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Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Por que Francesco Totti, por Lucas Caetano
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André Rocha

ESCREVE LUCAS CAETANO (https://medium.com/@lucascaetano)

Na tarde de 26 de junho de 2006, eu subia o morro da Nova Cintra, em Santos, para mais um dia de treino pelo time sub-12 do Jabaquara — coincidentemente do qual fazia parte Emerson Palmieri, hoje atleta da Roma — na companhia de meu avô, autoincumbido de me levar aonde fosse sob o desejo posteriormente fracassado de ver o neto jogar futebol profissionalmente.

O rádio de seu carro estava sintonizado na transmissão da partida entre Itália e Austrália, pelas oitavas de final da Copa do Mundo na Alemanha, ocorrida no estádio Fritz Walter, em Kaiserslautern. Os instantes fugazes que se sucediam em meio à expectativa de dois ouvintes ávidos pelo desfecho daquele jogo eram uma versão acelerada do filme que se passava na cabeça de Francesco Totti, responsável por bater, aos 50 minutos do segundo tempo, um pênalti inexistente que colocaria ou não a Azzurra na fase seguinte. Fabio Grosso sequer fora tocado pelo zagueiro Neill. Possivelmente o gênero deste curta oscilara entre o suspense e o drama, esboçando acarretar em terror ou comédia, de acordo com o ponto de vista, em caso de eventual e improvável eliminação italiana.

Meu conhecimento em relação ao camisa 10 restringia-se ao fato de Totti ser o craque e capitão romanista há anos, ao longo dos quais vencera um Campeonato Italiano, e que na Copa de 2006 estava longe de sua forma física ideal em razão de uma fratura no perônio sofrida em fevereiro daquela temporada. Também sabia, devido às tradicionais recapitulações de Copas anteriores feitas por jornais e programas esportivos, que o então meia fora expulso quatro anos antes, na mesma fase, contra a anfitriã Coreia do Sul, em Daejeon, por ter recebido o segundo cartão amarelo fruto de uma simulação após um choque com um defensor coreano na grande área.

Minha conclusão, e creio ser a mesma de muitos, é de que ali nada houve além de uma dividida; nada de pênalti, tampouco simulação. Aquele jogo transporta consigo uma densa carga de controvérsia abastecida pela atuação do árbitro equatoriano Byron Moreno, cujas decisões não só decretaram a retirada de Totti, como também invalidaram um gol do volante Tommasi, em posição legal no ponto em que recebera um passe em profundidade de Christian Vieri.

Toda a saga ocorrera na prorrogação, quando o placar anotava um gol para cada lado. No minuto final, a Coreia desempatou o cotejo, classificando-se para enfrentar a Espanha, em cujo duelo os asiáticos desfrutaram de nova colaboração do apito para seguir fazendo história.

Com a curiosidade aguçada e disposto a imergir na história de Francesco Totti, busquei ainda naquele 26 de junho de 2006 informações na internet para aos poucos compreender a dimensão do que ocorrera em Kaiserslautern e de como se construíra a narrativa do filme transcorrido na mente do craque. À lesão e à expulsão em Daejeon somava-se um componente que seguramente mancharia para sempre a trajetória de Il Capitano: nova suspensão, esta incontestável, sofrida depois de o italiano cuspir no rosto do dinamarquês Christian Poulsen durante a estreia na Eurocopa de 2004, em Portugal.

Totti levou um gancho de três partidas e não voltou a atuar pelo torneio continental, pois sua equipe sucumbira à fase de grupos. Nessa mesma época, recusara uma proposta oficial do Real Madrid, onde certamente ganharia mais troféus, mais dinheiro e mais visibilidade. Quando esteve prestes a aceitar, recuou, coibido pelo que há de mais puro: o amor ao clube de infância, tornando ali impossível projetar o ídolo vestindo outra camisa.

A tarde no Fritz Walter não deixava de ser, portanto, o divisor de águas em uma carreira que de toda forma seria brilhante, mas cuja luz não resplandeceria com tanto vigor caso a penalidade não fosse convertida. Mesmo que o atual Rei de Roma não figure entre os jogadores mais decisivos pela Squadra Azzurra, muito por causa de seu estado físico impróprio em solo alemão, o quarto Mondiali da Itália dependera também de seu pé direito para ser ratificado. Totti deixara deliberadamente a seleção após a conquista sob o pretexto de recuperar a condição física e dedicar-se exclusivamente à Roma, sua maior paixão.

Terminada a Copa de 2006, acompanhei pela primeira vez uma temporada europeia completa. Logo de cara, uma surpresa: Totti estava escalado como centroavante. E fora assim durante todo o resto da primeira passagem de Luciano Spalletti no comando da Roma. Entretanto, o 10 não havia virado um típico 9. Constatando a facilidade do capitão tanto para criar jogadas quanto para finalizá-las, o treinador alocou-o na última posição do ataque, mas, no decorrer das pelejas, Totti voltava para o meio-campo e alternava suas funções ora como armador de jogadas para os avanços dos brasileiros Taddei e Mancini pelas pontas e do compatriota Simone Perrotta pelo centro, ora selando o fim delas.

Nesse novo ofício o ídolo romanista balançou as redes 26 vezes no Campeonato Italiano e abocanhou a Chuteira de Ouro da Europa. Nesta temporada, a exemplo da época seguinte, os gialorrossi ergueram a Copa Itália, ambas em decisões ante à Internazionale de Milão — a primeira delas com um deleitante 6×2 no Estádio Olímpico — , porém os nerazurri assumiram a soberania na Série A, da qual a Roma fora vice-campeã nas duas ocasiões. Este período engloba também as melhores campanhas de Totti na Uefa Champions League, com confrontos memoráveis frente aos então favoritos Lyon e Real Madrid nas oitavas-de-final; nas quartas, todavia, os romanistas renderam-se duas vezes consecutivas a um poderoso e faminto Manchester United, que de brinde impusera um pungente 7×1 em Old Trafford.

Meu cortejo repentino a Francesco Totti apresentava-se melhor que a encomenda.

Em setembro de 2009, Spalletti deixou o clube, enovelado em uma transição confusa após a chegada de Claudio Ranieri, que parecia não fazer questão alguma de escalar seu capitão entre os titulares. No entanto, enquanto ocupava o meio da tabela sem maiores aspirações no Italiano, o time inesperadamente engatou uma sequência de vitórias e atingiu a liderança a cinco rodadas do final. Talvez por essa surpresa, suponho que este Scudetto de 2010, que a Roma novamente deixara escapar na hora H mais uma vez para a Internazionale, seja o que Totti e o clube mais se lamentam por não terem conquistado desde a glória alcançada nove anos antes.

