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Premier League já começa insana, mas não pode virar um fim em si mesma
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André Rocha

A liga mais forte do mundo começou com a incrível virada em Londres do Arsenal do inesgotável Arsene Wenger por 4 a 3 sobre o Leicester City. Gol da vitória marcado por Giroud, vindo do banco, aos 39 minutos do segundo tempo. Dois minutos antes, o empate com Ramsey, que também iniciou na reserva. Já no primeiro ato, um jogo típico da Premier League: intenso, maluco, imprevisível.

Com a grana farta da TV dividida de uma maneira mais equânime, os times médios e até os pequenos têm condições de investir em contratações e isso vem tornando o campeonato inglês cada vez mais equilibrado.

Se não conseguiu até aqui seduzir Messi e Cristiano Ronaldo, os gênios desta era, ao menos os treinadores com mais hype estão por lá: Guardiola, Mourinho, Klopp, Conte, Pochettino…Com exceção do fenômeno Zidane, bicampeão da Liga dos Campeões, apenas Carlo Ancelotti entre os mais vencedores dos últimos tempos não esteja por lá.

Por tudo isso se tornou uma competição de difícil prognóstico em relação a favoritismo ao título e às vagas nas competições europeias. Ótimo para a liga em si. Mas nem tanto para os clubes.

Porque enquanto Barcelona, Real Madrid, Juventus, Bayern de Munique, PSG e outros conseguem administrar seu calendário com respiros e uso de reservas, os ingleses precisam jogar no volume máximo durante toda a temporada. Muitas vezes não é possível dosar energias nem durante as partidas. Se baixar a guarda diante de uma equipe na zona de rebaixamento pode ser surpreendido.

Se juntar isso às copas nacionais com sua tradição e seus “replays” em caso de empate, aliviados pela federação com o cancelamento da prática nas quartas-de-final da Copa da Inglaterra, o cenário é ainda mais complexo. Ajudam a exaurir as forças, mesmo em elencos robustos. Sem contar os jogos em sequência no final de um ano e o início do seguinte, enquanto a grande maioria faz uma pausa para as festas de Natal e reveillón.

O resultado prático é que desde 2012, com o Chelsea, a Inglaterra não tem um vencedor da Champions. Mesmo considerando o domínio de Real Madrid e Barcelona, que contam com grandes times de sua história, é preocupante. Ainda que os próprios Blues e o Manchester United, neste período de seca, tenham conquistado a Liga Europa.

Fica a impressão de que faltam pernas e força mental para se concentrar na disputa do maior torneio de clubes do planeta porque o campeonato nacional exige demais semanalmente. Quem tenta dividir atenções vem sofrendo nas duas frentes. Não por acaso, Leicester e Chelsea venceram as duas últimas edições da Premier League por não estarem envolvidos em competições europeias. Tiveram semanas para repouso e treinamentos.

Mourinho preferiu arriscar tudo na Liga Europa na temporada passada ao perceber que os Red Devils não conseguiriam sequer a vaga de qualificação para a Champions. É uma disputa tão insana que não há garantias, uma margem mínima para planejar a temporada seguinte. Não há como fugir do clichê “pensar jogo a jogo” até que as pretensões possíveis fiquem mais claras. Hoje, imaginar um clube ganhando inglês e Liga dos Campeões é utopia.

Em campo, a consequência da loucura da Premier League é a dificuldade para controlar jogos, desacelerar. Como o City de Guardiola que não conseguiu conter a reação do Monaco no jogo da volta das oitavas de final da UCL depois dos 5 a 3 em Manchester. No jogo bate-volta, só há ataque e defesa, sem longos períodos entre as intermediárias. Sem pausas.

Os clubes mais poderosos vivem um dilema. Ostentam orçamentos de gigantes europeus, mas não conseguem ser tão competitivos além de suas fronteiras como gostariam porque se esfolam na luta doméstica.

É óbvio que o titulo inglês é sinônimo de prestígio, visibilidade e uma fatia maior do bolo das receitas de TV. Mas o asiático hoje prefere Barça e Real. Com Neymar no PSG isso talvez piore. Para manter ou ampliar o alcance global é preciso voltar a ser protagonista na Liga dos Campeões. Para isso é urgente repensar o calendário. Ou transferir o risco para a própria liga priorizando a Champions.

Qualquer coisa para não tornar a Premier League um fim em si mesmo.

 


Neymar no PSG: a tática e os desafios da maior contratação da história
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André Rocha

Neymar não vale 222 milhões de euros. Ninguém vale, como bem disse Zinedine Zidane, que já foi a maior contratação da história. Tempos de um mercado menos insano. Mas o Barcelona estipulou este valor astronômico de multa rescisória para se proteger e o Paris Saint-Germain pagou para ver.

E quer ver um craque para mudar de patamar, dentro e fora do campo. Fazendo gols e vendendo imagem. Camisas, produtos. Tudo. Comprando a briga de transformar o time francês definitivamente numa potência europeia.

Para isso o clube já sinaliza que o time montado pelo espanhol Unai Emery jogará em função de seu astro maior. O novo camisa dez partindo do lado esquerdo, fazendo dupla com o jovem lateral espanhol Yuri Berchiche, contratado à Real Sociedad. Com liberdade, porém, para circular por todo o ataque. Servindo os companheiros, mas também finalizando. Sem o sacrifício de defender e ser mais assistente de Messi e Suárez.

