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A sombra da Champions no discurso de Messi em Barcelona

André Rocha

05/08/2019 06h49

Foto: Albert Gea/Reuters

Messi foi ao microfone no Camp Nou com quase 100 mil presentes antes da vitória por 2 a 1 sobre o Arsenal pelo Troféu Joan Gamper. Um discurso do grande ídolo para a torcida no estádio, em Barcelona e no mundo globalizado. Saudável, mas as palavras novamente refletiram o dilema que vive o clube desde 2015. Vale destacar os principais trechos:

"A verdade é que é difícil dizer algo hoje, depois da temporada passada. Mas eu não me arrependo de nada". Realmente não é caso de arrependimento a dedicação à liga espanhola. O simbolismo de um time catalão dominar o campeonato é enorme. Questão de cultura, história.

Messi deixa isso claro em outro trecho de sua fala: "Creio que temos de dar valor à Liga que conquistamos, a oitava em 11 anos. Para qualquer clube, isto seria algo grandioso. Para esse clube também é muito importante. Talvez nós não estejamos dando a este feito o valor que merece, mas daqui a alguns anos entenderemos o quão difícil é fazer isso."

Não há dúvida. Mesmo considerando que o grande rival Real Madrid historicamente prioriza a Liga dos Campeões, a superioridade do Barça é marcante. Como já dito neste blog, times dominantes com proposta de imposição de um estilo, dentro ou fora de casa, costumam se destacar nos campeonatos por pontos corridos. A regularidade de Messi em gols e assistências e a maneira com que intimida os adversários faz a equipe pontuar quase sempre e se manter no topo. Já há uma espécie de fórmula para levar a taça para a Catalunha.

A contradição, porém, acabou aparecendo nas palavras do gênio argentino: "A temporada passada, na verdade, terminou sendo um pouco amarga para todos nós pela forma como as coisas aconteceram". Sim, a Champions e sua sombra. Depois de um 3 a 0 em casa, o duro revés para o Liverpool: 4 a 0 com uma falha juvenil no gol de Origi que decretou a eliminação. Golpe que acabou respingando na final da Copa do Rei, com a derrota para o Valencia.

A goleada sofrida em Anfield novamente deixou a impressão de um time com esgotamento físico e mental. Jordi Alba foi o símbolo, com uma atuação trágica que comprometeu o sistema defensivo e contribuiu pouco na frente. Porque se sacrificou durante toda a temporada sendo a única opção de profundidade pelos flancos. Jogando de uma linha de fundo à outra já aos 30 anos.

Antes da semifinal, o Barcelona deu um "sprint" para garantir logo o título espanhol. Válido, mas cobrou um preço alto. Quando os Reds comandados por Jurgen Klopp mostraram que deixariam tudo em campo e acreditavam na virada, o time de Ernesto Valverde baixou a guarda. Porque sabia que não teria forças para resistir.

A mesma sensação em Roma na temporada anterior. Os italianos impuseram um jogo físico e de intensidade máxima que desmontou o Barça e reverteu os 4 a 1 no Camp Nou com épicos 3 a 0. Porque na pretensão de ganhar o título espanhol invicto, Valverde administrou mal o elenco. Principalmente o "fominha" Messi. Quando a equipe mais precisou o maior jogador da história do clube novamente não teve pernas nem cabeça.

É preciso reaprender a jogar o principal torneio de clubes do planeta. O Barça se acostumou a enfrentar na Espanha oponentes que se entregam diante de sua força técnica e tática, mas também simbólica. Na Liga dos Campeões, Roma e Liverpool jogaram a vida em seus estádios. A lógica do agregado é diferente. Na competição nacional alguns times já fazem os cálculos sem contar com os pontos diante dos gigantes Barcelona e Real Madrid. A luta é menos intensa.

O mundo olha para o time catalão e para Messi e, pelo sarrafo alto criado por eles mesmos, não aceita só os títulos dentro da Espanha. Menos ainda com o tricampeonato continental dos merengues. Feito que rendeu prêmios individuais a Cristiano Ronaldo e Luka Modric. Mesmo com Messi bem acima nas estatísticas mais importantes. Simplesmente porque não basta.

Por isso, quando Messi encerra seu discurso afirmando que "este clube sempre luta por tudo" é possível compreender a mensagem de otimismo e esperança renovada para o torcedor. A missão institucional, digamos. Mas já passou da hora de priorizar realmente a Champions. Com um planejamento cuidadoso na gestão do elenco e aceitando correr riscos na liga. Sem deixar Messi e Alba no banco em algumas partidas e sempre recorrer a eles, aumentando os minutos da dupla na temporada porque é preciso vencer no Espanhol.

Chegou a hora de deixar a responsabilidade para jovens canteranos como Aleñá, Riqui Puig, Carles Pérez e Juan Miranda, caso este não vá para a Juventus. Mais Arthur e De Jong no meio-campo descansando Busquets e Rakitic. Messi também pode ser mais poupado, com Griezmann cumprindo a função de gerar jogo entrelinhas e Dembelé entrando na ponta.

E se perder a liga e a Copa do Rei, paciência. No "zeitgeist" do Barça não são mais a régua de medida da temporada. Melhor apostar tudo na Champions, mesmo com os riscos inerentes ao mata-mata. Inclusive um sorteio infeliz.

Para que o discurso de Messi em agosto de 2020 finalizado com o tradicional "Visca el Barça e Visca Catalunha" seja com sorriso largo, sem hesitações ou poréns. Mesmo com apenas um título. O mais importante.

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.

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