Os gialorrossi repetiram o segundo posto em 2014 e 2015, mas sem que tivesse havido uma verdadeira disputa, uma vez que a Juventus disparara a ganhar campeonatos com vasta margem sobre seus concorrentes. Infiro também que esse novo baque aliciou o camisa 10 a desferir aquele chute grotesco na perna de Mario Balotelli e ser expulso durante a decisão da Copa Itália que a mesma Inter vencera instantes depois. De qualquer forma, Il Capitano fora previsível e coerentemente repudiado pelos críticos, e então vislumbrou-se um desfecho próximo em sua carreira, tangido pelas más temporadas da Roma — e dele — na sequência.

Eu mesmo compartilhava dessa ideia. A idade chega para todos. Assistir a um jogo de Totti era esperar por um ou outro passe de primeira, alguns deles de calcanhar, daqueles que desmontam a defesa adversária, um lançamento preciso ou um uma bomba de fora da área, embora esses lampejos fossem suficientes em certos momentos. Meu receio era de que ele parasse em baixa. Daí a Roma anunciou seu novo treinador para a temporada 2013–2014: o francês Rudi Garcia.

A equipe triunfara nas dez primeiras rodadas com Totti desfilando em campo, cena já inimaginável para mim. Ótimo, pensei, ele teria o encerramento que merece, ou algo próximo disso. Eu defendia que a caminhada terminasse em maio de 2014, após uma temporada em bom nível como há tempos não acontecia, mas meses depois fui forçado a refutar minha própria teoria.

Uma aposentadoria naquele estágio nos privaria de ver Totti seguir adicionando capítulos à sua jornada e empilhando recordes. A cavadinha sobre Joe Hart contra o Manchester City na Inglaterra, pela Uefa Champions League, transformou-o no jogador mais velho a marcar um gol na competição, aos 38 anos e três dias, nota esta editada pelo próprio autor, que dali a 56 dias, em Moscou, voltaria a balançar a rede enfrentando o CSKA.

Ainda na mesma temporada Totti se igualara ao brasileiro naturalizado italiano e também romanista Dino da Costa como o maior artilheiro da história do derby diante da Lazio, ao anotar os dois tentos da equipe no empate por 2 a 2. Segundo o craque, este é o recorde que ele mais aprecia, o que ajuda a dimensionar o amor entre Totti, Roma e o ódio — recíproco — à parcela azul da cidade eterna.

Ocorridos os fatos acima, cessei qualquer conjectura acerca do fim deste casamento, afinal, a exemplo da vida, o futebol é imprevisível, ilusório, traiçoeiro, e está sempre disposto a golpear aqueles que ousam alterar o curso das coisas. Seguindo a toada, o ano passado trouxera mais novidades. Subtraído pelo regressado Luciano Spalletti, com quem outrora tanto se entrosara, Totti desembestou a evitar derrotas e garantir triunfos para a Roma nas exibições finais do campeonato.

Em uma delas, frente ao Torino, o narrador e locutor do Estádio Olímpico, Carlo Zampa, viu-se por alguns segundos incapaz de dizer qualquer palavra, envolto em um choro copioso enquanto relatava o ato redentor de sua divindade.

O canto do cisne de Il Capitano não fora suficiente para Spalletti dar a ele mais minutos em campo. As informações vindas da imprensa italiana sugerem que os dois seguem às turras, algo que talvez tenha contribuído para antecipar o fim da era Totti. O vínculo do comandante com o clube idem. É insensato cobrar a escalação frequente de um atleta de 40 anos, que visivelmente depende de brilharecos cada vez mais escassos e acusa natural limitação para acompanhar um ritmo dinâmico de jogo.

A Roma briga ponto a ponto com o Napoli pelo vice-campeonato italiano, que garante vaga direta à fase de grupos da Uefa Champions League e impede a chance de queda na etapa preliminar como ocorrera diante do Porto na atual edição, portanto deve-se prioritariamente pensar além de Totti. Entretanto, não é compreensível negar a entrada do craque em partidas já definidas, por exemplo nos 4 a 1 contra o Milan em um San Siro aparelhado naquele dia para homenagear o atleta.

Fica a impressão de que algumas lacunas poderiam ser preenchidas dentro deste cenário de despedida de uma lenda. Porém, se pararmos para refletir, são diversos os espaços vazios na carreira de Francesco Totti, sobretudo no que concerne a prêmios coletivos e individuais. Ele mesmo afirma que, tivesse dito sim ao Real Madrid, ganharia três Champions League e duas Bolas de Ouro. Impossível saber.

Em tese, lá ele seria apenas mais um galáctico, tendo de se acostumar a uma rotina na qual sua figura não seria a principal, muito menos coberta pelo caráter supremo que adquirira na capital italiana. A subjetividade nos conduz a infindáveis objeções. E mesmo que ele chegasse a esse topo, provavelmente eu não destinaria parte do meu fim de semana a escrever sobre um ídolo, ao menos não da maneira que o faço, e certamente as homenagens prestadas a ele seriam reduzidas, quiçá impensáveis.

Totti talvez seja a personalidade atual que mais se enquadra na luta (não que ele necessariamente lute) contra o futebol moderno, onde os times entram juntos em campos devido a uma imposição hipócrita do tal fair play, onde o torcedor (digo, consumidor) é obrigado a permanecer sentado para não ser retirado pelos seguranças, onde as selfies nas cadeiras (arquibancada? Isso é passado) valem mais que certos gestos de apoio dos fãs, onde arenas suntuosas (estádio? Isso é passado) destroem a identidade do futebol de um país. Onde o dinheiro sufoca a paixão.

Neste domingo, veremos um Olímpico apinhado de romanistas em um misto de alegria, tristeza, gratidão e dúvida; afinal, muitos deles, assim como vários de nós, não têm ideia do que é a Roma sem Totti. Tampouco quem é Totti sem a Roma.