Com o desenho tático podendo variar entre o 4-3-3, o 4-2-3-1 e até o 4-4-2. Opções não faltam, como Matuidi, Draxler, Di María e Lucas Moura para se juntar ao brasileiro e Edison Cavani, o artilheiro da equipe na última temporada com 49 gols em 50 jogos. Mas, se preciso, até o uruguaio pode ajudar na recomposição e dar liberdade a Neymar, que funciona até como um atacante mais móvel, solto na frente.

Sair um pouco do lado esquerdo pode torná-lo ainda mais imprevisível, sem o vício de cortar da esquerda para dentro com o pé direito. Algo que pode, inclusive, ser útil para fazer Tite pensar em alternativas e tornar a seleção brasileira menos presa ao 4-1-4-1 que vem funcionando nas Eliminatórias. Assim como fez no Real Madrid com Cristiano Ronaldo, Di María pode ser o meia que compõe o setor esquerdo e permite que o ponteiro seja ainda mais atacante e decisivo.

Uma das muitas possibilidades de Unai Emery na montagem do PSG com Neymar: 4-3-3 que pode variar para o 4-4-2 com Neymar se juntando a Cavani na frente e Di María repetindo o que fez com Cristiano Ronaldo no Real Madrid: compondo o lado esquerdo para deixar o brasileiro com liberdade total (Tactical Pad).

A equipe francesa pode alternar também os ritmos, cadenciando com Verratti ou acelerando com Neymar. Com tantos jogadores versáteis e de movimentação, é possível criar ações de ataque que surpreendam na inversão de lado e encontrem Daniel Alves com liberdade pela direita para buscar a linha de fundo ou mesmo finalizar. É outro trunfo de Emery, além da experiência e do currículo vitorioso do lateral brasileiro.

O primeiro desafio é recuperar a hegemonia na França, ainda que o campeão Monaco, pelo menos até agora, não tenha perdido Fabinho e Mbappé na carona das saídas de Bernardo e Mendy para o Manchester City, Bakayoko para o Chelsea. o treinador português Leonardo Jardim ainda ganhou o meia belga Tielemans e o zagueiro holandês Kongolo. Com lucro superior a 100 milhões de euros nas transferências, talvez não precise perder mais ninguém nesta janela.

De qualquer forma, Jardim não contará com um de seus maiores aliados na última temporada: o fator surpresa. Já entra na Ligue 1 como o time a ser batido. Também ganha concorrentes além do surpreendente Nice de Mario Balotelli, terceiro colocado na última edição. O Lille de Marcelo Bielsa pode incomodar, mesmo com a “loucura” do argentino exaurindo as forças físicas e mentais do elenco no final da temporada e jogando fora qualquer chance de disputar efetivamente o título.

Claudio Ranieri, veterano italiano que comandou o Leicester City no seu conto de fada inglês, chega ao Nantes. O Olympique de Marseille renovou com Rudi Garcia, o Saint-Etienne foi atrás do espanhol Oscar García, ex-Red Bull Salzburg, para tentar recuperar o protagonismo perdido na história como o mais vencedor do país. O Lyon negociou o artilheiro Lacazette ao Arsenal e contratou Bertrand Traoré ao Chelsea. Deve pleitear no máximo uma vaga na Liga Europa.

Equipes para tentar equilibrar no aspecto tático uma disputa que tende a ser novamente desigual a favor do PSG no talento. Mesmo que a prioridade seja a Liga dos Campeões. Ou obsessão. Para desbancar o domínio do Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo. Além do atual bicampeão, a Europa apresenta ainda Bayern de Munique e Barcelona, mesmo com o baque da perda de uma peça do seu tridente sul-americano espetacular e sem muita margem para gastar o muito que recebeu, à frente no protagonismo.

Antes desta trinca de campeões das últimas quatro temporadas, ainda há fortes concorrentes, como Juventus e Atlético de Madri, os vice-campeões. Além de Chelsea e o Manchester United que retornam à Champions e o promissor Manchester City de Pep Guardiola. Disputa dura que a presença de Neymar torna mais acessível, porém não menos cruel. Ainda mais num torneio eliminatório guiado por sorteio. O cruzamento prematuro com um favorito, uma noite ruim e o sonho pode ruir.

Neymar chega a Paris para se unir a Daniel Alves e tornar o ambiente mais positivo e confiante. Mudar de tamanho para não se apequenar como na traumática eliminação para o Barcelona. Arbitragem à parte, foi a noite em que o PSG viu o craque brasileiro suplantar Messi, o gênio de uma era, e construir o que parecia impossível.

O protagonista e candidato a Bola de Ouro, a maior contratação da história do esporte que eles querem escrevendo capítulos inéditos, os mais vencedores de um clube com menos de meio século que ousa desafiar com seus milhões de euros os gigantes do futebol mundial.

 


Corinthians e Grêmio na “retranca”? Então o Brasil de 1970 também fazia
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André Rocha

Surpreendeu nas redes sociais e nos comentários dos posts deste blog acerca das vitórias de Corinthians e Grêmio sobre Palmeiras e Flamengo, respectivamente, as críticas aos vencedores por supostamente jogarem na “retranca”.

Além da natural vocação brasileira de desmerecer quem está vencendo, ainda mais se for o rival, chamou a atenção o total desconhecimento da maneira de atuar das equipes que ocupam o topo da tabela no Brasileiro. Como se fosse obrigatório chegar no Allianz Parque e na Arena da Ilha e encarar dois clássicos nacionais que já decidiram edições desta mesma competição de peito aberto.

