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Você rejeitaria Tite depois da Copa do Mundo ou só vale para os “gringos”?
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André Rocha

Reinaldo Rueda conduziu mal a saída do Flamengo para comandar a seleção chilena. Agora não vem mais ao caso, mas, observando à distância, havia várias maneiras, em tese, de ser mais transparente com o clube brasileiro.

Só que o caso de mais um treinador sul-americano deixando o país para aceitar uma proposta de seleção, se juntando a Osório, que saiu do São Paulo para o México, e Bauza, do mesmo clube para a Argentina, está construindo uma imagem de que os técnicos estrangeiros não cumprem  contratos e usam o Brasil como “trampolim”.

O nome disso, sem meias palavras, é xenofobia. Um pouco de reserva de mercado por parte dos treinadores daqui, tema que volta sempre que surge uma oportunidade. No caso de Rueda, na chegada e na saída – será por ter “tomado” um emprego tão cobiçado como ser o treinador do time de maior torcida do país?

Muito também pela visão de que treinadores de outros países do continente nada tem a acrescentar por aqui, enfrentam a barreira do idioma e não apresentam grande vantagem nos aspectos táticos e estratégicos. Talvez pela falta de tempo para trabalhar num calendário inchado, com imediatismo, resultadismo e pressão desproporcional. Os que já estão aqui se acostumaram com o ciclo. Para o “forasteiro” requer mais tempo.

Simplesmente não faz sentido. Principalmente a acusação de não cumprirem contrato. Quem cumpre? Os clubes, que demitem por qualquer sequência de resultados ruins? Como esquecer da demissão de Jorge Fossati do Internacional classificado para a semifinal da Libertadores de 2010? Ou Ricardo Gareca do Palmeiras, Diego Aguirre do Atlético Mineiro e Paulo Bento do Cruzeiro? Nem é questão de discutir cada caso, mas os clubes não hesitaram na hora de descartar os profissionais.

Os treinadores brasileiros, que cansados de levar um pé no traseiro agora deixam os clubes por qualquer proposta mais vantajosa estão errados também? Como Guto Ferreira, da Chapecoense para o Bahia e deste para o Internacional? Ou Fernando Diniz, sem disputar um jogo sequer pelo Guarani e partindo para o Atlético Paranaense?

Sem contar os casos dos brasileiros que saíram para seleções. Como Joel Santana em 2008, deixando o Flamengo para comandar a África do Sul que seria anfitriã da Copa do Mundo dois anos depois. Se pensarmos em “seleções” mundiais como o Real Madrid, como esquecer Vanderlei Luxemburgo abandonando o Santos campeão brasileiro em 2004 para comandar o Real Madrid?

E Tite? Ele mesmo admite e pede perdão ao Corinthians por ter “deixado o clube na mão” no ano passado para comandar a seleção brasileira. Não deixa de ser o mesmo caso: treinador que encerra seu contrato com um clube para acertar com uma federação. No caso, a CBF, entidade que o próprio Tite via com reservas e assinou manifesto de repúdio às suas práticas. E como ficou o ano do então campeão brasileiro, que já havia sofrido um desmanche no início da temporada?

Questão de ponto de vista. Este que escreve até discordou na época da decisão do melhor treinador brasileiro, mas depois compreendeu que era a realização de um sonho. O contexto também mostrou que acabou sendo melhor para a seleção, já que o risco de ficar de fora do Mundial era real.

Mas se ele deixar a CBF ao final da Copa da Rússia você ficaria com um pé atrás ou mesmo rejeitaria no caso do seu time de coração fechar contrato com Tite por ele não ter cumprido o acordo com o Corinthians? Foi exatamente o mesmo caso de Bauza, que foi servir ao futebol do seu país. Ou a crítica só vale para os “gringos”?

Rueda foi mal no fim do ciclo do Flamengo, mas daí a generalizar e rotular o caráter de profissionais estrangeiros vai uma distância enorme. Do tamanho do preconceito de tantas vozes que estão gritando desde o anúncio da saída do colombiano. Tudo muito conveniente.


Há um “atalho” para Jair Ventura vencer respeitando o DNA do Santos
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André Rocha

Imagem: Divulgação Santos

Joel Santana adora citar em entrevistas, programas de TV e rádio e eventos dos quais participa o Vasco que comandou em 1987, num período curto mas marcante, como exemplo de time ofensivo que armou para contestar a fama de “retranqueiro”.