ESCREVEU LUCAS CAETANO


O ponto em comum entre Pep Guardiola e a seleção brasileira de 1982
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André Rocha

Foto: Reprodução ESPN Brasil

Em entrevista ao repórter João Castelo-Branco, da ESPN Brasil, Pep Guardiola mostrou-se feliz e honrado, até emocionado, ao ser informado que, na gravação de um documentário sobre os 35 anos da derrota da seleção brasileira para a Itália em 1982, todos os jogadores daquela geração afirmaram que veem no futebol atual as equipes do treinador catalão com algo do time comandado por Telê Santana.

“É, provavelmente, o maior título que um treinador pode conquistar. As pessoas estão muito enganadas em pensar que só é título quando se ergue a taça. Não há coisa mais bonita que ver que uma geração de jogadores que jogou bola como esse Brasil de 1982 pode dizer coisas boas de uma pessoa ou dos times que ela treinou”, afirmou Pep em entrevista exclusiva.

No entanto, ao ser questionado duas vezes pelo entrevistador se aquele time foi uma influência na maneira de armar suas equipes, novamente foi político ao elogiar e concordar sobre o impacto que ela lhe causou, mas sem citá-la como referência em tática, estratégica ou modelo de jogo.

Impressão que vai ao encontro do que disse Martí Perarnau, autor dos livros “Guardiola Confidencial” e “A Metamorfose”, quando perguntado por este blogueiro se Guardiola tinha a escola brasileira como modelo:

“É verdade que depois de dois anos seguidos conversando com Guardiola sobre todo tipo de futebol, nunca houve um comentário de que o Brasil fosse uma referência tática para ele. Conversamos, sim, sobre aquela maravilhosa seleção de 1982, mas da mesma forma que qualquer um faz: aquela maravilha de Sócrates e companhia, uma pena que perdessem pelo que significou aquela derrota depois. Nada mais do que isso.”

De fato, basta uma pesquisa em entrevistas do treinador para perceber que suas referências são Marcelo Bielsa, Van Gaal, César Luis Menotti, Arrigo Sacchi, Juan Manuel Lillo e Johan Cruyff.

Mas é na Holanda que se encontra o ponto de encontro entre o Brasil de 1982 e Pep Guardiola: Rinus Michels e a sua seleção vice-campeã da Copa na Alemanha em 1974.

Porque Guardiola foi jogador de Cruyff no “Dream Team” do Barcelona no início dos 1990. Sempre teve o treinador como mestre. A maioria de suas ideias e de seus conceitos vêm da escola holandesa: pressão, movimentação, busca da superioridade numérica, qualidade na saída de bola e triangulações.

As mesmas que influenciaram Telê Santana em 1982. Pouco antes do início da segunda fase da Copa do Mundo contra Argentina e Itália, o treinador afirmou em entrevista ao Jornal do Brasil: “Temos um toque de bola e deslocamentos que desnorteiam os adversários, como a Holanda fez em 1974. Mas temos, acima de tudo, o que eles não tinham: a malícia, o toque perfeito e principalmente a criatividade”.

Não era raro ver a seleção brasileira no Mundial da Espanha fazendo pressão no campo adversário, recuando Falcão para qualificar ainda mais a saída desde a defesa e com muitos deslocamentos. A opção de Telê por não ter um ponta pela direita criou um problema defensivo que não foi corrigido – e o primeiro gol de Paolo Rossi no Sarriá deixa isso bem claro.

Por outro lado, nos jogos contra Argentina e Itália, a movimentação de Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico pelo setor renderam três dos cinco gols marcados. Primeiro Zico lançando, Falcão infiltrando como ponta e cruzando para Serginho marcar o segundo nos 3 a 1 sobre a Argentina. Diante da Itália, Zico limpou Gentile e lançou Sócrates às costas de Cabrini no primeiro; Falcão recebe, Cerezo passa como lateral, o meio-campista da Roma corta para dentro e marca um dos mais belos e emocionantes gols da história das Copas.

Sem contar as tabelas e triangulações em todo o campo. Com Éder aberto pela esquerda e Junior apoiando por dentro. O mesmo com Leandro do lado oposto com qualquer um do “quadrado mágico” no meio-campo que, na prática, formava um 4-2-3-1 meio “torto”, já que Éder era um ponteiro que recuava bastante para participar da articulação das jogadas. Futebol moderno dentro do contexto da época.

Mas perdeu. Para a Itália comandada por Enzo Bearzot, que também via influência da vice-campeã mundial de 1974 no time canarinho: “O futebol dos brasileiros está cada vez mais se aperfeiçoando. Parece a Holanda, com todos os jogadores trabalhando para o conjunto, sem destaque individual”, exaltou o treinador.

A última grande revolução do futebol mundial. O time de Rinus Michels comandado em campo por Cruyff. Com Krol, Neeskens, Van Hanegem, Rep e Rensenbrink. Do “arrastão” com dez jogadores correndo na direção do adversário com a bola. Da “pelada organizada”, como definiu João Saldanha pelo fato dos jogadores não atuarem fixos em suas posições. Craques técnicos e táticos, executando múltiplas funções.

O maior deles, Johan Cruyff, modelo para Guardiola. Treinado por Michels, exemplo para Telê. Eis a interseção, a conexão. Mais que isso, só a arrogância de ter certeza que tudo de bom que se faz no futebol mundial em todos os tempos foi invenção nossa.

Não foi, não é. Guardiola quer brasileiros no seu ataque para desequilibrar: pediu Neymar no Barcelona, levou Douglas Costa para o Bayern de Munique e hoje cobre Gabriel Jesus de elogios. Mas quer todo esse talento no último terço do campo.

Os alicerces de seu jogo vêm de outros pontos do mundo. Porque não se joga bola só por essas terras. Por mais que o Brasil de 1982 seja uma deliciosa lembrança.

 


Brasil na Copa! Agora é encarar gigantes, mas também retrancas “handebol”
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André Rocha

A vitória do Peru sobre o Uruguai por 2 a 1 de virada garantiu matematicamente o que estava claro no campo: o Brasil estará na Copa do Mundo da Rússia.

Com a confirmação oficial, o discurso de Tite é experimentar jogadores, manter a concorrência em alto nível por vagas não só no time titular, mas no grupo de 23 até a convocação final. Também medir forças com as principais seleções europeias em amistosos.

Importante para o próprio treinador ganhar cancha em grandes duelos internacionais além do continente. Ainda que os europeus tratem os jogos que não valem três pontos com menos seriedade, rodem o elenco e não se importem tanto com o resultado final.