O Corinthians, líder absoluto, tinha ainda menos motivos para se expor. Afinal, eram 13 pontos de vantagem sobre o rival. Já o Grêmio teve postura ofensiva até abrir o placar, depois recolheu as linhas para negar espaços e tentar aproveitar os cedidos pelo adversário. O nome disso é inteligência.

Ou capacidade de se adaptar ao que o jogo apresenta. É óbvio que os times da casa atacariam mais. Por estarem em seus estádios, acostumados com o gramado e empurrados por atmosferas favoráveis criadas pelas torcidas. No caso do oponente, jogar bem é aceitar o volume de quem ataca, mas controlar os espaços e negar as brechas para a infiltração que proporcionam a chance cristalina. As finalizações acontecem, mas sempre dificultadas pela marcação, o que facilita o trabalho do goleiro.

Com menos posse de bola, a solução ofensiva é ser prático e objetivo. Finalizar menos, porém melhor. Até pela liberdade desfrutada por quem cria e conclui, consequência dos espaços cedidos pelo mandante. Acontece em todo lugar do mundo, em qualquer partida equilibrada.

Mas Corinthians e Grêmio foram”condenados”. “Retranca”, ” joga por uma bola”, “futebol feio e chato”. Como se fosse o padrão das equipes de Fabio Carille e Renato Gaúcho e não algo circunstancial. O grande erro dos torcedores rivais, em geral é opinar sobre o time tendo como base apenas os dois confrontos com o seu clube de coração. O pior é que parte da imprensa também se comporta da mesma maneira.

Como ser “retrancado” com os dois ataques mais positivos? O Corinthians como o time mais efetivo nos passes e quarto em posse de bola. O Grêmio que ataca dentro ou fora de casa com volume de jogo e que aposta na ofensividade até de seus volantes, Michel e Arthur, que são verdadeiros meio-campistas, defendendo e atacando. Por estar em sua arena, partiu para cima do líder no duelo da 10ª rodada.

Se defender com todos os jogadores no próprio campo quando necessário for retranca, então a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor de todos os tempos, também pode ser considerada assim.

Porque a ideia de Zagallo, depois do fracasso do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1966, era bem simples: as seleções europeias, à época, só criavam problemas quando tinham espaços para trabalhar. Se o Brasil se fechasse eles se atrapalhariam, perderiam a bola e cederiam campo para o nosso talento sobressair ainda mais.

Se antes os três ou quatro atacantes ficavam na linha média sem funções defensivas apenas esperando o momento de receber a bola e partir para o ataque, em 1970 todos voltavam. Até Tostão, o centroavante móvel mais adiantado. Ainda que os principais responsáveis pelos desarmes, antecipações e interceptações fossem os quatro da última linha de defesa, Clodoaldo e, às vezes, Gérson, a concentração de jogadores em 35 metros, mesmo sem a compactação de hoje, criava problemas para os adversários.

Bola roubada, saída em velocidade. Os lances que ficaram na história, como os lançamentos de Gérson para Pelé e Jairzinho marcarem gols espetaculares, são em contra-ataques. Na velocidade e no ritmo possíveis há quase 40 anos e no calor do México. Mas essencialmente contragolpes.

Dos 19 gols marcados em seis partidas, oito foram construídos em típicos contragolpes. Seis destes nos jogos eliminatórios. Sem contar o lendário gol perdido por Pelé no drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewick . Também em transição ofensiva rápida. Mais dois de falta e dois construídos em cobranças de escanteio e de lateral.

Impossível falar em “jogo feio” com tantos talentos reunidos, sem contar o entrosamento construído em jogos e treinamentos para aquele Mundial. E a intenção, obviamente, não é fazer comparações individuais. Apenas a proposta de jogo, baseada em negar espaços e aproveitá-los no ataque. Prática do timaço de 1970 que Corinthians e Grêmio reproduzem com as devidas atualizações na intensidade e no desempenho atlético.

Por isso Vanderlei Luxemburgo não cansa de repetir, sempre que perguntado, que o Brasil de 1970 foi uma revolução mais influente que a Holanda de 1974. Porque antes recuar todos atrás da linha da bola era prática de times pequenos. Ou do “ferrolho” suíço de Karl Rappan na Copa de 1938. Nem os times e a seleção italiana recuavam até os atacantes no trabalho defensivo.

Se Zagallo tirou a vergonha da “retranca”, José Mourinho deu a ela ainda mais inteligência e coordenação nos movimentos no final da década passada. Exatamente para gerar uma resposta à atualização do “futebol total” de Rinus Michels nos anos 1970 criada por Pep Guardiola no Barcelona.

Se a ideia do jogo de posição do Barça era atacar em bloco com posse de bola, abrir dois pontas para esgarçar a marcação, aproveitar os espaços entre as linhas e minar as forças do adversário pressionando a marcação assim que perde a bola, Mourinho fechou sua Internazionale e depois o Real Madrid com os ponteiros recuando como laterais e os quatro homens da defesa bem próximos formando uma linha de seis. À frente dela, três meio-campistas e até o único atacante bloqueando a entrada da área e dificultando o trabalho dos criativos Xavi e Iniesta.

Bola recuperada, saída em velocidade com poucos toques para otimizar os 30% de posse que restavam. Se conseguisse criar duas oportunidades precisava matar o jogo. Algumas vezes conseguiu, outras não. Outros treinadores aprimoraram essa ideia na sequência e quem encontrou a resposta mais letal à proposta de Guardiola foi Carlo Ancelotti no Real Madrid que atropelou o Bayern de Munique comandado pelo catalão em 2014.