De fato era uma equipe com vocação para o ataque. Apesar de ter durado apenas uma Taça Guanabara, a escalação ficou na memória deste blogueiro que viu este time ao vivo, algumas vezes no estádio: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto Dinamite e Romário.

Mas havia um segredo típico do treinador, já malandro e “matreiro” aos 39 anos em sua primeira chance como treinador no Brasil. Mesmo contra times pequenos em São Januário, a equipe cruzmaltina recuava as linhas cinicamente, Dinamite voltava atraindo a atração dos zagueiros e Geovani ou o próprio centroavante lançava os ponteiros Mauricinho e Romário em velocidade com a chegada rápida de Tita. Assim marcou 24 gols em 13 partidas.

Joel tem razão ao dizer que seu Vasco campeão do primeiro turno e que depois, treinado por Sebastião Lazaroni, conquistaria o estadual tinha, na prática, quatro atacantes. Mas a maneira de jogar era baseada em organização defensiva e contragolpes. Quando precisou sair para o jogo contra o Fluminense ainda com a base tri carioca e campeã brasileira, levou um contundente 3 a 0 em contra-ataques.

A mesma dificuldade que fez penar o Botafogo de Jair Ventura desde que o jovem treinador de 38 anos sucedeu Ricardo Gomes em 2016, na primeira oportunidade no comando de um time profissional. Quase sempre que adiantou suas linhas, tentou trocar mais passes e não definir a jogada mais rapidamente, o desempenho teve uma queda significativa.

O melhor cenário no Estádio Nilton Santos, especialmente na Libertadores, era quando o “abafa” inicial com marcação no campo adversário fazia o alvinegro abrir o placar e depois ficar confortável atraindo o oponente e aproveitando as transições ofensivas em velocidade.

Mesmo sem títulos e a vaga no torneio continental para 2018, o bom trabalho em uma avaliação geral deu visibilidade a Jair. Também despertou o interesse do Santos, agora presidido por José Carlos Peres. Novo mandatário que afirmou várias vezes que o perfil do novo treinador deveria ser de respeito ao DNA ofensivo do clube e trabalho com os jovens oriundos das divisões de base.

A segunda exigência de Peres não é problema para Jair, que, até pelas limitações orçamentárias do Botafogo, deu chances à garotada e obteve boas respostas. No Santos é empreitada que costuma dar certo com quem tem sensibilidade para mandar a campo no momento certo. Mas quanto ao DNA…

O trabalho de Jair não o credencia a armar um Santos que crie espaços nas defesas rivais através de troca de passes com paciência e mobilidade. O treinador sempre afirmou que não mudava sua proposta no Botafogo porque as características dos jogadores não casavam com o estilo. Argumento legítimo, mas quando tentou mudar faltou repertório. Não só do time, mas também do comandante.

O que não significa que não possa se reinventar. Ou entregar um time competitivo, bem coordenado atrás para não fazer o goleiro Vanderlei trabalhar tanto. Mas também é possível ser forte no ataque. Ou no contragolpe. Acionando Bruno Henrique pelos flancos. Mesmo sem os passes de Lucas Lima e a presença de área de Ricardo Oliveira.

No Paulista pode aproveitar o status de “zebra” – já estão chamando de “quarta força”, o que pode ser um bom presságio – por conta da menor capacidade de investimento em comparação com os rivais. Mas na falta de recursos é preciso ter criatividade para repor ausências importantes. Inclusive de Zeca, que interessa ao Flamengo.

Se alcançar vitórias, alguma conquista relevante e muitos gols, mesmo nos contra-ataques, quem vai se importar na Vila Belmiro com uma mera questão filosófica? Nem o novo presidente…

Jair Ventura não conta neste início de trabalho com o talento que sobrava no Vasco de Joel Santana há mais de três décadas, mas pode usar o mesmo “atalho”, com uma dose de pragmatismo, para se adequar respeitando a tradição santista de marcar muitos gols. Com ou sem estrelas.


Zé Ricardo é mais um que cai no conto do estadual, a ilusão do Flamengo
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André Rocha

No on e no off da entrevista que Zé Ricardo concedeu a este blog antes da estreia no Brasileiro (leia AQUI), ficou claro que o jovem treinador sentia mais confiança no próprio trabalho depois da conquista do Campeonato Carioca.