Mas há um teste tão fundamental quanto os grandes clássicos mundiais para esta seleção brasileira: enfrentar uma retranca típica desta era do futebol moderno. A criada por José Mourinho para conter o Barcelona de Guardiola. Alguns chamam de “ônibus” na frente da própria área. Este que escreve prefere tratar como “handebol”. Leia mais AQUI.

Foi vista com frequência na última Eurocopa e criou problemas para grandes seleções. Uma linha de cinco na defesa, outra de quatro no meio. Mas tão próximas que em alguns momentos era possível ver sete ou até os nove fechando os espaços para a infiltração do adversário. Como o momento defensivo do handebol, obviamente com outra dinâmica e um campo maior para cobrir.

O exemplo mais radical foi a Irlanda do Norte que deu trabalho à campeã mundial e então favorita Alemanha. A linha de cinco se estreitava e permitia que os meias pelos lados também recuassem praticamente como laterais, formando uma barreira de sete homens que os favoritos abriram à forceps no gol único de Mario Gómez.

Flagrante da linha de sete defensores da Irlanda do Norte para conter o ataque alemão na fase de grupos da Eurocopa 2016. Lembra o handebol (reprodução Sportv).

Por que será importante para o Brasil de Tite? Ora, com o favoritismo que pode aumentar caso seja bem sucedido nos amistosos, os oponentes não terão vergonha de se retrancar. Mesmo os mais tradicionais. E certamente numa fase de grupos ou até nas oitavas-de-final não será surpresa ter pelo menos dois adversários adotando esta prática.

Para abrir esse ferrolho, o posicionamento dos jogadores é tão importante quanto o drible, a movimentação e a inventividade na criação de espaços. No 4-1-4-1 de Tite, Philippe Coutinho e Neymar são pontas que procuram o meio para tabelas e triangulações. Os laterais, Daniel Alves e Marcelo, que poderiam abrir bem e esgarçar a marcação também tendem a centralizar. Para furar a linha de handebol fica mais complicado.

A Austrália, adversária no amistoso que será disputado em junho, costuma atuar com três zagueiros. Mas vale o teste contra uma seleção da Europa. País de Gales, de Gareth Bale, chegou à semifinal da Euro se defendendo com cinco na última linha e recuando até o seu grande craque para negar espaços. Pode ser um rival interessante. Sérvia também joga com cinco atrás. A própria Irlanda do Norte.

A Itália venceu ontem a Holanda de virada em Amsterdã por 2 a 1 com Zappacosta, Rugani, Bonucci, Romagnoli e Darmian à frente do jovem goleiro Donnarumma. Mais De Rossi na proteção. Uma experiência do técnico Giampiero Ventura seguindo a linha de seu antecessor Antonio Conte, sensação na Premier League atuando no 5-4-1 quando não tem a bola. Se mantiver a ideia pode ser um confronto ainda mais importante, pois combinaria peso da camisa e um teste para o ataque brasileiro.

A linha de cinco, mais dois jogadores no apoio, da Itália na virada sobre a Holanda. Se Gianpiero Ventura mantiver a estrutura, pode ser teste interessante para a seleção brasileira (reprodução ESPN Brasil).

Antenado ao que acontece no futebol mundial e detalhista como é Tite, certamente a retranca “handebol” está no seu radar. Porque os adversários nas Eliminatórias até tentaram se fechar contra o Brasil, mas não com essa proposta mais radical.

Como Neymar e seus companheiros vão se comportar? Temos praticamente um ano para descobrir até a bola rolar na Rússia.


David Luiz não é líbero, nem sobra no Chelsea e pode voltar à seleção
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André Rocha

David Luiz Chelsea

Bastou o técnico Antonio Conte utilizar o esquema com três defensores e encaixar David Luiz na zaga do Chelsea para começar a surgir aqui e ali a tese de que o brasileiro está rendendo porque atua protegido como líbero ou zagueiro de sobra.

Nem uma coisa, nem outra. Os Blues se defendem no 5-4-1, com a linha de cinco atrás formada por Moses, Azpilicueta, David Luiz, Cahill e Alonso. Marcam por zona, posicionados. Não é raro observar a equipe ser atacada pelo seu lado esquerdo e Alonso sair no combate, Cahill ficar na cobertura, Azpilicueta e David Luiz guardarem a área e Moses, o ala/ponta aparecer como lateral na diagonal de cobertura. Ou seja, a sobra naquela ação defensiva. O último homem a bloquear o ataque adversário.

De fato, David Luiz vem atuando mais protegido. Inclusive por ele mesmo, sem as saídas tresloucadas da defesa e um sistema de cobertura, tanto para armar o jogo quanto caçar os atacantes na intermediária. Conte usa a rapidez do zagueiro nas recuperações e coberturas e aproveita seu passe longo para acionar os atacantes de forma mais direta e prática.

Mas não é líbero. Para entender melhor é preciso resgatar os conceitos e a história desta função.

O primeiro time que se tem notícia de usar um jogador atrás da linha defensiva foi a Suíça do austríaco Karl Rappan na Copa de 1938, que eliminou a Alemanha de Hitler com seu “ferrolho”, espécie de 5-4-1. A estratégia, junto aos aspectos táticos do “Metodo” de Vittorio Pozzo nos títulos mundiais italianos de 1934 e 1938, formou a base do “Catenaccio” que Nereo Rocco implantou na Triestina, depois Milan nos anos 1940, e Helenio Herrera consagrou na Internazionale bicampeã europeia nos anos 1960.

O raciocínio era simples: em tempos de marcação individual e WM (3-2-2-3), três defensores cuidavam do trio de ataque. Pela direita, o “terzino destro” cuidava do ponta-esquerda, no centro o “stopper” marcava o centroavante e o “terzino sinistro” pegava o ponta-direita. Ou seja, uma vitória pessoal do atacante e só sobrava o goleiro.

O “libero” jogava na sobra da retaguarda. Mas com uma função primordial: aproveitar essa liberdade na construção do jogo. Se cada um pegasse o seu, quem marcaria esse jogador de trás? Era a chance de quebrar o sistema defensivo do adversário.

Apesar da origem italiana e a excelência de nomes como Giovani Trapattoni, Ivano Blason, Armando Picchi, Gaetano Scirea e Franco Baresi, ninguém exerceu melhor a função que um alemão: Franz Beckenbauer. Saiu do meio para estar em todo o campo, na seleção e no Bayern de Munique. Mas inspirado em um outro jogador da Azzurra: Giacinto Facchetti, lateral esquerdo da Internazionale e vice-campeão mundial em 1970.

