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Primeira rodada da Copa América abala ainda mais o favoritismo do Brasil

André Rocha

18/06/2019 07h22

O Chile é o atual bicampeão da Copa América, mas na dinâmica do futebol atual a superioridade absoluta da seleção brasileira nas Eliminatórias é mais recente e, portanto impactante. Por isso e também por ser o anfitrião é o grande candidato ao título continental que não conquista desde 2007. Mesmo sem Neymar.

Este favoritismo, porém, foi abalado por acontecimentos ainda mais próximos do cenário que se apresenta agora. Como um Uruguai forte na Copa do Mundo, liderando o grupo com a Rússia, o país-sede, superando Portugal de Cristiano Ronaldo campeão europeu nas oitavas e só caindo nas mesmas quartas de final que o Brasil. Mas para a campeã França em um jogo relativamente equilibrado, no qual a Celeste sentiu demais a ausência do lesionado Edinson Cavani.

Centroavante do PSG que foi o protagonista dos 4 a 0 sobre o Equador na estreia da Copa América no Mineirão com um belo gol de voleio. De um Uruguai que mantém Óscar Tabárez no comando técnico, mesmo aos 72 anos e com dificuldades para se locomover, e preserva suas duas grandes virtudes: força no jogo aéreo com a dupla Giménez e Godín, trazendo o entrosamento do Atlético de Madrid, e o ataque poderoso com Cavani se juntando a Suárez.

Mas também acréscimos importantes, especialmente no meio-campo. Não mais a formação clássica da segunda linha, com dois volantes de contenção por dentro e dois pontas que correm de uma linha de fundo à outra. Como Álvaro González e Cristian "Cebolla" Rodriguez no time campeão da Copa América de 2011 na Argentina, protegidos por Arévalo Ríos e Diego Pérez ou Eguren à frente da defesa.

Agora Tabárez tem Bentancur e Vecino por dentro com mais qualidade no passe, Nández abrindo o campo pela direita e um Nicolás Lodeiro que se apresentou repaginado nos 4 a 0 da estreia sobre o Equador. Deixou De Arrascaeta no banco, abriu o placar em bela jogada individual logo aos cinco minutos e mostrou mais desenvoltura e contundência nas combinações com a dupla de ataque e também com Laxalt pela esquerda. Outro acréscimo recente, o lateral do Milan é o sucessor natural de Álvaro Pereira e chega ao fundo com intensidade e vigor físico.

Mantendo a tradição de ter um lateral mais fixo e outro liberado para o apoio. Durante muitos anos foi Maxi Pereira à direita. Agora Cáceres é quem atua por ali, fazendo a base e o balanço defensivo de um time mais equilibrado e que conta com mais qualidade técnica para criar espaços diante de sistemas defensivos fechados. Teve 59% de posse e finalizou 14 vezes, metade no alvo, aproveitando, obviamente, a superioridade numérica ainda no primeiro tempo depois da expulsão de Quintero.

O Uruguai se junta à Colômbia, que se apresentou mais sólida defensivamente nos 2 a 0 sobre a Argentina graças ao trabalho que já se faz notar do português Carlos Queiroz, como os grandes adversários da seleção de Tite. Mas o Chile de Reinaldo Rueda também não pode ser descartado.

Não pelos 4 a 0 no Morumbi sobre o convidado Japão em processo de renovação e dando rodagem aos atletas que vão buscar o título olímpico em Tóquio no ano que vem. Mas pelo futebol mais fluido e consistente, coordenado pelo trio de meio-campistas formado por Pulgar, bom volante qualificando a saída de bola e forte no jogo aéreo marcando o primeiro gol da partida, e mais Vidal e Aranguiz.

Na frente, Fuenzalida e Alexis Sánchez pelas pontas e o móvel Vargas na frente. Com dinâmica e faro de gol que não costuma apresentar nos clubes. Foi artilheiro das últimas edições da competição sul-americana e já larga com dois gols. Com um ano e meio de trabalho, Rueda já faz sua equipe melhorar a circulação de bola para acelerar no último terço.

Só precisa melhorar o sistema defensivo, na transição e no posicionamento. Concedeu 11 finalizações aos japoneses e só não foram vazados porque apenas três foram na direção da meta de Arias e os asiáticos desperdiçaram pelo menos duas chances cristalinas, uma em cada tempo. Talvez contra o Uruguai na fase de grupos e nos jogos eliminatórios, a Roja bicampeã e buscando recuperação depois de ficar de fora do último Mundial aumente a concentração no trabalho sem bola.

O torneio ainda não "pegou" no país por vários motivos, incluindo os valores absurdos cobrados por ingressos e uma certa banalização. Não só da competição em si, que teve edições em 2015, 2016 e terá outra no ano que vem, na Argentina e na Colômbia, para se ajustar aos anos pares como a Eurocopa, mas também do próprio Brasil como sede, depois da Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro há três anos.

Mas a primeira rodada serviu para mostrar que não há um favorito absoluto e a fase final pode apresentar duelos interessantes na disputa da hegemonia do continente. Incluindo a possibilidade, ainda que remota, da "ressurreição" da Argentina de Messi. Talvez já encarando o Brasil nas quartas. Em jogo único seria mais um obstáculo para a equipe de Tite na dura tarefa de se impor em seus domínios. Ficou mais difícil apostar.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

 

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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