O papo foi entremeado por colocações como “agora posso arriscar mais” e “depois do título tenho mais respaldo”. A que mais chamou atenção, porém, foi a de que dormiu mal durante as semanas que antecederam os clássicos contra o Fluminense e “ainda tinha o jogo contra a Universidad Católica”.

Hoje, com a distância do olhar, é impossível, guardando todas as proporções, não lembrar da despedida de Joel Santana em 2008. Um jogo eliminatório de oitavas de final da Libertadores tratado como um amistoso festivo pela conquista do estadual e de lamento pela saída do treinador que iria para a África do Sul. O América do México e Cabañas tornaram aquela noite de triste memória para os flamenguistas.

De novo a prioridade, ainda que intuitiva, que o Flamengo dá ao Carioca. Um torneio irrelevante na análise da temporada que no calor da disputa ganha importância desmedida. Talvez pela rivalidade criada na cidade, que naturalmente é mais forte de Vasco, Botafogo e Fluminense contra o rubro-negro. Ou por encarar como uma chance de título mais palpável e imediata, ainda mais agora com a Libertadores sendo decidida apenas no final do ano. Ou simplesmente algo cultural.

Zé Ricardo se sentiu aliviado pelo primeiro título da carreira. Mas exatamente uma semana depois da entrevista viria o golpe mais duro e inesperado: a derrota para o San Lorenzo em Buenos Aires combinada com a vitória do Atlético Paranaense no Chile sobre a Universidad Católica que decretou a eliminação da Libertadores ainda na fase de grupos.

Algo que não passava pela cabeça do técnico porque considerava que seus atletas também haviam tirado um peso das costas com o título. Já fazia planos com Conca, talvez Everton Ribeiro. Voos mais altos. Tudo desabou naquela noite no Nuevo Gasometro. Para não voltar mais.

Campanha decepcionante no primeiro turno do Brasileiro, duas classificações suadas e cercadas de críticas pelo desempenho contra Atlético-GO e Santos na Copa do Brasil e o consolo da Sul-Americana apenas começando contra o Palestino, algoz no ano passado. A única surpresa desagradável de um 2016 em que Zé Ricardo surgiu como uma boa nova na Gávea, sucedendo Muricy Ramalho e organizando uma equipe que parecia perdida.

Assim como agora dá a impressão de estar sem rumo. Contratações importantes no meio da temporada, sem tempo para treinar e ganhar entrosamento. Também não podem colaborar na Copa do Brasil, competição em tese com mais chances de título por já estar na fase semifinal. Não estão inscritos. Chegaram tarde.

A conclusão a que se pode chegar é que, sem perceber, o Flamengo se prepara mesmo é para a disputa do estadual. Porque é na pré-temporada que as contratações do segundo semestre do ano anterior têm tempo para se preparar. E na fase decisiva o clube se mobiliza tratando todo resto como secundário.

O trabalho de Zé Ricardo pereceu nesta ilusão. Assim como Ney Franco há dez anos. Campeão carioca, eliminado pelo Defensor nas oitavas do torneio sul-americano e depois perdendo o emprego por uma sequência ruim no Brasileiro. Para Joel voltar, construir uma fantástica arrancada que terminou com a improvável vaga na Libertadores. Até a noite de Cabañas.

Os nomes aventados para a sucessão não empolgam: Jorginho, Paulo César Carpegiani..ou tentar demover Roger Machado da decisão de não mais trabalhar no Brasil em 2017. Arriscar um treinador estrangeiro como Reinaldo Rueda, atual campeão da Libertadores com o Atlético Nacional. Ou mesmo efetivar novamente Jayme de Almeida na esperança de repetir 2013 na Copa do Brasil.

De qualquer forma, a trajetória de Zé Ricardo não tinha mais como prosseguir. Não por pressão de torcida ou apenas pelos resultados. Mas por não entregar o básico em qualquer avaliação de um profissional: margem de evolução. Perdeu conteúdo e confiança. Sem chance de recuperação.

Porque em maio foi mais um treinador do Fla a cair no conto do estadual. Um engano que trava o clube na busca de protagonismo no cenário nacional e sul-americano.


Gol de goleiro, olímpico de Zico, Tevez… As histórias do Fla na nova casa
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André Rocha

Flamengo_Coritiba_2005

O Flamengo fechou acordo por três anos para a utilização da Arena da Ilha do Governador como sua casa a partir de 2017.