Ninguém à época chamou o time merengue de “retranqueiro”. Porque era a saída inteligente para o que o oponente apresentava. Corinthians e Grêmio realizaram o trabalho defensivo correto porque sabem se comportar. Vêm de trabalhos com uma linha de pensamento, uma filosofia. Ideias que Carille e Renato vão tentando aprimorar.

Identidade que tem sido mais valiosa que todo o dinheiro investido por Palmeiras e Flamengo em contratações de peso. Os jogadores entram em campo e sabem o que precisam fazer. Jogo a jogo, situação a situação. Defendendo e atacando conforme a necessidade.

Questão de leitura de jogo coletivo, algo que falta culturalmente ao brasileiro, que acredita no talento individual puro. Mesmo que Zagallo e seu time genial tenham dado uma aula há 47 anos. Pena que quase ninguém entendeu.


Juventus x Real Madrid: os camaleões atrás da orelhuda
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André Rocha

Quando José Mourinho e Pep Guardiola polarizaram o futebol mundial no início da década, em especial nos duelos entre Real Madrid e Barcelona, criou-se também uma dicotomia: posse de bola x jogo reativo. Ainda que Lionel Messi tenha definido o superclássico espanhol pela semifinal da Liga dos Campeões 2010/2011 em um contragolpe e o time merengue comandado pelo português tenha batido o recorde de pontos no Espanhol na temporada seguinte atropelando os adversários.

O tempo mostrou que o radicalismo nos conceitos de jogo podem criar dilemas complicados. Como o Bayern de Munique de Guardiola tentando jogar no campo de ataque e deixando espaços para o trio MSN do Barça no auge em 2015. Ou o Chelsea de Mourinho, no mesmo ano, pagando pela cautela excessiva, em casa e com um homem a mais, contra o PSG pelas oitavas de final da Champions.

O primeiro campeão europeu a sinalizar que a flexibilidade na proposta de jogo seria a melhor solução foi o Bayern de Jupp Heynckes em 2012/13. A equipe que faturou a tríplice coroa podia atacar com fúria e volume, mas também com paciência. Na temporada, só o Barcelona de Tito Vilanova/Jordi Roura, sucessores de Guardiola, teve mais posse. No duelo entre os dois, o time bávaro pulverizou o catalão com 7 a 0 no agregado e média de 40% do tempo com a bola. Contragolpe na veia. Quando foi preciso.

O Real Madrid de Carlo Ancelotti de “La Décima” em 2014 e a Juventus finalista em 2015 também se mostraram equipes “híbridas”. Saindo de trás com a classe de Xabi Alonso e Pirlo, mas sabendo acelerar na frente com o trio “BBC” nos merengues e colocar intensidade com Vidal, Tevez e Morata.

Agora, espanhois e italianos se encontram na final do principal torneio de clubes do planeta atingindo a excelência na proposta de se adaptar conforme a necessidade. Ser um time “camaleão”. Ambos sabem trabalhar com posse para abrir defesas fechadas – embora não estejam entre as cinco melhores no controle da bola nesta edição do torneio continental. Mas se preciso abrem ferrolhos no jogo aéreo, com bola parada ou rolando. Também ficam confortáveis jogando em contra-ataques.

Para a decisão em Cardiff, a dúvida é quem tomará a iniciativa de início, propondo o jogo e adiantando a marcação. Talvez o Real Madrid, seguro e confiante por ser o atual campeão e ter a mesma base com duas conquistas nas últimas três temporadas. Também por ser o melhor ataque, com 32 gols, e a equipe que mais finaliza, a segunda que mais acerta passes (88% de efetividade).

Provavelmente com Isco sendo o “enganche” do 4-3-1-2 montado na ausência do lesionado Gareth Bale e que deu tão certo que deve manter o galês no banco, mesmo numa final disputada em seu país. A mudança trouxe mobilidade na frente e desafogo para o meio-campo. O meia circula às costas dos volantes adversários nas ações ofensivas e retorna por um dos lados na recomposição formando duas linhas de quatro. Se pela direita, Modric e Casemiro fecham o centro e Toni Kroos abre à esquerda. Se Isco inverte o lado, é Modric a abrir à direita e Casemiro e Kroos ficam no meio.

Deve ser esta a opção de Zinedine Zidane. Modric, mais rápido, fecha a subida de Alex Sandro enquanto Carvajal fecha a diagonal de Mandzukic em busca da zona de conclusão fazendo dupla com Higuaín. Isco volta, mas nem tanto, contra Barzagli e Marcelo se encontra no setor com Daniel Alves.

Porque a Juventus de Massimiliano Allegri, que sofreu apenas três gols em 12 partidas, deve repetir a ideia vencedora na semifinal da UCL em 2014/15: duas linhas de quatro bem compactas. Pelas características e dentro do contexto, podem ter cinco defensores. Com Barzagli por dentro e Daniel Alves como lateral. Para evitar a circulação de Isco, vigiar as descidas dos laterais Carvajal e Marcelo e não ser surpreendida pela mobilidade de Benzema e Cristiano Ronaldo na nova configuração do ataque, em dupla.

Na transição ofensiva, caberá a Pjanic o primeiro passe e a Dybala o último. O argentino tende a procurar mais o lado direito para trabalhar com a canhota e dar suporte a Daniel Alves. Mesmo na marcação por zona padrão da Europa, Casemiro terá a função de negar espaços ao meia que atua mais solto, próximo a Higuaín.