“Ele marcava bem e atacava ainda melhor quando se projetava à frente, pela lateral. Pensei, então, que atuando atrás dos zagueiros, saindo para o jogo, eu teria a vantagem de atacar pelos dois lados”, lembra o Kaiser (trecho do livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos”, de Mauro Beting).

David Luiz também não é zagueiro de sobra. Função que se confunde com o líbero no Brasil, especialmente depois da criação do sistema com três zagueiros nos anos 1980. Tempos também de marcação individual. Já que quase todos atuavam com dois atacantes, cada um era vigiado por um defensor e outro sobrava.

Brown na Argentina de Bilardo jogava atrás de Cuciuffo e Ruggeri, só aparecia no ataque em bolas paradas – como no gol da final da Copa de 1986 sobre a Alemanha. Já Morten Olsen na Dinamarca de Sepp Piontek, era o primeiro articulador, iniciando a saída de bola e aparecendo na frente.

Na seleção brasileira da Copa de 1990, com Sebastião Lazaroni, Mauro Galvão era chamado de líbero e, no ano anterior, chegou a ser comparado a Baresi pelas ótimas atuações com a camisa canarinho. Mas atuava na sobra.

“Era uma função diferente. Eu e os outros dois zagueiros tínhamos que cobrir os laterais, então eu não saía muito, ficava mais fixo”, explica o ex-defensor e agora técnico.

Valdir Espinosa, treinador de Galvão no Botafogo, lembra que no time campeão carioca de 1989, depois de 21 anos de jejum, o zagueiro cumpria mais a função de líbero: “No Botafogo ele armava o time de trás e tinha a cobertura do volante Carlos Alberto Santos. Eu repeti naquela equipe o que fiz no Grêmio campeão da Libertadores e Mundial em 1983: Hugo De Leon subia e o volante China ficava. Isso, sim, é ser líbero”.

Outros brasileiros atuaram desta forma, como Marinho Peres, no Barcelona de Rinus Michels e no Internacional de Rubens Minelli nos anos 1970, e Luis Pereira no Palmeiras no mesmo período e no início dos anos 1980. Todos inspirados em Beckenbauer. Marcando e armando o jogo.

David Luiz até cumpre as duas funções, mas em outro sistema, outra dinâmica. Atuando com mesma seriedade e simplicidade, pode voltar à seleção brasileira. Como opção, claro. Se até Thiago Silva precisa esperar sua vez por conta do ótimo momento de Marquinhos e Miranda sob o comando de Tite, imagine quem tem no currículo atuações pluripatéticas, como nos 7 a 1, tentando bancar o heroi, e no empate contra o Uruguai pelas eliminatórias, sofrendo como quase sempre contra Luis Suárez.

No 4-1-4-1 bem executado e com Casemiro na proteção, David Luiz pode simplesmente ser um defensor. Que cresce quando não se arrisca. Como no Chelsea das 12 vitórias seguidas e apenas dois gols sofridos nesta sequência de triunfos. Como sempre deveria ter sido.


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


O silêncio de Neymar pode ser positivo. Veja outros casos
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André Rocha

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O blogueiro já adianta: este post não é um gol contra o próprio ofício. O ideal é que a imprensa tenha liberdade e espaço para fazer seu trabalho. Até porque o repórter é apenas um veículo entre o personagem e o público.

Neymar se recusou a atender os jornalistas depois do empate sem gols com o Iraque no Mane Garrincha, o auge das críticas à seleção olímpica. Inclusive por persuadir seus companheiros a não responder sequer os veículos que adquiriram esse direito por contrato nos Jogos do Rio de Janeiro. Voltou a falar após a goleada sobre a Dinamarca, mas novamente ficou em silêncio, apesar da bela atuação contra Honduras.

Difícil precisar as razões. Talvez coerência – se não falou na crise, também não se pronuncia com os muitos elogios agora. Ou está esperando a conquista da medalha de ouro para desabafar contra algo ou alguém.

Não é o melhor dos cenários. O próprio Neymar já se pronunciou sobre essa tensão entre ele e a imprensa. Diz que quer críticas construtivas, mas já devia estar acostumado com essa pressão. A “bolha” em que estrelas como ele vivem, cercada de amigos e bajuladores de ocasião, não ajuda muito.

Na prática, porém, pode ter um efeito positivo. Porque em silêncio é possível se concentrar ainda mais no trabalho, sem maiores distrações. Ainda que seja praticamente impossível ficar alheio a tudo com as informações circulando nas redes sociais.

No futebol há histórias vencedoras de times ou craques que não atenderam a imprensa. Como o “Silenzio stampa” da seleção italiana na Copa do Mundo de 1982. Depois de uma primeira fase com futebol pobre e empates contra Polônia, Peru e Camarões, os jornalistas pegaram pesado nas críticas e entraram até na vida privada, insinuando sobre a orientação sexual de Paolo Rossi e Antonio Cabrini por conta de uma foto.

A solução: silêncio total. Ou quase, com o capitão e goleiro Dino Zoff falando apenas o “extremamente necessário”, porém sem maiores diálogos. Não há como afirmar que foi essa união do grupo fechado a responsável pela arrancada de quatro vitórias, inclusive sobre a lendária seleção de Telê Santana, até o tricampeonato mundial. Mas funcionou.

Deu resultado prático também com Portugal na última Eurocopa. Depois de Cristiano Ronaldo arremessar o microfone de um repórter português num lago em acesso de fúria, a seleção que vinha penando no torneio arrancou para a conquista. A velha necessidade de criar um inimigo para se unir e lutar contra.

No Brasil, outros dois casos em um mesmo time. O Vasco de Edmundo, que depois de uma declaração infeliz sobre o árbitro Dacildo Mourão e ser alvejado por críticas, se recusou a dar entrevistas. Concentrado apenas no futebol, teve desempenho espetacular, levou o Vasco ao título e quebrou o recorde de gols em uma mesma edição com 29 e em uma mesma partida – seis, contra o União São João, em São Januário.

Três anos depois, sem Edmundo, outra polêmica: a queda do alambrado em São Januário na primeira partida da decisão da Copa João Havelange contra o São Caetano. Eurico Miranda queria que o jogo fosse reiniciado, apesar dos 160 feridos. Não conseguiu e foi muito criticado.

