abrir a jogada e fazer o cruzamento buscando a dupla de atacantes. Com espaços fica mais fácil alternar por dentro e pelo flanco.

Por isso Sané, que entrou na vaga de Jesus, também deu espetáculo com dois gols. O último golaço nos acréscimos para fechar em 5 a 0. Antes completou mais um centro de Mendy no passeio pelo setor esquerdo. Num universo de 66% de posse de bola e 12 finalizações, nove no alvo. A mira também estava afiada.

Placar histórico, que só não é a maior dos citizens no confronto porque em 1936 houve um 6 a 0.  Mais importante que o número de gols, porém, foi o desempenho. Guardiola parece ter encontrado o melhor caminho para enfim se impor na Premier League.

(Estatísticas: BBC)


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