A indefinição do Maracanã e a rivalidade com o Botafogo que inviabiliza uma parceria com o Engenhão fizeram o clube rubro-negro se antecipar e garantir um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de tantas viagens que desgastaram o time nesta temporada.

Arena da Ilha que foi inaugurada como Estádio Luso Brasileiro em 1965, e já foi Arena Petrobrás – adaptada para receber 30 mil pessoas, foi muito utilizada em 2005, já que o Engenhão ainda não existia e o Maracanã estava em obras para receber o Pan-Americano dois anos depois.

Tudo isso constrói uma história do Flamengo por lá que começa em 1969 até os 3 a 3 com o Botafogo este ano. Foram 35 partidas, com 19 vitórias, oito empates e oito derrotas. Considerando três pontos por vitória para facilitar o cálculo, o aproveitamento seria de 62%. Marcou 68 gols, sofreu 41. Zico marcou seis gols e é o artilheiro do clube no estádio.

Além dos números, o blog apresenta algumas histórias interessantes do rubro-negro na Ilha do Governador.

1 – Jovem Bandeira viu primeiro gol de Doval

O presidente Eduardo Bandeira de Mello lembrou ontem na celebração do acordo que, então com 16 anos, viu o primeiro jogo do Fla no Estádio Luso Brasileiro em 4 de maio de 1969. Também foi o primeiro gol do ídolo Doval com a camisa rubro-negra, na vitória por 4 a 1 sobre a Portuguesa da Ilha;

2 – Gol do goleiro Ubirajara

Na segunda partida do clube no estádio, um fato histórico: o gol do goleiro Ubirajara Alcântara. Aproveitando-se dos fortes ventos na região que acabaram virando lenda, bateu um tiro de meta e encobriu o goleiro do Madureira na vitória por 2 a 0 em maio de 1970. Na preliminar, um menino chamado Zico, aos 17 anos, marcou quatro gols na Portuguesa pelos juvenis;

3 – Conquista de título

Em 1979, ano da conquista dos dois títulos estaduais por conta de um calendário esdrúxulo, o Flamengo confirmou o título da Taça Guanabara, o quinto de sua história, com os 2 a 0 sobre a Portuguesa. Dois gols de Zico, já no auge da carreira aos 26 anos;

4 – Gol olímpico, mas primeira derrota

O primeiro revés viria na sétima partida disputada no estádio. Em outubro de 1982, um Flamengo dividido entre o Estadual e a Libertadores foi ao Luso Brasileiro para enfrentar a Portuguesa com time misto. Mas com Zico, que aproveitou o mesmo vento que ajudara Ubirajara em 1970 para marcar um histórico gol olímpico, já que ele fez apenas dois desta forma em toda a carreira. Mas não evitou os 3 a 2 para o time mandante;

5 – “Prazer, sou o Tevez”

Um Flamengo irregular sofria no Brasileiro de 2005. Bravateiro, o presidente Márcio Braga resolveu promover o clássico contra o Corinthians com provocação ao argentino Carlos Tevez, contratado a peso de ouro pelo time paulista ao Boca Juniors: “Tevez? Quem é Tevez? Pensei que fosse o juiz da partida”. O resultado foi a vitória do Corinthians por 3 a 1 na então Arena Petrobras e a resposta do craque que seria campeão no final do ano: “Agora ele me conhece”;

6 – A maior derrota no estádio

O time claudicante sofreu diante de outro gigante paulista em 2005. O São Paulo campeão da Libertadores e que ganharia o mundo em dezembro contra o Liverpool vinha oscilando no Brasileiro, chegou até a entrar na zona de rebaixamento, mas resolveu despertar logo diante do rubro-negro: 6 a 1 que gerou profunda crise no clube;

7 – A salvação com Joel Santana

Após a derrota por 2 a 1 para o Vasco em São Januário, o treinador Andrade, interino que acabou efetivado, voltou a ser auxiliar e Joel Santana foi contratado para uma missão que parecia impossível: evitar o rebaixamento faltando nove rodadas. Das seis vitórias que junto com os três empates garantiram a equipe na Série A, duas aconteceram na Ilha do Governador: a primeira com Joel, nos 2 a 1 sobre o Coritiba, gols de Renato (foto) e Fellype Gabriel, e ainda os 3 a 0 sobre o Fortaleza. A confirmação viria com o triunfo fora de casa por 1 a 0 sobre o Paraná. O primeiro milagre do Natalino.

 


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