Jogo remarcado para o início de 2001 no Maracanã. Até lá, Eurico proibiu entrevistas e até acesso da imprensa a São Januário. Para afrontar, obviamente, mas também com o objetivo de blindar o time e não desviar o foco. O resultado prático foi vitória por 3 a 1 e uma das melhores exibições coletivas da equipe dos Juninhos (Pernambucano e Paulista), Euler e Romário.

Exceções. A história mostra muito mais casos de times campeões que não tinham problemas com a imprensa e não precisaram de um litígio como motivação para melhorar o desempenho.

Mas se o silêncio de Neymar e uma mais que provável vontade de responder aos críticos “destrutivos” servirem para ele repetir na decisão contra a Alemanha no Maracanã a bela atuação dos 6 a 0 na semifinal olímpica…que seja.

Até para nós, jornalistas. Porque a falta de aspas seria compensada com as pautas sobre a vitória, que atingem e mobilizam muita gente e criam um clima de otimismo e esperança. O ouro inédito vale mais que as palavras.

Neymar, você não precisa nos mostrar seu valor como jogador. Mas se isto também lhe estimula a vencer e dar espetáculo em campo, boa sorte!


Alemanha e Itália apresentam a lógica por trás da volta dos três zagueiros
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André Rocha

Quando Sepp Piontek adicionou um zagueiro, ou retirou um defensor, na Dinamarca da Eurocopa de 1984 e, quase ao mesmo tempo, Carlos Bilardo adotou prática semelhante na Argentina, o raciocínio era idêntico.

Se o jogo se definia no meio-campo, para que deixar quatro defensores para marcar apenas dois atacantes? Com três, a sobra era garantida e haveria cinco homens entre as intermediárias para criar superioridade numérica.

Eram tempos de marcação individual, influenciada pela Itália campeã do mundo e que tinha a principal liga do planeta. Na final da Copa de 1982, Enzo Bearzot montou a Azzurra com Bergomi e Collovati pegando Fischer e Rummenigge para sobrar o líbero Scirea.

E Gentile, que perseguiu Maradona e Zico como um volante cão de guarda no “grupo da morte” na segunda fase? Foi ala, pela direita, para fazer o cruzamento para o primeiro gol, de Paolo Rossi, nos 3 a 1 sobre a Alemanha que garantiram o tricampeonato no Santiago Bernabéu.

A Argentina venceu no México em 1986 com Brown na sobra de Ruggeri e Cuciuffo e Maradona fazendo mágica na frente. O auge dos três zagueiros com encaixes individuais veio em 1990 na Itália com o tri alemão, mas como símbolo do jogo truncado. Um marco, como definiu o jornalista inglês Jonathan Wilson em seu livro “Invertendo a Pirâmide”, da virada do 2-3-5 dos primórdios do esporte para o 5-3-2.

Porque a ideia de ter mais gente no meio-campo foi deturpada. A começar pelo Brasil de Sebastião Lazaroni, que escalou três zagueiros com a intenção de dar liberdade aos laterais que jogavam abertos e não preenchiam os espaços no centro.Ou seja, eram laterais dois passos à frente.

Com o advento do 4-2-3-1 no final dos anos 1990, início dos 2000, não fazia sentido manter uma trinca de defensores para vigiar apenas um atacante. E se o adversário fosse ousado adiantava os dois meias abertos como pontas e matava a sobra. O 3-5-2 sumiu do mapa, com algumas exceções.

Uma delas era o México do técnico argentino Ricardo La Volpe. Mas não com o propósito único de defender e sim qualificar a saída de bola e dificultar a pressão do adversário com dois zagueiros bem abertos e Rafa Márquez no centro distribuindo de trás.

Inspiração no Barcelona e no Bayern de Munique para Pep Guardiola, discípulo também de Johan Cruyff, Louis Van Gaal e Marcelo Bielsa, três que inovaram nos anos 1990 por trabalharem com três zagueiros buscando a imposição do jogo. Na Itália, Antonio Conte se consagrou na Juventus que domina o futebol do país desde 2011/12 também com um trio atrás. Mas com marcação por zona, não individual.

A lógica por trás deste retorno está na capacidade de se adaptar ao futebol atual, de compactação e falta de espaços para quem tem a bola.

Se a equipe tem três zagueiros que sabem sair jogando, qual a necessidade de recuar tanto um volante para fazer a saída de bola? Até porque normalmente um outro jogador do meio-campo precisa recuar para dar opção de passe. Com o trio de passadores atrás o preenchimento do meio é maior.

Além disso, a utilização de alas garante a amplitude, a possibilidade de abrir o jogo. Porque se os ponteiros atuam normalmente com os pés invertidos – o destro à esquerda e o canhoto pela direita – e procuram o centro, deixando os corredores para os laterais, é mais inteligente garantir mobilidade e presença na área com pelo menos três jogadores mais agressivos se mexendo e os alas partindo de um posicionamento mais avançado.

Atrás, a meta hoje é negar espaços no último terço, impedindo os passes em profundidade. Então para que sacrificar um ponteiro ou meia voltando tanto para impedir a ultrapassagem do lateral adversário se pode ter um ala posicionado numa linha de cinco?

Três centralizados tapando as tabelas no meio e dois abertos. De acordo com o lado atacado, um ala avança e o outro faz a diagonal de cobertura. Mais gente ocupando os espaços onde o jogo se decide. Inteligência. Quem mostrou para o mundo? A Costa Rica e seu 5-4-1 que tirou Itália e Inglaterra na fase de grupos da Copa no Brasil em 2014.

Tudo isso foi visto em Marselha no duelo entre Alemanha e Itália pelas quartas-de-final da Eurocopa. Surpresa do lado alemão com Joachim Low escalando Howedes como zagueiro pela direita fazendo companhia a Boateng centralizado e Hummels à esquerda.

Flagrante da saída de bola alemã com Howedes e Hummels abertos, Boateng centralizado e Kroos recuando para criar superioridade numérica contra Pellè, Eder e Giaccherini e empurrar a Itália para o próprio campo (reprodução Sportv).

Flagrante da saída de bola alemã com Howedes e Hummels abertos, Boateng centralizado e Kroos recuando para criar superioridade numérica contra Pellè, Eder e Giaccherini e empurrar a Itália para o próprio campo (reprodução Sportv).