Atenção na bola parada. O Real tem Kroos em faltas laterais e escanteios buscando Sergio Ramos e Cristiano Ronaldo nas cobranças diretas. A Vecchia Signora conta com Pjanic, Daniel Alves e Dybala. Na área adversária, Bonucci, Chiellini, Mandzukic e Higuaín. Junto com o Bayern de Munique, são os três times que mais completam cruzamentos no torneio. Assim a Champions pode ser definida.

A Juventus tem mais “fome”, mas a pressão de dar uma Liga dos Campeões ao mito Buffon e de não falhar na nona final, depois de apenas dois títulos em oito decisões, pode jogar contra. Mesmo com tanta experiência e o supercampeão Daniel Alves do lado italiano.

Já o Real Madrid entra mais relaxado. A obrigação era “La Decima”, depois de 12 anos sem sequer alcançar uma final. É o maior e atual campeão, já venceu a liga espanhola, que era a conquista que faltava depois de cinco anos. Pode encher de confiança, mas também arrancar o “sangue nos olhos” e a indignação com a derrota que constroem os campeões.

Não há favorito no duelo de camaleões atrás da orelhuda. Mas o blogueiro se permite um palpite, sem muita convicção: a Juventus leva desta vez. Talvez nos pênaltis.

Real Madrid no 4-3-1-2 com Isco tentando circular às costas dos volantes e retornando pela esquerda, com Modrc do outro lado fechando a segunda linha de quatro. Juventus novamente deve alternar o 4-4-2 e o 5-3-2 com Barzagli lateral ou zagueiro e Daniel Alves fazendo o corredor pela direita. Na esquerda, Mandzukic volta na recomposição e busca a diagonal para se juntar a Dybala e Higuaín (Tactical Pad).

(Estatísticas: UEFA)

 


Guardiola no purgatório, Mourinho no inferno. Como será o amanhã?
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André Rocha

É o preço da genialidade que costuma vir junto de uma personalidade geniosa. Pep Guardiola e José Mourinho mudaram a história do futebol, contribuíram diretamente para uma enorme evolução do jogo caminhando em direções opostas.

Mas o ser humano costuma ser resistente às mudanças. Ainda mais quando elas são impostas por quem está saturado de convicções e não consegue conceber o futebol de outra maneira.

Guardiola quer a bola, não admite entrar em campo sem a proposta de mandar no jogo, ser protagonista. Mesmo no início de trabalho. Ainda que sua equipe não esteja 100% preparada e entrosada para isso. Não se importa em correr riscos, adiantar as linhas e colocar seu goleiro para jogar com os pés. O objetivo: criar superioridade numérica onde está a pelota.

Só que o futebol é um jogo em que o objetivo maior, o gol, acontece muito mais raramente que em outros esportes. Por isso é uma disputa por espaços e qualquer erro é fatal. Em noventa minutos a chance de falhar é grande. Numa disputa equilibrada tudo fica ainda mais difícil.

Por isso o técnico catalão é tão obsessivo. Quer seus jogadores totalmente concentrados e preparados física e mentalmente. Foco absoluto. Por isso a decisão de afastar atletas que não estejam ou o treinador imagine que não sejam adaptáveis às suas idéias e aos seus métodos. Sejam ídolos ou não.

Tanta intensidade e uma visão tão particular do jogo não devem ser fáceis de administrar no dia a dia em um clube. Não por acaso por onde passou deixou títulos, mas também desafetos.

Na parelha Premier League, o ótimo início com seis vitórias consecutivas, dez na temporada, fez o time ser ainda mais estudado pelos rivais. Para piorar, Kevin De Bruyne, peça fundamental na execução do plano de jogo, se lesionou.

Ato contínuo, perdeu os 100% de aproveitamento nos insanos 3 a 3 com o Celtic pela Liga dos Campeões. Uma mostra de que pressão na frente e velocidade novamente poderiam complicar o time de Guardiola.

Bem mapeado pelo Tottenham de Mauricio Pochettino, especialmente na pressão sobre a saída de bola tão valorizada por Guardiola, a primeira derrota. Depois empates com Everton e Southampton em 1 a 1 e a goleada sofrida para o Barcelona de Messi. Um mês sem vitórias, mesmo com o retorno do talento belga.

É quando a tensão aumenta. Porque o ser humano aceita viver sob pressão total se o sacrifício der resultado. Sem vitórias vem a cobrança pesada, mesmo com a liderança mantida na EPL. Ainda mais sofrendo gols seguidos por erros na saída de bola que é uma espécie de cláusula pétrea, princípio básico de Guardiola.

Pior ainda é a situação de Mourinho. Último trabalho pífio pelo Chelsea e o retorno à Premier League no seu maior campeão. Ainda órfão de Alex Ferguson e traumatizado pela passagem de Louis Van Gaal, outro técnico de forte personalidade. Saiu pela porta dos fundos, apesar do título da Copa da Inglaterra.

O português chegou ao Manchester United com tratamento de estrela, recebeu as contratações milionárias de Pogba e Ibrahimovic e até começou bem, vencendo o Leicester City na Supercopa da Inglaterra e três vitórias na liga. Até enfrentar…Guardiola.

E aí o personagem Mourinho foi questionado pela postura excessivamente cautelosa no primeiro tempo do Old Trafford. Ainda que tenha terminado a partida com cinco atacantes tentando reverter os 2 a 1.

A partir daí, derrota para o Watford, nova vitória sobre o Leicester ( 4 a 1) e empates com Stoke City e Liverpool. Diante do rival histórico, o velho “ônibus” à frente da própria meta rendeu críticas.