O objetivo não era simplesmente espelhar o rival para encaixar a marcação, e sim empurrar o rival para o próprio campo, além de negar a Giaccherini as brechas para inflitrar como elemento surpresa italiano se juntando a Eder e Pellé na frente variando o 5-3-2 para o 3-4-3.

Saída qualificada de trás, jogada pelos lados com os alas Kimmich e Hector, distribuição com Toni Kroos e muita movimentação na frente de Muller, Ozil, Mario Gómez e Khedira, depois Schweinsteiger.

A Azzurra de Conte sofreu, mas respondeu com concentração absoluta sem a bola, coordenação quase perfeita entre os setores e um princípio de jogo inegociável: não entregar a posse, mesmo com uma proposta defensiva forçada pelo oponente. Jogo apoiado sempre.

Lá atrás, linha de cinco com a trinca da Juventus: Barzagli, Bonucci e Chiellini. Mas não fosse a diagonal do ala direito Florenzi e o incrível golpe que desviou o chute de Muller, a Alemanha teria aberto o placar no início do segundo tempo. O mesmo Florenzi que apareceu na frente para a conclusão mais perigosa da Itália no primeiro tempo. Ala multifuncional.

A última linha defensiva da Itália. Como a Alemanha ataca pela direita, De Sciglio sai para bloquear a descida de Kimmich. Do lado oposto, Florenzi cuida de uma possível inversão de bola para Hector. Espaços ocupados na zona de decisão (reprodução Sportv).

A última linha defensiva da Itália. Como a Alemanha ataca pela direita, De Sciglio sai para bloquear a descida de Kimmich. Do lado oposto, Florenzi cuida de uma possível inversão de bola para Hector. Espaços ocupados na zona de decisão (reprodução Sportv).

Mas quando Gómez saiu pela esquerda e desequilibrou tudo com um passe improvável para a ultrapassagem de Hector, o sistema italiano ruiu num efeito dominó. Ozil apareceu livre chegando de trás para abrir o placar.

A Alemanha não recuou e quase ampliou com Gómez. Excepcional defesa de Buffon. A intenção de Low passou a ser “esconder” a bola até o final. Teria dado certo não fosse o inexplicável movimento de Boateng com os braços erguidos dentro da própria área. Pênalti que Bonucci converteu.

Empate persistente no tempo normal, na prorrogação e nos pênaltis do histórico confronto entre os cobradores e Buffon e Neuer, os dois melhores goleiros do mundo. Até o alemão pegar o chute de Darmian e Hector definir após 18 cobranças.

A Alemanha segue sem vencer a Itália em jogos oficiais. Mas desta vez sai classificada em uma disputa que foi o retrato do futebol de hoje: pensado, estudado, baseado no erro zero. De passes e movimentos, controlando as próprias ações e dos rivais. Nem sempre bonito ou cheio de gols.

Os três zagueiros foram apenas um suporte ou veículo para ocupar os espaços mais importantes do campo, na defesa e no ataque. Na busca do mais simples no futebol: jogar com a bola e, sem ela, não deixar o adversário se impor. Melhor para os campeões do mundo.


Por que a marcação individual do Palmeiras de Cuca é um retrocesso
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André Rocha

As quatro derrotas no início de Cuca no Palmeiras, com um clássico contra o maior rival na seqüência, fizeram o treinador resgatar uma velha prática que pelas primeiras partidas parecia descartada: a marcação individual.

O conceito é simples: cada um pega o seu e persegue por todo o campo. Um sobra. Assim foi com Gabriel sobre Guilherme, Arouca em cima de Elias, Robinho e Zé Roberto acompanhando os laterais do Corinthians no dérbi.

Também nos três zagueiros na Argentina para conter Marco Ruben e Herrera nos 3 a 3 contra o Rosário Central pela Libertadores. Como disse Cuca ao nosso PVC, a ideia é ter “um time por jogo”. Armado em função do oponente. Tática reativa.

Flagrante dos três zagueiros do Palmeiras pegando a dupla de ataque do Rosário Central. Repare na marcação do time brasileiro correndo atrás dos argentinos (Reprodução Sportv).

Flagrante dos três zagueiros do Palmeiras pegando a dupla de ataque do Rosário Central. Repare na marcação do time brasileiro correndo atrás dos argentinos, deixando espaços para o condutor da bola, que se desmarcou (Reprodução Sportv).

A origem, ou a primeira prática que se tem notícia, vem do Arsenal de Herbert Chapman, criador do WM. Saiu do 2-3-5 para o 3-2-2-3, com um defensor para cada atacante. Depois a Itália bicampeã mundial em 1934/38, com Vittorio Pozzo e seu “WW” (2-3-2-3). Futebol força como instrumento de propaganda fascista.

Mas foi outra versão de Azzurra que ficou no imaginário brasileiro, com um especialista em marcação individual que virou lenda: Claudio Gentile. Caçador de Maradona e Zico em 1982. Lateral direito de origem transformado em volante para tentar anular os craques. Para isso o meia Oriali foi transferido para a lateral.

Deu certo. Título mundial, o terceiro italiano. Curiosamente um país ligado ao Palmeiras pelo sangue.

Resultado positivo. Por isso passou a ser tratado como modelo. No Brasil começou a ser utilizado para anular talentos. Depois compensar laterais que mais apoiavam que marcavam e os técnicos não queriam presos à última linha. Mais prático “bater” os alas e distribuir os outros duelos.

A vantagem é irritar e desestabilizar com uma marcação sufocante e obsessiva. Se bem executada, mina mentalmente o oponente. Contra um time que depende de apenas um jogador costuma ser eficiente.

As “contra-indicações”, porém, são mais danosas. Ainda mais em 2016. Qualquer drible ou desmarque cria um efeito dominó, já que só há uma sobra lá atrás. Se o rival alargar o campo espaça os setores, obriga a marcar correndo. Cansa. O Palmeiras acusou o desgaste no segundo tempo na Argentina.

Outro problema é que se o adversário promove intensa movimentação, o time vira uma bagunça. Bola roubada, não há organização para o início da construção do jogo. Normalmente a saída é buscar uma bola longa para dar tempo dos jogadores retornarem aos seus setores.

Pode dar certo, como funcionou no clássico que podia ter acabado em derrota se Lucca tivesse convertido o pênalti defendido por Fernando Prass. E gerou elogios rasgados a Cuca. Porque este tipo de marcação dá um ar de estrategista ao treinador.