Porque Mourinho desde 2010 posicionou-se como o “anti-Guardiola” e radicalizou qualquer proposta mais pragmática. Diante do Barcelona, colocou inteligência na retranca comandando Internazionale e Real Madrid. Obrigou craques a trabalhar sem a bola, armou linhas de cinco e até seis na defesa. Trouxe o handebol para o jogo.

Como deu certo em tantos duelos, assumiu o perfil com a paixão que lhe é característica. Só que fazer isso em clubes gigantes e marcas mundiais não é tão simples. Ainda mais contra equipes em tese do mesmo nível. Vieram os questionamentos. E os choques, até porque o português não é receptivo às interferências externas.

Mourinho descartou Schweinsteiger, não vem utilizando Rooney e Fellaini segue como titular por ser forte no jogo aéreo ofensivo e defensivo, apesar da pouca colaboração na construção das jogadas. Decisões personalíssimas que carregam a polêmica embutida.

No reencontro com Chelsea e Stamford Bridge, o gol de Pedro aos 32 segundos desmontou qualquer proposta defensiva do United. Mourinho teve que lidar com as provocações da torcida e com o time bem armado por Antonio Conte num 3-4-3 com Azpilicueta de zagueiro e Moses como ala pela direita.

Ensaiou uma reação na segunda etapa com Mata e Rojo. Mas o belo gol de Hazard pulverizou qualquer chance de recuperação. Até Kanté foi às redes em jogada antológica, o primeiro no novo clube. Os 4 a 0 que estacionam o United na sétima posição, a seis pontos do City, líder por um gol a mais no saldo que o emergente Arsenal.

O início de Mourinho em Manchester é pior que o de Van Gaal. Inferior também à terceira temporada no Real Madrid, no auge do desgaste com o elenco e até aos números vergonhosos da última temporada no Chelsea – não no Inglês, mas em todas as competições. Pior só no União Leiria, quando o “Special One” ainda era um mero iniciante.

A desvantagem na tabela da liga nacional é pequena e recuperável em apenas nove rodadas. A grande crítica é ao desempenho. O que o elenco pode entregar mas parece amarrado pelas idéias radicais de seu treinador.

É o efeito colateral ao pagar tanto por comandantes que não abrem mão de suas convicções e têm currículos recheados de conquistas para avalizar. Sem contar o poder midiático da dupla.

Guardiola quer a bola, Mourinho não abre mão da solidez defensiva e do minimalismo em busca dos três pontos. Idéias que revolucionaram o esporte. Só que o futebol atual bebe nas duas fontes e tenta combiná-las de acordo com o contexto do jogo. Assim jogam Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, agora com Ancelotti, Borussia Dortmund, Tottenham, Liverpool, o próprio Chelsea, entre outros.

Algo para a dupla histórica refletir. E botar em prática o mais rápido possível. Ironia do destino: o próximo jogo de Guardiola e Mourinho é…City x United pela Copa da Liga Inglesa. O catalão no purgatório, o luso no inferno. Como será o amanhã?


O futebol é muito maior que Mourinho e Guardiola
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André Rocha

Expectativa no mundo todo, análises e mais análises sobre o primeiro duelo entre Pep Guardiola e José Mourinho na Inglaterra. Confronto de filosofias, de estética. Antagonismo. Os jogadores se tornaram coadjuvantes.

Tudo isso para o Manchester City abrir o placar no Old Trafford com uma ligação direta de Kolarov, vacilo de Blind e De Bruyne aproveitando. Com o United de Mourinho, técnico do “ônibus” à frente da própria área, todo adiantado. Esse futebol…

Não que a disputa fugisse do esperado. A equipe de Guardiola circulava a bola no ritmo de seu fantástico meio-campo: Fernandinho, De Bruyne e David Silva. Era ainda mais preciso na pressão assim que perdia a bola.

Aí pesou o desentrosamento do novo United. O time de Mourinho não tinha jogo “de memória” para fazer a transição ofensiva de forma eficiente. Só conseguiu em uma aproximação de Rooney, Ibrahimovic e Pogba, que finalizou por cima.

Na intenção de mandar a campo um time experiente e de boa estatura, esqueceu que precisava de agilidade para se livrar da marcação sufocante do oponente.

Por respeito ao rival, Guardiola não usou o 2-3-5 do início da temporada e manteve os laterais Sagna e Kolarov em um posicionamento mais conservador, embora ofensivos. Mas não tão por dentro, na linha de Fernandinho.

Chegou aos 2 a 0 com De Bruyne acertando a trave e Iheanacho, substituto do suspenso Aguero, marcando e nem comemorando, por se achar impedido. Não estava, por nova falha de Blind, desta vez de posicionamento.

Domínio absoluto, média de 70% de posse de bola para os citizens. Clássico resolvido? Talvez. Se esse negócio fosse xadrez. Mas é futebol.

E os Deuses do Olimpo da bola podem respeitar Guardiola como um gênio que ajudou a revolucionar o esporte. Mas não perdoam certas coisas.

Em Turim, Joe Hart, ídolo do City descartado com enorme facilidade por não jogar com pés, deve ter sorrido ao ver o sucessor Claudio Bravo, depois de ter acertado vários passes com os pés, falhar na primeira intervenção importante com as mãos.

Soltou logo nos pés de Ibrahimovic. Momento chave que transformou o jogo. O United cresceu no embalo de sua torcida, podia ter empatado ainda no fim do primeiro tempo com o próprio Ibrahimovic – desta vez Bravo defendeu.

Primeiro tempo de domínio do City com posse de bola, força no meio-campo e pressão na bola sobre um United descoordenado que só entrou no jogo com a falha de Bravo e o gol de Ibrahimovic (Tactical Pad).