Basta o time correr mais e ser muito intenso e concentrado sem a bola. Como foi o Palmeiras, até pela necessidade. As chances de dar errado, porém, são imensas.

No futebol atual, a marcação por zona, que tem como referência a bola e o espaço, vem sendo bem mais eficiente. Faz pressão na bola, fecha as possibilidades de passe com linhas próximas. Compactação vertical estreitando a marcação. Time posicionado, com coberturas mais coordenadas. Poupa energias, não sacrifica um homem atrás do talento rival.

No ano passado, o Athletic Bilbao tentou encaixotar Messi com marcação individual na final da Copa do Rei. Devidamente pulverizada pelo gênio argentino, com requintes de crueldade: o golaço enfileirando marcadores que concorreu ao Prêmio Puskas.

Cuca foi campeão da Libertadores em 2013. Mas penou no jogo de ida contra o Olimpia. Também por um revés na marcação individual: no primeiro gol, o lateral Alejandro Silva limpou Luan, Richarlyson ficou com Pittoni e abriu-se um clarão que estourou em Rever, na sobra. Outra finta e gol do time paraguaio.

Primeiro gol do Olimpia sobre o Atlético Mineiro de Cuca em 2013: Alejandro Silva limpa Luan e abre um clarão na defesa que vai estourar em Rever, o zagueiro da sobra (reprodução Sportv).

Primeiro gol do Olimpia sobre o Atlético Mineiro de Cuca em 2013: Alejandro Silva limpa Luan, Richarlison não cobre o lado esquerdo para ficar em Pittoni e abre um clarão na defesa que vai estourar em Rever, o zagueiro da sobra (reprodução Sportv).

Victor salvou na decisão por pênaltis. Mas contra o Raja Casablanca pela semifinal do Mundial Interclubes em Marrakech foi trágico.

Na própria Itália de 1982 havia buracos. No primeiro gol do Brasil na “Tragédia do Sarriá”, Zico limpa Gentile, Sócrates, que iniciara a jogada, ultrapassa às costas de Cabrini e o líbero Scirea não chega a tempo de evitar a conclusão.

A marcação por zona também não é perfeita. Mas funciona de forma mais inteligente na maioria das vezes.

Cuca prefere a individual. Escolha legítima, não significa que está errado. No Brasil, o resultado quase sempre garante a razão. Conceitualmente, porém, é um retrocesso.


Modelo não, exceção! Por que o Leicester pode fazer mal ao nosso futebol
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André Rocha

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Na liga mais valiosa do mundo, um candidato ao rebaixamento antes da primeira rodada ocupa o topo da tabela a seis jogos do final, com cinco pontos de vantagem. Jogadores desacreditados e um treinador ridicularizado em incrível simbiose.

O Leicester City 2015/16 já é histórico. Mesmo se permitir uma reação do Tottenham, outra surpresa da temporada. A esta altura, vencer ou perder o título da Premier League causará comoção no planeta bola. Porque o impossível agora é provável. A virada na confiança foi nos 3 a 1 sobre o City em Manchester. Com autoridade.

Com Mahrez, 16 gols e 11 assistências, conseguindo atuações de melhor “winger” do mundo, Vardy com incrível felicidade nas finalizações – 19 bolas nas redes, duas a menos que o goleador máximo Harry Kane. Kanté se multiplicando no meio-campo. Especialmente Cláudio Ranieri dando uma aula de fazer mais com menos.

Eis o ponto. O Leicester encanta pela imprevisibilidade, pelo mito Davi x Golias. Por aproveitar o vácuo dos times de Manchester em transição, o tempo perdido do Chelsea com José Mourinho, a chegada tardia de Jurgen Klopp no Liverpool e a hesitação costumeira do Arsenal de Wenger.

O estilo, porém, é pragmático até a medula. Não quer a posse, só o erro do rival, a transição rápida e arriscada com passes verticais até acertar o contragolpe perfeito. Sim, soa uma heresia no calor da campanha lendária. Mas o Leicester joga feio. Não tem mais o ataque mais positivo, nem a defesa menos vazada. É o que mais pontua, porém.

Estratégia legítima pelo contexto do clube e dos concorrentes. O problema é se transformar em referência. Um duelo entre dois exemplares da equipe de Ranieri pode até ser eletrizante. Mas quem erraria na tentativa de propor o jogo, com linhas avançadas, para viabilizar as transições rápidas? Uma força anularia outra semelhante?

Se considerarmos que o Barcelona do trio MSN, Pep Guardiola e mesmo o Real de Cristiano Ronaldo, com todas as suas oscilações, são exceções na história do esporte, o Leicester é um modelo mais viável.

E já habita o imaginário popular do brasileiro que desde 1982 fala em vencer feio e perder bonito como se fossem as únicas opções. Injustiça com 1994, mais ainda com 2002.

A história mostra que os vencedores ditam as regras. No passado ainda mais pelo acesso restrito à informação. A Itália campeão na Espanha há quase 34 anos, até por ter a liga mais competitiva do mundo à época, fez o futebol mais prático e menos plástico. O líbero Scirea foi influência para o 3-5-2 que viria com a Dinamarca e a Argentina. A proposta de Carlos Bilardo era garantir solidez defensiva, saída em velocidade e bola para Maradona.

Acabou na Copa de 1990 com as seleções, inclusive a Alemanha, invertendo o 2-3-5 dos primórdios para cinco na defesa, três no meio e dois no ataque. Ou apenas um. Era de sombras, apesar do Milan de Arrigo Sacchi. Uma exceção como os times dominantes de agora.

O Leicester é mais palpável. Em terra brasilis, sem tempo para treinar, com exigência de resultados imediatos e jogadores que não foram preparados para jogar coletivamente em benefício do talento e não dependente dele, os modelos Barcelona e Bayern, construídos com paciência e outra cultura tática, são realidades distantes. Mas adaptáveis, como o Corinthians de Tite, o melhor exemplo.

O perigo é a equipe de Ranieri virar moda por aqui. Inclusive ressuscitando treinadores obsoletos, como era o caso do italiano. Mas podem voltar ao mercado colocando em prática uma maneira de jogar que não é totalmente estranha, só precisaria de uma atualização em compactação e marcação por zona. Nada muito complexo. Mas um retrocesso que faria mal ao nosso futebol.

Porque o que ocorre na Inglaterra não é revolução, mas uma conjunção de astros. A exceção que confirma a regra. Lindo de ver e, talvez, torcer. Nem tanto de copiar.


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