Primeiro tempo de domínio do City com posse de bola, força no meio-campo e pressão na bola sobre um United descoordenado que só entrou no jogo com a falha de Bravo e o gol de Ibrahimovic (Tactical Pad).

Início da segunda etapa com intensidade máxima e duas substituições de Mourinho: Ander Herrera e Rashford nas vagas de Mkhitaryan e Lingard, que não funcionaram pelos lados.

Rooney foi jogar pela direita e o meio-campo ganhou corpo. Ibra teve duas boas oportunidades. Dez minutos de domínio até o City se assentar e voltar a trocar passes e ocupar o campo de ataque.

Porque Guardiola se rendeu ao contexto do jogo e trocou Iheanacho pelo volante Fernando para não perder o meio-campo. De Bruyne foi ser “falso nove”, circulando às costas de Herrera.

Bravo deu outro susto, mas desta vez com uma saída por baixo. O último aviso dos Deuses da bola no jogo. Guardiola trocou Sterling por Sané para voltar a ter jogo pelas pontas. Mas mentalmente os Red Devils já estavam definitivamente na disputa.

Quase o empate no gol bem anulado de Ibra, desviando chute de Rashford. De Bruyne, o melhor em campo, acertou a trave do goleiro De Gea. Fernandinho também cresceu mais adiantado – e pode ser a melhor opção de Tite para a vaga de Paulinho na seleção brasileira. A força da nova equipe de Guardiola está no meio.

Mourinho arriscou tudo pelas pontas com Martial no lugar de Shaw. O francês foi jogar à direita e Rooney voltou a centralizar. Na defesa, apenas três, com Blind à esquerda.

Nos últimos minutos, um jogo inusitado: abafa do United de José e o time de Pep só saindo nos contragolpes, defendendo o resultado fundamental com bravura. Ganhando tempo e formando uma linha de cinco atrás com Zabaleta na vaga do belga De Bruyne.

Nenhum requinte, apenas luta pelos três pontos. Futebol moderno? Parecia o velho estilo inglês de bola mais no alto que no chão.

No final, o inusitado: United de Mourinho no abafa com praticamente cinco atacantes e o City trancado com linha de cinco para garantir os 2 a 1 (Tactical Pad).

No final, o inusitado: United de Mourinho no 2-3-5  abafando o City trancado com linha de cinco para garantir os 2 a 1 (Tactical Pad).

Um jogaço: City com 60% de posse e 18 finalizações, contra 14 do United. Não exatamente com o roteiro que o mundo esperava. Porque isso é futebol, eterno e muito maior que Guardiola, Mourinho ou qualquer mortal. Ainda bem.

(Estatísticas: Premier League)

 


Perseguir Osorio é só mais um reflexo do avesso ao novo no nosso futebol
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André Rocha

Está mais que provado pela ciência que o ser humano é avesso a mudanças. Tem uma resistência inicial ao novo até que ele esteja assimilado. Por isso as grandes corporações hoje evitam como um fantasma a zona de conforto para nãos serem atropeladas pela concorrência.

É humano ter uma tendência à acomodação. Mesmo que não de trabalho, mas nas ideias, na maneira de ver as coisas. É até uma forma de se sentir seguro neste mundo ter a impressão de que o essencial não muda.

É assim na política, nas artes. A novidade sempre encontra uma barreira. Afinal, ninguém quer perder seu lugar ou ser chamado de ultrapassado.

No futebol não é diferente. O brasileiro tende a respeitar os campeões mundiais, ainda que colocando o país com cinco títulos no topo. E nem todos. Alemanha, Itália, Argentina à frente. E Alemanha nem tanto até 2014 porque era freguês histórica.

Dentro deste cenário, o contexto atual é difícil de aceitar: um catalão e um português dando as ordens e ensinando um novo futebol para o mundo, baseados em princípios da escola holandesa. A Espanha campeã mundial, Bélgica de sua “geração playstation” líder do ranking e a nossa antiga freguesa impõe a maior humilhação da história da nossa seleção, em casa.

Com isso, nossos técnicos viraram alvos fáceis porque são, de fato, também responsáveis pela nossa estagnação. Pelo conforto de arrumar e fechar a casinha e deixar o talento fazer a diferença.

E aí no ano seguinte chega um treinador da Colômbia, um pais ainda tratado como nos anos 1960, de futebol semiamador apesar das conquistas de Libertadores e as boas campanhas em Mundiais, e passa a ser visto como uma referência.

Primeiro o nó na cabeça, depois um ódio estranho de entender. Os mesmos que clamavam para sairmos da mesmice transformaram Juan Carlos Osorio em alvo no São Paulo. Miraram nas canetas nas meias, enquanto ele buscava discutir o jogo neste museu de ideias, fugindo da polêmica vazia. Deveria ser tratado como alguém com água a oferecer no meio do deserto.

Nada. Entrou na roda viva do futebol de resultados e da cobrança covarde: “ganhou o quê?” Vale a reflexão: pensando assim, o que estamos ganhando recentemente?

Foi perseguido, saiu questionado. Durante seu bom início de trabalho na seleção mexicana, o silêncio conveniente esperando o golpe covarde. Veio na madrugada. Primeira derrota. Dura, humilhante. Chile 7 a 0. Nas redes sociais, festa de muitos e um clima de “eu avisei”. Quase um alívio com o insucesso daquele forasteiro que ousou nos ensinar o futebol contemporâneo que sequer percebemos a existência e vivemos nos enganando.

Osorio errou e isso você vê no post sobre o jogo neste blog. Mas faz parte de quem tenta fazer diferente porque acredita nessa possibilidade.

O diferente. Novo. Que nos queima as entranhas e embota a visão. Queremos como ideia, mas resistimos na prática. Preferimos tudo como está, ainda que o hoje seja ruim. Ou esperamos por um passado que não volta.

A Bélgica incomoda, assim como Espanha, Guardiola, Mourinho, Osorio e o que vier mais por aí como reflexo de nossa indigência. A má notícia é que sem olhar para o espelho com olhos de ver tudo pode ficar ainda pior.


A sobrevida de José Mourinho no Chelsea – até quando?
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André Rocha

Mourinho_Uol

Muricy Ramalho costuma dizer que quem está de fora não sabe 10% do que acontece no ambiente de um clube de futebol.

Mas basta acompanhar, mesmo à distância, os passos de José Mourinho no Chelsea para perceber claramente que algo vai muito mal na temporada 2015/16 e os resultados parecem mera consequência do desgaste na relação entre o treinador e o grupo de jogadores. Ou ao menos parte deles.

Porque o técnico luso, em seus últimos trabalhos, vem encontrando dificuldades na terceira temporada. A primeira de transformação com novos métodos e choque de gestão, segunda de afirmação e consolidação. Depois, a rota de colisão com o protagonista em campo – Cristiano Ronaldo no Real Madrid, Hazard na equipe de Londres. Em seguida a queda.

Mourinho é um personagem ímpar. Desde que chamou a atenção do planeta bola em 2004 com o seu primeiro título de Liga dos Campeões no Porto. Sempre carismático e vencedor. Consolidou-se como o melhor treinador do mundo na Internazionale.

A entrada arrebatadora de Pep Guardiola no cenário em 2008 promoveu uma clara mudança em quem se considerava absoluto, o “Special One”. Diante de uma revolução no esporte, foi obrigado a dar uma resposta. Conseguiu com a Internazionale na Champions em 2010, depois penou no início com o Real Madrid.

A goleada de 5 a 0 sofrida no primeiro Superclássico alterou definitivamente a maneira de Mourinho ver o futebol. Ainda que muitos enxerguem na partida de volta na semifinal continental em 2010, ainda no clube italiano – derrota por 1 a 0 no Camp Nou – o primeiro “ônibus” estacionado pelo técnico, a postura foi circunstancial. Motivada pela expulsão ainda no primeiro tempo de Thiago Motta. Porque nos 3 a 1 em Milão seu time atacou o Barcelona.

Depois da traumática “maneta” no início da temporada seguinte, Mourinho radicalizou como o “anti-Guardiola”. Se o técnico catalão gosta da bola, ele passou a entregá-la ao adversário e fazer sua equipe jogar um futebol prático e objetivo. Concentração absoluta na marcação, com linhas próximas e plantadas na própria área, se preciso. Toques rápidos e verticais, aproveitando os espaços cedidos pelo oponente.

As vitórias em 2011/12 e o título espanhol afirmaram a proposta. Mas veio o desgaste. Não só com Cristiano Ronaldo, mas também Casillas, Sergio Ramos e outros. A saída sem a sonhada “La Decima”. No retorno ao Chelsea, a primeira temporada foi de radicalização da proposta defensiva. Como esquecer a retranca sem precedentes nos 2 a 0 que tiraram do Liverpool a chance de título inglês na temporada 2013/2014?

Mas a postura também trouxe duros reveses. Na Liga dos Campeões, eliminações em casa para Atlético de Madrid e PSG. Também muitas críticas pelo excesso de cautela, ou covardia mesmo, na hora de decidir em casa.

Diante de equipes inteligentes e mutantes como o Real Madrid de Carlo Ancelotti e o Barcelona de Luis Enrique, alternando jogo posicional com posse de bola e transições em velocidade conforme a necessidade, ficou a impressão de que o estilo de Mourinho estava ficando obsoleto.

O título inglês, com campanha sólida na liga mais competitiva do planeta, mostrou que o português seguia no topo. Mas novamente a gestão de grupo contaminou o campo. Na terceira temporada.

Nada menos que seis derrotas em 11 jogos pela Premier League. Quatro no Stamford Bridge. Antes, apenas uma em casa, desde sua primeira passagem pelo clube. Tão chocante quanto a 15ª colocação na liga. Em campo, um time disperso, espaçado. Capaz de começar arrasador e depois se desmanchar. Consistência zero.

Silêncio de Mourinho na derrota por 3 a 1 para o Liverpool de Jurgen Klopp e Philippe Coutinho. Enorme responsabilidade para o confronto com o Dínamo de Kiev pela Liga dos Campeões. Outrora favorito no Grupo G, jogando a vida na quarta rodada.

Hazard e Cahill no banco, disputa parelha em Londres. Vitória por 2 a 1, um gol contra e outro a favor de Dragovic. O da vitória marcado pelo protagonista Willian. O quinto de falta do brasileiro na temporada. Nem sinal de uma atuação convincente. Mas resultado fundamental que ainda permite sonhar com liderança do grupo, hoje com o Porto, responsável pela única derrota na competição europeia – 2 a 1 no Estádio do Dragão.

A sobrevida para o treeinador, pressionado internamente e pela imprensa. Porque a torcida ama o português e canta esta idolatria no Stamford Bridge. É o que sustenta, além da multa de 50 milhões de euros em caso de demissão que Roman Abramovich teria que desembolsar em um momento de retração no mercado e investimento na boa base do clube.

Por ora, Mourinho segue empregado. Mas até quando?


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